The Blood of Olympus
Para visualizar o forum é necessário estar cadastrado, por favor registre-se no rpg ou entre em sua conta. É necessário estar cadastrado para ver as informações contidas no forum. Lembre-se de usar nome e sobrenome, não se cadastrar usando nomes geralmente utilizados por Hacker. Exemplo: "Barum" "Hakye" e por ai vai. Bem vindos.

CCFY - Luxanna Crownguard Montgomery, The Devil Daughter

Ir em baixo

CCFY - Luxanna Crownguard Montgomery, The Devil Daughter Empty CCFY - Luxanna Crownguard Montgomery, The Devil Daughter

Mensagem por Luxanna C. Montgomery em Seg Jul 01, 2019 11:47 pm




Espaço destinado às CCFY e trama de Luxanna Crownguard Montgomery.

1. LedgerDomain (clica) - Data de acontecimento: entre Janeiro de 2016 e Janeiro de 2019; Após a invasão de Ezreal em sua casa, Luxanna reviveu sentimentos que achava que havia enterrado. Porém um misterioso portal para uma dimensão desconhecida a fará ver que quem vê cara não vê coração. O que a filha de Apolo fará quando isso for sentido na pele?

2. Neah (clica) - Data de acontecimento: entre os meses de Agosto e Setembro de 2019; Ninguém lida bem com a morte, e o assassinato de Erwin apenas contribuiu para a auto-destruição de Luxanna. Querendo passar um tempo sozinha, ela achava que seria sua melhor opção. Será mesmo? Ou algo a mais pode vir a acontecer com sua mente já em estado frágil?



Última edição por Luxanna C. Montgomery em Sex Nov 08, 2019 4:45 pm, editado 2 vez(es)


Take courage in the light
Luxanna C. Montgomery
Luxanna C. Montgomery
Feiticeiras de Circe
Feiticeiras de Circe

Idade : 18
Localização : Ilha Spa

Voltar ao Topo Ir em baixo

CCFY - Luxanna Crownguard Montgomery, The Devil Daughter Empty Re: CCFY - Luxanna Crownguard Montgomery, The Devil Daughter

Mensagem por Luxanna C. Montgomery em Ter Jul 02, 2019 12:02 am

CCFY


Ela viveu sua vida inteira perseguindo alguma coisa. Agora que coisa aparece a ela fica apenas um... vazio. Como você sente esse vazio?

✾✾✾✾✾✾✾✾✾✾✾✾✾✾✾✾✾✾

Londres, Janeiro de 2016

— Então ele era seu conhecido? — a voz grossa de Logan chegou aos ouvidos da semideusa de forma agressiva e intensa, fazendo a garota se encolher em sua poltrona. A toalha úmida sobre a cabeça tentava fazer parar a tontura que lhe atingiu depois de brilhar como um farol para distrair os empregados de seu padrasto e dar tempo para Ez fugir.

Aquele filho da puta lhe devia uma. Não, lhe devia a vida.

— Mais ou menos. É um amigo de infância, mas não o via a éons. — comentou de forma despretensiosa, abanando uma das mãos impacientemente. As bochechas infladas revelavam sua irritação com o garoto, mas ainda assim ela se sentia estranhamente... Estranha. O que era aquele sentimento que brincava em seu peito, lhe dando uma sensação de leveza e harmonia? — Ele disse que veio atrás de um receptáculo. Como se tivesse poder para bater de frente comigo e me levar embora.

Logan riu de forma escandalosa, o tom de voz trovejando no quarto de Luxanna. Enquanto o homem ria, a menina viu os músculos das costas de Levi, sob seu terno de linho extremamente caro, tencionarem de repente: ela sabia, obviamente, que sua segurança era o principal ponto para o garoto, afinal ele cuidava dela desde... Bom, desde sempre.

Erwin se limitou a unir as sobrancelhas em forma de protesto silencioso. Um suspiro saiu dos lábios de Montgomery, enquanto a cabeça era jogada para trás e os lábios se uniam em uma linha fina de repreensão. Não queria ter que discutir com seu padrasto sobre o garoto que, possivelmente, gostava – não havia certeza ainda em seus sentimentos, então ela sabia que precisava ficar calada ou seria bombardeada com perguntas as quais não estava com disposição para responder.

— Bem, irei relevar, Lux. Você não tem muitos amigos fora daqui, então considere isso um bônus. — o homem falou, fazendo com que a semideusa sentasse direito na poltrona e encarasse o padrasto. O semblante sério dele demonstrava que havia muito mais do que o significado das palavras ditas anteriormente. — Mas não quero mais vê-lo nessa casa sem que seja convidado formalmente. Na próxima, eu mesmo irei enchê-lo de furos.

E, com as palavras finais, o Papa Montogmery levantou-se de onde estava sentado e caminhou até a enteada, beijando-lhe a testa coberta com a toalhinha branca costurada com fios dourados e lhe desejou boa noite, saindo do quarto da garota em seguida. Piscando algumas vezes, as íris claras foram da porta, que fora fechada assim que o homem passou por ela, e foram até seus guarda-costas, passando de um para o outro de forma questionadora. O que fora aquilo, afinal de contas?

— Não me pergunte. — Erwin falou enquanto dava de ombros. Levi apenas repetiu o gesto. O loiro, então, voltou-se para a garota e ajoelhou-se a seu lado, tomando uma das mãos pequenas e segurando-a de maneira firme. — Princesa, o que fez foi perigoso. Johan apareceu com você completamente desacordada, foi trabalhoso explicar aquilo para o Papa. Ele se preocupa muito com você, precisa ter mais consciência da sua posição.

Lux abaixou o olhar em vergonha, não exatamente pela “bronca” em si, mas sim por que sabia que o loiro tinha razão. Da dupla que lhe acompanhava, Erwin era a agulha da razão, enquanto Levi era a da ação, e os dois se completavam muito bem – não que o moreno não fosse inteligente, na verdade era até demais, mas ele preferia a porradaria em vez da diplomacia. Geralmente essa parte ficava com o Smith.

— Eu sei. — a loira falou enquanto se ajeitava na poltrona, jogando as pernas por cima de um dos braços e apoiando as costas no outro, fechando os olhos em cansaço. Ela sabia, era um fato, mas saber e agir são duas coisas completamente diferentes: na hora da emoção, você não pensa se sabe, você apenas age. — Mas Ezreal foi um amigo de infância muito querido por mim. E meu primeiro amor. Argh, nunca pensei que teria algum sentimento como esse.

— Um sentimento normal, eu presumo. — Erwin sorriu gentilmente e então ficou de pé, estendendo a mão para Luxanna, que aceitou sem hesitar. Logo a moçoila foi puxada sob suas pernas e, então caminhou até sua cama, largando-se na mesma. O macio das cobertas quentes logo se fizeram presente em sua pele pálida, a sensação de conforto tomando conta de seu corpo exausto. Lentamente as pálpebras foram se fechando e então deixou-se cair nos braços de Morfeu.

*********************

Quando acordou no dia seguinte, sentia-se uma jovem dama renovada. Sentando-se na cama, levantou ambos os braços a fim de se espreguiçar e sorriu para si mesma ao ver, em cima de seu criado mudo, um croissant e café que, estranhamente, estava quente.

“Para matar sua fome momentaneamente. Vamos sair para comer algo assim que acordar. Levi”

— Muito obrigada, Levi. — a semideusa suspirou enquanto comia. Como o jovem Ackerman sempre sabia seus horários, para levar a comida ainda quente para si? Montgomery deu de ombros: ora bolas, ele cuidava de si desde que a loira era uma menininha que corria para todos os lados da mansão, então era mais do que óbvio que ele saberia muitas coisas sobre ela.

Depois de comer e beber, Lux jogou-se para fora da cama e caminhou até o banheiro, indo em direção a seu chuveiro e, após despir-se, entrou debaixo d’água quente, sentindo seus músculos relaxarem na hora. Não sabia que horas eram, e na verdade nem queria saber, mas pela posição das sombras da pia e da banheira estilo retro que havia ali a feiticeira imaginava que seria de tarde já. Molhou os cabelos e sentiu-se muito bem ao sentir o cheiro da baunilha mesclada com morango de seu shampoo exótico que Logan trouxera da França na semana passada.

Enquanto sentia a água cair sobre o corpo, lembrou-se de Ez. Uma memória antiga, vinda lá de sua infância, logo começou a brincar em sua mente, fazendo a loira fechar os olhos com força.

— Ah não...

“Lux estava abraçada com o gatinho enquanto corria pela calçada, tentando achar um local seguro para deixar o animal. Havia um pouco de sangue saindo do bichinho e os garotos atrás de si pareciam não querer deixá-lo em paz.

— Não se preocupe, gatinho. — dizia, mesmo que fosse mais para ela mesma. Era novata em Londres, havia se mudado apenas a poucos dias e já havia se perdido de seus guarda-costas, o que deixaria sua mãe apreensiva e preocupada e seu padrasto zangado (não com a menina, mas sim com Erwin e Levi que a perderam de vista).

Enquanto corria a criança não percebeu aonde ia e, de repente, se enfiou em um beco com caixas e tábuas, arranhando o braço enquanto passava por aquele lugar e se escondia atrás de uma pilha de entulhos. O respirar pesado demonstrava o quanto estava exausta de tanto correr, os olhinhos arregalados revelavam o medo que sentia de estar ali sozinha.

— Papai vai se zangar... — murmurou enquanto começava a chorar sozinha, mas parando de repente: passos puderam ser ouvidos, e eles vinham em sua direção. Lágrimas involuntárias começaram a cair novamente, o soluço sendo segurado com certa dificuldade pela pequena, e então uma cabeleira loira entrou em seu campo de visão.

Não era nenhum dos garotos anteriores, era um diferente. Os fios dourados estavam levemente arrepiados, os olhos azuis pareciam brilhar com demasia intensidade, de uma maneira quase hipnótica, exatamente como o céu de primavera de Louisiana, cidade natal de Lux. Usava roupas simples: uma calça bege, uma camiseta verde e um colete marrom, enquanto um par de óculos de explorador descansava no topo da cabeça.

— Hey, está perdida? — perguntou, as íris percorrendo por todo o corpo de Luxanna e arregalando os olhos ao ver o sangue. A garota o viu abrir a boca, provavelmente para perguntar algo, e então ele voltou o olhar para o colo da menina. — Ah. Ok, pelas roupas que está usando eu acredito que não seja do subúrbio, não? Beleza. Vou te levar de volta.

O guri estendeu a mão e mais do que depressa Crownguard – e daqui uns dias Montgomery – aceitou, sendo colocada de pé. As duas crianças começaram a caminhar de mãos dadas, indo em direção à saída do beco.

— Qual o seu nome? — ele perguntou enquanto caminhavam pela rua, estendendo a mão livre para o gatinho no colo de Lux. Depois de alguns segundos de hesitação ela cedeu e entregou o bichano para o desconhecido, que o aconchegou dentro de sua bolsa lateral, idêntica à de Indiana Jones.

— Lux... E o seu?

— Plumaluz. Mas pode me chamar de Ezreal...”


Luxanna abriu os olhos depressa, balançando a cabeça e jogando água para todos os lados do box a fim de afastar aquelas memórias. Não, não remoeria o passado novamente e não ficaria presa à Ezreal ou às lembranças daquele garoto imbecil: aquilo estava sepultado sobre a mais resistente lápide de mármore e não se permitiria amar novamente, não depois de tudo que passou para conseguir seu lugar como próxima “Papa” da Família.

Suspirou e finalizou seu banho, já que estava tempo demais ali, e vestiu algumas roupas casuais: uma camiseta branca com corvos desenhados, um short preto de cintura alta, seu sobretudo preto, meias de cano alto e o coturno militar. Os cabelos molhados estavam soltos e, sobre a cabeça, um chapéu preto com uma única listra azul. Indo até a cômoda, a jovem Montgomery pegou o anel da Família, colocando-o no anelar: o prateado do metal combinava perfeitamente com a safira cravada no topo, o brasão da família desenhado no interior da pedrinha preciosa era visível.

Não havia uma pessoa que não conhecia a Família Montgomery em todo o Reino Unido – e talvez até mesmo na Europa -, já que além de serem chefes de máfia do submundo inglês e resolver os problemas da Coroa Inglesa desde 1783 tanto no submundo quanto no mundo normal, o domínio de negócios entre a Inglaterra e o mundo exterior se dá através deles. Logo, Luxanna era próxima à Família Real Britânica e não apenas isso, era tratada quase como uma princesa por qualquer morador inglês.

Colocou ambas as mãos no bolso do sobretudo e olhou-se no espelho de parede gigante que havia em uma das laterais de sua cama, no lado oposto às grandes vidraças que davam para a sacada. Seu visual estava dentro do comum, então apenas deu de ombros e se preparou para sair do quarto.

Infelizmente algo ali a travou. Virou-se na direção de sua cama e, sobre a mesma, viu um círculo cor de rosa começar a se formar, tomando a forma de uma espiral que parecia a Via Láctea, mas com uma diferença enorme: estava carregada de magia. E como Montgomery sabia? Bem, digamos que toda a feitiçaria, sua “Maldição de Bruxa”, começou a se agitar dentro de si exatamente como o mar em dia de tempestade.

Por alguns instantes aquilo foi doloroso, já que a magia queria sair de qualquer forma, procurando por um “escape” do corpo da menina. Aquilo era demais, um chamativo enorme e então a curiosidade, a melhor qualidade e o pior defeito de Lux, falaram mais alto, a fazendo se aproximar devagar até estar perto o suficiente para tocar aquele treco rosa.

Erguendo a destra, o indicador logo tocou aquela espiral. E então a garota sumiu.

********************

Mansão dos Montgomery, 16h32min – Visão de Levi Ackerman

Ver a Princesa e o primeiro amor platônico de sua vida a frangalhos da exaustão fez com que uma fagulha de raiva brincasse no peito do garoto. Luxanna havia, simplesmente, usado de seu poder até cair para salvar um Zé Ninguém e aquilo foi o suficiente para que o jovem Ackerman odiasse esse tal de Ezreal sem nem menos o conhecer.

Qualquer um que tentasse fazer mal à Princesa seria punido com a morte.

— Está tenso. — a voz de Erwin soou nos ouvidos de Levi de maneira firme, mas ao mesmo tempo preocupada. Os dois estavam no mesmo trabalho desde... Bem, desde que se lembram, sendo seguranças pessoais do Papa e depois se tornando cuidadores de Lux.

Ele ainda sem lembrava de quando a garota chegara à Londres junto Elaena Montgomery, a nova noiva de Logan. O chefe nunca fora casado, mas aparentemente havia se apaixonado pela mulher em sua viagem aos Estados Unidos e então trouxera ambas para morar consigo na Inglaterra. E, consequentemente, deixou tanto Erwin quanto Levi de babás da pequena criança, na época com cinco anos.

No começo aquilo não alegrou o rapaz. Em seus 16 anos, cuidar de uma criança não lhe era a melhor coisa a se fazer, ainda mais depois de todo o treinamento que recebeu para se tornar um excelente guardião das costas de Logan – e ser promovido a esse cargo de confiança apenas pela colocação de Erwin. Porém, durante seu primeiro passeio com a garota, ela simplesmente desapareceu.

Uma situação desesperadora, diga-se de passagem, não apenas por parte dele, mas também por parte de Smith, que mesmo que não tenha se deixado abalar fisicamente o olhar já dizia tudo: estavam ferrados. Elaena teve que ser acalmada por Logan, que lançou um único olhar para a dupla e que não precisaria de explicações: deveriam encontrar a menina ou seriam homens mortos.

E eis que surge, após pelo menos uma hora de procura e acionamento da polícia, a pequena Luxanna caminhando junto a um garoto, de mãos dadas. Se não fosse por Erwin, a vontade repentina de chutar o moleque que ousara tocar na Princesa seria realizada: ela estava machucada, mas aparentemente não era culpa do garoto que, após algumas explicações, conseguiu se livrar de tomar uma surra.

Um suspiro saiu dos lábios de Ackerman enquanto fechava os olhos e lembrava-se da garota desmaiada nos braços do amigo. Ambos haviam levado-na para o quarto por ordem do Papa, para deixá-la descansar antes de começarem a investigar as câmeras de segurança e ver quem havia deixado o rapaz que tentara lhe roubar entrar. Certamente alguém perderia a cabeça.

Depois daquela conversa que tiveram ontem à noite, simplesmente a deixaram dormir e agora, quase três horas da tarde, Luxanna ainda não havia acordado. Porém, por algum motivo, ele sabia que ela estava prestes a levantar, por isso segurava a bandeja com o croissant, o café e o bilhete. Ia deixar no criado-mudo ao lado da cama da menina.

— Quem deixou o pivete entrar? E quem era ele? São perguntas sem respostas e que me deixam puto. — o estalo de língua mostrava sua irritação, o que era uma coisa bem plausível, até também por que o semblante do loiro ao seu lado tornou-se sério de repente.

— Aparentemente foi uma das empregadas. Certamente ela será mandada para a rua. — os dois pararam de caminhar e se olharam antes de Erwin suspirar e finalmente voltar a falar. — A Princesa falou a respeito do receptáculo. Estou certo de que isso tem a ver com os Arcana.

— Se eles encostarem em um fio de cabelo de Lux, serão pessoas mortas e sabe disso. — a voz carregada de raiva não passou despercebida por Smith, que se limitou a sorrir para o moreno. Levi sabia que aquele sorriso não era de deboche, e sim de reconforto por finalmente o rapaz ter achado sua luta: manter a tão amada filha adotiva e a única lembrança de Elaena do Papa a salvo.

Todos da Família amavam Luxanna, era um fato inegável, assim como todos estavam dispostos a lutar por ela, pois sabiam que a única capaz de acalmar os ânimos de Logan era a loira. Ainda mais quando o mesmo insistia em querer matar um dos membros por alguma cagada ou algo do tipo, afinal a jovem intercedia por todos eles. Literalmente falando, eram uma família.

— Vou levar isso pra ela. Acredito que não deva demorar a acordar, quero levá-la ao restaurante favorito dela.

— Está apaixonado, Levi? — Erwin brincou, dando uma risadinha de canto de boca, mas voltando à feição séria quando não obteve uma resposta. Ackerman apenas lhe deu as costas e caminhou em direção às escadas do terceiro andar, pronto para ir até o quarto da Princesa e deixar o que preparou para ela.

Não se demorou muito, afinal não queria ser pego ali dentro sem a autorização formal da mesma, mas assim que entrou não conseguiu não admirar a visão que teve. Os raios solares que adentravam pela única fresta dos blackouts das vidraças, somado à lua suave do abajur caríssimo importado da Rússia enfeitado de rendas brancas com desenhos de Matrioshkas, deixavam a pele da menina ainda mais clara do que o normal.

O cobertor egípcio a protegia dos 19° que fazia ali dentro do cômodo, e cobria o corpo da loira até a altura da barriga desnuda graças ao fato de a camiseta do pijama ter levantado com a movimentação da noite. Deitada de lado, um dos braços estava sob o travesseiro enquanto o outro abraçava Lucy, a boneca de pano que ganhara da mãe quando tinha sete anos – e que estava bem conservada para um brinquedo com mais de 10 anos. Os fios loiros estavam espalhados pelo travesseiro, o ressonar do sono e o respirar calmo demonstravam que ela deveria estar sonhando com algo bom.

Bem, o sorriso mínimo que deu comprovava isso, embora o “Ezreal” murmurado que saiu dos lábios entreabertos da garota não tivesse agradado nem um pouco o jovem Ackerman. Deixando as coisas sobre o criado mudo entalhado em madeira de cedro, ele saiu do quarto da menina e ficou parado à porta, cumprindo seu papel de guardião de Montgomery.

Depois de um tempo que lhe pareceram horas, embora tenha sido apenas uns dez minutos, Levi escutou a voz de Luxanna ao agradecê-lo. Provavelmente seria pelo café e pelo croissant, então sorriu em satisfação e esperou por mais alguns minutos ali antes de, após quase uma hora de espera, resolver entrar. E qual foi sua surpresa ao ver que o quarto estava vazio.

O coração apertou e então ele começou a procurar no quarto, mas sem sucesso: Lux havia desaparecido no ar e sem deixar vestígios.

— Ah merda. Como vou explicar isso para o Papa?

********************

Local Desconhecido, horário desconhecido – Visão de Lux

Lux abriu os olhos devagar, sentindo o frio em seu corpo passar por suas roupas. Erguendo-se devagar, notou que estava deitada em um chão de pedra e então sentou-se cruzando as pernas e observou o céu acima de si que – surpresa, surpresa – era rosa. Assim como o céu azul terrestre ele parecia ser infinito, muito embora sua cor fosse anormal. Onde estava?

Descruzou as pernas e ficou de pé, notando que o chão que estava na verdade era um caminho e que existiam outros iguais aquele: suspenso no ar, indo para qualquer lugar naquele universo desconhecido por si. Mas o que havia ali de diferente era a magia: a aura mágica da feiticeira parecia vibrar em seu mais puro estado de êxtase, exatamente como havia acontecido em seu quarto com aquele vórtice cor de rosa.

— Que lugar é esse? — perguntou em voz alta, embora fosse mais para si mesma do que para qualquer outra coisa ou pessoa. Não sabia se existia algum tipo de ser ali, então tudo que restava era procurar por qualquer forma de vida que pudesse lhe ajudar.

Qualquer um, qualquer coisa. Não podia se dar ao luxo de ficar ali por muito tempo, afinal tinha que voltar para casa, para junto de seu pai e a Família. Levi e Erwin ficariam preocupados com seu sumiço e certamente Logan ia dar cria quando descobrisse que não estava mais em casa. Ah cara, que droga!

A semideusa olhou para todos os lados a fim de tentar achar algum tipo de sinal ou identificação de saída, mas infelizmente não conseguiu ver nada que a ajudasse a ir embora, então apenas se pôs a caminhar assim que escolheu um dos lados para seguir. Direita.

Não soube por quanto tempo andou, mas estranhamente não se sentia cansada. Talvez fosse a atmosfera mágica lhe dando energia de sobra, mas não se arriscaria dizer, uma vez que não tinha certeza de muitas coisas ali. Felizmente nenhum ser pertencente ao local veio lhe atacar, mas infelizmente nenhum ser pertencente ao local veio lhe atacar, pois caso isso acontecesse podia pelo menos pedir informação sobre onde estava e como sair dali.

Suspirou em derrota. Não estava chegando a lugar algum.

— Um distúrbio no maana do universo e descubro que é só uma garotinha. — uma voz soou atrás de si, fazendo-a se virar na direção do dono do timbre e qual foi a sua surpresa ao ver que se tratava de uma tartaruga. Não, aquilo não era um simples quelônio, mas sim uma das Tartarugas Mutantes Ninja devido seu tamanho.

Alta, com uns dois metros de altura ou talvez mais. Sua barriga possuía algumas aberturas no formato de um círculo, totalizando dez – cinco maiores exteriores, cinco menores interiores-, as nadadeiras pareciam resistentes para sobreviver à vida fora d’água e bem... Ela tinha olhos completamente negros e usava uma runa púrpura no pescoço.

— O que faz aqui, garotinha? — a tartaruga perguntou enquanto se aproximava, fazendo com que Luxanna recuasse um passo instintivamente. — Não vou machuca-la, eu prometo.

— Sinto muito por não confiar tanto assim em você, mas não te conheço. — a menina simplesmente falou com tom de voz ameaçador, a fim de esconder seu medo e sua vontade de sair correndo. Aquilo era uma tartaruga gigante que falava, poderia ficar mais estranho? — Quem é você, e que lugar é esse? Por que você é uma tartaruga, e por que raios você está falando?

O bicho deu uma risadinha sem graça, como se o fato de Luxanna tê-lo chamado de tartaruga fosse ofensivo. Bem, ele era uma tartaruga, não? O que havia de errado em chama-lo assim? Então o “monstro” ergueu uma das nadadeiras e apontou para cima, descrevendo um arco com ela e levando-a ao peito, reverenciando a menina.

— Meu nome é Adwaita. Eu sou um “Geochelone Aerios”. Eu sou o mestre desse lugar, a terra da magia. Você está em LedgerDomain.

Luxanna piscou algumas vezes antes de balançar a cabeça negativamente e sentar-se no chão cruzando as pernas, na posição de índio, apoiando os cotovelos nos joelhos e levando as mãos à cabeça. Certo, aquele ser à sua frente, Adwaita, poderia estar mentindo, não?

— Não é uma mentira, Luxanna Crownguard. Ou deveria usar Montgomery? É esse que você usa atualmente, não? — a tartaruga falou novamente, respondendo a seu questionamento mental. Não conseguiu disfarçar a surpresa no olhar quando levantou a cabeça para encará-lo, fazendo-o rir. — Sou um mestre em magia, senhorita, e mestre desse lugar.

— O que é exatamente esse lugar?

— Como eu disse, é a terra da magia. O LedgerDomain é um domínio para poucos, pois daqui flui todo o maana do universo. Garotas mágicas, como você, conseguem adentrar esse território caso sejam merecedoras do conhecimento místico. — Adwaita ofereceu a nadadeira para Lux, que aceitou, e logo foi colocada de pé. — Aqui, tempo e espaço não são conectados. Tudo é fluido. Tudo é maana. Tudo é magia.

Montgomery assentiu com a cabeça. Ela não estava 100% convencida, mas bem, ela era uma semideusa então coisas estranhas aconteciam direto com ela. Não deveria nem ter ficado chocada com a aparência de Adwaita, seu instrutor de atividades era um cara metade homem, metade cavalo. Nas florestas ela podia ver ninfas, além de sátiros, náiades e, nos fundos de sua casa, já viu até mesmo algumas fadas inglesas – fora os leprechauns que viu quando foi à Irlanda com Logan.

— Então, senhorita Luxanna. Como veio parar aqui?

— Pode me chamar só de Lux. — a arcana abanou a mão como quem não quer nada e viu a tartaruga acenar com a cabeça. Respirou fundo pelo nariz e soltou pela boca, passando as mãos pelos cabelos de maneira nervosa. — Um vórtice rosa apareceu no meu quarto. Como estava carregado de magia, eu fiquei curiosa. Toquei nele, e acordei aqui.

— A curiosidade não é um defeito, sabe? Mas se não medida, pode ser perigosa. — Adwaita falou enquanto apontava para um lado do caminho. — Venha comigo, Lux. Acredito que sei os motivos de estar aqui. O LedgerDomain escolhe as pessoas que deixa entrar, e não o contrário, embora possa acontecer se a entrada for forçada.

A tartaruga, então, começou a andar na direção apontada e como não queria ficar perdida ali para todo o sempre, a arcana seguiu o bicho. Talvez não fizesse mal confiar um pouco mais em outras pessoas que não fosse sua Família, principalmente por que ele era o Mestre daquele lugar, então talvez soubesse como lhe mandar para casa.

Caminharam em silêncio por algum tempo, embora Lux não soubesse dizer exatamente quanto havia sido: o céu era todo rosa, não havia nem sol, nem lua e nem estrelas para lhe dizer se ainda era dia ou se já era noite. Ela podia estar desmaiada ali há mais de um dia, mas infelizmente essa era uma pergunta que não saberia responder.

Soltou um suspiro pesado, imaginando o caos que teria se instaurado em sua casa quando abrissem as portas de seu quarto e não a vissem por lá. Levi e Erwin iriam surtar, não mais do que Logan: seu padrasto ia causar o inferno na Terra quando fosse alertado que sua preciosa enteada havia sumido. Não só eles, não sabia se Circe faria algo a respeito desse fato, afinal como seguidora da deusa feiticeira ela devia todas as satisfações para sua patrona e sua líder.

Se não desse, não sabia o que poderia acontecer.

Enquanto continuava caminhando, observou atentamente o lugar. Das estradas de pedras suspensas no nada, eles passaram para uma floresta de árvores secas e retorcidas, sobre uma superfície mais plana e aparentemente mais resistente e maior, como se fosse uma ilha flutuante. A estrada levava a uma clareira e nela sim havia um jardim sob uma cúpula púrpura, como se estivesse sendo protegido de algo ou alguém.

Ao adentrar a cúpula, seguindo Adwaita assim que o mesmo tocou com a nadadeira na barreira e lhe abriu passagem, ficou impressionada. Um castelo feito de pedras completamente diferente das pontiagudas que haviam do lado de fora se erguia majestoso e impressionante, os tons terrosos combinando com a paisagem rústica que lhe era apresentada.

Árvores e mais árvores rodeavam o local, desde pinheiros até sequoias, flores e mais flores de diferentes tipos faziam parte dos canteiros e um lago podia ser visto. Da mesma forma que do lado de fora da barreira, o céu era cor de rosa, o que impossibilitava saber se era dia ou noite, mas sinceramente falando? Aquilo era mais do que incrível.

— Caramba. — falou, os olhos brilhando. — Como tudo isso apareceu aqui? Já era assim, ou você fez ficar assim?

— Eu quem deixei assim. — a semideusa sentiu uma mão em seu ombro e, ao se virar, viu o homem mais bonito que conseguia imaginar. Alto, com madeiras escuras e olhos azuis cintilantes, aquele ser era Adwaita? — Sim, sou eu.

A antes tartaruga agora era um humano normal. Usava uma camiseta preta colada, deixando seus músculos à mostra, e um sobretudo branco com pelos fofos nas saídas das mãos e no pescoço. A calça jeans era despojada e levemente desbotada, e nos pés havia um tênis bonito. No pescoço, aquele colar com a runa púrpura ainda estava ali.

— Acho que manter essa aparência seja melhor do que a de tartaruga, não? — perguntou, fazendo a garota concordar com a cabeça. — Bem, caso esteja se perguntando, eu posso assumir a forma que eu desejar graças a essa coisinha aqui. Isso é a Runa Alfa. — segurando a runa nas mãos, Adwaita mostrou-a para a arcana.

Apesar de levar o nome de Runa Alfa, Montgomery a achou mais parecida com uma pedra preciosa. Entalhada nela havia apenas uma palavra que, por mais que não soubesse pronunciar muito bem, sabia o que significava. Magia. O Tudo Arcano. Se com aquilo aquele projeto de quelônio conseguia fazer tudo que queria ali dentro, o que será que poderia fazer lá fora, no mundo real?

— Ah, muito mais do que imagina, srta. Luxanna. Mas a Runa Alfa nunca deve deixar o LedgerDomain. Coisas ruins podem acontecer caso isso ocorra, como a destruição do mundo inteiro. — Adwaita estendeu a mão na direção da moça, que a aceitou prontamente. — Venha, vou lhe mostrar o castelo.

********************

Lux havia perdido a noção do tempo completamente.

Ela não sabia há quantos dias estava ali, nem que horas eram ou coisas relacionadas ao tempo em si no propriamente dito. Tudo que ela sabia era que estava amando aquele lugar mais e mais, afinal toda a magia conseguia deixa-la muito bem fisicamente. Seus cabelos, antes na metade das costas, agora estavam um pouco abaixo do bumbum e pareciam mais brilhosos e sedosos do que nunca.

Sua vitalidade estava muito melhor, assim como sua magia e até mesmo sua personalidade. Desde que chegara ali ela estava treinando com Adwaita a como controlar suas emoções e temperamento, assim como controlar seus poderes de feiticeira, aprimorando palavras e movimentos.

Bem, o lugar lhe era agradável também. Extremamente seguro, a área do castelo foi explorada por Montogmery, sem deixar escapar um cantinho sequer para bisbilhotar. Agora, ela conhecia cada canto, cada pedra, cada passagem secreta que levava de uma ponta a outra.

— Como está a comida, Lux? — o homem à sua frente perguntou enquanto segurava uma taça de vinho, os cabelos caindo pelos ombros fortes de forma sexy. Tentava não pensar em coisas inapropriadas para com o seu mentor mágico, mas a visão que possuía era impossível esconder os pensamentos. Dava graças aos deuses que conseguira aprender a bloquear a mente naquele lugar, ou senão Adwaita já teria descoberto seus sonhos impuros.

Nesse tempo todo que ficou ali ela descobriu que, na verdade, a tartaruga era de uma civilização antiga, que foi amaldiçoada pelos deuses a virarem quelônios por terem desrespeitado Poseidon ao darem para ele, como oferenda, sopas e objetos feitos com o animal. Furioso, o deus dos mares transformou o povo de Adwaita em homens tartarugas pela eternidade.

Foi-lhes dado, também, o dom da eternidade, para que sempre se lembrassem de seu erro e para que nunca mais o cometessem. Abatido pela tristeza, seu mestre fugiu do restante de seu povo, indo em direção ao mar, e foi lá que encontrou a Runa Alfa, que lhe transportou para o LedgerDomain. Dominar a arte da magia foi uma tarefa árdua, mas que aprendeu após o primeiro milênio e, depois que a dominou completamente, ergueu aquele lugar, assim como conseguiu sua forma humana de volta, mesmo que somente dentro do domo púrpuro.

Era um passo, não?

— Está ótima, como sempre. — a arcana sorriu ternamente, levando o garfo com pedaços de frango aos lábios. Ok, talvez não conhecesse todos os mistérios do castelo, afinal não sabia como Adwaita fazia para conseguir a comida dali, então seria algo que tentaria investigar de novo. Sim, investigar, já que ele sempre dizia que as respostas prontas não lhe fazem ir atrás delas, ou seja, se você consegue algo de mão beijada significa que não buscou aprender o que realmente aquilo significa ou é.

O quelônio dizia que isso limitava a busca por conhecimento.

E Luxanna concordava, pois fazia todo sentido.

Terminaram a refeição em silêncio cômodo, e então os pratos foram retirados magicamente da mesa. Colocando-se de pé após empurrar a cadeira suavemente, a jovem feiticeira ajeitou a camiseta dos Rolling Stones que usava e começou a se retirar do salão, porém sentiu a mão de Adwaita em seu ombro, virando-a rapidamente e tão logo os lábios dele estavam colados nos seus, um beijo faminto e urgente.

Não ia negar que sempre sonhou em beijar seu mestre, mas sempre achou que essa atitude partiria dela e não dele. Piscando algumas vezes, a jovem Montgomery finalmente recobrou o pouco de juízo que tinha e deu um leve empurrão no homem, afastando-o de si com surpresa.

— Eu precisava fazer isso. — o moreno falou com um pequeno sorriso nos lábios. O olhar da feiticeira estava vidrado nos dele, então talvez o homem não conseguisse notar as maçãs do rosto vermelhas como sangue e a respiração descompassada e rápida.

— Se for fazer isso, não ouse parar no meio do caminho... — ela murmurou enquanto se aproximava e erguia o rosto, ficando na ponta dos pés a fim de aproximar seus lábios dos dele. Foda-se o juízo.

********************

Deitada na cama de seu mestre. Era assim que Luxanna estava: nua e embalada nos braços de Adwaita de forma quente e confortável, enquanto escutava o ressonar suave do homem com quem acabara de ter o melhor sexo da sua vida. O peito da garota subia e descia, agora, de forma calma e controlada, completamente diferente de antes.

Levou ambas as mãos ao rosto dele, alisando-o com os dedos e sentindo todos os detalhes, desde os cílios grandes demais para um homem até os lábios medianos e macios. Tudo lhe era convidativo, e então começou a se perguntar se não estava sendo influenciada demais pelo LedgerDomain.

Talvez estivesse se esquecendo de quem realmente era. Talvez estivesse ali a mais tempo do que pensava que estava. Era fato que havia mudado, e muito, sua personalidade: estava menos dura e mais gentil, paciente e amigável. Estava, talvez, se transformando em uma boa pessoa, deixando para trás sua personalidade frívola e esquentada de Luxanna Crownguard Montgomery, a Princesa da Família e cobradora de dívidas mais famosa no submundo europeu.

Soltou um suspiro pesado e sentiu um arrepio na espinha quando um dos dedos de Adwaita começou a alisar sua coluna, aproximando-se de seu bumbum.

— Já está acordada? — ele falou, dando um sorriso torto que tirou o ar dos pulmões da feiticeira e então lhe roubou um beijo terno. — Deveria descansar.

— Estou bem, de verdade. — comentou com um sorriso de lado, mas soltando um bocejo logo depois. O homem riu e abraçou a garota mais forte, enterrando o rosto dela em seu peito e cantando uma música desconhecida por ela. E, então, o sono veio.

Ao abrir os olhos, Lux se viu diante de um espelho.

Só havia ela e o objeto ali, nem mesmo uma boa iluminação já que somente havia luz sobre os dois, enquanto o fundo púrpuro se encarregava de deixar o ambiente sombrio e morto. Aproximou-se devagar e então viu ali uma garota que não era a própria Montgomery: longos fios prateados se faziam presentes em sua cabeça e era impossível não notar os lábios pintados de preto.

O vestido púrpuro delineava muito bem a silhueta magra e alta, enquanto uma bolsinha presa à cintura se encarregava de finalizar o visual de bruxa da menina, junto à leggin e as botas pretas como o breu. Um sorriso brotou nos lábios da garota, quase que satisfatório.

— Então você é a próxima trouxa.

— Perdão? — Luxanna colocou ambas as mãos na cintura, indignada com o tom de voz nojento e o nariz empinado da desconhecida. — Me escuta aqui, nem sei quem você é, ok?

— Me chamo Encantrix, e eu sou uma bruxa. Assim como você, eu presumo, já que está aqui. — a platinada falou enquanto se sentava no chão inexistente do espelho. — Por isso eu estou dizendo: você é a próxima trouxa.

— Não estou entendendo. — Montgomery repetiu o gesto de Encantrix, sentando-se no chão de frente ao objeto e ao reflexo da garota, e encarando-a intensamente. — Por que está me dizendo isso?

Encantrix riu com gosto, como se a confusão da semideusa lhe fosse um deleite a ser aproveitado. Duas coisas poderiam estar acontecendo ali: ou a garota estava blefando e aquilo era realmente só um sonho, ou ela queria lhe dar um aviso sério sobre o que estava acontecendo. Mas o que era esse acontecimento, ela não sabia.

E estava doida para descobrir.


— Deixe-me adivinhar, você se apaixonou pelo Adwaita, não é? — a platinada perguntou enquanto erguia uma sobrancelha e fazia as bochechas de Montgomery pegarem fogo. — Eu sabia. Esse foi seu pior erro. Ele não é o santo que mostra ser: é um ser que absorve magia, um ser maligno.

— Está mentindo. — a feiticeira disparou imediatamente, irritada com aquela conversa com Encantrix. Quem ela pensava que era para falar essas coisas do homem que lhe acolheu ali, uma pessoa amaldiçoada que estava tentando fazer coisas boas? Não, aquilo estava errado.

— Estou é? O LedgerDomain lhe faz bem, não? — a outra retrucou. — Estou presa à Runa Alfa há mais de 150 anos, tudo por que acabei ficando aqui com aquele homem. De qualquer forma você vai perceber, mais cedo ou mais tarde, e então tudo fará sentido. — e então o mundo da filha do sol ficou completamente negro como a noite.

Quando abriu os olhos novamente ainda estava na cama de Adwaita, mas ele não estava ali consigo. Sentou-se devagar, o cobertor escorregando por seu corpo nu com a suavidade da seda, e olhou ao seu redor para procurar por qualquer sinal da presença de seu mentor – e agora amante – e lhe contar sobre o sonho esquisito que tivera.

Levou as pernas para a lateral da cama e resolveu sair da mesma, mas ao colocar os pés no chão sentiu-se tonta de repente e caiu como um saco de batatas. Por alguma razão o cansaço lhe abateu e ela ficou por ali mesmo, as pálpebras pesando como chumbo. Na verdade o corpo todo de Lux parecia pesar mais do que o normal, como se a gravidade estivesse tentando matá-la sem dó nem piedade.

Começou a respirar pela boca quando apenas pelo nariz não era mais o suficiente e então, pelos olhos semicerrados, viu quando seu mestre adentrou as portas do quarto. Ele estava em sua forma de tartaruga, a Runa Alfa brilhando no peito como um farol que não poderia ser apagado nunca.

— O que...

— Ah, eu sinto muito Luxanna. De todas as mulheres que já tive o prazer de levar para a cama, certamente você foi a melhor. — Adwaita voltou à sua forma de homem e então segurou a pequena pelo pescoço, erguendo-a do chão. Montogmery levou ambas as mãos para o braço dele, tentando se livrar do perto de ferro, mas a loira não tinha forças nem mesmo para cravar-lhe as unhas na pele. — Mas também foi a mais fácil. Não sabia que era uma puta qualquer quando chegou, pensei que demoraria mais para render-se aos meus encantos.

Um sorriso presunçoso brotou nos lábios dele enquanto a consciência da menina começava a esvair como um lento rio. Morreria ali, sozinha: seria absorvida por aquela tartaruga louca e ficaria presa naquele lugar junto com Encantrix.

“Não morra!”

Lux piscou algumas vezes, tentando compreender de quem era aquele timbre e de onde viera. Talvez fosse coisa de sua cabeça, já que estava morrendo mesmo, mas mudou de ideia quando as forças começaram a voltar, principalmente e primeiramente para os braços, que não demoraram em levar as mãos novamente ao braço de Adwaita e apertar com força, enfiando as unhas na carne dele até sangrar.

Por reflexo o falso homem lhe soltou e a menina caiu no chão, tossindo enquanto tentava captar ar. Ela tinha que sair dali o mais rápido possível, então se colocou de pé e, após juntar um roupão que havia ali e enrolar ele no corpo, jogou-se contra seu mestre e puxou, com todas as forças que tinha, o colar de seu pescoço antes de bater contras as portas para abri-las e correr como se sua vida dependesse disso, por que realmente dependia.

Meio aos tropeços, a loira não olhou para trás um momento sequer e então entrou na sala de jantar, fechando a porta atrás de si, correndo para a cozinha e jogando-se debaixo de um armário grande e espaçoso. Uma das mãos foi para frente da boca, a concha feita com os dedos tentando abafar a respiração pesada e ofegante. Encantrix estava certa sobre ele não ser quem aparenta ser.

“Você precisa sair daqui agora”

A voz masculina voltou com força, fazendo a cabeça da semideusa latejar. Ficou ali quietinha enquanto o tempo passava e nenhum sinal da tartaruga foi visto. Se fosse pega, seria uma garota mais do que morta.

Um suspiro saiu pelos lábios rosados, as bochechas coradas pela corrida eram visíveis. Com cuidado, pegou a Runa Alfa, a qual havia roubado de seu mestre, e a observou melhor e mais de perto, e qual foi a sua surpresa ao avistar uma sombra de Encantrix ali. Ah pronto, ela estava presa dentro daquela coisa. O que poderia fazer? Talvez quebrar?

“Isso, talvez seja uma boa ideia!”

— Olha, eu não sei se quem está falando é minha consciência ou algum deus por ai, e eu agradeço muito a ajuda e tal, mas pode ficar calado por alguns segundos? — sussurrou para si mesma, percebendo que poderia enfim estra louca. Uma voz surgia do nada na sua cabeça e então ela responde? A que nível a esquizofrenia pode chegar?

“Vai com calma ai, parça. Confia na ‘call’ e ‘bora cair matando.”

— Agora estamos falando a mesma língua. — Lux estava se preparando para sair quando o armário foi arrancado com força de cima de si e uma tartaruga furiosa deu as caras. Rolou para o lado quando uma das patas foi levada com força para onde esteve outrora, causando uma rachadura no chão.

Ok, era mais forte do que esperava.

— Me devolva a Runa Alfa, Luxanna. Faça isso e lhe absorvo sem dor.

— Nem a pau, Juvenal. Se aproxime de mim e quebro isso. — ergueu o objeto acima da cabeça, pronta para atirá-lo ao chão, e isso foi o suficiente para estacar Adwaita em seu lugar.

— Se quebrar a Runa Alfa...

— Eu sei o que isso faz. — falou seca, observando seu mestre. — Você me ensinou muitas coisas, Adwaita. Nunca vou me esquecer do que passei aqui, e não me arrependo de ter me envolvido com você. Mesmo agora.

Montgomery respirou fundo pelo nariz e soltou pela boca, tentando acalmar seu coração acelerado.

— Isso aqui conecta o maana daqui com sua carapaça e não apenas isso: graças às garotas que absorveu você mantém as magias delas contigo, seu covarde. — continuou, o tom de voz ficando frio e sem vida à medida que entendia uma verdade cruel. — Você usa os poderes das bruxas e feiticeiras que absorve para se manter assim, não é? Nunca foi um homem, sempre foi uma tartaruga!

A semideusa respirava forte, as lufadas de ar que soltava pelo nariz pareciam querer fazê-la voar. Estava furiosa.

Não.

Estava mais do que furiosa, estava bufando de ódio. Desde que fora parar ali fora enganada: tudo que Adwaita lhe mostrou ser era falso, apenas para ganhar sua confiança e absorvê-la depois, para ter o poder dela para ele.

— Era para você ter sido absorvida durante o sexo. Não sei o que houve de errado, mas saiba que eu... — a voz do homem-tartaruga calou-se ao ver que uma das íris da arcana ficou amarelo-ouro rapidamente, uma sombra de algo maligno passando pelo sorriso mínimo que, tão logo quanto surgiu, desapareceu.

— Que você o quê? — a voz estridente foi acompanhada de um berro, despertando a tartaruga de seu estado de hipnose momentânea. — Você não vai me absorver. Não vai fazer isso com mais ninguém!

E, após isso, Luxanna atirou a Runa Alfa no chão. Acompanhado com o grito de terror de Adwaita, risadas mais do que diabólicas surgiram e preencheram o ar. Vultos púrpuros saíam dos pedacinhos brilhosos, sombras de bruxas e feiticeiras banhadas no mais puro ódio e magia negra, prontas para acabar com a vida daquele que lhes aprisionou ali.

Quando se deu conta, Montgomery estava sentada no chão e cercada de mulheres espectrais, o púrpuro de seus corpos translúcidos iluminando as paredes de pedra. Misteriosamente o ambiente ficou todo escuro, deixando-o muito macabro na visão da menina. Uma música estranha, com um batuque de tambor feito de pele de animal, começou a soar, seca e no mesmo ritmo. Os espectros se moviam de um lado para o outro tenebrosamente, risadas e mais risadas soando no ambiente.

Um baixo “Preparado?” em tons masculinos e femininos, misto, soava nas paredes, retumbando junto ao coração acelerado da loira. De todas as coisas medonhas que já viu, aquela disparado era a vencedora.

— M’ladies. — Lux reconheceu a voz de Encantrix. Olhou para o lado e viu o espectro púrpuro da bruxa próximo a seu corpo, as mãos contendo bolinhas de energia fantasma mas que pareciam extremamente mortais. — Está na hora da vingança. É melhor não olhar para isso, querida. Vai ser feio.

E, após dizer essas palavras para Montgomery, as mãos da bruxa ficaram verdes. Chamas de mesma cor começaram a sair dos fantasmas das mulheres ali, indo em direção à tartaruga, rodeando-a em um círculo infernal. A música ficava cada vez mais alta, risadinhas diabólicas preenchendo o coração de Luxanna de medo. Sentiu algo passar por seu braço e gritou ao ver que eram pequenos bonequinhos de pano, semelhantes a bonecos de voodoo.

Eles corriam em direção ao antigo mestre da Runa Alfa, alfinetes em seus bracinhos de pano. Assim que se aproximaram do fogo, passaram sem medo e correram até as patas, perfurando-as com força enquanto gritos de dor e agonia reverberavam nas paredes. Aquilo era um verdadeiro show de horrores, nem mesmo a jovem semideusa seria capaz de fazer algo como aquilo como vingança.

Engoliu em seco quando uma placa arrebentou o chão, saindo da terra e subindo até o teto. As chamas subiram pela mesma e, de repente, ela virou uma máscara demoníaca, com brilhantes olhos amarelos e uma boca repleta de dentes afiados, o sorriso diabólico presente no que pareciam ser os lábios. A boca foi aberta e cinco sombras saíram da mesma, indo para cima da tartaruga de forma violenta, cada uma indo para uma pata e a última para o pescoço e, após um pouco de força, Adwaita foi desmembrado sem dó, sangue sendo espirrado para todos os lados após o que sobrou ser retalhado rapidamente.

Como um golpe final, os pedaços do bicho foram puxados para a máscara, que engoliu o animal e riu maniacamente, virando uma simples placa logo em seguida. As chamas se extinguiram e tudo voltou ao normal, embora os rastros da cena macabra que acabara de acontecer ainda estivessem presentes. Um a um os espíritos das mulheres absorvidas por Adwaita começaram a sumir, restando ali apenas Lux e Encantrix.

— Eu avisei que seria feio. — ela falou com um sorriso satisfeito, enquanto a semideusa, sentada no chão, não conseguia nem mesmo se mexer. Seu corpo parecia feito de gelatina: estava molenga, sem forças para nem mesmo falar. Talvez aquilo que aconteceu tivesse sido um pouco demais para ela, e a comprovação veio quando sentiu o estômago embrulhar e então o vômito saiu, fazendo o narizinho arrebitado da platinada franzir. — Lhe devo uma, então com a força vital que me resta, vou abrir um portal para você voltar. Aproveite, pois se não fizer isso agora ficará presa aqui para sempre.

Concordando com a cabeça, Montgomery se esforçou o máximo que conseguiu para ficar de pé quando viu as mãos de Encantrix ficarem avermelhadas. Girando-as em sentido horário, a bruxa começou a fazer um vórtice que, ao ser aberto, mostrou a elas um local muito conhecido pela filha de Apolo: o Acampamento Meio-Sangue.

— Vai! — a garota gritou e Lux não hesitou em pular para ir embora.

Epílogo

O portal parecia mais doloroso agora do que fora quando chegou ao LedgerDomain. Era como se Luxanna estivesse sendo desmontada e remontada uma parte de cada vez, e só esperava que não perdesse algum órgão pois mataria quem vendesse e não lhe desse uma comissão em cima.

Não demorou muito e logo a loira foi cuspida para uma grama verdinha, caindo de barriga para baixo mas deixando o braço para amortecer a queda, mas ela tinha quase certeza de que o havia machucado – e tudo que ela queria era que não estivesse quebrado. Caída no gramado, a brisa fresca e o cheiro de maresia que sempre sentia quando visitava o acampamento atingiram-lhe com força, fazendo com que lágrimas brotassem sem seus olhos.

Voltando-se para cima, o braço bom cobriu os olhos para esconder as lágrimas que insistiam em cair, o roupão manchado de sangue e levemente chamuscado parecia raspar em sua pele delicada como espinhos de uma rosa. Não estava mais se sentindo bem como antes, estava cansada e só queria dormir até esquecer de quem era.

— Lux? — o timbre masculino soou em seus ouvidos, fazendo a garota abaixar o braço e olhar para Steven, seu antigo amigo de acampamento. Mas havia algo diferente nele, estava barbado e parecia bem mais velho do que o ano passado. — Pelos deuses, é você mesma! Três anos! Três!

— Do que está falando, Steven? — confusa, Luxanna apenas olhou para o amigo, vendo-o franzir a testa. Estava cansada demais para pensar em alguma coisa, mas ao ver o olhar sério dele foi como se um choque tivesse percorrido seu corpo. — Steven, que ano estamos?

— Você sumiu em 2016, Lux. Estamos em 2019 agora. Janeiro de 2019.

E, naquele momento, a cabeça de Montgomery ficou completamente vazia enquanto tentava engolir o que estava acontecendo. Sentou-se rapidamente e agarrou-se ao amigo, vendo-o franzir o nariz em uma expressão de hesitação, mas mesmo assim ajudando a garota a sentar-se.

— O que aconteceu nesses últimos anos, Steven?


Observações:
1. Essa CCFY se passa no passado. Fiz ela apenas para conseguir uns XP's qqq E explicar os motivos pelo qual a Lux não ajudou na guerra e tal;
2. Eu fiz uma postagem no hospital dos curandeiros para recuperar MP, então caso alguém possa ver eu agradeço q
3. A música que toca no final é essa aqui (clica). A música começa aos 3:00min.
4. Acho que era só isso. Obrigada pela atenção e ao avaliador que vai ler esse treco aqui <3

(C) Ross


Take courage in the light
Luxanna C. Montgomery
Luxanna C. Montgomery
Feiticeiras de Circe
Feiticeiras de Circe

Idade : 18
Localização : Ilha Spa

Voltar ao Topo Ir em baixo

CCFY - Luxanna Crownguard Montgomery, The Devil Daughter Empty Re: CCFY - Luxanna Crownguard Montgomery, The Devil Daughter

Mensagem por Ananke em Sex Jul 05, 2019 3:45 pm


Modelo de Avaliação


Método de Avaliação:

Valores máximos que podem ser obtidos

Máximo de XP da missão: 4.000 XP e Dracmas

Realidade de postagem + Ações realizadas – 50%
Escrita: Gramática, erros, pontuação, coerência, concordância, etc – 20%
Criatividade/Estratégia em combate + inteligência – 30%

Realidade de postagem + Ações realizadas: 50%
Escrita: Gramática, erros, pontuação, coerência, concordância, etc: 20%
Criatividade/Estratégia em combate + inteligência: 30%


RECOMPENSAS: 4.000 XP e dracmas

STATUS:
HP: 100/290
MP: 120/290

Comentários:
Olá, Lux. Gostei muito da sua missão, ficou bem completa. Achei alguns pequenos erros de português, mas após refletir e considerando o tamanho do texto, achei melhor não descontar nada, visto que na grande maioria o texto está bem escrito. Além disso te descontei HP e MP por ter tido sua magia sugada pela runa, também considerando que a mesma sugou sua energia vital (HP). Os dano no HP foram ainda mais acentuados com a queda e o braço machucado no final da narrativa.

Atualizado por Hefesto

Ananke
Ananke
Deuses Estagiários
Deuses Estagiários


Voltar ao Topo Ir em baixo

CCFY - Luxanna Crownguard Montgomery, The Devil Daughter Empty Re: CCFY - Luxanna Crownguard Montgomery, The Devil Daughter

Mensagem por Luxanna C. Montgomery em Sex Nov 08, 2019 4:29 pm

CCFY


Nem sei meu lugar ou o que eu sou. Só espalho confusão e conflito...
Porque sou indecisa. Sou a pior...


✾✾✾✾✾✾✾✾✾✾✾✾✾✾✾✾✾✾

(PRÓLOGO)

Cerca de sete mil anos atrás existia uma família com 14 Apóstolos, conhecida como a família Noah. Seu líder, conhecido como Conde do Milênio, tinha um poder muito peculiar: se utilizando dos sentimentos de tristeza dos humanos com as mortes de seus entes queridos, ele conseguia criar akumas, demônios compostos por uma ou mais almas humanas, estruturas metálicas e matéria escura — essas duas últimas coisas eram fornecidas pelo próprio Conde.

Para tal, ele aparecia para a pessoa que havia perdido alguém e apresentava seu contrato. Um esqueleto feito de matéria escura aparecia à frente do humano, e o Conde dizia que a única coisa a fazer era chamar pela alma do falecido, que ele voltaria à vida naquele esqueleto. Quando o fato ocorria, a alma realmente voltava. Em um ato de ódio causado pela matéria escura, somado a vontade de evoluir, o recém-invocado sempre matava quem estava à sua frente e, com isso, conseguia ocupar seu corpo, se tornando um escravo do Conde.

Com a criação de muitos akumas, uma antiga civilização se viu obrigada a combater esse mal para proteger as pessoas. E, assim, eles usaram um poder divino para criar armas “anti-akumas”. Esse poder é conhecido como Innocence, sendo este o único capaz de purificar um demônio, matar um Noah ou danificar sua memória, já que é o oposto da matéria escura que dá poder aos descendentes de Noé.

Partindo para o campo de batalha, essa civilização se utilizou da Innocence para matar o Conde do Milênio, porém com a intensa batalha que se seguiu o mundo caiu no chamado “Três Dias de Escuridão”, ou “Grande Dilúvio”, como é conhecido no Antigo Testamento, e que acabou por fragmentar a Innocence em 109 pedaços, que foram espalhados pelo globo. Para as gerações futuras, os homens antigos deixaram escrito no Cubo, Innocence regida por Hevlaska, a primeira humana a encontrar um dos pedaços do poder divino e conseguir uma sincronização com a mesma.

Graças a isso ela fundou a Ordem Negra, que seria responsável por encontrar todos os 108 pedaços faltantes. Porém agora, 7000 anos depois, a família Noah está de volta, assim como a encarnação do Conde de Milênio, conhecido como Mana Walker, e estão prontos para tentar encontrar as Innocences espalhadas, pois elas são as únicas capazes de acabar com seus planos.

(UM) EXORCISTAS

Lux encarava o chão de pedra abaixo de seus pés. A praça no centro de Montepulciano, na Itália, estava movimentada graças a um pequeno festival de rosas que estavam fazendo por ali, e aparentemente era uma coisa bem incomum naquela região, graças às expressões nos rostos das pessoas. Não que a arcana se importasse com isso, mas aquele foi o local mais longe que conseguiu chegar, onde ninguém a conhecia, então pensar nas coisas que aconteceram seria mais tranquilo.

Colocou-se de pé quando o banco em que estava começou a machucar as costas e, a passos largos, começou a caminhar na direção do cemitério local, mas graças à rápida caminhada ela trombou em alguém, caindo sentada no chão.

— Ai... — murmurou, levantando os olhos para encarar o par de olhos irritados que lhe olhavam. Um arrepio percorreu o corpo da pequena e, quando pensou em se levantar e correr uma mão se estendeu em sua direção. Montgomery encarou aquela luva branca antes de olhar para o braço e finalmente chegar ao rosto.

Os cabelos eram inteiramente brancos, os olhos eram num hipnótico tom de azul. Acima do olho esquerdo havia um pentagrama invertido, e uma fina linha vermelha passava por cima do olho, descia um pouco, ia mais para a esquerda e depois descia novamente em direção ao queixo, parando quase no final da bochecha. O sorriso, assim como o olhar, era gentil e amigável, diferente do outro rapaz.

— Você está bem? — a voz suave do garoto chegou aos ouvidos da arcana, que assentiu com a cabeça e segurou a mão estendida, sendo colocada de pé. — Deveria pedir desculpas, Bakanda. Não é educado derrubar uma moça e nem oferecer ajuda. — o tom de voz dele mudou de repente, ficando indiferente ao se dirigir ao garoto que derrubara a menina.

— Yuu é tão insensível. — outra voz chamou a atenção da menina, fazendo-a olhar para um garoto ruivo com intensos olhos verdes. Um tapa olho mantinha o olho direito escondido. — É por isso que nunca vai arrumar uma namorada.

— Calem a boca, Moyashi, Baka Usagi! — o tal de Yuu gritou, chamando a atenção da loira. Ela o observou e percebeu que ele poderia ser um garoto sob a proteção da constelação de Áries devido ao mau-humor. O longo cabelo azul escuro poderia ser confundido com a cor negra, e estava preso em um rabo de cavalo no topo da cabeça. Na cintura havia uma espada, o que fez a garota engolir em seco.

— Eu já disse que meu nome é Allen! — o de cabelos brancos falou, soltando um suspiro. — Mas é claro que talvez não se lembre, o cérebro do Bakanda é lerdo demais para assemelhar coisas.

— Hã? — a expressão de Yuu tornou-se mais perigosa, e a loira sentiu uma espécie de “aura mortal” sair do corpo do rapaz. Por alguns instantes ela achou que ele fosse um semideus, mas logo notou que era algo diferente daquilo. Aqueles três estavam longe de serem semideuses, da mesma forma que estavam longe de serem humanos normais. E desde quando ela topa com gente normal? — Você está querendo que eu te corte em dois, Moyashi?

As íris verdes da menina esquadrinharam os garotos à sua frente, notando que eles tinham uma coisa em comum: roupas negras como o breu, com detalhes em cinza e vermelho, como uma farda. E, sobre o lado esquerdo do peito, havia uma rosa-cruz prata. Como num borrão aquela imagem apareceu na mente da arcana, que caiu ao chão de joelhos. Ela já vira aquele símbolo, mas onde?

Exorcistas. Integrantes da Ordem Negra.

Uma voz masculina soou na mente de Lux, fazendo com que as mãos fossem direto para a cabeça, segurando os cabelos com força. O coração da feiticeira começou a doer e, antes que pudesse parar, uma visão tomou conta de sua mente.

“Um grande espelho revelava a imagem de um homem alto, com longos cabelos castanhos e pele cor de cappuccino. O peito estava nu, mas manchado de vermelho escarlate, assim como sua calça branca. Em sua testa havia cinco cruzes pequenas desenhadas na pele, como uma tatuagem definitiva. Ele estava chorando. Pedindo perdão.

‘Eu sinto muito, Neah.’, ele falou para o próprio reflexo no espelho. Os olhos transmitiam culpa e loucura ao mesmo tempo, e aquilo fez com que um arrepio descesse pela espinha da semideusa.

‘Mana, não chore.’, a voz que saía de seus lábios não era sua, tinha certeza. Quem era Mana? E o que ele havia feito para esse tal de Neah?

‘Mas eu precisava me tornar o Conde. Eu sou o Milênio!’

‘Mana, não chore’

‘Eu sinto muito. Sinto muito. Sinto muito...’

‘MANA!’


Então o espelho se partiu e a imagem se desfez, dando lugar a uma sala inteiramente branca. Luxanna estava sentada e, quando tentou se mexer, não conseguiu. Observou seu corpo, percebendo que estava apenas de roupas íntimas e amarrada com correntes douradas em uma cadeira inteiramente branca com detalhes em formato de asas. A sua frente havia um homem, muito parecido com aquele do espelho, mas este estava bem vestido. O paletó branco estava alinhado, os cabelos negros caíam em ondas na altura dos ombros.

O olhar era gentil, assim como o sorriso. A passos lentos ele se aproximou da pequena que, estranhamente, não sentiu medo, e tocou a cabeça dela, fazendo um cafuné nos macios fios loiros. Gentilmente ele retirou seu paletó e, após estalar os dedos e desfazer as correntes, o desconhecido pegou a semideusa pela mão e a colocou de pé, cobrindo o corpo feminino com a peça de roupa.

— Olá, Luxanna Crownguard Montgomery. — a voz aveludada dele chegou aos ouvidos sensíveis da menina. — Meu nome é Neah Walker. E eu sou um Noah. — ah.

— Neah? Noah? — o tom de voz da arcana começou a ficar trêmulo quando se deu conta do que estava acontecendo. Mesmo com a estranha sensação de bem-estar, aquele cara era um desconhecido. O que estava fazendo ali? E onde era exatamente ali? O que era um Noah? E quem era Neah? O peito da menina subia e descia rapidamente, e essa foi uma das poucas vezes em que sentiu medo. — O que... ?

— Não temos tempo. Confie em Allen Walker, e peça para que ele lhe leve até o general Marian Cross. Ele lhe explicará tudo, eu prometo. — Neah abraçou a feiticeira de maneira gentil e protetora. — Mas não se esqueça de que eu sou você, e você sou eu. Somos o Décimo Quarto. — o homem sorriu para a menina, e rapidamente o lugar começou a ficar escuro, até finalmente desaparecer.“

— E-Ei, você está bem? — a semideusa sentiu que alguém lhe balançava levemente pelos ombros e, ao abrir os olhos, deparou-se com o ruivo, que tentava lhe trazer de volta à realidade. Ela o encarou, os olhos arregalados, e os lábios tremeram enquanto finalmente se dera conta do que estava acontecendo à sua frente. — Ah, que susto nos deu. — ele se afastou um pouco, dando espaço para a moça.

— Allen Walker. O-Onde está Allen Walker? — sussurrou, fazendo o ruivo à sua frente ficar estático. O rapaz ia se aproximar novamente, e foi quando a arcana caiu em si. — Não se aproxime! — levantando uma das mãos para ele,  a arcana empurrou o rapaz com sua telecinese para um pouco além dos outros dois que se encontravam mais atrás, e aquilo chamara a atenção de Kanda e Allen. Allen?

— Lavi! — Allen chamou pelo amigo, que estava atordoado pelo "empurrão" que recebera. Ela precisava para fugir, estava assustada, fato estampado em seu rosto e em seus olhos úmidos pelas lágrimas que insistiam em cair. Ele parou antes de chegar até a menina, mas Kanda não hesitou e tão logo a ponta da katana do garoto estava apontada para o pescoço da loira. — Bakanda, não a assuste mais ainda.

— Cale a boca, Moyashi. Se não vai ajudar, vá brincar no parquinho. — Yuu retrucou, fazendo Allen suspirar pesadamente. — Agora você. O que fez com o Baka Usagi? — o olhar duro e carregado de raiva que o garoto lançava em sua direção fez com que um arrepio horrível descesse pela espinha dela. Yuu desviasse o olhar momentaneamente quando o ruivo o chamou, dizendo que estava tudo bem e que não havia acontecido nada.

E aquela era a chance.

— Arker! — a filha do sol proferiu, fazendo com que uma onda de energia saísse de suas mãos espalmadas para frente, pegando os três garotos desprevenidos enquanto empurrava-os para trás. — M-Me deixem em paz, exorcistas! — gritou e, ao se colocar de pé, mesmo com as pernas trêmulas, virou as costas e saiu correndo dali.

****************************

Não sabia quanto tempo havia se passado desde a pequena confusão com aqueles três, mas sabia que algo de errado estava acontecendo com ela. O coração de Lux estava doendo muito, como se algo estivesse comprimindo o mesmo, apertando com se aperta um balão. Era uma sensação horrorosa. Respirou fundo algumas vezes, sentindo seu corpo quente como se estivesse dentro de vários casacos de lã em um dia quente no deserto do Saara, mas de repente a dor começou a passar e a mente enevoada da feiticeira começou a clarear.

Com isso ela conseguiu prestar mais atenção à sua volta, e notou que a cor alaranjada do crepúsculo começou a sumir do céu, dando espaço à escuridão da noite. Depois que a menina deixara aqueles três para trás ela simplesmente correu sem rumo até finalmente chegar onde queria ter ido desde o começo: o cemitério. Escorou em uma lápide e escorregou na mesma, sentando no chão. Mas que merda estava acontecendo?

Ela havia ido até um lugar esquecido pelos deuses para poder ficar de luto por Erwin, não havia? Para chorar por aquele que era como um irmão para a menina, afinal fora o Smith quem cuidara dela desde que era uma criança e acabara naquela casa com o padrasto, após o casamento de sua mãe com Logan. Uma lágrima silenciosa desceu pelo rosto da menina, caindo na terra fofa.

— Droga... Droga... Droga... — ela murmurou enquanto os soluços ficavam cada vez mais altos até finalmente chorar descontroladamente. Montgomery abraçou as pernas e colocou a testa nos joelhos, deixando que os sentimentos fluíssem como nunca havia permitido. Se ela fosse mais forte! Se estivesse no lugar certo na hora certa, teria evitado tudo aquilo, poderia ter salvo o amigo e impedido que Levi ficasse em coma.

Teria? Teria mesmo?

— Eu quero ele de volta. Por favor, me traga ele de volta...

— De volta? — uma voz desconhecida soou no vento frio que brincou nos cabelos loiros da garota. A cabeça ergueu-se para procurar o dono da voz, e graças aos bons olhos que tinha encontrou-o. Um homem gordo, usando um terno branco sob a luz do luar, com uma cartola roxa e engraçada estava parado a alguns túmulos da arcana. As íris amareladas observavam Luxanna por debaixo dos óculos de aro redondo, e o sinistro sorriso que estava estampado em seu rosto causava arrepios na pequena. — Eu posso trazer seus entes queridos de volta.

Aquelas palavras causaram um arrepio na arcana. Sabia que mexer com os mortos era um tabu, e não queria um castigo na cabeça por ter tentado ir contra as leis naturais, ainda mais por que nem sempre aquilo acabava bem. Orfeu é um bom exemplo disso.

— Não se preocupe, semideusa. — o homem continuou e, ao ouvir a palavra “semideusa” da boca dele um arrepio ainda pior percorreu o corpo da menina. — Meus métodos são diferentes. — um estalar de dedos e, de repente, um esqueleto inteiramente negro, preso a uma espécie de quadro da mesma composição apareceu, ficando à frente dela. Do que era feito, exatamente, a jovem Montgomery não sabia, e sinceramente ela não tinha certeza se desejava saber. — É só você chamar pelo nome dele, que logo estará aqui.

Hesitante, a arcana colocou-se de pé e se aproximou, o vento frio castigando o corpo pequeno. Encarou aquela coisa intensamente, tentando saber como ele se transformaria em Erwin, com as mesmas características físicas e os mesmos pensamentos. As memórias que tinha do loiro não seriam esquecidas jamais, cada momento precioso desde que tinha cinco anos nunca seria desconsiderado. Mas algo ali não parecia certo, havia algo a mais em tudo aquilo, como se algo não encaixasse de forma precisa. Tudo perfeito demais, fácil.

— Quem é você? — perguntou, encarando o homem de íris amareladas, voltando o corpo pequeno em sua direção. Ele soltou uma risadinha e então abriu um guarda chuva que, até então, a arcana não havia reparado que carregava.

— Pode me chamar de Conde do Milênio, Luxanna Montgomery. Não sou um deus, ou um monstro ou um demônio. Sou algo melhor do que isso, pode acreditar. — o Conde soltou outra risadinha. — Sou amigo das pessoas tristes, e só tento aliviar a dor delas.

Milênio se aproximou da semideusa, que havia voltado o olhar para o esqueleto parado, e tocou de leve a cabeça da pequena, fazendo um cafuné na mesma e começou a murmurar que ia ficar tudo bem. Por um momento aquilo foi extremamente confortável para Lux, que não moveu um dedo sequer, deixando que aquele desconhecido lhe consolasse.

Estranho, não é?

"Não confie no Conde!"

A mesma voz que falara antes com ela voltou a gritar em sua mente, fazendo com que a loira levasse as mãos à cabeça e ajoelhasse no chão. Novamente o coração começou a doer, e ela sentiu o corpo inteiro esquentar como se estivesse com a pior febre de sua vida e, quando sua mente nublou novamente, ela caiu deitada, respirando com dificuldade.

— Eh... Pelo visto, não teremos um contrato, não é? — o Conde falou, abaixando-se perto da menina e tocando sua testa. E, de repente, ele arfou em surpresa. — Neah... Décimo Quarto?

— Crown Clow! — a voz estridente soou distante aos ouvidos da menina, mas ainda assim ela conseguiu distinguir as palavras. Uma luz verde apareceu entre a semideusa e Milênio, separando-os e, quando pensou que ficaria caída ali na lama, alguém lhe agarrou pela cintura e a levou para longe. Mesmo com a vista ruim, viu um borrão branco saltar de onde ela estava antes e aterrissar para perto de onde estava agora. — Ela está ardendo em febre. — sentiu alguém tocar sua testa da loira, a voz beirando certa preocupação.

— Moyashi! — uma outra voz soou, irritada. — Preste atenção. Ele está ali. — com os olhos semicerrados, após alguns segundos a semideusa conseguiu distinguir as sombras à sua frente. Eram aqueles garotos que encontrara mais cedo. Allen, o de cabelos brancos e Yuu, o de cabelos negros. Então...

Os olhos voltaram para aquele que lhe segurava no colo de maneira cuidadosa e avistou o garoto ruivo. O rapaz sorriu para a feiticeira e se apresentou como Lavi, pedindo para que ela ficasse quietinha e observasse apenas. E foi o que ela fez. As íris voltaram-se para Allen, que parecia brilhar sob a luz do luar, uma capa inteiramente branca, com plumas perto do pescoço, esvoaçava atrás do garoto. A mão esquerda estava transformada em um tipo de garra metálica, com longos dedos feitos do mesmo material.

Quem eram eles?

— Não se preocupe, mocinha. — Lavi falou, abrindo um sorriso. Como em resposta à colocação do ruivo em não se preocupar, o coração da pequena doeu mais do que nunca e ela se encolheu no colo do rapaz. — Ei! Ei! Mocinha! — a mente enevoada da feiticeira estava engolindo-a cada vez mais, até que finalmente ela apagou.

(DOIS) SONHO

O campo de trigo à sua frente parecia não ter fim, e a única coisa que quebrava aquela cor de palha seca era uma mansão com paredes brancas e janelas vermelhas. Sentada nas escadas, tudo que Lux fazia era olhar o vento passar, o coração a mil no peito. Ficou de pé e saiu correndo dali, indo para onde sempre ia quando queria ficar sozinha: o velho carvalho nos limites da propriedade.

Com certa agilidade, a menina escalou os galhos até chegar em um mais reto, onde sempre se sentava para observar o sol se pôr e pensar em como a vida era injusta. Os olhos mantinham-se no horizonte, até finalmente se dar conta de algumas coisas: primeiro, ela não conhecia aquele lugar; segundo, ela se sentia estranhamente desconfortável com seu corpo, tinha alguma coisa errada com ele. Os olhos voltaram-se para si mesma e percebeu o motivo.

Ela era ele.

E pior, era uma criança. As canelas lisas estavam descobertas, já que ela/ele estava usando um short com suspensório e camiseta branca. Os pés descalços estavam levemente sujos, e certamente Amélia lhe daria uma senhora bronca. Mas quem era Amélia?

‘Apenas assista.’

‘Neah?’

‘Sim. Como eu disse antes, eu sou você e você sou eu. Há muito a ser explicado ainda, mas por enquanto isso é essencial. Você verá o mundo pelos meus olhos nesse momento.’

Um suspiro saiu dos lábios infantis de Neah, e nesse momento Montgomery desistiu de tentar entender o que estava acontecendo, iria apenas deixar rolar. Se aquele Noah tinha algo a lhe dizer, ela estaria disposta a ouvir, mesmo não sabendo quem ele é ou foi, e os motivos dele estar mostrando seu passado para a arcana, então ela simplesmente se deixou absorver pelas memórias, se tornando a versão infantil do homem novamente.

— Então era aqui que você estava, Neah? — a criança olhou para baixo e avistou uma mulher loira, que trajava um lindo e elegante vestido vermelho, com aquela pegada bem estilo baronesa. O olhar bondoso da mulher fazia a alma da semideusa relaxar imensamente

— Cornélia. — a voz que saía pelos lábios da feiticeira era aguda e carregada com o sotaque britânico. — Como está o Mana? Ouvi os médicos dizerem que ele nunca mais vai acordar. Isso é verdade? — uma lágrima solitária desceu as bochechas da criança. — Neah não é nada sem o Mana...

— Neah, por que você não vem aqui comigo? — Cornélia sorriu mansamente. O olhar, antes preso no horizonte, voltou-se para a mulher e qual foi sua surpresa ao ver outra criança saindo por debaixo da saia. Uma criança idêntica a ela, ou a Neah no caso.

O coração começou a dar pulos, enquanto lágrimas escorriam sem parar pelo rosto.

— MANA!

*****************************

O sonho mudara. A sala era completamente branca e contava com poucas coisas: uma enorme janela, duas cadeiras brancas, um sofá branco e um piano totalmente branco. Tudo ali chegava a ser tão claro que fazia os olhos da menina doer. Havia uma porta, inteiramente branca também, com uma maçaneta prateada no formato de clave de sol.

— Onde estou? — Luxanna olhou para seu reflexo na janela e viu o que vestia: um vestido branco tomara que caia (é sério mesmo, produção?), longo atrás e curto na frente. Na parte dos seios ele possuía um bordado em preto, formando o desenho de uma cruz. Ah, e maquiagem no rosto: maçãs do rosto coradas, batom vermelho, olhos contornados com lápis preto. — Virei uma Barbie, por um acaso? — murmurou, emburrada.

— Por que parece triste? Você está deslumbrante. — a voz de Neah chegou aos ouvidos da menina, que se virou para encarar o homem. Os cabelos estavam perfeitamente alinhados, um sorriso estava estampado em seu rosto. Usava um terno branco, calça social branca e gravata preta. Ao seu lado havia uma bolinha dourada, que devia ter mais ou menos dez centímetros de diâmetro, com asas e uma longa cauda. Na frente havia uma cruz em um tom de amarelo mais claro. — Vamos lá, Timcanpy, cumprimente a dama. — o Noah falou para a bolinha, que voou na direção de Lux e pousou suavemente em sua cabeça.

— O que é isso? — a feiticeira tentou tocar na pequena bolinha, mas Timcanpy fora mais rápido e saiu da cabeça da menina, parando à sua frente. Ela desviou o olhar dele para Neah, que fazia um sinal para que a loira fizesse uma concha com as mãos e, assim que o fez, a bolinha pousou suavemente e se acomodou ali. — Ah! Que fofinho!

— É um mini-golem geneticamente modificado. Marian e eu o fizemos em laboratório. Gostou dele? — a menina sorriu e concordou com a cabeça. Realmente era uma coisinha muito fofa, e nem sempre o fofo agradava a jovem filha do sol. — Bom, pode ficar. — Neah sorriu abertamente para a semideusa, que tombou a cabeça de lado, levemente confusa. O Noah se aproximou e tocou a cabeça da pequena, fazendo um cafuné. — Não se esqueça, Luxanna. Eu sou você, e você sou eu. Por isso você pode ficar com Timcanpy. Aqui ele é apenas uma lembrança, mas ele no mundo real vai encontrá-la onde você estiver.

— Neah... — a jovem murmurou, e em hesitação mordeu o lábio inferior. Ainda sorrindo, o homem abanou a mão, fazendo com que Timcanpy saísse voando e pegou uma das mãos da pequena, conduzindo-a até o sofá. Sentou-se em um lado, e ele pegou uma das cadeiras para poder sentar-se à frente da menina. — Onde estou? Que lugar é esse?

— Já ouviu falar na história da Arca de Noé? — ele perguntou seriamente, apoiando os cotovelos nos joelhos. A loira concordou com a cabeça. É claro que sabia, mesmo não tendo sido criada em uma família católica a moçoila ouvira contos bíblicos de Erwin, que era cristão. — Bom, estamos em uma das salas da Arca. Afinal, sou um Noah, um dos descendentes de Noé.

Por alguns segundos a mente da garota travou. Não era impossível, claro, que o mundo tivesse ficado embaixo d’água por quarenta dias e quarenta noites, mas nunca parou para pensar a respeito sobre haver outros deuses. Afinal, para a moçoila, apenas havia os gregos e afundar o mundo daquele jeito poderia ter sido trabalho de Poseidon — às vezes ele perdeu mais alguma aposta com Atena, talvez.

Timcanpy pousou no colo da menina, se acomodando ali, e Luxanna o deixou ficar. As íris verdes da jovem fitaram as íris amareladas de Neah, e ela tentou descobrir o que se passava por detrás daqueles olhos de cor tão anormal, talvez alguma mentira ou alguma pegadinha. Mas, infelizmente, ela nada conseguiu, o que só restava o bom e velho diálogo.

— Mas o que isso tem a ver comigo? Digo... — o indicador da feiticeira acariciou Timcanpy levemente. — Por que eu estou aqui? E por que você está dizendo que somos um?

Neah suspirou pesadamente, recostando-se à cadeira. Do bolso do terno ele retirou um maço de cigarros e um isqueiro, acendendo uma daquelas coisas mal cheirosas e tragando, o que causou uma torção de nariz da parte da menina, já que odiava o cheiro dessas coisas e sempre pedia para seu padrasto parar de fumar. Por incrível que pareça, ela esperou pacientemente, ainda encarando o Noah.

— Há muito tempo atrás, cerca de uns sete mil anos, surgiu um conde. Não era um qualquer, claro, mas sim o Conde do Milênio. Ele, juntamente com a família Noah, ameaçaram o mundo com os akumas, demônios que possuem as pessoas, desenvolvem inteligência e personalidade própria, mesmo que ainda sejam subordinados a nós, Noah. — ele explicou, fazendo a menina concordar com a cabeça. — Porém, em um ato desesperado, uma antiga civilização usou um poder chamado de Innocence, um poder divino capaz de matar um descendente de Noé.

“Após uma sangrenta luta, finalmente eles conseguiram derrotar o Conde. Porém, como consequência, o mundo caiu nas trevas. Você pode chamar isso de ‘O Grande Dilúvio’, se desejar. Após isso a Innocence se dividiu em cento e nove partes, que se espalharam pelo mundo. Aqueles garotos que você viu fazem parte de uma organização chamada Ordem Negra, e eles recuperam esses pedaços do Poder de Deus que se espalharam pelo mundo.

Alguns deles possuem um fragmento da Inocência de Deus, e eles são chamados de Exorcistas.”


Neah parou de falar para encarar uma confusa feiticeira, que estava em estado de choque. Grande Dilúvio, Noé, Exorcistas, o Conde do...

— E-Espera ai... E-Eu me encontrei com o Conde! Como ele...

— Aquele é Mana Walker. Meu irmão gêmeo. — o homem cruzou os braços na altura do peito, aparentemente incomodado com algo. — Tivemos uma desavença no passado, e aquele idiota me matou. Mas consegui transferir minha mente para alguém. E esse alguém é você, Luxanna Montgomery. Graças à Marian e seu pai, Apolo.

O coração da loira falhou uma batida. O que ele queria dizer com aquilo? A boca se entreabriu quando a respiração começou a ficar acelerada, o coração batia freneticamente e o corpo tremia em medo. Um frio percorreu a espinha da loira.

— O que quer dizer com isso? — perguntou, temendo verdadeiramente pela resposta. Lux já sentira medo na vida, mas nada se comparava com aquele. Era infinitamente pior, e não sabia dizer o motivo.

Neah abriu um sorriso de desculpas, e então respirou fundo pelo nariz e soltou pela boca, jogando o corpo para frente para apoiar os cotovelos no joelhos novamente. Aparentemente estava tentando escolher as palavras que usaria a seguir, o que aumentava a tensão dos já rígidos músculos da semideusa.  

— Quero dizer, garota, que está na hora de eu lhe contar uma historinha sobre uma semideusa chamada Luxanna Crownguard Montgomery.

(TRÊS) ALGUMAS VERDADES

Montgomery engoliu em seco. Não. Aquilo foi muito mais do que engolir em seco. Neah, aparentemente, sabia de algo que acontecera no passado e que, aparentemente, envolvia sua pessoa, o que era bem ruim já que eles aparentava ter uma idade meio próxima. Balançou a cabeça, os fios loiros sendo jogados para os lados com violência, então sua mente gritava para ter calma. Mas, pelo seu estado de espírito, calma era a última coisa que estava tendo no momento, e aquilo lhe gerava o sentimento de medo.

Do que, exatamente, ela não sabia, mas a sensação que preencheu seu coração dizia que havia algo ali que não era mentira (afinal o pai dela era o deus da verdade). Respirou fundo algumas vezes para controlar o turbilhão que havia dentro de seu peito, e fechou os olhos momentaneamente para colocar os pensamentos em ordem. O que viria a seguir?

— Algum problema? — a voz do Noah beirava a preocupação, e fez Lux balançar a cabeça negativamente.

— N-Não exatamente. E-Eu estou com medo de saber o que você quer dizer... — ela falou, abrindo os olhos e encarando as pernas. Agarrou com força a bainha da parte mais curta do vestido e fechou as mãos em punhos, enquanto lágrimas caíram pela face e pingaram em Timcanpy. — Eu não sei por que estou me sentindo assim, mas algo em meu coração me diz que talvez não esteja brincando.

— E não estou. — Neah deu de ombros como quem não quer nada. — Sua reação deve vir por conta do seu corpo original, então é completamente normal. — a cabeça de Lux, antes abaixada, levantou rapidamente e as íris verdes encararam o descendente de Noé com intensidade.

Corpo original?

— Neah... O quanto sabe a meu respeito? — Montgomery tentou controlar a trêmula voz, mas foi um completo fracasso. A expressão surpresa do homem à sua frente se desfez, dando lugar a uma de pena.

— Muito, minha jovem. Se não tudo. — ele respondeu suspirando, então olhou para cima, procurando algo de interessante no teto, antes de voltar os olhos novamente para os da arcana. — Você não é quem pensa ser. Nunca foi. É somente um gene duplicado feito em laboratório, vindo do corpo original de Luxanna Crownguard, a filha legítima de Elaena. É apenas uma cópia feita para poder se tornar minha hospedeira, e desaparecerá quando eu finalmente for forte o suficiente para tomar seu corpo.

Neah se calou por alguns segundos ao observar a expressão confusa e amedrontada da garota à frente. O corpo inteiro de Luxanna ficou gelado, ela sentia a cor fugir de seu rosto e seu mundo inteiro girou, causando um embrulho horroroso no estômago. O que ele quis dizer com aquilo?

— N-Não! V-Você... Eu sou Luxanna Crownguard Montgomery, filha de Elaena e uma semideusa! Sou real, não sou uma cópia! — a menina gritou, ficando de pé abruptamente e se atirando para cima do Noah, agarrando com força o terno do homem. Lágrimas escorriam pelas bochechas dela, o olhar revelava o mais terrível medo das palavras ditas outrora. Mais do que confusa e com raiva daquela colocação sem sentido, o pavor dominava seus olhos, a tentativa desesperada de entender o que estava acontecendo apenas atrapalhava seu bom julgamento. — Eu sou real! Real! Não posso ser... Uma cópia... — ela começou a murmurar enquanto tentava em vão manter-se em pé e quando os joelhos finalmente cederam Neah a segurou pelos pulsos, evitando que a semideusa caísse no chão.

Gentilmente ele a conduziu novamente ao sofá, em vista do quanto a pequena tremia ele duvidava que iria conseguir se levantar novamente. As lágrimas ainda escorriam, os olhos estavam arregalados e os lábios trêmulos repetiam em um viciante murmúrio as palavras “sou real”. A pequena abraçou o próprio corpo.

Ela sentia. Ela via. Ela ouvia. Mais que isso. Tinha força de vontade própria, tinha uma personalidade, uma forma de pensar. Ela não podia ser apenas uma cópia, ela era alguém e tinha certeza disso. Ela ouviu quando Neah suspirou e sentiu quando ele tocou sua cabeça, puxando-a para perto de si e colocando o rosto da menina próximo a seu peito.

— Só escute o que tenho a dizer. Vou contar o que sei sobre o acontecimento, mas aceitá-lo ou não é com você. — a voz do Noah era calma e contida, mas a jovem conseguia escutar os batimentos do acelerado coração do homem. Gentilmente ele a afastou e limpou as lágrimas com o polegar, passando-o suavemente nas bochechas úmidas da semideusa.

Timcanpy, que antes havia voado do colo da arcana graças ao movimento brusco, voltara mas desta vez aconchegou-se ao ombro dela e recostou-se perto do pescoço da menina como se a estivesse consolando. A gentileza de Neah e a atitude do mini-golem a deixou mais relaxada — mas, infelizmente, não menos tensa.

— Há 55 anos eu e Mana viemos a esse mundo. Não de uma forma convencional, mas isso é para uma outra hora. Vivemos nossas vidas em paz, até que conheci Vladimir Stark, um jovem damphyr.

Luxanna sentiu o sangue gelar e seu coração dizia que não aguentaria muito tempo aquela conversa, afinal era informação demais para uma pessoa só, embora agora ela quisesse saber mais sobre o que estava acontecendo. Abriu a boca para falar, mas foi silenciada pelo Noah, que ergueu a mão com a palma virada para fora.

— Me deixe contar tudo de uma vez. Estou transgredindo as regras impostas por seu pai, e não posso me demorar. — ele falou, e então cruzou os braços na altura do peito. — Enfim, sua mãe era uma antiga amiga de Vlad, apaixonada por ocultismo, deuses e essas coisas, e tanto eu quanto Vlad nos apaixonamos por ela. Mas, infelizmente, Elena só tinha olhos para o irritante deus do sol. — Neah coçou o pescoço em sinal de desconforto. — Apolo era um mala-sem-alça desde aquela época, e não quero nem saber como ele está agora.

Montgomery queria sorrir com as palavras do Noah ao mencionar sobre seu pai ser um mala — afinal ela tinha um pouco de verdade (ou talvez a verdade completa, embora ela não saiba direito a respeito disso) —, mas a tensão que praticamente exalava de seu ser não permitia tal coisa. A arcana apenas encarava o homem à sua frente, aguardando suas próximas palavras. O coração acelerado parecia que pularia do peito a qualquer minuto.

— Há 35 anos, quando sua mãe engravidou de Apolo, foi confirmado que ela teria uma filha e que se fosse menina colocaria o nome dela de Luxanna, em homenagem à irmã mais nova dela que havia falecido cinco anos antes. — Neah colocou-se de pé e caminhou até a enorme janela, observando a arcana pelo reflexo. — Sabe, seus pais e Vlad sempre souberam quem eu era. E em função disso, eles sabiam que minha vida corria perigo.

“Mana e eu somos descendentes do Conde do Milênio, mas o poder mais forte ficou com ele, que acabou enlouquecendo. Para se tornar o Milênio, você precisa matar alguém com quem se importa.”

— Então ele foi atrás de você... — a voz da loira mal passava de um sussurro, mas foi alto o suficiente para que Neah escutasse e concordasse com a cabeça.

— Mas Mana não me encontrou de imediato, já que eu estava bem escondido no castelo de Vlad. — o homem concluiu, virando-se novamente para a arcana. — E é aí que você entra. Calma, vou explicar. — ele falou quando viu o olhar confuso da menina. — O que você sabe sobre a clonagem de seres humanos?

— B-Bem... Nada, eu acho. — admitiu, envergonhada. Neah sentou-se novamente na cadeira à frente da semideusa e cruzou as pernas, encarando a semideusa com uma sobrancelha erguida. — N-Não é que eu não saiba nada, não sou burra! Mas não sei os por menores. — uma sombra de cor rubra passou pelas bochechas da feiticeira.

— Você é engraçada. — ele falou, rindo suavemente. — A clonagem humana nada mais é do que criar um indivíduo geneticamente idêntico a outro. Em termos de fácil entendimento, gêmeos univitelinos podem ser considerados clones. Quando Apolo previu minha morte, ele me disse que não havia como escapar da mesma. Era uma coisa certa.

“Graças a um dos meus poderes de Noah, eu poderia transferir minha consciência, meu ‘eu interior’, para outro corpo, e a única opção era a criança. Afinal, mesmo que Apolo tivesse previsto minha morte, seria para nove meses depois, já que ele falou que era primavera. Mas houve um empecilho nisso.”

— Elena. — a voz de Lux soava um pouco mais alta, o que fez Neah concordar com a cabeça. Claro que sua mãe iria se opor, afinal que tipo de pessoa ela seria se deixasse um parasita viver dentro de sua filha apenas para vê-la crescer e perdê-la depois?

— Exatamente. Ela não deixou que sua filha fosse minha futura hospedeira, então optaram por clonagem. Ou seja, você. — Neah encarou Lux seriamente, e a menina demorou a processar a informação, até que finalmente a ficha caiu. Ela só havia sido criada para ser o receptáculo do Noah. O mundo pareceu girar, e a arcana segurou a cabeça com as mãos, apoiando os cotovelos nos joelhos.

“Assim sendo, com a ajuda de alguns cientistas que foram contratados por Vlad e que vieram do cú do mundo, eles começaram alguns estudos e, quando o filho de Elena completou vinte semanas, eles extraíram um pedaço do DNA do embrião para tentar a clonagem. Nem preciso dizer que foi um completo fracasso.”

A semideusa observava o homem atentamente, aparentemente mais calma. Ela havia conseguido controlar sua respiração e o coração não estava mais acelerado. A mente, antes a mil, havia finalmente se acalmado e tentava compreender tudo aquilo que era lhe dito.

— E como chegaram até mim? — a feiticeira perguntou, a curiosidade em como havia sido feita era muito grande, mas o descendente de Noé se limitou a sorrir e negar com a cabeça.

— Isso é uma coisa que terá que descobrir por si mesma. Eu ultrapassei muitas barreiras aqui, e meus poderes de Noah ainda estão fracos para proteger essa parte da sua consciência de seu pai, caso ele descubra que lhe revelei algo. — ele riu levemente, curvando o corpo para frente e fazendo um cafuné na pequena. — Já lhe disse o suficiente para que consiga várias respostas.

Luxanna queria saber mais, mas algo lhe dizia que Neah não estava mentindo sobre não poder lhe revelar mais sobre o passado da menina. Afinal, Apolo era o deus da verdade, e o sexto sentido da feiticeira nunca havia falhado. Ela iria atrás das respostas para todas as suas perguntas, e se aquilo significava ter que queimar o mundo, ela o faria.

Mas duas coisas a estavam incomodando no momento...

— Por que só agora você se revelou? Quer dizer... Depois de todos esses anos, por que só agora? — perguntou, não por maldade, apenas por curiosidade mesmo. O Noah soltou um novo suspiro, coçando a cabeça lentamente e abrindo um sorriso de “mesmo que você me torturasse, não lhe contaria”. Montgomery fechou os olhos por alguns segundos antes de fazer a próxima pergunta. — E minhas memórias de infância? — a menina sentia-se um pouco tonta com toda aquela informação que recebera. Estava chocada, era fato, mas queria saber mais. Muito mais. O corpo da pequena inclinou-se para frente quando o homem encarou o teto mais uma vez, antes de voltar as íris amareladas para as da semideusa.

— Você ainda não entendeu? Você não tem memórias. — no momento que ouviu essas palavras o coração da menina quase parou, e seu cérebro demorou para processar essa informação tanto quanto as anteriores, sendo que isso a chocou mais ainda. — Você esteve dormindo em criogenia por todos esses anos, até despertar há cinco anos. Você nunca teve uma vida, Luxanna, e nunca terá. Seus olhos são a prova.

— O que tem meus olhos? — ela perguntou, inclinando a cabeça em confusão plena. Neah levantou-se da cadeira e caminhou até o piano que existia ali, sentando-se no banquinho e convidando a menina para se sentar junto. Sem hesitar ela colocou-se de pé e caminhou até ele, sentando-se a seu lado e encarando-o, mas o homem limitou-se a sorrir e mandou-a tocar a música dela. — Música? Não sei do que você está falando! Eu não...

Com os longos e morenos dedos, Neah começou a deslizar as mãos sobre as teclas, tocando notas de uma melodia que a filha do sol sabia.

Soshite bouya wa nemuri ni tsuita
ikizuku hai no naka no honoo
hitotsu, futatsu to ukabu fukurami itoshii yokogao
daichi ni taruru ikusen no yume, yume

Gin no hitomi no yuragu yoru ni
umare ochita kagayaku omae
ikuoku no toshitsuki ga
ikutsu inori wo tsuchi e kaesshitemo

Watashi wa inori tsuzukeru
douka konoko ni ai wo
tsunaida te ni kisu wo

A letra fluía dos lábios da loira, como se ela sempre soubesse cantar aquela música. A surpresa por isso foi tal que, de repente, ela parou de cantar. Ela só não sabia se a surpresa maior era o fato de ela saber uma música que tecnicamente não sabia, ou se era por estar cantando fluentemente em japonês, tendo em vista que essa era a pior linguagem dela.

— O que...

— Veja, você está acordando! — Neah falou enquanto ainda tocava o piano. O corpo da feiticeira começou a ficar mais leve, de acordo a sala branca ia desaparecendo. — Você ainda vai voltar para me ver, luzinha. Estarei sempre em sua consciência, para lhe explicar algumas coisas sobre você. No seu próximo sonho, talvez. Timcanpy vai estar ao seu lado quando acordar. Afinal, ele sente minha presença em você. Cuide bem dele, ok?

E, depois disso, a última coisa que a jovem viu foi o Noah acenando enquanto abria um sorriso. Sim, ela voltaria. Aquilo ainda não havia acabado.

(QUATRO) DECISÃO

Luxanna abriu os olhos devagar, o teto desconhecido a fez levantar-se rápido demais da macia cama a qual estava, o que lhe causou tontura e a fez cair para o lado, mas foi amparada por alguma coisa que a impediu de espatifar o corpo no chão frio. O braço do desconhecido a deitou novamente na macia cama.

— Vai com calma, mocinha. — a voz de Allen soou no ar e, quando a visão embaçada da arcana finalmente entrou em foco, ela conseguiu ver o garoto. Ele estava sentado em uma cadeira simples, próximo a cama onde a menina estava deitada. Ainda vestia as mesmas roupas quando o encontrou pela primeira vez, e tudo que ela esperava era que não tivesse passado tanto tempo assim. — Tudo bem?

A arcana apenas encarou o jovem de sorriso bondoso e amigável e que estava preocupado com ela. Por reflexo ela levou o antebraço direito para frente dos olhos, impedindo que o estranho a visse chorar. Os soluços antes contidos pareciam sair com facilidade, e logo ela havia caído no choro novamente. Allen não a consolou, ou deu tapinhas em suas costas, o que ajudou muito.

Não se deu conta de quanto tempo se passou, mas finalmente conseguiu se acalmar. Com as costas das mãos secou as lágrimas e vagarosamente sentou-se na cama, respirou fundo algumas vezes e encarou Allen verdadeiramente.

— Oh, ela acordou! — Lavi entrou no recinto segurando uma sacola de plástico com alguns pães, sendo seguido por Kanda, que carregava algumas bebidas. — Olá, mocinha! Podemos saber o seu nome? Você é bem o meu tipo, foi um strike e tanto.

— Baka Usagi, não seja assanhado. — Kanda falou rispidamente, enquanto colocava as bebidas em cima do criado mudo. A loira o viu abrir uma água, colocar em um copo descartável e oferecer a ela, que aceitou sem cerimônias.

— Muito obrigada. — a voz estava arranhada e estranha, o que era bem ruim para ela. Apesar de estar com suas armas transformadas em objetos, se precisasse usar a voz para escapar não conseguiria. — Meu nome é Luxanna Montgomery. É um prazer conhecê-los.

— O prazer é nosso, Luxanna. — Allen sorriu novamente. — Bom, nos apresentaríamos, mas pelo que Lavi contou, já sabe quem somos. — a feiticeira ia concordar com a cabeça, mas então parou e encarou os três novamente, e provavelmente fez uma careta pois o platinado sorriu em desculpa. — Ou não, não é? Bom, sou Allen Walker, e estes são Kanda Yuu e Lavi. Somos exorcistas.

A menina concordou com a cabeça. Sim, ela sabia, Neah havia contado. Jogou as pernas para fora da cama e abriu um sorriso gentil para eles, para então encarar o teto novamente e suspirar.

— Agora a pergunta é: quem é você de verdade? — Allen tornou a falar, sem deixar que o sorriso bondoso saísse de seus lábios.

— Sou uma semideusa. — falou sem hesitar, embora estivesse em dúvidas sobre quem realmente era agora. — Filha de Apolo, serva de Circe.

— Oh, Panda-jiji já me falou sobre vocês. — Lavi falou, sentando-se ao lado da arcana. — Meio mortais, meio divinos. Poderosos, e se não souberem lidar com seus poderes, podem ser perigosos.

Uma risada nervosa saiu dos lábios da menina. Ela não se julgava perigosa, mas e se realmente fosse? Suspirou quando abaixou a cabeça, e levantou-a novamente para encarar o garoto de cabelos prateados. E, quando abriu a boca para falar algo, um borrão dourado entrou pela janela e encostou na bochecha dela.

— Timcanpy? — a jovem praticamente pulou de susto, mas relaxou ao ver o que era. Neah estava certo, Tim achara o caminho até ela. Será que realmente podia confiar naquele cara? Ele lhe contara coisas que a deixaram perturbada, aquilo era um fato.

Uma parte de si queria voltar para a Ilha Spa e enfiar a cara nos livros até descobrir algo, mas uma grande parte de si gritava para que fosse atrás da fonte de tudo aquilo: seu pai divino, o bundão do deus do sol. Para isso, ela precisava de alguém que Neah mencionara na sala branca.

— Por um acaso vocês conhecem um tal de Marian Cross? — perguntou, por fim, enquanto encarava os três rapazes.

Segundo o Noah ele teria as respostas, então iria atrás dele primeiro. Arrancaria o que queria saber nem que fosse na base da força, mas essa parte poderia deixar para Neah. Não que ela estivesse desejando desaparecer, mas não bateria em alguém desse jeito.

Era fato de que, com as revelações, seu emocional estava uma merda e tudo que queria era deitar em posição fetal e chorar, mas o que lhe trouxe de volta à realidade foi aquela bolinha amarela. Timcanpy havia se colocado no vão do pescoço da menina, aconchegando-se em seu ombro. Por ela mesma, seguiria em frente.

Pela verdade, seguiria em frente. Sem hesitar. Sem parar. Descobriria as verdades ocultas sobre si mesma, mesmo que custasse sua sanidade.

Observações:
Ok, essa CCFY é uma ideia louca que eu tive há éons, e eu gosto dessa parte de trama da minha personagem, então resolvi trazer para cá ♥
Se não entenderem algo, eu explicarei certinho para o avaliador. Mas não saiam daqui com dúvidas, por favor ;-;
Obrigada ♥

Dicionário:
— Bakanda: junção de baka (idiota) e Kanda, e é o apelido que Allen deu a Kanda;
— Moyashi: broto de feijão. É o jeito de Kanda se referir a Allen, caçoando de sua altura;
— Baka Usagi: literalmente “coelho idiota”, apelido que Kanda deu para Lavi;
— San: É usado para referir-se a alguém de mesma hierarquia, quer etária, quer profissional. Aplica-se tanto a homens como a mulheres, e a tradução mais próxima é senhor e senhora.
— Crown Clow: “Palhaço Coroado”, ou “Palhaço de Deus”, ou até mesmo “Palhaço Divino” é o nome da Innocence de Allen Walker.
— Panda-jiji: é o jeito que Lavi chama Bookman, seu mestre;


Música:
- Música Tocada:
A música chama Tsunaida te ni Kiss Wo, e o link dela está bem aqui

Poderes Utilizados - Circe:
Passivos

Ativos
Nível 17
Nome do poder: Telecinese II
Descrição: Seu dom começa a desenvolver-se melhor e seu personagem já tem mais controle sobre ele, agora é capaz de levantar objetos mais pesados como armas de bronze e ferro, mesas e cadeiras e até mesmo animais menores e o corpo de uma criança.
Gasto de Mp: 25 MP por turno usado
Gasto de Hp: Nenhum
Bônus: Nenhum
Dano: Nenhum
Extra: O dano é contabilizado de acordo com o uso da telecinese, pois pode ser uma habilidade ofensiva ou defensiva.

Nível 20
Nome do poder: Arker
Descrição: A feiticeira descarrega parte de sua energia acumulada nas mãos, e joga as mãos para a frente, como se estivesse empurrando algo, ou alguma coisa. Com isso, a descarga de poder é liberada e o inimigo é lançado a alguns poucos metros de distância da feiticeira. Essa força de poder causa um impacto considerável, e não pode ser vista, pois se assemelha a um campo de força completamente invisível, emitindo apenas “ondas” de poder sobre o campo.
Gasto de Mp: 30 MP
Gasto de Hp: Nenhum
Bônus: Nenhum
Dano: 40 HP
Extra: Nenhum

Recompensa almejada::
Mascote

Timcanpy (Mini-Golem) [Timcampy é uma criatura peculiar, feita com um misto de magia e tecnologia. Possui formato de bola e inteiramente dourado, com uma cruz em baixo relevo e em tom mais claro na frente. Tecnicamente é impossível de ver os olhos dele, mas ainda consegue revelar sua boca quando quer — afinal o mesmo precisa se alimentar. Possui cerca de 10 cm de diâmetro, cabendo na palma da mão de Lux. Pode ser classificado como um meio-golem, sendo próximo do que poderia ser chamado de homunculus, apesar de ser feito de um material desconhecido, mas parcialmente orgânico. Isso faz com que tenha caraterísticas semelhantes à construtos, mas não totalmente: como um golem, Tim é imune a poderes mentais, sangramentos e asfixias mas, de alguma forma, tornou-se capaz de ter sentimentos, sendo afetado normalmente por este tipo de poder. Sua visão é comum, o que faz com que ainda seja afetado por ilusões, mas pode ver no escuro. Diferente de uma máquina, possui olfato, paladar e audição normais. Seu organismo vivo não o deixa imune a envenenamentos ou doenças. Tim não pode ser modificado em uma forja comum, já que se aproxima mais de um ser vivo do que de uma máquina, mas pode se recuperar normalmente através de sono e comida, ou recebendo poderes de cura e poções. Não possui funções combativas. Sua locomoção básica é por vôo, com capacidade de manobra boa, semelhante a uma ave de pequeno porte, e sua cauda é prensil, agindo como um membro normal, sendo capaz de carregar e segurar pequenos itens, devido ao tamanho diminuto que possui. Tim não fala, mas entende o que é dito ao seu redor, sendo considerado uma criatura inteligente até certo ponto: seu raciocínio não é humano mas está um pouco acima do de um animal, podendo discordar do dono ou tomar decisões simples sozinho.]

(C) Ross


Take courage in the light
Luxanna C. Montgomery
Luxanna C. Montgomery
Feiticeiras de Circe
Feiticeiras de Circe

Idade : 18
Localização : Ilha Spa

Voltar ao Topo Ir em baixo

CCFY - Luxanna Crownguard Montgomery, The Devil Daughter Empty Re: CCFY - Luxanna Crownguard Montgomery, The Devil Daughter

Mensagem por Hades em Sex Nov 08, 2019 8:26 pm


Avaliação


Método de Avaliação:

Valores máximos que podem ser obtidos

Máximo de XP da missão: 6.000 XP e Dracmas 3.000 XP e Dracmas

Realidade de postagem + Ações realizadas – 50%
Escrita: Gramática, erros, pontuação, coerência, concordância, etc – 20%
Criatividade/Estratégia em combate + inteligência – 30%

Realidade de postagem + Ações realizadas: 45%
Escrita: Gramática, erros, pontuação, coerência, concordância, etc: 20%
Criatividade/Estratégia em combate + inteligência: 30%


RECOMPENSAS: 2.850 XP e dracmas + Mascote

Estarei adicionando a mascote ao seu perfil, porém você deverá criar os poderes nesse tópico.

Comentários:
Em alguns pontos da narrativa me perdi, ficando sem saber se o trecho se passava na cabeça da personagem ou na realidade, o que me fez ler o texto mais de uma vez em busca de uma melhor compreensão. Não observei erros enquanto lia a missão e minha unica observação negativa é sobre o que escrevi anteriormente. É necessário tomar cuidado com plots complexos e extensos para que todas as partes fiquem claras. Apesar disso achei a trama criada bastante interessante e complexa, praticamente um conto completo.


Hades
Hades
Deuses Olimpianos
Deuses Olimpianos

Localização : Importa? A morte ainda será capaz de te achar.

Voltar ao Topo Ir em baixo

CCFY - Luxanna Crownguard Montgomery, The Devil Daughter Empty Re: CCFY - Luxanna Crownguard Montgomery, The Devil Daughter

Mensagem por Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Voltar ao Topo


 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum