The Blood of Olympus
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The Past, The Vacuum, the Present and the Future — Trama pessoal

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Mensagem por Koda Smith em Sex Nov 15, 2019 4:13 am

Memórias de um passado sombrio
Mas eis a hora de partir: eu para morte, vós para a vida. Quem de nós segue o melhor rumo ninguém o sabe, exceto os deuses.

Achei que, recuperando minhas memórias, saberia mais sobre meu passado e descobriria o que havia acontecido para que tal ação fosse necessária. Pelo lado bom, descobri a verdade. Pelo lado ruim, a verdade era pior do que eu imaginava.

Depois de ajudar Mnemosine a recuperar sua memória e, consequentemente, seus poderes, tive a oportunidade de conversar com a deusa da memória. Acompanhada de Psiquê, a deusa havia explicado o plano de Athena, que havia sido feito para me salvar do mesmo destino que Catherine teve.

Catherine Burkhardt… filha de Afrodite e Mentalista. Uma das pessoas que mais via potencial em mim. Minha mestre, minha amiga, até mesmo, em ocasiões especiais, minha amante. A última vez que a vi havia sido há dezesseis anos. Dezesseis longos anos desde que ela havia morrido para salvar minha vida e, consequentemente, o mundo.


Dezesseis anos atrás

Quíron havia chamado Catherine e a mim para uma missão importante. Corria uma lenda entre o acampamento sobre uma lança que, dizia-se, tinha poderes especiais. Nas mãos erradas, poderia se tornar uma arma ameaçadora para a humanidade como um todo. Parte da lenda dizia que uma semideusa lendária havia saído em busca dessa lança, mas nunca havia retornado. Seria um desafio e tanto, mas nada que dois mentalistas experientes pudessem dar conta. Pelo menos, era isso que eu achava.

— Há muito tempo eu não ouvia falar sobre a Lança do Destino. — O velho centauro parecia extremamente preocupado em sua cadeira de rodas mágica. — Amélia, a semideusa que enviamos para recuperar o item, desapareceu durante sua missão. Cremos que ela está morta há muito tempo. — Quíron fechou os olhos por um momento, deixando transparecer a dor que sentia ao saber que um de seus alunos havia falecido.

— Bem, se essa lança é realmente importante, melhor irmos logo. — Minha mente já estava trabalhando nas possibilidades que tal item poderia fazer. Não queria que aquilo caísse nas mãos erradas. — Quais são as informações que nós temos e quais são as chances de nos darmos mal?

— Nossos rastreadores conseguiram triangular a localização da lança em algum lugar no Mar de Monstros. — A voz de Quíron assumiu um tom sério e soturno. — Não sabemos dizer exatamente onde, pois é uma área muito grande. O único lugar que conseguirmos confirmar que não está com a lança é o Spa de Circe. Melhor vocês ficarem o mais longe possível de lá.

Não pude deixar de sorrir com o comentário de Cath. Era fácil de imaginar a negra no spa de Circe, com várias semideusas ao seu lado. Tentei, porém, retirar essa imagem de minha mente. Se o Mar de Monstros era nosso destino, precisava de toda minha atenção para essa missão. Contudo, havia ainda uma coisa a se resolver.

Assim que Quíron terminou de passar todos os detalhes da missão, saímos da Casa Grande. Precisávamos nos preparar para a missão, mas, antes de tudo isso, tinha que ver uma pessoa. Era quase praxe sair em missão e deixar Maisie a par de tudo.

Maisie de Noir… ao lado de Catherine, ela era uma das pessoas mais importantes da minha vida. Nós havíamos nos conhecido completamente por acaso, mas viramos ótimos amigos depois disso. Só que, com o passar do tempo, um sentimento maior do que simples amizade surgiu em meu coração. Toda vez que eu via aqueles cabelos ruivos e aqueles olhos âmbar, meu coração disparava de felicidade. Demorou até que eu tivesse finalmente percebido que a amava. E, infelizmente, demorou mais ainda para que eu me declarasse.

Perguntei para todos os campistas que encontrei se eles haviam visto Maisie. Quase todos não sabiam onde ela estava, até que, finalmente, uma filha de Apolo havia me dito que a ruiva estava na praia. Agradecendo, corri até o local, o mais rápido que minhas pernas poderiam me levar.

Ao chegar, Maisie estava sentada na areia, olhando o mar. Era realmente uma bela visão e, antes que eu me aproximasse, foquei na imagem à minha frente, guardando todos os detalhes em minha mente. Somente então, me aproximei da garota.

— Dia bonito. — Foi assim que eu anunciei minha chegada, me largando ao lado de Maisie. — É incrível que passamos tanto tempo no acampamento e raramente vamos a praia.

— Não é? Temos que fazer mais isso. — O sorriso de Maisie era realmente um dos mais lindos que eu havia visto. Por isso que doía mais ter que tirá-lo de seu rosto.

— Temos mesmo. Só que não hoje. — Respirei fundo, antes de continuar. — Cath e eu vamos sair em missão. Daqui a pouco, eu acho. Só preciso esperar Cath encontrar um meio de locomoção.

— Para onde vocês vão? Qual é a missão de vocês? — Maisie parecia extremamente preocupada, e com razão. Nem sempre missões acabavam bem.

— Bem, Quíron nos deu ordens explícitas de não dizer qual era nossa missão. Contudo… — Fiz uma pausa dramática, antes de continuar a falar. — Nós vamos para o Mar de Monstros. — Não precisava ser um empata para perceber a súbita mudança de humor de Maisie. O Mar de Monstros não era um lugar leviano. O risco de morte em nossa missão era extremamente algo, porém decidi amenizar isso. — Vamos voltar tão rápido que você nem vai sentir a nossa falta.

— Não quer dizer que eu não vá me preocupar com vocês. — A voz de Maisie estava baixa, quase como se pressentisse que algo de ruim aconteceria

— Eu sei. Por isso que estou te contando. Pelo menos você vai saber onde nós vamos. — Queria dizer mais alguma coisa para tranquilizar Maisie, mas uma mensagem telepática de Catherine me fez hesitar. Ela havia conseguido o barco. A missão começaria. — Escuta, Cath conseguiu um meio de transporte. Ela está vindo para cá. Vou voltar pro meu chalé, apenas para pegar as minhas coisas e, então, eu volto correndo para cá.

— Tudo bem. Volta logo. — Assim que as palavras saíram da boca da ruiva, ativei meu teleporte, indo parar no meu chalé.

Rapidamente peguei uma mochila simples e coloquei algumas roupas, caso ficasse fora mais tempo do que o previsto. Prendi um escudo ao meu braço direito e coloquei a faca de bronze na bainha em minha cintura. Estava pronto para iniciar a missão. Deixei um dos meus irmãos avisado que eu partiria em missão e, se o pior acontecesse, era para eles queimarem uma mortalha bem bonita em minha homenagem.

Me teleportando de volta para a praia, encontrei Catherine ao lado de Maisie. As duas estavam abraçadas, o que me fez sentir um pouco de inveja de Catherine. A filha de Afrodite sabia lidar tão bem com suas emoções, enquanto eu, em grande parte pela racionalidade herdade de Athena, era quase uma pedra com sentimentos reprimidos. Antes que eu pudesse me deixar levar por eles, fui até as duas, pronto para iniciar a viagem.

— Acho que está tudo aqui. Podemos partir? — Perguntei para Catherine, enquanto mandava uma mensagem telepática para ela. — Por favor, vamos logo, ou então não sei se conseguirei prosseguir com isso. Pelo menos não sem antes... — As palavras sumiram de minha mente, mas contava que Cath entendesse minha mensagem.

Como se Maisie também tivesse escutado minha mensagem, coisa que tive o cuidado de não acontecer, a ruiva se jogou em meus braços, me abraçando e beijando meu rosto. O local que havia sido beijado estava ardendo, mas era uma sensação boa. Retribui o abraço, esperando que isso pudesse passar tudo o que eu estava sentindo naquela hora.

A semideusa se afastou de mim, olhando para os lados. Seu rosto estava quase tão vermelho quanto seus cabelos. Um singelo “boa sorte” escapou de seus lábios. Um sorriso surgiu em meu rosto. As coisas poderiam sair muito diferentes do que eu estava esperando, mas pelo menos sabia que tinha alguém que estava esperando minha volta.

— Não se preocupe. Nós vamos voltar. — Então fiz algo que realmente não esperava. Segurei o rosto de Maisie entre minhas mãos e dei um beijo na testa da ruiva. — Até depois, ruivinha. — Dessa vez, foi meu rosto que queimou, e eu tinha certeza que estava tão vermelho quanto ela. Por sorte, Catherine assumiu as rédeas da situação, beijando Maisie da mesma maneira que eu gostaria de tê-la beijado, mas sem a coragem para tal ato.

As últimas palavras que Catherine disse para Maisie calaram fundo em meu coração. Sabia que eu tinha de dizer o mesmo, ainda mais depois de ter sido silenciosamente desafiado pela negra, mas não conseguia. Simplesmente meu corpo travava e minha boca não falava as palavras. Decidi por fim, apenas sorrir e ativar minhas asas, pronto para partir.

Sorri ante a fala da negra. Afinal, ela tinha razão. O mundo realmente não ia se salvar sozinho. O vento estava agradável, e voar ao lado de Catherine era algo incrível. Contudo, tinha uma coisa que ainda estava me incomodando.

— Matthew? Não era aquele que… — Porém, acho que não seria o melhor momento relembrar amores antigos de Catherine. — Quer saber? Melhor deixar para lá. Temos que focar na missão. — Com isso, segurei a mão de Cath e deixei que ela me conduzisse para o tal barco que nos levaria ao Mar de Monstros.


A viagem de barco até a entrada do Mar de Monstros havia sido calma. Por sorte, o filho de Hefesto, Matthew, havia instalado um sistema de piloto automático, então Catherine e eu pudemos aproveitar a viagem. Caro que, tendo em vista nosso destino, não era fácil “relaxar”, contudo, a filha de Afrodite sabia bem como aproveitar esse tempo.

Por alguns momentos, pude deixar de lado todas as minhas preocupações e focar apenas na morena que me acompanhava naquela missão. Já fazia um bom tempo desde que nós não tínhamos um tempo só para nós. Somente isso já ajudava a não pensar nos problemas que enfrentaríamos juntos naquela missão. E, se eu soubesse o que essa missão custaria, não teria deixado que Catherine viesse junto.

Viajamos por horas, até que nosso destino finalmente ficou visível. Desliguei o piloto automático e assumi a direção do barco. Não seria nada fácil enfrentar Caríbdis, mas seria ainda mais difícil ainda ter que enfrentar Caríbdis e Squilla. Por sorte, minha mente estava fazendo trabalho dobrado naquele dia.

— Cath, vamos passar pelo território de Caríbdis e Squilla agora. — Minha voz estava séria, refletindo toda a seriedade da situação. — Squilla fará de tudo para nos capturar, então vou precisar que você nos proteja com o campo de força, enquanto eu tento nos guiar para o mais longe possível de Caríbdis.

A filha de Afrodite concordou com meu plano, então eu logo o botei em ação. Por sorte, o barco havia sido construído de modo que era fácil pilotar, mesmo para alguém que não possuía tanta familiaridade com o veículo. Assim que vi o campo de força ser ativado por Catherine, acelerei o barco. Nossa missão finalmente começaria.

Assim que as falésias de Squilla se revelaram para nós, o ataque começou. Quase perdi o controle do barco na primeira investida do monstro. Se não fosse por Catherine, nós já teríamos virado comida de monstro no primeiro ataque. O campo de força aguentou bem, o que foi o suficiente para que eu me aproximasse ainda mais do buraco que era a boca de Caríbdis.

Aquela visão com toda a certeza me traria vários pesadelos. Uma boca gigante, que estava aberta no meio do mar. Com toda a certeza eu não iria querer cair naquele lugar, pois sabia que seria apenas uma viagem de ida.

— Vamos chegar ao alcance de Caríbdis logo. Melhor se segurar em alguma coisa. — Gritei para que Cath pudesse me ouvir além dos barulhos do mar, motor do barco e de Squila.

Em questão de segundos, o barco começou a ser puxado para a direção de Caríbdis. Não importava o quanto eu tensionasse os controles para fugir do puxão da criatura, o barco não estava mais me respondendo. A única coisa boa disso? Estávamos saindo do alcance de Squila.

— Vamos ter que deixar o barco ir para dentro de Caríbdis. — Gritei para Catherine, mas nem mesmo eu estava escutando minha própria voz, então tive um pequeno estalo em minha mente. — Não sei porque eu ainda estava gritando. Cath, eu tenho um plano, mas vamos precisar agir rapidamente. — Dessa vez, utilizei minha telepatia para falar com a filha de Afrodite. — Não vamos conseguir salvar o barco, então teremos que deixar que ele seja engolido por Caríbdis. Somente assim vamos conseguir sair dessa. Você vai ter que confiar em mim.

Assim que recebi a resposta de Cath, coloquei meu plano suicida em prática. Virei o timão do barco até que a proa do navio apontou para a direção de Caríbdis. Acelerei tudo o que pude, para que tudo acontecesse rapidamente.

Quando eu contar, você vai correr até mim. Vou tirar a gente dessa. — Levantei e deixei que o barco andasse sozinho. — Um… Dois… TRÊS! — Assim que Cath se jogou em meus braços, a agarrei e, ativando minhas asas, levantei voo, deixando que Caríbdis tragasse o barco. — Campo de força, agora! — Dessa, vez, usando minha voz, gritei para que Cath nos protegesse, enquanto eu voava para fora do alcance dos monstros.

A negra se agarrou a mim como se eu fosse um galho de eucalipto e ela uma koala. Não era o ideal, mas funcionou. Ela conseguiu manter o campo de força intacto até que finalmente escapamos do alcance de Caríbdis e Squilla. O lado bom: estávamos dentro do Mar de Monstros. O lado ruim: estávamos dentro do Mar de Monstros.


Depois de algum tempo voando, estávamos cansados, então decidimos pousar em uma pequena ilha, aparentemente inofensiva, que havia aparecido em nosso campo de visão.

— Uma simples ilha, no meio do Mar de Monstros, aparentemente inofensiva? — Sussurrei para Catherine. — Difícil de acreditar, mas estou cansado demais para argumentar.

De fato, a ilha parecia um verdadeiro paraíso tropical no meio de um lugar que poderia nos matar mais rápido do que falar “Mar de Monstros é perigoso”. Areia branca e aparentemente fofa, várias palmeiras na orla da praia e uma grande e frondosa floresta a nossa frente. Era essa a imagem que Cath e eu vimos, assim que pousamos. Contudo, parecia que havia alguma coisa errada. Não sabia dizer se era algum poder ou magia que estava embotando meus sentidos, mas havia algo ali. Isso eu conseguia sentir.

— Melhor a gente ter cuidado nesse lugar. — Segurei a mão de Cath rapidamente, buscando coragem no calor de seu corpo. — Eu tenho um mal pressentimento sobre isso. — Ao ouvir a resposta com o sotaque característico da filha de Afrodite, me permiti respirar um pouco mais aliviado. — Até o fim, Srta. Burkhardt. — Com isso, embainhei minha espada, vinda da tatuagem em meu pulso e, então, entramos na floresta da ilha.

Como verdadeiros exploradores, avançamos mata adentro, cortando cipós e galhos que obstruíam nosso caminho. Parte de mim estava com medo de estar machucando alguma dríade, mas esperava que elas fossem compreensivas com isso, ou que pelo menos elas não nos atacassem.

Enquanto andava, tentei fazer um parco mapeamento mental da ilha. Isso poderia ser útil para nós, caso precisássemos fugir rapidamente de qualquer inimigo que surgisse. Não foi difícil, pois o terreno possuía várias características únicas, além de não fazermos muitas curvas, quase sempre andando em linha reta. Era quase como se eu conhecesse aquele terreno.

Depois de um longo tempo bancando o Indiana Jones, finalmente encontramos o que parecia ser uma espécie de abismo na ilha. Bem, abismo é um modo de dizer, pois o que víamos era um grande buraco no chão da ilha. Como se isso não fosse algo digno de nota, havia várias pessoas subindo e descendo por escadas improvisadas.

— Não acho que eles estão descendo nesse buraco gigante para encontrar fontes termais. — Minha voz estava com um suave tom de nervosismo, mas ainda assim tentei manter o foco. — Acho que a gente pode descer até lá e ver o que eles estão fazendo. Podemos nos camuflar, assim eles não nos verão, mas ainda têm o fato de chegarmos até lá. Usamos uma das escadas ou vamos voando, para chegar mais rápido?

Assim que ouvi a resposta da mentalista, rapidamente invoquei minha camuflagem telepática. Seria melhor manter apenas Cath a vista, enquanto eu ficaria invisível. Nós realmente éramos uma dupla imbatível, não importando a situação.

Com a filha de Afrodite pronta, iniciamos nosso plano. Mantive nossas mentes ligadas pela telepatia, afinal nunca se sabe quando vamos precisar correr para salvar um ao outro. Mais uma vez, ativei minhas asas e, com um lindo voo (ou pelo menos seria, se alguém estivesse vendo aquilo), mergulhei nas profundezas daquele abismo.

Conforme eu mergulhava cada vez mais e mais, via várias pessoas tentando chegar a fim do abismo. Por sorte, nenhuma delas havia chegado ao fim do túnel vertical, então meu caminho estava completamente livre, depois de um tempo.

Eles ainda não chegaram ao fim do abismo, Cath. Pelo menos, não pelas escadas. Aparentemente terei um tempo para investigar melhor o que eles querem aqui. Me mantenha informado, por favor. — Enviei uma mensagem telepática para a mentalista e, então, continuei a descida.

Após alguns minutos sem fim, cheguei ao solo. Tentei olhar para cima, mas a sensação de vertigem veio com força, fazendo com que eu cambaleasse por alguns segundos. Por sorte, me recuperei rapidamente, então consegui avançar, escolhendo um caminho que parecia ter sido escavado na pedra bruta.

Utilizando todas as minhas habilidades para não me perder no caminho, avancei cada vez mais fundo no emaranhado de túneis e corredores, que lembravam um labirinto. Por sorte, consegui me orientar mais ou menos bem pelo local. Contudo, minha audição parecia estar me enganando, pois eu ouvia várias vozes ecoando ao meu redor. Segurei com mais força o punho da minha espada, buscando forças no peso familiar da arma.

Parecia que alguns escavadores haviam realmente conseguido chegar até aqui e, pelo tom de suas vozes, estavam bastante animados com alguma descoberta. Meu coração pesava a cada passo que eu dava, pois se o ânimo fosse relacionado ao que eu estava pensando, Cath e eu havíamos chegado tarde demais.

O fato de ter recebido uma mensagem da filha de Afrodite, especulando o que havia trazido aqueles homens até essa ilha só serviu para me deixar ainda mais preocupado. Se ele estava envolvido nisso, as coisas ficariam muito piores do que eu imaginava.

Engolindo todo meu medo, resolvi finalmente avançar e averiguar o que estava acontecendo naquele lugar. Entrei em uma espécie de câmara, onde alguns homens estavam reunidos, olhando para uma lança simples. Parte da minha mente não conseguia acreditar que aquele item, tão parecido com tantas outras que haviam no arsenal do Acampamento, era a temida Lança do Destino. Contudo, outra parte sabia que um item não precisa ser tão ornamentado para ser poderoso.

Os homens pegaram a lança, que não havia feito nada de especial e, então, iniciaram sua saída da câmara. Por mais que eu quisesse impedir que eles levassem a lança, os rifles e pistolas que compunham seu visual não pareciam nada convidativos. Precisaria esperar reforço.

Depois que eles passaram por mim, decidi segui-los para não perder a lança de vista. Assim como eu, eles também haviam feito um mapa dos túneis, caminhando tranquilamente pelo labirinto. Mas as coisas nem sempre acontecem como nós esperamos e, de vez em quando, o universo nos ajuda.

Ao passar por outra câmara aparentemente vazia, um brilho dourado me chamou a atenção. Ao retornar para trás, vi que era um espelho de corpo inteiro, com uma moldura dourada. Algo me atraiu até aquele móvel, pois minhas pernas caminhavam automaticamente, cada vez para mais perto dele.

Ao ficar frente a frente com o espelho, meu reflexo apareceu. Imediatamente olhei para baixo e vi que não estava mais invisível. Seria um problema para passar pelos soldados, mas não era a maior preocupação minha naquele momento.

O espelho estava claramente carregado de magia. Era quase palpável. Somente isso já havia atiçado toda minha curiosidade, fazendo com que eu esquecesse minha missão. Nem mesmo a voz de Cath ecoava em minha mente. Contudo, o que realmente me deixou completamente sem ação foi meu reflexo, sorri para mim e pegar alguma coisa que não estava em meu campo de visão, sendo que eu não havia mexido um músculo sequer.

Ao se endireitar, ele carregava algo que parecia uma arma em uma bainha. Era do tamanho de uma espada, mas aparentemente não era tal tipo de arma. Quando meu reflexo pendurou o item em seu corpo, eu senti o peso da arma em meu próprio corpo. Rapidamente tirei a bainha de minhas costas e a larguei no chão. Meu reflexo riu de mim e apontou novamente para o item.

Cautelosamente, peguei a arma com minhas mãos trêmulas. Retirei o item da bainha e vi uma espécie de lança, só que com o cabo menor do que o normal. Contudo, assim que senti o peso da arma, o cabo começou a se alongar, até ficar do tamanho de uma lança normal.

Meu reflexo sorria de maneira confiante para mim, como se aprovasse o que eu estava fazendo. E, na minha cabeça, tudo começou a fazer sentido. A lança que os soldados haviam pego não era a lança verdadeira. A Lança do Destino estava em minha posse. E eu precisava tirá-la dali imediatamente.

Cath, preste atenção. Eu estou com a Lança do Destino, só que alguns soldados encontraram uma lança falsa e estão achando que é a verdadeira. Estou voltando para você. Se prepare para ir assim que eu chegar. — Assim que eu enviei a mensagem, saí da câmara e voltei ao túnel. Por sorte, os soldados já estavam avançados em sua subida, então não tive problemas em topar com nenhum deles.

Reativei minha camuflagem e minhas asas, e iniciei a subida, de volta para a superfície da ilha. Boa parte da nossa missão estava concluída. Faltava apenas nós sairmos do Mar de Monstros e voltarmos para a segurança do Acampamento Meio-Sangue. Quase nada poderia dar errado. Quase nada.

Assim que aterrissei, comecei a andar para fora do raio de alcance dos soldados, enquanto falava com Cath, para que ela me encontrasse. Fiquei extremamente aliviado ao ver minha parceira se aproximando, e mais aliviado ainda em perceber que ela conseguia flertar mesmo tendo que fugir de um pequeno exército.

— Claro que eu sabia. Você me treinou para ser assim. — Pisquei um olho, mas então lembrei que Cath não poderia ver esse gesto. Tudo parecia perfeito, pronto para que pudéssemos sair daquela ilha. Contudo, o destino havia decidido que não mais nos ajudaria.

Um frio anormal percorreu meu corpo. Parecia que eu estava sendo atingido por várias lâminas frias, ao mesmo tempo. Meu corpo começou a tremer, até que, sem que eu pudesse impedir, minha camuflagem foi desativada, assim como os poderes de mudança de forma de Catherine.

Tão rápido como veio, a sensação horrível foi embora. Contudo, o estrago já havia sido feito, e várias armas foram engatilhadas ao nosso entorno. Tentei reativar minha camuflagem, mas algo estava me impedindo de fazer isso. Minhas asas e meu teleporte também não estavam funcionando. Então, com pouca esperança em meu coração, só pude dizer um comando para Catherine:

— Corre. — E então desatamos a correr, enquanto a primeira saraivada de tiros vinha em nossa direção.


Meus pés protestavam, meus braços tremiam, minha cabeça girava, meu coração estava em disparada. Tudo isso servia para que eu continuasse correndo, sempre em frente, com Catherine ao meu lado.

A Lança do Destino estava em minhas mãos, em seu tamanho normal. Talvez aquilo fosse a única coisa que me mantinha correndo. Isso e manter Cath em segurança. Por sorte, a lança parecia estar me ajudando, então a cada movimento que eu fazia, uma árvore caía às nossas costas. Utilizei também minha telecinese, para que as árvores caídas cobrissem nossa fuga.

Meu corpo cada vez mais protestava. Eu sabia que estava chegando ao meu limite, mas precisava continuar. Precisava chegar até um barco e tirar a gente dali. Precisava salvar Cath. Precisava voltar para Maisie.

Contudo, minhas esperanças diminuíram drasticamente quando um impacto surgiu em meu ombro esquerdo. Graças a adrenalina que corria em meu corpo, não registrei a dor, nem mesmo a perda de sangue, mas quando olhei para baixo, pude ver que um projétil atirado por um dos soldados havia aberto um buraco em meu ombro. O sangue se esvaia rapidamente. Tão rápido quando eu havia levado o tiro, minhas pernas cambalearam, fazendo eu cair no chão pesadamente.

Minha visão havia começado a ficar turva, mas Cath estava comigo. A mentalista criou um campo de força ao nosso redor, nos protegendo das balas que ainda voavam em nossa direção. Eu ouvia vagamente suas palavras. Não conseguia entender exatamente o que a negra estava dizendo. Porém, algo dentro de mim sabia que era importante. Sabia que eu tinha que continuar.

— Vamos… Vamos sair daqui. — Usando o resto de forças que eu possuía, me levantei, com a ajuda da lança, e então continuamos a fuga, em direção a orla da ilha, onde se encontravam alguns barcos dos soldados.

Um pontinho de esperança surgiu em meu coração, no momento em que vi os barcos. Se conseguíssemos entrar em um dos veículos, tudo estaria acabado. E, talvez, Cath conseguisse concluir a missão. Utilizei o resto de força que eu possuía para chegar até um barco pequeno, fácil de pilotar. Com alguma dificuldade, mas com a ajuda da negra, subi no veículo. Me encaminhei até o controle dele, mas havia uma coisa errada. Somente eu estava no barco.

— Anda, Cath, sobe logo. A gente tem que sair daqui. — Minha voz estava fraca, mas ainda tinha forças. Contudo, ao ouvir as palavras da mentalista, meus olhos começaram a queimar com a torrente de lágrimas que corriam em cascata pelo meu rosto.

Toda vez que eu saía em missão, a morte era uma realidade presente. Raramente ela aparecia, mas ela sempre nos rondava. Pensei que estava pronto para aceitar algo como o que Cath iria fazer, mas não. Eu não podia perder ela. Não podia deixar que ela tomasse essa decisão. Não sozinha.

— Eu não vou te deixar. Vou ficar aqui com você. Enterraremos a lança juntos. Por favor, não me faça te abandonar. — Minha voz tremia e era interrompida por vários soluços incontroláveis. — Deixa eu ficar com você. Não saia da minha vida assim.

Estava prestes a pular do barco, mas então Cath falou sobre Maisie. E algo clareou minha mente. Por mais que eu estivesse com o coração despedaçado, Maisie ficaria ainda pior se perdesse nós dois. Por mais que Cath fosse importante na minha vida, Maisie também era.

— Cuidarei. E eu prometo que nunca te esquecerei. Eu sempre vou te amar, Catherine. — Deixei que o pranto tomasse conta de mim no momento em que Cath empurrou o barco para longe da orla.


Aos trancos e barrancos, consegui guiar o barco para longe daquela ilha. Não ousei olhar para trás, ou então voltaria para buscar Catherine. Mantive a Lança do Destino junto ao meu corpo durante todo o trajeto que eu fiz. O preço pago por aquele item foi muito maior do que eu esperava.

O ferimento em meu braço ainda vertia sangue e, depois de algum tempo, minha visão voltou a escurecer. Parecia que minha hora também estava chegando, mas eu ainda precisava continuar vivo, para esconder a lança. Resolvi, então, recorrer à única pessoa que poderia me ajudar, naquele momento.

— M-Mãe… P-por favor… — Minha vista havia finalmente escurecido por completo e senti meu corpo caindo. Porém, antes que eu caísse no chão, mãos delicadas, mas firmes, me seguraram e me deitaram no chão, em segurança. Essas mesmas mãos me fizeram tomar um líquido que continha gosto de café. Mas era um café específico, de uma pequena cafeteria em Nova York.

— C-Cath… — Balbuciei o nome de minha parceira, mas não foi ela quem me respondeu.

— Ela deu a vida para te salvar, meu filho. — Ao abrir meus olhos, um par de olhos cinzentos estava me encarando. Athena havia ouvido minhas preces. — Agora, você deve concluir sua missão e, só após isso, poderá chorar a morte dela.

Eu sabia que Athena tinha razão, mas ainda assim era difícil escutá-la falando tão calmamente sobre alguém que havia acabado de falecer. Lentamente, me levantei do chão do barco. Meus sentidos estavam voltando a funcionar. Até mesmo meu ombro estava se curando. Agora eu podia finalmente terminar minha missão.

— Mãe, você poderia… ficar comigo? Só enquanto… — Minha voz ainda estava fraca, e tremia, mas meus olhos já não choravam mais. O pranto teria que ficar para outra hora.

— Ficarei sim, Koda. — Athena pegou a Lança e a colocou em minhas mãos. — Vamos logo. Não temos muito tempo. — O barco começou a andar sozinho. Nas minhas mãos estava a arma que poderia destruir o mundo. Mas, tudo o que eu realmente queria, era ter Catherine de volta.


Agora

— Você entende agora o que tivemos que fazer? — Psiquê olhava para mim com pura tristeza em seus olhos.

— Sim, eu entendo. — Me levantei para sair do quarto de Mnemosine. — Se me dão licença, agora eu preciso queimar uma mortalha.

Observações:
Explicando rapidamente a trama do Kodak: Ele ficou por quinze anos no Cassino Lotus e, quando saiu, teve a memória apagada por Mnemosine, a mando de Athena. Essa CCFY serve para mostrar os fatos que ocasionaram todo esse plano, arquitetado pela deusa da sabedora. Por essa razão, como são coisas que já aconteceram há dezesseis anos, não estou colocando lista de poderes e equipamentos.




Πολεμιστής σοφίας
Hero of War
Koda Smith
Koda Smith
Líder dos Mentalistas
Líder dos Mentalistas

Idade : 22
Localização : Mais perdido que filho de Olimpiano no Dia dos Pais

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The Past, The Vacuum, the Present and the Future — Trama pessoal Empty Re: The Past, The Vacuum, the Present and the Future — Trama pessoal

Mensagem por Andromeda Chiamaka em Sex Nov 15, 2019 4:47 am


i don't need this life, i just need
somebody to die for

{midnight meetings are full of surprises}


A noite estava particularmente sombria naquele dia. Andy havia encontrado um ponto na praia do Acampamento que estava completamente vazio e distante o suficiente dos chalés para que quaisquer sons provindos dos outros campistas não a alcançasse. A lua era nada mais que um pequeno feixe de luz, uma linha iluminada numa imensidão escura, fraca demais para ter alguma utilidade. Nem mesmo as estrelas pareciam estar dispostas a trazerem seu brilho até a negra.

Não que a escuridão a incomodasse; via tudo com perfeição, completamente despreocupada com a falta de luminosidade. A ausência dela, no entanto, parecia destacar a solidão que sentia. A essa altura, a sensação de pura solitude era mais familiar do que qualquer outro sentimento em sua vida.

Sentira-se deslocada sua vida inteira. Crescer nas profundezas da terra, no Mundo Inferior com sua mãe, uma deusa ctônica, era como viver em constante estado de isolamento. Cercada por fantasmas, monstros e deuses, Andy era apenas uma sombra do que realmente era. Fantasmas não eram os seres mais empáticos que existiam e os deuses… Era difícil para eles simpatizar com emoções e pensamentos mortais depois de éons de existência praticamente eterna. Ansiara por fugir do Submundo, para finalmente viver com humanos, com seres vivos e tão mortais quanto ela.

Andy estava peculiarmente conformada com o fato de que a solidão não a abandonou. Pelo contrário: agora que vivia num lugar que mal conhecia, cercada por mortais que não entendia, seu isolamento só parecia se intensificar. Com exceção das duas semideusas que conhecera numa festa, algumas semanas para trás - Liz e Ariel, eram os nomes que repetia para si mesma, quando sua mente a atormentava com acusações e autoexílio, para lembrar-se de que havia pessoas que gostavam dela ali - basicamente só havia interagido com mais fantasmas.

Era irônico que a mesma solitude que buscava por não saber criar ou estabelecer relacionamentos humanos duradouros era também a razão de seu sofrimento.

Com os pés descalços enterrados na areia branca e gélida da praia, sentada com a frente voltada para o mar e os braços enlaçados ao redor de suas pernas, Andy sentia um vazio tão vasto quanto o horizonte que via se estender infinitamente pela linha do oceano.

Isto é, até perceber que havia uma figura feminina saindo da água - andando por cima das ondas, para ser mais precisa - caminhando diretamente até ela.

Durante o tempo que a deusa levou para alcançá-la, a negra não conseguiu fazer nada além de acompanhar seus movimentos com o olhar e, inconscientemente, deixar o queixo cair alguns milímetros em admiração. Não era nada extraordinário; Afrodite tinha esse efeito nas pessoas.

Ela estava diferente, uma aparência completamente distinta da que Andy se lembrava ter visto no aeroporto. Estava mais baixa, seu corpo tinha mais curvas e dobras. Sua pele era morena. Os cabelos ondulados escuros. Suas roupas eram claras, leves e soltas, num estilo praieiro que conseguia manter uma elegância despretensiosa. Ainda assim, de alguma forma, não havia dúvidas para a semideusa de quem estava diante de si.

“Boa noite, Andromeda”, cumprimentou a deusa, com um sorriso de canto de divertimento e um tom casual, como se fosse uma ocorrência normal encontrar com a personificação do amor sair do mar numa praia deserta.

“Boa noite”, Andy ouviu-se dizer, distraidamente, enquanto processava a presença da divindade. Tentava descobrir uma maneira de expressar sua confusão, de saber o que Afrodite pretendia ao aparecer literalmente do nada com educação e tranquilidade. Abriu a boca para formular tal questão e o que escapou, para sua imediata vergonha, foi um brusco: “O que você quer?”

Se as palavras da mortal a ofenderam, a deusa não demonstrou. Ao invés disso, seu sorriso ampliou-se, até que um conjunto de dentes perfeitos estivesse à mostra. Exalava serenidade e o que Andy supôs ser amor - o que Afrodite transmitia era vivo, robusto e até mesmo esmagador, muito diferente da profunda e silenciosa afeição que recebia de Melinoe.

“Tenho algo a te mostrar. Caminhe comigo”, respondeu a latina, esticando uma mão para a semideusa. Ditas por outra pessoa, as frases soariam como um convite. Vindas dela, pareciam um comando. Aveludado, sim. Mas uma ordem, sem dúvidas.

Andy estreitou os olhos, desconfiança se misturando com um quase literal curto circuito em seu cérebro pelo o que a intimidade do gesto e o tom imperativo utilizado causavam em reação.

Por fim, assentiu. A pele da deusa sob sua palma era macia, tentadora. A negra ergueu-se sem dificuldades e, sem mais nenhuma palavra, caminhou lado a lado com ela. Um arrepio percorreu sua espinha quando sua mão deslizou contra a dela ao desfazer o aperto. Sentiu-se estranhamente decepcionada pela distância.

Caminharam em silêncio por um tempo, sem pressa, na direção da área comum dos chalés. Era tarde, provavelmente já passara do toque de recolher, se a ausência de campistas era algum indicativo.

Quem quebrou o silêncio foi Afrodite.

“Pergunte o que quer saber, Andromeda”, declarou, olhando-a pelo canto com um sorriso conhecedor.

Andy mordeu o lábio inferior, o único sinal em sua expressão ou postura de que estava desconfortável. Andava num passo relaxado, com uma postura impecável e uma face cuidadosamente neutra. Hesitou, por alguns segundos, refletindo qual era a melhor forma de questionar a personificação do amor.

Escolheu ser direta.

“Você está aqui para falar sobre meu pai?” Perguntou e embora sua voz estivesse firme, temia o conhecimento que a aguardava.

A risada que recebeu como resposta a fez repensar sua abordagem. A semideusa franziu a testa, pronta para retorquir, quando Afrodite se recuperou e lançou um olhar tão triste que o protesto morreu em seus lábios.

“Melinoe se garantiu de me incapacitar de revelar qualquer coisa sobre sua origem a você, minha querida. Mas de uma coisa tenha certeza: você não tem um pai.”

A negra não soube o que dizer. Não tinha dúvidas de que Melinoe faria uma coisa assim. Afinal, crescera sob sua tutela e se havia uma regra que a senhora dos fantasmas nunca a permitiu quebrar era a de conversar sobre o nascimento de sua filha. Ninguém no Submundo, nem mesmo nos sussurros dos mortos, questionava de onde surgira a criança mortal que a deusa decidiu ser digna de crescer ao seu lado. Até pouco tempo Andy nem mesmo sabia de seu parentesco com Afrodite. A revelação de que não tinha um pai veio com naturalidade. Já ouvira falar de semideuses frutos de relacionamentos considerados homossexuais. A confirmação de que tinha outra mãe e o subtexto de que Afrodite teria mais informações sobre ela, no entanto, fizeram seu coração acelerar.

Não falaram mais nada, enquanto cruzavam a distância entre a praia e o destino daquela caminhada, se antes ela aguardava em leve confusão para saber para onde iam, agora estava claro que rumavam para o chalé 10. Instintivamente, diminuiu o passo e Afrodite pareceu captar seu nervosismo.

“Não se preocupe, Andromeda. Você pertence a este chalé tanto quanto qualquer um de minha prole”, tranquilizou a deusa, enquanto subia os degraus da varanda.

Era tolo se preocupar com invasão quando estava acompanhada da deusa cujo chalé era destinado, porém sentiu-se insegura ao passar pela porta que a morena segurava aberta.

A estrutura do chalé era muito semelhante ao seu, porém a decoração era completamente distinta. Via ali indicativos de que seus moradores eram pessoas que se importavam com beleza, organização e elegância. Ele estava escuro e silencioso. Não havia ninguém na área central, para o alívio de Andy. No canto de sua mente, lembrou-se de ter ouvido rumores sobre uma festa secreta no chalé do deus do vinho naquela noite. Parecia que os filhos do amor decidiram ir em peso aproveitar as festividades.

Enquanto a semideusa observava o chalé, Afrodite a assistia e, quando finalmente percebeu isso, sentiu seu rosto corar.

“O que foi?” Perguntou a negra, um pouco nervosa pela atenção que recebia. Estava acostumada a estar na presença de deuses, era verdade, porém estar ali com aquela divindade era diferente. Não conseguia imaginar num oposto mais perfeito ao silêncio e morbidade do Submundo do que ela.

A deusa não respondeu. Com sua mão, chamou-a para perto. Andy aproximou-se, cautelosa e percebeu que ela estava parada diante de um largo espelho redondo, com uma moldura de ouro entalhada com cisnes em diferentes estágios do voo. Ainda em silêncio, Afrodite indicou para que ela ficasse frente a frente com o espelho, olhando para a imagem das duas refletidas em sua superfície.

As mãos da deusa tocaram seus braços, deslizando até pararem em seus ombros. Conseguia sentir uma leve pressão onde o corpo dela tocava suas costas. Um arrepio agradável percorreu a espinha de Andy, mas ela não reagiu.

“Você era muito pequena para se lembrar”, contou Afrodite, sua voz baixa e demandando foco, seus olhos escuros encontrando os de sua descendente por meio do espelho. “Mas antes de sua mãe decidir aprisioná-la no Mundo Inferior, você ficou um tempo comigo na Ilha do Tempo. Você sempre foi uma criança fascinante.”

Aquilo trouxe mais dúvidas do que respostas. Lembre-se de mim, Afrodite havia dito, quando a vira pela última vez. Ela se perguntou se era sobre isso que a deusa se referia.

“Por quê?” Retorquiu, embora não fosse capaz de dizer a o que, precisamente, se referia.

O sorriso de canto que parecia ser permanente dos lábios da deusa se curvaram ainda mais, seus olhos brilhando com um ar travesso.

“Porque você é minha também”, ela disse, e algo nessa frase soou diferente. Tinha uma nota de possessividade que também era presente no tom de Melinoe.

Afrodite devia gostar muito da prole que gerara Andy junto com a senhora dos fantasmas para se sujeitar a todo aquele trabalho. Mas antes que pudesse comentar alguma coisa sobre o assunto, a voz da deusa a interrompeu.

“Feche os olhos. Tem algo que quero que veja”, o paradoxo daquela declaração quase fez a semideusa sorrir.

Ao invés disso, simplesmente atendeu ao pedido. Fechou os olhos, respirando fundo numa tentativa de acalmar seus pensamentos. Sentiu as mãos soltando seus ombros para taparem seus olhos. Um leve ardor espalhou-se por seu rosto, um que não vinha de sua vergonha.

“Conheça Catherine Burkhardt,” anunciou Afrodite, afastando suas mãos e as devolvendo para sua posição inicial em suas omoplatas. Andy abriu os olhos e, para sua surpresa, não se viu no espelho.

No lugar de seu reflexo, havia uma linda mulher negra. Seus cabelos eram longos e cacheados, seu rosto harmonioso tinha uma expressão que exalava sexualidade. Não podia ver abaixo da cintura, porém reconheceu um corpo de curvas sutis e extremamente sensuais.

Recuperou-se rápido de seu espanto. Era muito óbvio o que estava acontecendo. Ela estava vendo através dos olhos de Catherine.

{in another life, literally; sixteen years ago}


Com uma última olhada para seu reflexo no espelho, Catherine virou-se e cruzou a sala comum do chalé de sua mãe para alcançar a porta. Recebera, através de um sátiro, uma convocação de Quíron há alguns minutos. Quando ela o questionou atrás de alguma informação sobre o que a aguardava na Casa Grande, tudo o que o ser da natureza pode afirmar era que Koda Smith também havia sido chamado.

Koda. Seu aprendiz, seu melhor amigo. Filho de Atena e companheiro mentalista. Seu amante. Preocupava-se com o motivo por trás daquele repentino convite, porém o conhecimento de que Koda estaria com ela era o bastante para trazer um leve sorriso para seu rosto.

Encontrou-se com o semideus em seu destino em comum e, logo, se viram sentados nas cadeiras de visitantes, em oposição ao diretor de atividades, que encolhido na cadeira de rodas mágica, os observava detrás de sua mesa.

“Há muito tempo eu não ouvia falar sobre a Lança do Destino”, dizia o centauro, preocupação evidente em sua voz e no jeito cansado que curvava suas costas, invadindo-a de forma que ela mesma passou a sentí-la.. “Amélia, a semideusa que enviamos para recuperar o item, desapareceu durante sua missão. Cremos que ela está morta há muito tempo.”

Catherine se recordava de ter ouvido uma história sobre isso. Era quase uma lenda para o acampamento, uma lança que concedia poderes inimagináveis para seu portador. A semideusa que fora atrás dela, também, era tão lendária quanto a arma por si só. Franziu a testa em concentração, sua mente vagando em diferentes cenários que poderiam enfrentar, enquanto ouvia Koda falar.

“Bem, se essa lança é realmente importante, melhor irmos logo”, ele dizia e a mentalista concordava. Se as histórias fossem verídicas, temia pelas consequências se caísse nas mãos das pessoas erradas. “Quais são as informações que nós temos e quais são as chances de nos darmos mal?”

O último comentário arrancou um sorriso da semideusa, que logo retornou sua atenção para Quíron.

“Nossos rastreadores conseguiram triangular a localização da lança em algum lugar no Mar de Monstros. Não sabemos dizer exatamente onde, pois é uma área muito grande. O único lugar que conseguirmos confirmar que não está com a lança é o Spa de Circe. Melhor vocês ficarem o mais longe possível de lá”, explicou o centauro.

Não era muita coisa, mas já era um começo.

“Não se preocupe, Quíron. Por mais tentador que seja a ideia de passar o resto dos meus dias cercada por mulheres numa ilha afrodisíaca, duvido muito que minha mãe aceitaria bem o abandono. Ela é bastante carente”, embora seu sotaque britânico soasse despretensioso, tentando tranquilizar o centauro, sua expressão era séria e segura de que estavam dispostos a enfrentar os perigos que o Triângulo das Bermudas oferecia.

Quíron não pareceu ter identificado a graça no comentário, muito pelo contrário: sua expressão só ficou mais séria.

“Não preciso enfatizar que a verdadeira razão para sua ida até o Mar de Monstros deve permanecer um segredo. Não sabemos quem está envolvido nesse roubo, porém a última coisa que queremos é que essa notícia alcance os ouvidos errados”, enfatizou o diretor, seu olhar penetrante encontrando os olhos de Catherine. A determinação que viu ali foi o suficiente para assegurá-lo.

Permaneceram ali por quase meia hora, enquanto Quíron passava todas as informações que tinha sobre o roubo e os mentalistas absorviam tudo, provavelmente formulando várias teorias e planejando a frente quais eram os próximos passos.

Então, os dois semideuses se despediram, combinando de se encontrarem mais tarde, para se prepararem para a viagem. Partiriam naquele mesmo dia, pois quando mais tempo levassem até alcançarem seu destino, maiores seriam as chances dos ladrões escaparem.

A filha de Afrodite seguiu para a área comum dos chalés com um sorriso nos lábios. Koda nunca conseguira esconder suas emoções de sua mestre e, para uma prole do amor e serva da deusa da alma, era nítido o amor que ele sentia por uma certa filha de Eos. E Catherine sabia completa certeza que tais sentimentos eram mútuos.

Só de pensar em Maisie De Noir o peito da negra se aquecia de bons sentimentos e lembranças ainda melhores. Conhecera a ruivinha durante uma missão, alguns anos atrás e desde então a garota ocupava um espaço especial em seu coração. Era, junto à Koda, basicamente os únicos seres humanos a quem Catherine amava com uma devoção e dedicação que guardava apenas para suas deusas. Seria capaz de fazer qualquer coisa para fazê-los felizes e, por mais que desejasse simplesmente usar seus poderes para que os dois finalmente agissem em seus sentimentos, sabia que certas coisas somente o tempo constrói.

Por isso, fingiu não saber para onde Koda ia e, ao invés disso, foi buscar uma solução para um pequeno obstáculo de locomoção: precisavam de um barco, urgentemente. E a negra sabia exatamente a quem pedir.

{my pussy tastes like pepsi cola}


Matthew Boseman era a personificação do estereótipo de filhos de Hefesto. Era alto e musculoso, sua pele negra bronzeada pelo fogo das forjas. Tinha uma mente brilhante, construindo as mais mirabolantes ideias que passavam por sua cabeça e, de alguma forma, fazendo dar certo. E mais importante: era apaixonado pelo mar, fazendo uma viagem para velejar pelo menos 3 vezes por ano nos barcos que ele mesmo fazia.

Catherine o encontrou nas forjas do chalé 9, como sempre. Aproximou-se enquanto ele finalizava algum tipo de ornamento da sala de produção, com um rebolado extra realçando suas curvas e uma expressão de sensualidade que vinha com facilidade para seu rosto.

“O que você quer, Cath?” Foi a saudação que recebeu do semideus, antes mesmo que pudesse anunciar sua presença, sem nem desviar os olhos de seu trabalho.

A mentalista colocou uma mão no peito, fazendo uma expressão de falsa mágoa.

“Quanta hostilidade! É assim que você cumprimenta velhos amigos?” O exagero em seu tom era meticulosamente controlado, conseguindo soar charmoso em conjunto com o jeito teatral que se movia, sentando no balcão que Matthew trabalhava com um pulo.

Os olhos claros do filho de Hefesto se ergueram para olhá-la, lento demais para alguém que queria demonstrar desinteresse e ela sorriu internamente em triunfo.

“É assim que cumprimento as mulheres que me dão um fora porque conseguiram um encontro melhor”, replicou Matthew. Embora a expressão dele fosse séria, a aura dele não mentia. O ressentimento que ele sentia não se comparava a felicidade por vê-la.

“Qual é, não foi isso que aconteceu. Do jeito que eu lembro, nós concordamos em dar um tempo porque nós dois conhecemos pessoas novas. Não é minha culpa de seu lance não ter dado certo!”

As frases dela eram cuidadosamente pontuadas por gestos e uma gradual aproximação, garantindo que não só tinha a atenção do semideus - que soltara seu trabalho para observá-la - como potencializar sua persuasão. Com seus poderes empáticos, podia ver que estava dando certo.

“Você ainda não me disse o que quer”, insistiu Matthew, mas sua voz grave estava mais suave agora, menos agressiva.

Catherine deu um largo sorriso, deslizando para fora da mesa e, ao ficar de pé, a proximidade entre os dois era o bastante para seus corpos quase se tocarem.

“Eu preciso de um favorzinho. E tenho certeza que você não se esqueceu quão incansável eu sou quando demonstro minha gratidão”, enquanto falava, suas mãos tocaram o macacão que ele usava, ajeitando-o de maneira provocativa.

O filho de Hefesto engoliu seco e assentiu. A filha de Afrodite viu a aura de desejo que o envolvia e sorriu.

“Preciso de um de seus barcos.”

{if you stay ready you don’t have to get ready}


Com uma mensagem telepática para Koda, avisando que conseguiu um barco e que ele estaria a disposição deles há alguns quilômetros da praia, a mentalista foi para o chalé de sua mãe. Não passou muito tempo lá. Acostumada com viagens abruptas para sair em missões, Catherine sempre deixava uma mochila pronta com todos os itens necessários para fugas ou emergências. Demorou em seu quarto tempo o bastante para pegar a bolsa e pendurar seu chicote no lado direito da cintura.

Então, sem nem olhar para trás, a filha de Afrodite partiu para a praia. Sentia-se estranhamente confiante. Preocupava-se, claro, pois o Mar de Monstros era um lugar instável, repleto de inimagináveis perigos. Ainda assim, permanecia num ótimo humor. Aquela havia sido uma boa semana. Sairia em missão, porém Koda estaria ao seu lado. Considerava aquela tarefa com muita seriedade e responsabilidade, mas sentia-se calma. Deixaria para se preocupar quando houvesse real razão para isso.

Koda não estava na praia quando chegou, mas uma pessoa tão especial quanto ele estava. Viu de longe os cabelos ruivos da filha de Eos e, com um largo sorriso, foi até ela. Jogou-se ao seu lado, sentando de forma que suas costas estivessem para o mar e sua atenção completamente voltada para a semideusa, que naquele momento era uma visão mais agradável do que qualquer paisagem natural.

“Maisie! Estou tão feliz por ter te encontrado!” Disse, inclinando-se para dar um abraço apertado nela.

A semideusa sorriu em resposta e Catherine precisou de apenas 2 segundos para notar que havia algo errado. Uma aura de preocupação, angústia e ansiedade cercava Maisie, embora sentisse alívio e felicidade por vê-la. Quase sorriu ao ver a vã tentativa que ela fazia para disfarçar suas emoções.

“Veio se despedir também antes de ir?” Perguntou a ruiva e, embora uma parte de sua mente regojizasse com a confirmação de que Koda tinha ido atrás de Maisie, subitamente entendeu o motivo de seu humor.

Instintivamente, aproximou-se ainda mais de Maisie, praticamente colada a sua lateral. Com seu ombro, a negra empurrou levemente a garota.

“Bem, eu não podia simplesmente ir embora sem falar nada. Você merece mais consideração que isso.”

Sua piada não funcionou como imaginara, pois o máximo que conseguiu arrancar da filha de Eos foi um sorriso sem vida.

“Ei”, chamou Catherine e, dessa vez, os olhos das duas se encontraram. O brilho de preocupação e amor que haviam ali quase partiram seu coração. “Logo, logo estaremos de volta. Você ainda me deve uma bebida.”

O riso que tirou dela, desta vez, foi mais verdadeiro, embora oscilante.

“Achei que você que iria pagar”, retorquiu Maisie, sua voz suave, mas havia uma nota de brincadeira em seu tom.

Antes que a mentalista pudesse responder, a ruiva atirou-se em sua direção, agarrando-a em um forte abraço que arrancou uma leve risada de si. Apertou-a de volta da mesma forma, como se temesse o que aconteceria se a soltasse. Sentiu seu coração contrair, subitamente sentindo-se muito triste com a ideia de deixar a amiga sozinha naquele estado.

“Tome cuidado e cuide dele para mim. Por favor, Cath”, pediu Maisie, sua voz tão baixa que parecia um sussurro e a vulnerabilidade que havia ali fizeram os olhos de Catherine arder.

Ela conhecia muitas pessoas. Dormira com a maioria delas. Mas, desde que perdera seu pai, mantivera uma distância emocional, uma barreira muito bem delimitada, pois não queria sentir aquela dor nunca mais. Mas aí, Koda aparecera, destruindo todos esses muros e então Maisie chegou e, antes que ela pudesse reagir, se alojara em seu coração.

Foi fácil fazer aquela promessa, pois não havia nada que a negra não fosse capaz de fazer por aqueles dois.

“Prometo que ele vai voltar inteiro para você, custe o que custar.”

Então, antes que mais alguma palavra pudesse ser dita por qualquer uma das duas, Catherine viu seu aprendiz chegar, por cima do ombro de Maisie e sorriu para ele. Afastou-se do abraço com relutância, porém garantiu-se de olhar nos olhos da filha de Eos para que ela pudesse ver quão verdadeira era sua promessa.

No momento que a voz de Koda as alcançou, Maisie virou-se para olhá-lo. Num piscar de olhos, estava nos braços dele, repetindo o abraço que ela mesma recebera.

Por favor, vamos logo, ou então não sei se conseguirei prosseguir com isso. Pelo menos não sem antes... ” Disse o filho de Atena em sua mente e, com o coração apertado e um revirar de olhos escondido pela cegueira desses dois, assentiu em resposta.

“Sim, é melhor pegarmos o barco antes que Matthew mude de ideia”, respondeu a negra, assistindo, um sorriso bobo enquanto as duas pessoas que mais amava eram estupidamente fofos um com o outro.

Quando eles se afastaram, uma Maisie corada e envergonhada desejou boa sorte, completamente encantada num jeito só dela. Assistiu Koda beijar a testa dela, assegurando o retorno deles e quase soltou um gritinho ao ver quão vermelho ele ficara.

Koda havia dado seu beijo de despedida. Agora, era a vez dela e, bem, Catherine simplesmente não podia deixar essa oportunidade passar.

Com um passo, estava na frente da semideusa. Segurando delicadamente o rosto de Maisie entre suas mãos, de maneira quase idêntica ao toque de Koda, Catherine se inclinou e capturou os lábios macios da ruiva com os seus.

Não fez mais que isso, porém a pressão que colocou era uma forma de trazer conforto para as duas, um lembrete da conexão que tinham. Afastou-se depois de alguns segundos, segurando o riso ao ver a reação de Maisie.

A pele branca de seu rosto e pescoço agora estavam completamente vermelha e, mesmo com ela evitando contato visual, a maneira como ela segurava os antebraços de Catherine garantia que sua ação surtiu o efeito desejado.

“Eu te amo, Maisie”, disse com convicção e embora a amiga não tenha dito te volta, acenou a cabeça com um sorriso no rosto. Então, soltou o rosto da semideusa e virar-se para Koda. Uma sobrancelha foi erguida, numa expressão que parecia desafiá-lo a ser ousado.

Não demonstrou surpresa alguma quando ele não disse as palavras, pois sabia que era só questão de tempo. Seguiu seu ato, fazendo suas asas aparecerem em suas costas. Eram brancas e longas, extremamente semelhantes às asas de um cisne. Bateu-as duas vezes e, com leveza, ergueu-se  no ar.

“Vamos, Koda. O mundo não vai se salvar sozinho”, chamou, dando uma última piscada para Maisie, antes de voltar-se para o barco que já os aguardava no mar e voar até lá.

Estavam no ar a menos que 5 segundos, quando Koda falou:

“Matthew? Não era aquele que... Deixa pra lá. Quer saber? Melhor deixar para lá. Temos que focar na missão.”

Catherine simplesmente balançou as sobrancelhas, dando uma leve gargalhada. A mão que segurava era firme, calejada e gentil. Juntos, voaram até o barco para o início de suas aventuras.

{captains of the seven seas}


O barco era tudo o que se podia imaginar sabendo que fora desenhado e construído por um talentoso filho de Hefesto. Fazia uma agradável mistura entre o moderno e o antigo, contando com um sistema de navegação automático e o manual, que beirava o clássico. Os deuses pareciam estar do lado dos semideuses, pois a viagem até o Triângulo das Bermudas foi tranquila e nenhum obstáculo, bestial ou mortal, atrapalhou o percurso.

Para se ocuparem, Catherine decidiu demonstrar para Koda exatamente o que havia aprendido com Matthew. E ela tinha que admitir que sentira falta de seu aprendiz. Em meio a tantos compromissos, demandas e missões, era difícil encontrar um tempo para simplesmente aproveitarem a companhia um do outro. Para simplesmente sentir o toque dele, o movimento de seus corpos em completa sintonia...  Era uma forma questionável de se preparar para uma missão, para padrões regulares, porém não era novidade para a filha de Afrodite. Embora fosse mais racional que a grande maioria de seus meio-irmãos, mantendo uma mente calculista e ativa durante missões, possuía controle o suficiente de suas emoções para fazer a si mesma relaxar e não se estressar com antecedência com os problemas futuros.

Problemas que, no momento, atendiam pelos belos nomes de Caríbdis e Squilla, as criaturas que guardavam - aterrorizavam era uma palavra mais adequada - a entrada no Mar de Monstros. Uma vez que se aproximaram do local, Koda desligou o piloto automático, inútil num lugar como aqueles e assumiu o comando da navegação. A mentalista nunca tinha visto o semideus pilotar, porém tinha total confiança em sua habilidade.

Agora que estavam nas margens de seu objetivo, um ar de seriedade pairava no ar e Catherine, normalmente animada e sorridente, aguardava com concentração pelo que estava por vir. Não se surpreendeu quando o filho de Atena revelou sua estratégia: era brilhante, assim como sua mãe.

“Cath, vamos passar pelo território de Caríbdis e Squilla agora. Squilla fará de tudo para nos capturar, então vou precisar que você nos proteja com o campo de força, enquanto eu tento nos guiar para o mais longe possível de Caríbdis”, designou o semideus e, de sua posição ao lado do rapaz, a negra acenou em confirmação.

Fechando os olhos, Catherine buscou dentro de si o poder de Psiquê. Conseguia visualizar em sua mente a barreira surgindo ao redor dos dois e quando abriu os olhos, um campo de força quase indetectável os protegia.

O barco, então, avançou veloz e destemido. A inglesa sabia que os monstros estariam ali, ainda assim, a aparição súbita deles a assustou. Membros enormes de uma criatura disforme atacavam descontroladamente o barco e, com dificuldade, a filha de Afrodite conteve os ataques contra os dois. À sua frente, podia ver o pesadelo que era Caríbdis: um enorme buraco horripilante repleto de dentes e restos de refeições passadas. Era puro caos, sons estridentes de máquinas e guinchos monstruosos.

“Vamos chegar ao alcance de Caríbdis logo! Melhor se segurar em alguma coisa!” Gritou Koda, em aviso, compartilhando do mesmo horror que ela.

“Tenha cuidado!” Berrou de volta, enquanto atirava-se para frente e se segurava em pequenos seguradores no painel de controle com toda sua força.

O barco vibrava, tremia e gemia e o filho de Atena lutava para controlar seu trajeto, mas a sorte não estava ao favor deles. Mais pancadas vindas de Squilla atingiram o campo que os protegia e, com uma careta, Catherine sentiu suor se acumulando em seu rosto e uma distante sensação de desespero surgir quando sentiu o campo cair.

“Vamos ter que deixar o barco ir para dentro de Caríbdis!”

Ela quase não entendeu o que ele falava, por cima de toda a cacofonia, mas a noção geral de suas palavras foi absorvida. Quando ouviu a voz do semideus em sua mente, suspirou em alívio pelo método de comunicação aprimorado.

O que quer que vá fazer, só faça rápido! Não conseguirei manter os escudos por muito tempo!” Respondeu telepaticamente para Koda, quase tombando para trás com uma saculejada particularmente furiosa, torcendo para que ele entendesse a urgência da mensagem.

Imediatamente, o mentalista entrou em ação. Girou bruscamente o timão e acelerou ainda mais na direção da grande boca e, com o coração acelerado, a inglesa fez seu melhor para permanecer em pé e manter o campo de força ativo.

“Quando eu contar, você vai correr até mim. Vou tirar a gente dessa”, disse Koda e tudo o que ela conseguiu fazer foi acenar a cabeça em afirmação.

Quando a contagem chegou no três, Catherine depositou toda sua confiança nele: soltou os seguradores e, em dois longas passadas, atirou-se em cima do mentalista. As asas dele surgiram e, com rapidez, alçaram voo. Quando o grito para ativar o campo de força veio, reuniu todas as suas forças para que a proteção os envolvesse. Agarrava Koda com as pernas e os braços, como se fosse uma coala, colando seu nome no dele completamente, com a mochila em suas costas.

Não foi fácil, mas o filho de Atena era habilidoso. Avançaram, sem hesitação e, quando deu por si, haviam escapado do alcance das criaturas.

Haviam entrado no Mar de Monstros e, deliberadamente, destruído o terceiro barco preferido de seu ex.

continua no próximo post


Última edição por Andromeda Chiamaka em Sex Nov 15, 2019 5:01 am, editado 1 vez(es)


Andromeda Cath Chiamaka
YOU KNOW THAT I'D JUST DIE TO MAKE YOU PROUD
Andromeda Chiamaka
Andromeda Chiamaka
Filhos de Melinoe
Filhos de Melinoe

Idade : 19
Localização : Underworld

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The Past, The Vacuum, the Present and the Future — Trama pessoal Empty Re: The Past, The Vacuum, the Present and the Future — Trama pessoal

Mensagem por Andromeda Chiamaka em Sex Nov 15, 2019 4:54 am


sanctus espiritus
redeem us from our solemn hour

{captains of the seven seas}


O barco era tudo o que se podia imaginar sabendo que fora desenhado e construído por um talentoso filho de Hefesto. Fazia uma agradável mistura entre o moderno e o antigo, contando com um sistema de navegação automático e o manual, que beirava o clássico. Os deuses pareciam estar do lado dos semideuses, pois a viagem até o Triângulo das Bermudas foi tranquila e nenhum obstáculo, bestial ou mortal, atrapalhou o percurso.

Para se ocuparem, Catherine decidiu demonstrar para Koda exatamente o que havia aprendido com Matthew. E ela tinha que admitir que sentira falta de seu aprendiz. Em meio a tantos compromissos, demandas e missões, era difícil encontrar um tempo para simplesmente aproveitarem a companhia um do outro. Para simplesmente sentir o toque dele, o movimento de seus corpos em completa sintonia...  Era uma forma questionável de se preparar para uma missão, para padrões regulares, porém não era novidade para a filha de Afrodite. Embora fosse mais racional que a grande maioria de seus meio-irmãos, mantendo uma mente calculista e ativa durante missões, possuía controle o suficiente de suas emoções para fazer a si mesma relaxar e não se estressar com antecedência com os problemas futuros.

Problemas que, no momento, atendiam pelos belos nomes de Caríbdis e Squilla, as criaturas que guardavam - aterrorizavam era uma palavra mais adequada - a entrada no Mar de Monstros. Uma vez que se aproximaram do local, Koda desligou o piloto automático, inútil num lugar como aqueles e assumiu o comando da navegação. A mentalista nunca tinha visto o semideus pilotar, porém tinha total confiança em sua habilidade.

Agora que estavam nas margens de seu objetivo, um ar de seriedade pairava no ar e Catherine, normalmente animada e sorridente, aguardava com concentração pelo que estava por vir. Não se surpreendeu quando o filho de Atena revelou sua estratégia: era brilhante, assim como sua mãe.

“Cath, vamos passar pelo território de Caríbdis e Squilla agora. Squilla fará de tudo para nos capturar, então vou precisar que você nos proteja com o campo de força, enquanto eu tento nos guiar para o mais longe possível de Caríbdis”, designou o semideus e, de sua posição ao lado do rapaz, a negra acenou em confirmação.

Fechando os olhos, Catherine buscou dentro de si o poder de Psiquê. Conseguia visualizar em sua mente a barreira surgindo ao redor dos dois e quando abriu os olhos, um campo de força quase indetectável os protegia.

O barco, então, avançou veloz e destemido. A inglesa sabia que os monstros estariam ali, ainda assim, a aparição súbita deles a assustou. Membros enormes de uma criatura disforme atacavam descontroladamente o barco e, com dificuldade, a filha de Afrodite conteve os ataques contra os dois. À sua frente, podia ver o pesadelo que era Caríbdis: um enorme buraco horripilante repleto de dentes e restos de refeições passadas. Era puro caos, sons estridentes de máquinas e guinchos monstruosos.

“Vamos chegar ao alcance de Caríbdis logo! Melhor se segurar em alguma coisa!” Gritou Koda, em aviso, compartilhando do mesmo horror que ela.

“Tenha cuidado!” Berrou de volta, enquanto atirava-se para frente e se agarrava em pequenos seguradores no painel de controle com toda sua força.

O barco vibrava, tremia e gemia e o filho de Atena lutava para controlar seu trajeto, mas a sorte não estava ao favor deles. Mais pancadas vindas de Squilla atingiram o campo que os protegia e, com uma careta, Catherine sentiu suor se acumulando em seu rosto e uma distante sensação de desespero surgir quando sentiu o campo cair.

“Vamos ter que deixar o barco ir para dentro de Caríbdis!”

Ela quase não entendeu o que ele falava, por cima de toda a cacofonia, mas a noção geral de suas palavras foi absorvida. Quando ouviu a voz do semideus em sua mente, suspirou em alívio pelo método de comunicação aprimorado.

O que quer que vá fazer, só faça rápido! Não conseguirei manter os escudos por muito tempo!” Respondeu telepaticamente para Koda, quase tombando para trás com uma saculejada particularmente furiosa, torcendo para que ele entendesse a urgência da mensagem.

Imediatamente, o mentalista entrou em ação. Girou bruscamente o timão e acelerou ainda mais na direção da grande boca e, com o coração acelerado, a inglesa fez seu melhor para permanecer em pé e manter o foco em suas habilidades.

“Quando eu contar, você vai correr até mim. Vou tirar a gente dessa”, disse Koda e tudo o que ela conseguiu fazer foi acenar a cabeça em afirmação.

Quando a contagem chegou no três, Catherine depositou toda sua confiança nele: soltou os seguradores e, em dois longas passadas, atirou-se em cima do mentalista. As asas dele surgiram e, com rapidez, alçaram voo. Quando o grito para ativar o campo de força veio, reuniu todas as suas forças para que a proteção os envolvesse. Agarrava Koda com as pernas e os braços, como se fosse uma coala, colando seu nome no dele completamente, com a mochila em suas costas.

Não foi fácil, mas o filho de Atena era habilidoso. Avançaram, sem hesitação e, quando deu por si, haviam escapado do alcance das criaturas.

Haviam entrado no Mar de Monstros e, deliberadamente, destruído o terceiro barco preferido de seu ex.

{csi: sea of monsters}


Embora a posição coala fosse bastante confortável a curto prazo, Catherine eventualmente desvinculou-se de seu aprendiz para voar com suas próprias longas asas douradas.

Voaram lado a lado pelo o que pareceu ser horas, incansáveis e exaustivas horas que eram tão monótonas que começaram a deixar a mente da filha de Afrodite praticamente vazia de qualquer pensamentos.

E, então, quase como uma miragem, uma ilha surgiu à frente deles. Quanto mais se aproximavam, mais inofensiva e ordinária ela aparentava ser. Isso não era exatamente reconfortante, porém estavam praticamente caindo do céu por cansaço. Tinham que pousar em terra firme, mesmo que a possibilidade desta terra os engolir no segundo que pisassem na areia fosse real.

Sorriu em resposta ao sussurro de Koda, de que tudo parecia bom demais para ser verdade, pois concordava. Apesar disso, precisavam descansar. Então, rezando para que sua mãe e sua patrona tivessem ao lado deles naquela provação, flutuou até a praia e, com delicadeza pousou.

A areia não os engoliu, nenhuma criatura saltou do além para atacá-los, o mundo não virou ao avesso e eles não foram teletransportados para outra dimensão. Para a mentalista, aquilo era uma vitória. Não teve tempo de saboreá-la. Embora a areia fosse branca e impecável, as altas palmeiras vivas e aparentemente saudáveis e uma densa floresta tropical cobrisse todo o horizonte oposto ao mar, numa perfeita paisagem paradisíaca, uma sensação de perigo fazia seu sangue gelar.

“Melhor a gente ter cuidado nesse lugar. Eu tenho um mal pressentimento sobre isso”, disse Koda, segurando sua mão rapidamente. Catherine compartilhava da preocupação dele, porém não conseguiu resistir a tentação.

“Você me protegerá, não é, Sr. Smith?” Retrucou, sua voz soando mais aguda e mais suntuosa com seu sotaque britânico pronunciado, uma mistura de brincadeira e provocação.

“Até o fim, Srta. Burkhardt”, foi a resposta e a negra piscou para o semideus, antes de repetir a ação dele de sacar sua espada e, juntos, avançaram floresta adentro.

Foi uma mistura de seiva de planta, suor e calor enquanto trilhavam entre as árvores, muitas vezes abrindo o caminho a força entre os ramos, galhos e grandes folhas, o que não era a pior combinação de secreções que já tocaram a pele da semideusa. Não sabia ao certo o que procuravam ou para onde iam, todavia tinha confiança no filho de Atena e simplesmente o seguiu, usando as habilidades dadas por sua senhora para memorizar o percurso.

Andaram por um bom tempo, até que a floresta densa deu lugar a uma larga área desmatada. Com uma enorme escavação, de onde várias pessoas subiam e desciam carregando diversos equipamentos. Era um buraco grande o bastante para que, se colocado em vertical, o falecido barco n° 3 de Matthew conseguisse entrar. Ficaria com parte de seu casco para fora, mas caberia.

Ouviu Koda com metade de sua atenção, assentindo no final em concordância, enquanto franzia a testa para o abismo. De todas as situações que sua mente criara em expectativa para os males e perigos que os aguardava no Mar de Monstros, uma cena retirada de Indiana Jones não estava exatamente no topo da lista — estava na posição 24, logo acima de descobrir que estava inserida numa Matrix.

Não se surpreendeu por Koda já ter formado um plano.

“Acho que a gente pode descer até lá e ver o que eles estão fazendo. Podemos nos camuflar, assim eles não nos verão, mas ainda têm o fato de chegarmos até lá. Usamos uma das escadas ou vamos voando, para chegar mais rápido?” Perguntou o semideus e a negra precisou de alguns segundos antes de responder.

“Vamos usar as escadas. Assim poderei falar com alguns daqueles escavadores para descobrirmos o que diabos está acontecendo aqui”, falou com convicção em sua habilidade de extrair informações de homens desavisados.

Ao mesmo tempo em que Koda se tornava invisível, Catherine concentrou os poderes de sua progenitora para mudar suas roupas e sua aparência. Tornou-se masculino, atraente, porém com traços em comuns aos homens que via pela escavação. Suas vestes, da mesma forma, agora eram roupas que se assemelhavam ao uniforme de arqueólogos. Guardou a espada. Não precisaria dela por hora.

Não precisaram trocar mais do que meias palavras para formularem um plano. Dividiriam-se. Ela buscaria por informações, ele investigaria a área sob o manto da invisibilidade. Para se assegurarem que tudo correria bem, um link telepático permaneceria aberto entre eles, de forma que a comunicação entre os dois fosse contínua e precisa.

Um minuto de observação foi o suficiente para que a mentalista imitasse a maneira como os homens se movimentavam. Andou com naturalidade, usando uma passada cansada, mas que exalava confiança e começou a fazer o caminho até as escadas, visando fazer o caminho mais longo até a base do buraco.

Usou seus poderes em um dos homens que desciam ao seu lado, escolhendo-o tanto por proximidade, como pela figura de autoridade que ele parecia ser. Os outros acenavam respeitosamente ao cruzarem com ele e sua postura era de alguém que detinha algum poder.

Catherine sempre fora atraída por figuras de poder. Mesmo quando elas eram baixas, mais parrudas do que o alcançável por meros músculos definidos e quase carecas.

“Heya, boss”, cumprimentou a semideusa, por alguma razão fazendo um forte sotaque irlândes com sua voz masculinizada. “Meu garoto Johnny me avisou que teríamos muito trabalho, mas não pude acreditar, você sabe. Mas o bastardo estava certo, não foi? Estamos cavando tão fundo que daqui a pouco alcançamos o inferno”, começou a falar, lançando um sorriso simpático e fazendo com que sua voz se tornasse mais agradável aos ouvidos do outro homem.

O olhar dele ficou um pouco perdido, sua expressão se tornou um misto de confusão e encantamento. Antes que ele pudesse responder, a negra continuou.

“Mas, sabe, boss, meu garoto pode estar certo, mas aquele ali tem uns dois parafusos a menos. Se você pedir para ele contar o que fez em sua manhã, as únicas frases que vão fazer sentido são usei o banheiro e bebi meu uísque”, havia um tom de divertida repreensão, completamente falso, porém extremamente convincente depois de anos de prática em atuação e mentiras. “Eu cavo e cavo mais um pouco, mas não sei muito bem para o quê. Você pode me dizer, boss?”

Iam descendo cada vez mais enquanto ela falava, se aproximando do fundo da escavação — melhor dizendo, na parte ainda plana do abismo, que provavelmente também seria explorada em alguns dias. Já conseguia visualizar entradas para túneis laterais, o que indicava que as buscas estavam se tornando cada vez mais urgentes e obsessivas.

Não se surpreendeu quando ouviu a resposta do homem.

“Fomos contratados para escavar essa área para procurar uma lança histórica. Eles pagaram bastante para conseguir pessoas que fossem discretas e que não falariam por aí do que estamos fazendo aqui”, nesse momento, ele abaixou a voz, seus olhos brilhando como uma criança que sabe de um segredo que não devia revelar. A vontade de agradá-la, no entanto, sobrepôs seu bom senso. “Estamos procurando pela Lança do Destino.”

Somente os anos de experiência em manter sua expressão e postura completamente intactas foi capaz de segurar o alívio e satisfação em saber que encontraram seu, bem, destino. A voz de Koda sussurrou no canto de sua mente, falando sobre como as escadas não chegavam nos níveis mais profundos. Respondi da mesma forma, o avisando que eles procuravam pela Lança do Destino, antes de retornar minha atenção ao homem.

Bloody hell, mate, achei que aquele bastardo estava me enganando!” O tom de falsa surpresa e a risada que veio a seguir eram completamente calculados para soar carismático e estimular uma abertura emocional maior. “Quase não acreditei quando chegamos aqui. Praticamente no fim do mundo! Você sabe como encontraram esse lugar?”

O escavador estava mais confortável e pareceu animado em responder.

“Não sei ao certo onde estamos, apenas que caímos bem no centro do Triângulo das Bermudas. Aqui tem umas tempestades bastante insanas, isso é verdade”, ele ia dizendo, feliz por ter uma audiência cativa. “Ouvi rumores de que o capitão mal sabe explicar como chegou até aqui. Foi como se uma nuvem de ouro o guiasse. Quase como Moisés no deserto. É como se o próprio Deus quisesse que nós encontrássemos essa lança!”

Mortais. Isso sim a surpreendeu. Aqueles homens eram mortais, provavelmente que vieram todos em uma única viagem com um destino incerto e um chamado para aventura guiado por dinheiro. E, de alguma forma, chegaram até ali. Como se alguém quisesse que eles chegassem ali.

“Isso é uma história e tanto! Me faz pensar em quem está pagando nossos salários, se é que me entende”, insistiu a mentalista, batendo seu cotovelo de leve no braço do outro, como se compartilhasse uma piada interna.

“É um grupo de pesquisa, eu acho. Não sei muito sobre eles. Só vi um barco, tenho certeza. Uma verdadeira obra prima. Tinha o nome de alguma princesa grega”, retorquiu o encarregado, com um dar nos ombros.

Eram informações o bastante para repassar ao filho de Atena. Só podia torcer para que ele tivesse mais sucesso que os mortais que estavam naquela busca.

“Koda, eles são mortais. Acredito que tiveram ajuda de alguma divindade sob a forma de nuvem dourada. Alguém quer a Lança o suficiente para sacrificar um monte de mortais numa busca às cegas”, relatou para o aprendiz. Estranhamente, não recebeu resposta imediata.

Contendo sua preocupação, a filha de Afrodite dispensou o homem com quem conversava para, ao invés disso, examinar o terreno com mais atenção e planejar qual seria a melhor forma de sair dali caso uma emergência ocorresse. Era um tipo de prática que fazia consigo mesma constantemente. Não demorou muito para identificar os pontos onde a segurança seria mais fraca, por onde conseguiria subir com mais facilidade. Preparar-se daquela forma era também um método de relaxamento. Estar pronta para o pior sempre a fez reagir com rapidez a situações inesperadas.

Por isso, quando a mensagem de Koda chegou até ela, ouviu tudo com uma anormal serenidade.

“Cath, preste atenção. Eu estou com a Lança do Destino, só que alguns soldados encontraram uma lança falsa e estão achando que é a verdadeira. Estou voltando para você. Se prepare para ir assim que eu chegar.”

Não questionou ou pensou demais no que tinha que fazer. Simplesmente deu as costas e iniciou a subida da maneira mais ágil e eficaz que podia. Driblou os escavadores com facilidade, subia as escadas pulando vários degraus de uma só vez e, assim que alcançou a superfície, ouviu a voz de seu aprendiz com direções para encontrá-lo.

Mal podia vê-lo, porém sentia sua presença, estável e forte como sempre. Com largas passadas, mas que, ainda assim, pela forma que casualmente cumprimentava um ou outro parecia natural, chegou até o filho de Atena.

Agora só precisavam escapar a maior armadilha e covil de algumas das criaturas mais perversas que existiam para concluírem a missão com sucesso e, se a negra estivesse com sorte, descolar um encontro duplo com Maisie e Koda.

“Você é o homem mais incrível que conheço, sabia disso, Sr. Smith?” Sussurrou a semideusa, após alguns segundos de tensa caminhada, mal conseguindo conter a energia e adrenalina que corria por seu corpo, mascarando sua exaustão quase completamente. Quando ouviu a resposta dele, poderia beijá-lo ali mesmo, ainda em seu disfarce.

Eles tinham a Lança do Destino. E estavam escapando bem debaixo dos narizes de mais de 40 homens que foram mandados para aquela ilha com a única tarefa de encontrar aquela arma.

Subitamente, uma sensação desconhecida se apossou da negra. Era como se estivesse sendo submersa na mais gelada das águas, espalhando calafrios por todo seu corpo. Arfou, tentando recuperar o fôlego, ofegando enquanto lutava para restabelecer sua concentração. Não pode fazer nada ao sentir seu poder enfraquecer. Seu disfarce caíra. Voltara a sua forma física e roupas originais. Virou-se para Koda, os olhos arregalados em temor — nunca sentira tamanho poder, especialmente de fontes externas, percorrer seus membros. Seu choque somente aumentou ao vê-lo, literalmente vê-lo, com a Lança do Destino em mãos e uma expressão que devia estar refletida em seu próprio rosto.

“Corre”, ele disse. O teletransporte deles não funcionava. Suas asas não surgiam. Não tinham outra opção.

Catherine correu.

{the night is dark and full of terrors}


Exaustão era algo interessante. Se sua mente estivesse ativa o suficiente, as súplicas de seu corpo por um descanso podiam ser ignoradas. Pelo menos, até que o corpo chegasse a um nível de cansaço alto o suficiente para demandar aos trancos que suas necessidades fossem consideradas e atendidas.

Desde que chegara ao Mar de Monstros, Catherine podia sentir sua energia e força decaindo gradualmente, quase de maneira imperceptível no começo e cada vez mais óbvia com o passar do tempo. Mas sua mente, ocupada com mistérios e resolução de problemas, a distraía apenas o suficiente para aguentar.

Não havia nada para dar bom uso a sua mente enquanto corria desesperadamente por uma floresta tropical, com sons de disparos de armas de fogo e gritos raivosos em seu encalço.

Tudo o que ela tinha naquele momento era a presença de Koda a alguns passos de sua posição, a exaustão de seu corpo e o legítimo medo em sua alma. Seus membros vibravam em protesto, seu coração batia tão forte que, por vezes, ela não sabia se o que ouvia eram seus batimentos ou os tiros.

Com o chicote em sua mão direita, Catherine usava de sua agilidade e flexibilidade para desviar e saltar as raízes e troncos. Sempre que algum dos soldados — sem armas de fogo, os escavadores avançavam com martelos, machados e quaisquer equipamento que pudesse causar grande dano — se aproximavam demais, girava sua arma para atingi-los. Não tinha tempo para fazer nada além de desestabilizá-los. Golpeava-os em suas extremidades, seu ataque com potência o suficiente para fazê-los perder o equilíbrio e, consequentemente, os manter afastados.

Quando um grupo particularmente maior conseguiu se aproximar, desviando das árvores que tombavam e eram arremessadas, Catherine concentrou-se na relva da floresta. Uma faixa de rosas brotou do chão, numa linha horizontal e, mesmo ao se afastar, sentia o forte cheiro enjoativo que elas exalavam.

Um grito de dor ao seu lado a vez virar-se. O filho de Atena havia sido atingido por um dos disparos.

“Koda!” Exclamou e a promessa que havia feito a Maisie queimou em seu peito. A mentalista não podia deixá-lo morrer.

Soltou seu chicote no chão, para ser abandonado, erguendo ambos braços e os esticando em cada lateral de seu corpo. Um campo de força semitransparente os cercou e, dessa vez, podia ver, podia sentir as balas que atingiam a proteção. Haviam desacelerado e, agora, seus adversários estavam mais próximos do que nunca.

A inglesa ajoelhou-se ao lado dele, colocando uma das mãos no lado não ferido e apertando o semideus. A outra permanecia esticada. Sentia-se fraca, com o controle sob seus poderes instável. Sentia que seu campo não duraria.

“Koda, você precisa se levantar! Levanta! Precisamos ir!” Sua voz era quase irreconhecível: um grito de desespero e algo que era terrivelmente parecido com terror a modificavam profundamente.

Tudo o que conseguia pensar era Koda. Koda e Maisie. Sua missão. A Lança do Destino. Maisie. Precisava salvar Koda. A essa altura, seus pensamentos eram uma confusão, clamava por Afrodite, rezava à Psiquê. Qualquer um. Mas ninguém veio.

O filho de Atena ergueu-se e, sentindo um alívio tão grande que quase cedeu de vez, ela o seguiu. Seu campo durou até que a linha da praia se tornou visível.

Em sua fuga, eles haviam corrido na direção oposta ao caminho que fizeram para chegar até lá. Catherine estava muito feliz por terem feito isso. De onde vieram, nada os aguardava na orla. Daquele lado, tinham barcos

Sem hesitação, foram até lá. E tudo o que a mentalista pensava era que haviam outros dois barcos, maiores e mais velozes e que não conseguiriam fugir. Aqueles soldados os alcançariam. Estariam acabados e aquela arma, todo aquele poder, caíra nas mãos erradas.

Olhou para Koda, ferido, cansado. Seu aprendiz, seu amante. O amor de sua vida. Mais uma vez, a promessa que fizera a Maisie surgiu em sua mente.

“Prometo que ele vai voltar inteiro para você, custe o que custar.”

Todo barulho, toda turbulência de dor, medo e desespero desapareceu. Pois a negra sabia exatamente o que tinha que fazer.

Na sua pressa, ganharam um precioso tempo, colocaram uma pouca distância entre os soldados e sua atual posição. Não duraria por muito tempo. Mas seria o bastante. Catherine ajudou o filho de Atena a subir no barco escolhido, porém permaneceu na areia.

Os olhares dos dois se encontraram. Confusão e apreensão emanavam do rapaz. Ela estava determinada. Ele entenderia.

“Achei que jamais amaria alguém outra vez, não depois do que aconteceu com meu pai. Nunca acreditei em amor verdadeiro. Até você chegar”, a inglesa sorriu, um riso triste, marcado pela dor que estava por vir. Koda chorava, protestava, implorava para que ela mudasse de ideia. Nenhuma dessas palavras pareciam ser ouvidas. Ainda assim, sua voz era firme. “Ame-a. Cuide dela por mim. E não me esqueça.”

Catherine concentrou sua telecinese no barco e, num suspirar — num soluço de choro—, o impulsionou para longe da praia.

Foi como se sua alma se fragmentasse e as pequenas lascas a perfurassem em mil lugares diferentes ao mesmo tempo. Reviveu a morte de seu pai mais uma vez, com força total, agora compreendendo o outro lado da situação. Desta vez, era ela quem se despedia. Sentia essa despedida em cada fibra de seu corpo.

Seu tórax se contraiu, as lágrimas prestes a transbordar, porém com uma tremida inspiração, ela se conteve. A missão era mais importante que ela. Koda era mais importante. Ele protegeria a Lança do Destino. Ele viveria.

E Maisie… Maisie encontraria consolo com ele. Um dia. Catherine sempre achou que formariam um ótimo casal.

A filha de Afrodite deu as costas para o barco e virou-se para a ilha. Sentiu-se sozinha. Até que não estava mais.

Reconheceu o poder que fluía por suas veias, pois o sentia diariamente, em medidas menores. Era Psiquê, sua senhora, que se compadecia de sua humilde serva.

A mentalista estava exausta, mas, com sua deusa, presente em sua mente, em seu corpo, tocando sua alma, o que devia fazer estava claro. Era a coisa mais simples, mais óbvia e mais impossível de todas.

“Faça.” Ecoou a voz de Psiquê, mas não em comando. Ela suplicava.

E, como a boa serva que era, Catherine acatou.

Seus oponentes estavam ainda mais próximos, podia ouví-los, podia sentí-los. Não importava. Psiquê estava com ela.

A semideusa apontou suas palmas abertas para o solo da ilha e, num canto distante de sua mente, percebeu que sua pele reluzia. Seu foco estava inteiramente na ilha. Na terra que a formava, em cada grão de areia que a cobria, em cada pedra e mineral que se escondia em seu interior. Tudo isso ela sentiu, conheceu e apropriou como parte de si.

Para a Lança do Destino ficar realmente escondida de forças tão terríveis e antigas quanto a que inteferia naquela missão, ninguém poderia saber o que acontecera naquela ilha. Ninguém, com exceção de Koda.

Sob suas mãos, debaixo de seus pés, a ilha tremeu e, com um som tão alto quanto um trovão, rachaduras apareceram em sua superfície, vindas das profundidades de seu centro. Os homens pararam, chocados e provavelmente aterrorizados.

Não que ela se importasse: naquele instante, era imbatível.

Catherine concentrou toda sua energia, tudo o que tinha e que lhe fora dado e quando isso não foi o bastante, quando o esforço exigiu mais do que tinha a oferecer, já estava preparada para o preço que pagaria.

A ilha inteira vibrou e as aberturas se expandiram e se torceram. O mar ao redor se agitou, furioso; a fauna e a flora quebraram, morreram e cederam. Seus adversários caíam em abismos maiores do que o que eles escavavam.

“Não era isso que eu queria”, ela murmurou, mas não parou. Não conseguiria parar nem se desejasse. Já havia selado aquele pacto.

Sentiu outra presença. Uma ainda mais familiar e confortante. Fechou os olhos, deixando a aura a envolver e, por um segundo, quase esqueceu o que estava prestes a acontecer.

“Eu sei”, veio a resposta da deusa do amor e o som de sua voz pareceu mais alto, mais penetrante do que qualquer outro naquele instante.

Em segundos, tudo chegou a um fim.

Não havia mais ilha. Não havia mais Catherine.

{we’re not in kansas anymore}


A imagem no espelho desapareceu, porém Andy continuou imóvel, chocada demais para reagir. Seu rosto estava úmido por conta das lágrimas que nem notara ter caído; sua respiração era ofegante e seus ouvidos zumbiam. Havia visto e sentido tudo o que aquela semideusa vivera e, podia afirmar sem hesitação, que jamais tivera uma experiência como aquela.

A mão de Afrodite em seu ombro moveu-se subitamente e a filha de Melinoe saltou em susto, pois em seu estado contemplativo esqueceu-se de quem, exatamente, lhe fazia companhia e era a fonte daquelas imagens.

Virou a cabeça e, para sua surpresa, viu a personificação do amor enxugar seus olhos discretamente. Ao ver que era observada, ela sorriu tristemente.

“Todo mundo me vê como manipuladora e superficial. Eles estão completamente errados. Eles se esquecem que eu sou o amor”, a voz de Afrodite era distante e seu olhar permanecia fixado no espelho. “O que eles sentem é meramente um terço de meu poder. E eu amo Catherine Burkhardt de todas as formas possível. Ela morreu há exatamente 16 anos e, para mim, tempo algum se passou”.

A intensidade das palavras da deusa e a força que detectou em seus olhos quando seus olhares se encontraram foram tão desconcertantes que, por alguns segundos, a negra esqueceu-se de respirar. A emoção que emanava da imortal era quase avassaladora, beirando o incompreensível.

Andy só perceberia a conjugação no presente do verbo, que deveria se referir a uma semideusa morta e esquecida 16 anos atrás quando a resposta fosse óbvia demais para ser ignorada.

Naquele instante, tudo o que sentia era um turbilhão de sentimentos que não conseguia processar e uma sensação de que não estava entendendo algo crucial sobre tudo aquilo. Abriu a boca, parou e engoliu seco. Quando falou, a voz da semideusa soava fraca até mesmo para seus ouvidos.

“Por que você me mostrou isso?” Perguntou, parecendo temer a resposta.

Os orbes escuros de Afrodite brilhavam nas sombras do chalé, tão visíveis quando faróis que guiavam os barcos em segurança até os portos.

“Se você deseja desvendar sua origem, Catherine Burkhardt é a chave. Infelizmente, Melinoe é a tranca.”

{there’s no place like home}


Ao refletir sobre o tempo que levara para deixar o mundo mortal e adentrar no Submundo, a descendente de Afrodite pouco se lembrava do trajeto que fizera. Parecia estar num tipo de transe, sua mente voltando às lembranças que havia visto — que havia vivido, de certa forma — sempre que não estava lidando com a resolução de um problema imediato.

Pois tudo o que surgiu em seu caminho não passava de um obstáculo, uma distração com o intuito de impedí-la de chegar até sua mãe. Podia ter levado dias ou poucas horas; não importava. Nada do que viu ou ouviu conseguiu penetrar sua consciência o suficiente para fazê-la desacelerar. De maneira quase mecânica, reagiu apropriadamente a cada empecilho e, uma vez no Mundo Inferior, nenhum espírito sequer ousou abordá-la enquanto cruzava os campos até o palácio de Hades.

Encontrou a senhora dos fantasmas, princesa da Terra dos Mortos, numa sala de música na ala do castelo pertencente à divindade. A sala de música delas. Onde Melinoe havia lhe ensinado a tocar o piano com maestria e a cantar tão suavemente que seria capaz de comover as mais duras das almas.

Assim como Afrodite, Melinoe era bela. Mas sua beleza era diferente. Não havia calor, apenas melancolia. Era branca como a lua, com a pele quase translúcida e olhos e cabelos tão escuros quanto as pedras do palácio. Sua postura era impecável, porém parecia carregar um peso sobre seus ombros, um fardo imposto a ela por nascimento, que a continha e a reprimia. Sua expressão, no entanto, se moldavam sua perfeita pintura de afeto ao vê-la. Estava sentada numa mesinha de canto e um conjunto de chá estava montado e preparado para duas pessoas. A cadeira a sua frente estava vazia.

A deusa a esperava. Devia estar ciente de sua chegada ao Mundo Inferior antes mesmo que tivesse pisado no solo seco e sem vida, graças aos muitos espiões que espalhara por todos os cantos do mundo.

Como raramente fazia, Andy quebrou o protocolo formal que regia as suas interações com sua progenitora e antes que pudesse ser cumprimentada, declarou, com um tom confiante que era incompatível com o nervosismo e caos de seu interior:

“Eu quero saber quem Catherine Burkhardt era para mim.”

Em qualquer outra situação, a reação de Melinoe seria cômica. Havia congelado com a boca meio aberta, com uma expressão de choque e indignação pela interrupção inesperada. Se é que era possível, pareceu empalidecer ainda mais. Quando recuperou-se — rapidamente e com o máximo de decoro — seu olhar carregava uma raiva gélida que fora destinada à semideusa em apenas 3 situações.

“Você falou com Afrodite?” O tremor que as curtas palavras da divindade causaram foi bem conciliado pela negra, que já era acostumada com a voz. Isso não a impediu de sentir medo.

Ainda assim, ergueu seu queixo e, ao responder, sua voz não vacilou.

Afrodite falou comigo.” Corrigiu delicadamente e seu bravado transparecia sua confusão. Por um longo tempo, as duas simplesmente se olharam em silêncio, como se medissem forças e esperassem para ver quem cederia primeiro. “Eu não entendo o que está acontecendo.”

Havia uma grande quantidade de coisas que Andy não entendia. Não compreendia os mortais e o jeito que eles interagiam entre si. Não fazia ideia do que a maioria deles falava, mesmo conhecendo múltiplas línguas. Não entendia o interesse repentino de Afrodite ou a irredutibilidade de Melinoe quando se tratava das origens da filha. Não era capaz de dar sentido aos vislumbres que vira da vida de Catherine Burkhardt e de que forma isso se encaixava em sua origem. Seria ela sua mãe?

Mais do que isso, a negra não conseguia se desvendar. Seus pensamentos, seus sentimentos, nada fazia sentido. Fugiam de seu controle, escapavam da razão. Desde que podia se lembrar, sentia-se incomodada consigo mesma. Como se algo dentro de si estivesse fora do lugar e fizesse ruídos quando era mexido da maneira errada. Ela era exatamente igual a todos os seres humanos que já conhecera; ainda assim, se sentia perturbadoramente diferente.

E alguma coisa em sua postura pareceu ter revelado mais vulnerabilidade do que planejara, pois, quase imperceptivelmente, notou que a expressão de sua mãe suavizou-se.

“Andromeda.” Disse a deusa e essa única palavra, seu nome, parecia representar uma ampla gama de emoções. Discordância. Medo. Raiva. Decepção. Amor. Derrota.

Andy esperou. E esperou mais um pouco. Não moveu um milímetro, embora sentisse as batidas fortes de seu coração acelerado em cada extremidade de seu corpo.

Por fim, Melinoe suspirou. Fechou os olhos e moveu-se, ajustando-se para estar diante da mesa. Com uma mão, indicou a cadeira oposta.

“Sente-se.”

Era isso. Teria as respostas que tanto desejava sobre suas origens. A negra andou, cada passo exigindo um excruciante esforço, pois suas pernas pareciam prestes a ceder. Era a primeira vez que desafiava sua mãe e uma parte de sua mente lutava para aceitar que a divindade havia cedido.

Uma vez sentada, o peso dos olhos de Melinoe caíram sobre si e Andy teve que conter o impulso de se encolher. Não ousou falar, com medo de que tudo aquilo iria se desfazer, que ela mudaria de ideia, mas não desviou o olhar. Ela tremia em antecipação, seu corpo parecia vibrar de puro nervosismo.

Quando a deusa falou, a quebra do silêncio a sobressaltou.

“Pergunte o que quer saber.”

Havia muitas coisas que a semideusa gostaria de saber. Por que você nunca fala sobre minha origem? Quem é minha segunda progenitora? Por que você me trancou aqui por todos esses anos? Por que tive que descobrir por Afrodite que tinha parentesco com outra divindade? Quem sou eu? Acabou escolhendo a mais simples de todas.

“Catherine é minha mãe?”

A senhora dos fantasmas ficou calada por tanto tempo que Andy começou a acreditar que a conversa se encerraria ali mesmo, antes mesmo de começar. E então, veio a resposta:

“Não”, outra pausa, tempo o suficiente para que desapontamento inundasse a mortal. “Você era Catherine Burkhardt.”

Foi como se todo o sangue de seu corpo tivesse congelado ao ouvir aquelas palavras. Esqueceu-se de respirar. Por alguns segundos, foi como se nem mesmo existisse. Não conseguiu nem mesmo rir em sarcasmo. A ideia de reencarnação por si só não era a fonte de seu choque — afinal, ela era filha da deusa dos fantasmas, era capaz de reconhecer almas reencarnadas num só olhar.

Seu estupor vinha de pura e inquestionável confusão, pois se antes achara ter uma pista de quem era, agora tudo isso fora por água abaixo.

“Ela morreu 16 anos atrás. Eu tenho 19. Não posso ser ela”, raciocinou a semideusa, quase inconscientemente. Sua mente tentava dar sentido àquela informação e encaixá-la nos mistérios acerca de sua origem.

Uma expressão de simpatia e desconforto no rosto de Melinoe a puxou de uma espiral de pensamentos cada vez mais descontrolados.

“Você nasceu há pouco mais de 15 anos.” A deusa respirou fundo e quando Andy abriu a boca para retorquir, ergueu uma mão para silenciá-la. E, então, prosseguiu, finalmente revelando a história de sua cria. “Pouco tempo depois da trágica morte de Catherine, Afrodite veio até mim. Ela estava devastada, desesperada. Queria a filha de volta. Eu não podia ressuscitá-la, como você bem sabe, nem mesmo nós, deuses, temos esse poder. Então, ela teve uma ideia.

“Afrodite sabia de meus… desejos. Que desejava por companhia. Ela disse que só precisávamos dar a alma de Catherine Burkhardt mais uma chance e ela seria de nós duas.” Andy escutava com atenção tudo o que sua mãe dizia, porém as palavras mal eram compreendidas. Sua cabeça zumbia, sua expressão era de puro choque. Melinoe não parou. “Juntas, nós fizemos você. Um corpo mortal para comportar a alma reencarnada de uma semideusa caída. Uma filha para nós duas.”

A postura da senhora dos fantasmas era impecável. Sentava-se com toda elegância de uma dama e, pelo jeito que se portava, podia muito bem estar discutindo o clima. Mas para alguém que a conhecia tão bem quanto a negra, a vulnerabilidade da admissão era tão clara quanto água.

“Eu não… o que… Mãe, eu não entendo o que você está tentando dizer.” Balbuciou Andy, embora seus olhos já ardessem e sua respiração ofegante anunciasse um ataque de pânico.

“Afrodite é sua mãe. Eu e Afrodite somos suas progenitoras. Não podíamos te dar imortalidade, não sem que os outros deuses descobrissem. Mas nós pudemos te dar vida.”

Uma sensação de traição e raiva emergiram na semideusa — se é que podia se chamar dessa forma —, como jamais sentira.

“Então você simplesmente… Mentiu para mim? Me escondeu aqui? E como eu posso ter nascido há quinze anos? Eu sou mais velha que isso! Você não está fazendo sentido!” A voz de Andy ia aumentando gradualmente, chegando ao ponto de quase gritar. Sua respiração estava cada vez mais vacilante, a ponto que Melinoe inclinou-se em sua direção, franzindo a testa em preocupação.

Uma das coisas que Afrodite falara surgiu em sua mente, junto com uma vaga lembrança de sua infância.

“A Ilha do Tempo. Afrodite disse que passou um tempo comigo lá. Essa foi a primeira vez que você me deixou sair do Submundo e só me deixou sair de novo depois de dez anos!”

“Cuidado com o tom, Andromeda”, avisou Melinoe, estreitando os olhos, o tom assumindo um ar de comando que era destinado aos seus espíritos. “Tenho sido indulgente nesta conversa, mas não se esqueça com quem você está falando.”

Antes que pudesse se controlar, Andy estava de pé.

“Estou falando com minha mãe, que mentiu e me trancafiou no mundo dos mortos por anos e manteve minha história em segredo por mais de uma década!” Dessa vez, a negra gritou, porém sua voz carregava mais desespero do que fúria. “Você me escondeu de minha outra mãe por todo esse tempo! Por que você fez isso?!”

Melinoe era conhecida por ser assustadora, ameaçadora e intimidante. Mas nunca, em momento algum, a descendente de Afrodite a vira erguer a voz. Isso nunca foi preciso. Um sussurro era o suficiente para dobrar qualquer um em submissão.

Mas foi a resposta dada em forma de um grito que calou por completo os protestos da semideusa e a surpreenderam tanto que até mesmo seu eminente ataque de pânico rescindiu.

“Você a amaria mais!”

Até Melinoe pareceu surpresa com seu descontrole. Pigarreando, a deusa ergueu-se e, como se flutuasse, cruzou o cômodo até parar ao lado do piano, uma mão delicadamente deslizando por cima das teclas, sem que som algum saísse.

“O que isso quer dizer?” A luta havia deixado a voz da negra, que observava a mãe a distância.

Uma risada vazia ecoou pelo cômodo.

“Ela a levou para a Ilha do Tempo uma única vez, usando a desculpa de que você precisava ter uma idade diferente ou outros começariam a desconfiar de nosso acordo. Uma única vez e, quando você voltou, não conseguia parar de falar nela. Quão bonita Afrodite era, quão gentil. Passou dias perguntando quando poderia vê-la novamente.” O tom de Melinoe era amargo e um tanto envergonhado, como se fosse doloroso admitir aquilo. “Ela me enganou. Soube naquele momento que eu a perderia para Afrodite. Você sempre a sentiu dentro de si, só não sabia o que era. Agora, olho para você neste momento e vejo que a perdi.”

Desde a primeira vez que vira Afrodite, sentia que havia algo de familiar nela, era verdade. Andy sempre sentira e notara certas habilidades que fugiam do escopo de Melinoe. Mas não conseguia compreender porque sua mãe estava tão certa de que seria abandonada e descartada no segundo que as duas se reencontrassem.

“Eu já testemunhei a intensidade do amor de Afrodite”, desta vez, a voz da senhora dos fantasmas foi tão baixa que a semideusa mal conseguiu escutar. “Não a culpo por desejá-lo.”

Tudo se encaixava na cabeça de Andy naquele instante. A razão de se sentir tão deslocada — reconhecia que sua alma havia reencarnado, porém não conseguia entender a sensação. Como não conseguia se integrar com os mortais com naturalidade, pois não era exatamente mortal. O porquê do interesse de Afrodite e das visões que mostrara — a morte de Catherine, sua morte. E, agora, compreendia o que motivou Melinoe a criar sua prole mortal no Mundo Inferior, escondida de mortais e imortais como se temesse tê-la arrancada de seus braços a qualquer segundo.

A negra nunca foi boa em demonstrações de afeto, puxara isso de sua mãe ctônica. Porém, com as memórias de Catherine, Koda e Maisie frescas em sua cabeça, e Melinoe com uma postura de derrota e conformidade tão evidente, o impulso foi mais forte.

Com três passos encerrou a distância entre as duas. Antes que a divindade pudesse reagir, abraçou-a , envolvendo-a de maneira desengonçada, por cima de seus braços e quase a empurrando para trás. Um som de confusão escapou os lábios da deusa, que permaneceu imóvel, porém Andy persistiu. Simplesmente a apertou com força, enterrando sua cabeça no espaço entre o pescoço e o peito dela.

Andy queria odiá-la, queria rebelar-se. Queria dar as costas para Melinoe e o Submundo e nunca mais olhar para trás. Mas havia visto e sentido, através de Catherine Burkhardt, quão inescapável e poderoso era um amor verdadeiro. A semideusa sabia que a amava. Como não poderia? Mas agora entendia porque a relação delas era tão fria: Melinoe nunca a deixara chegar perto demais, pois temia que ela fosse embora.

Por isso, ela segurou a mãe em seus braços, até que a postura da deusa relaxasse o bastante para que o aperto fosse correspondido, embora não em intensidade.

“Você tem que me deixar partir. Deixar que eu viva. Tem que me permitir amar você.” Andy quase não reconheceu sua própria voz, pois ela estava embargada pelas lágrimas que nem mesmo notou ter derramado.

Um leve aperto foi a resposta que recebeu.

Foi o abraço mais longo que a negra recebeu de sua mãe. Quando finalmente se afastaram, podia notar que o rosto da deusa estava rosado e seus olhos brilhavam e não encontravam os seus.

As mãos de Melinoe tocaram o rosto de Andy, sua pele mais fria e tão carinhosas quanto as de Afrodite foram.

“Suponho que passou do tempo de você conhecer, apropriadamente, sua outra mãe”, disse a divindade, de alguma forma soando tanto irritada como terna.

Pela primeira vez em sua existência, Andromeda Chiamaka se sentiu completa.

Observações:
Essa missão tem como objetivos principais conquistar legado completo em Afrodite e desenvolver a trama pessoal de minha personagem em conjunto com outros personagens do fórum, como Koda Smith e Maisie De Noir (vulgo Magnólia D'if). Sei que ficou uma missão absurdamente longa, porém senti que essa era uma história que tinha que ser contada de uma vez. Grande parte da CCFY se passa no passado, mais especificamente na vida de Catherine Burkhardt, uma filha de Afrodite e Mentalista de Psiquê. Por isso, não coloquei lista de poderes ou equipamentos: a parte da missão em que essas informações são relevantes se passam na vida da personagem cuja reencarnação é Andromeda Chiamaka. Acredito que tudo o que eu poderia falar sobre minha trama e mais um pouco se encontra na própria missão.



Andromeda Cath Chiamaka
YOU KNOW THAT I'D JUST DIE TO MAKE YOU PROUD
Andromeda Chiamaka
Andromeda Chiamaka
Filhos de Melinoe
Filhos de Melinoe

Idade : 19
Localização : Underworld

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Mensagem por Hades em Sex Nov 15, 2019 9:26 pm

Avaliação

Valores máximos que podem ser obtidos


Máximo de recompensa a ser obtida: 5.000 XP e 4.000 dracmas, 10 ossos

Realidade de postagem + Ações realizadas – 50%
Escrita: Gramática, erros, pontuação, coerência, concordância, etc – 20%
Criatividade/Estratégia em combate + inteligência – 30%

Koda
Realidade de postagem + Ações realizadas – 50%
Escrita: Gramática, erros, pontuação, coerência, concordância, etc – 20%
Criatividade/Estratégia em combate + inteligência – 25%

RECOMPENSAS: 4.750 XP e 3.800 dracmas, 10 ossos + Liderança dos Mentalistas

Comentários:
A principio o plot me intrigou um pouco, afinal eu não conhecia a trama do personagem e tudo foi fazendo sentido. Os descontos foram por conta de algumas confusões durante a missão, onde precisei de algumas leituras para compreender exatamente o que estava acontecendo com os personagens. De qualquer modo foi uma ótima ccfy, parabéns!

Andrômeda
Realidade de postagem + Ações realizadas -- 50%
Escrita: Gramática, erros, pontuação, coerência, concordância, etc – 20%
Criatividade/Estratégia em combate + inteligência – 30%

RECOMPENSAS: 5.000 XP e 4.000 dracmas, 10 ossos + Legado completo em Afrodite

Comentários:
Você escreve bem, não tenho pontos negativos a pontuar.

Com o legado completo você recebe uma consequência por um período de tempo.

Perturbação emocional: Durante 10 postagens em game on (com mais de 15 linhas) a personagem poderá sofrer pertubações emocionais que podem interferir diretamente no uso de seus poderes. (0/10)

Hades
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Deuses Olimpianos
Deuses Olimpianos

Localização : Importa? A morte ainda será capaz de te achar.

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