The Blood of Olympus
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— [CCFY] O diário de coleta da ceifadora Monoke

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Mensagem por Nakine Monoke em Sab Fev 02, 2019 8:48 pm


— São apenas lágrimas, como dizem os homens. — Falou Bagheera. — Agora te reconheço como homem, e não mais como filhote de homem. De fato, a selva está fechada para ti daqui por diante. Deixe-as cair, Mogli. São apenas lágrimas.

Rudyard Kipling, O livro da selva


Última edição por Nakine Monoke em Qui Fev 07, 2019 11:03 am, editado 2 vez(es)


Sometimes even
to breathe
is an act
of courage
Nakine Monoke
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Filhos de Quione
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Mensagem por Nakine Monoke em Seg Fev 04, 2019 1:14 am

o ceifador e a foice

A manhã chegara sem alarde e era um dia como qualquer outro. A chuva havia passado, e o sol espiava por detrás das nuvens tangidas pelo vento. Não sabia exatamente em que que ponto da semana estava, também não se ocupou em verificar o relógio ao lado da cama. Se não tinha nenhum compromisso, qual o motivo de se atentar aos detalhes banais como o tempo? Tudo parecia ridiculamente igual. Um banho rápido antes de se enfiar na camiseta laranja, os cabelos em um coque solto para espantar o calor. Não se lembrava de ter colocado a calça ou o coturno, mas já estava com eles quando se viu andando para o o refeitório barulhento. Comida suficiente para servir um batalhão. Pareceu apenas piscar para acabar sentada ao lado dos irmãos por parte de mãe.

Os filhos de Quione eram muito belos, mas raramente calorosos. Comeu em silêncio um prato já posto para si com absolutamente tudo o que gostava. Uma panqueca com frutas vermelhas, um pedaço de red valvet, alguns mirtilos cobertos de mel e dragon fruit. Era um café da manhã monótono e delicioso. As coisas só começaram a ficar estranhas quando, na taça em que deveria estar seu suco de amora com laranja, encontrou apenas um bocado de vinho seco. Tentou até roubar o copo de um loiro com o rosto embaçado à sua direita, porém bastou um gole para perceber que ele havia optado por aquilo também. Resmungou palavras inteligíveis em um tom baixo demais para se fazer ouvir perante toda a algazarra, revirando categoricamente os olhos e forçando um gole ou dois apenas para limpar a garganta. Já sentia que o dia não seria lá dos melhores... Mas manteve-se firme.

Ainda que não tivesse absolutamente nada para fazer, levantou-se com a súbita ideia de ir para a arena. Precisava buscar as próprias armas, claro, por isso começou a anda. Um minuto, dois... Já estava quase chegando quando esbarrou em um estranho. Não tinha a mínima noção de como aquilo seria possível, já que o homem era mesmo do tipo que se destacava por ali! Alto e lânguido, passava bem longe da camisa padrão dos semideuses, coberto por um manto negro com capuz. Não conseguiu ver seu rosto. Tipo, não conseguiu mesmo e não era por falta de oportunidade. Quando olhou para a face alheia ela simplesmente não parecia estar lá: assim como o loiro de mais cedo, viu apenas um borrão de cores, apesar de não estar numa velocidade suficiente para tal. "Mas que..." Não conseguiu completar a frase pois o palavrão havia simplesmente sumido de sua mente, como se tivesse sido apagado.

Então pensou em voltar em encara-lo melhor outra vez, ou talvez confrontá-lo... Porém o corpo simplesmente não obedeceu. Em algum momento, sem ter realmente passado pelos outros chalés, viu-se fitando a fortaleza de sua progenitora. O frio tinha um efeito calmante sobre si e enquanto aquele ar ártico já conhecido começava a abraçar seu corpo, a mente aos poucos desanuviava - ou talvez se anuviava mais. "Uma noite de sono ruim pode confundir qualquer grande nome" Decidiu em silêncio, apesar de ouvir a voz na própria cabeça. "Só preciso treinar um pouco e permanecer calma." Era uma ideia tão certa, tão perfeita. Respirou fundo, deixando que aquela temperatura perfeita atravessasse até suas entranhas, fixando o olhar nos grandes pilares de cristal que sustentavam a morada dos filhos de Quione.

Eles refletiam a luz do sol inescrupulosamente, com uma majestade simplesmente ímpar. Às vezes tinha a sensação de que gostavam da atenção que recebiam sempre que um ou outro campista era atraído pelos pontos luminosos que lançavam. Parecia algo justificável, já que assim roubavam a beleza óbvia do lago congelado com suas árvores caducifólias. "Pilares de cristal não pensam...!" Tratou de lembrar-se sem afastar os lábios, sorrindo para si mesma. Agora se sentia muito melhor, confiando na hipótese de que uma noite agitada tinha deixado seus sentidos um pouco perdidos. Perdidos ao ponto de não conseguir definir rostos com muita facilidade e coisas assim. Suspirou, acariciando as têmporas para aliviar a pressão antes de finalmente passar pelo batente branco e perfeito, avançando em passos rápidos até seu beliche do lado direito do cômodo.

Subiu pela escada estreita e embora não fizesse sentido nenhum a bonita foice já a esperava sobre o colchão. Uma parte de si gritava calorosamente para que a soltasse, insistia que havia algo estranho com o objeto... Mas o outro lado pedia que a aceitasse.. Assim tomou-a em ambas as mãos deixando que um calor inesperado subisse por cada célula. Sentia-se mais viva internamente, ainda que uma aura certamente macabra emanasse do novo brinquedo. Tinha os olhos tão fixos na lâmina vistosa e brilhante que não pôde perceber o momento exato em que desceu da cama ou saiu do chalé. Quando levantou os olhos já estava na arena, bem no meio dela. E o pior: alguém parecia realmente irritado consigo, mesmo que não soubesse o motivo. O rapaz, um ruivo bem mais alto e corpulento, gritava coisas sobre Pandora ser imprestável e idiota. Dizia que era sem dúvidas uma menininha das piores e que lugar de menininha não era em lutas.

Não soube como podia se esquecer de acabar se deparando com um idiota daqueles, mas seu sangue já fervia e seu coração gelava quando o fitou nos olhos. Ele sim tinha rosto: um rosto sardento de jogador de futebol americano estúpido com seu nariz empinado perfeito. Não pretendia atacar, não pretendia mesmo... Contudo, depois de um piscar de olhos, ambos já se encontravam em uma luta fervorosa. Não usavam poderes ou truques. Na verdade não usavam nada além de suas armas. A Wolves brandia a foice como se fosse feita para si, girando em golpes nunca antes aprendidos, mas que se lembrava como já tivessem nascido consigo. A espada do maior cortava o ar na horizontal para afundar-se em suas costelas e, mesmo sem querer, agindo por puro impulso, virou o corpo todo como se estivesse com vontade de ver a lâmina de frente, mas interveio segurando o cabo da própria arma em dois pontos distintos e distantes nas duas extremidades, deixando o golpe ser aparado pelo centro como se fosse um bastão.

O som característico de ferro contra ferro, sentia-se uma observadora em primeira pessoa, não habitando o próprio corpo. Ofensas por parte do rapaz, ambos se orbitando como dois planetas, golpes e mais golpes. Eram todos flashes confusos e rápidos demais para entender de verdade até o momento que o oponente pareceu simplesmente desistir. Manteve-se imóvel com os braços ao lado do corpo quando a foice girou na altura do pescoço do babaca agressivo, rasgando a pele e a carne, provavelmente várias veias a julgar pelo sangue que fluía sem qualquer pudor em uma corrente vermelha. Era como ver uma torneira ser aberta: uma cascata viscosa que fazia o ruivo engasgar-se. Arregalou os olhos junto aos dele, soltando a arma com um baque seco na areia. Uma voz em seu interior disse que ele merecia, que ele era um idiota...

Porém era mentira. Ninguém mereceria isso e eu não o devia ter matado." Tinha uma melancolia deplorável e até pensou em abraçar o inimigo que agora não representava perigo algum. Queria confortá-lo nos últimos momentos, queria pedir perdão até que sua boca se rasgasse, queria gritar que fora sua culpa... Mas o corpo manteve-se imóvel, congelado e horrorizado, enquanto levava ambas as mãos aos lábios, chorando lágrimas silenciosas. Todos os pares de olhos por ali fixaram-se em si como se a julgassem. Podia ouvir os sussurros, podia ver a reprovação... E não os contestou. Observou o corpo cair aos seus pés em convulsão, completamente sem vida.

Acordou com as costas ensopadas, sentando-se rapidamente com uma falta de ar desconhecida. Não lembrava de absolutamente nada do sonho... Apenas do menino que matara. Lembrava do sangue, dos golpes, dos olhos sem vida fixos em si sem realmente verem qualquer coisa. Sentia-se capaz de simplesmente sumir ou acabar entrando em um modo de auto-destruição. Geralmente os sonhos de semideuses acabavam se provando presságios... E se mataria alguém em um futuro próximo... Bom, não tinha gostado do possível presságio que acabara de receber. Só que não tinha muito o que fazer agora. Esfregou o rosto com as mãos, tentando acordar ao mesmo tempo em que limpava o suor. Os nervos estavam em frangalhos, mas obrigou-se a descer da beliche e ir para o banheiro, lavando o rosto com a água gelada da pia. Analisou a própria imagem várias vezes em cada detalhe mínimo. Era difícil ver a si encarando os próprios olhos enquanto tentava decidir se era capaz de cortar a garganta de alguém. Estalou a língua no céu da boca, tentando afastar os pensamentos.

Vestiu-se quase mecanicamente, empurrando a camiseta laranja pelo próprio corpo. Para aquele dia escolheu uma calça de moletom cinza e um tênis de pano com sola que parecia de espuma. Ele era leve e simples e foi um grande parceiro na corrida que iniciou logo que saiu do dormitório. Na verdade começou com uma caminhada tranquila, até perceber que não queria ficar vendo rostos e cabelos por aí. No fundo sabia que procurava alguém que se encaixava na vítima de seus sonhos, por isso apressou o passo cada vez mais. Corria sem rumo, atravessando a área protegida quase de cabo a rabo, aumentando o ritmo sempre que via qualquer coisa que a fizesse lembrar do rapaz. Armas, olhos azuis, sarnas, ruivos, narizes finos... Até o auge do desvairo quando começou a forçar o ritmo sempre que avistava um rapaz.

As panturrilhas ardiam, o ar queimava feito fogo nos pulmões. Queria desesperadamente esquecer e quanto mais tentava se forçar a tal, mas se fixava nas imagens. Já estava nos limites do acampamento, sentindo a tensão da barreira que fazia os pelos de seu braço ficarem arrepiados, quando notou uma figura encapuzada de manto negro a encarando do outro lado. Foi quase um vislumbre, uma alucinação rápida... Mas, como que ativada pelo estranho, o momento em que ele esbarrou consigo em sonho voltou com força total para sua memória. Não sabia se pelo esforço da corrida ou pelo desconhecido que marcava parte do presságio, mas vomitou toda e qualquer substância que ainda tinha no estômago.

Era nojento o cheiro de bile e alimentos que já tinham começado a digestão. Estremeceu por inteiro antes de piscar com força, apoiando as mãos nos joelhos, e simplesmente deu às costas para tudo aquilo. "Não vou fazer nada que eu não queira fazer." Decidiu mentalmente enquanto voltava em uma caminhada moderada para o centro do acampamento, decidida a fingir que tudo aquilo era fruto de seu espanto pelo sonho. Desta forma teve um resto de manhã muito mais tranquilo. Tomou café com os irmãos, comendo tudo do bom e do melhor e tomando o maravilhoso suco de laranja com amora que tanto gostava. Passou um tempo nos campos de morango, matou algumas horas na praia... Já era fim de tarde quando, apenas por impulso, decidiu ir ao lago para relaxar. Estava consideravelmente mais calma, entretanto não era segredo que evitava ir para a cama. Não era estúpida o bastante para correr atrás dos pesadelos, claro.

Sentou na margem das águas calmas, permitindo-se puxar a calça até os joelhos para molhar os pés... E aí as coisas simplesmente fugiram do controle. Não sabia bem como tinha acontecido... Apenas um momento de distração para se ver observando fixamente dois meninos discutirem sobre algo que não compreendia completamente. Nenhum dos dois tinha os cabelos cor de fogo, o que pareceu acalmá-la... Mas percebeu quando o bate boca começou a sair do ponto aceitável. Trocavam empurrões, falavam mais alto do que antes e agora pareciam realmente muito bravos. Panda queria sair dali. Queria fingir que não viu nada acontecer. O impulso, porém, foi mais forte do que conseguiu suportar. Levantou-se de supetão, aproximando-se de ambos com uma tentativa forçada de sorriso.

— Opa... Vamos com calma, sim? — A voz saía com uma confiança maior do que a que sentia ter, mas não pareceu ter qualquer efeito. Na verdade, as coisas apenas pioravam para a dupla de encrenqueiros assim que o primeiro deles arriscou um soco. Arregalou os olhos, diminuindo a distância entre eles com passadas longas, empurrando ambos com o cenho franzido. — Se querem mesmo fazer isso, vão pra arena! — Falou tão alto quanto eles falavam, mostrando que não estava mesmo para brincadeiras. Via como o peito dos rapazes subia e descia rápido, tomados pela adrenalina, e também o modo como a olhavam com espanto. Por alguns instantes se perguntou se estaria como eles: uma mistura de ferocidade de leão com uma corça assustada. Esperou que não estivesse. Torceu, na verdade. O ponto positivo é que estavam os três parados, surpresos demais para agir nos segundos seguintes... Até um deles simplesmente não estar mais. Até ele simplesmente decidir que era o momento perfeito para agir.

— É culpa dele! Foi por causa dele que perdemos a disputa com os filhos de Hermes. Aqueles dracmas já estavam no papo! — E então era isso. Estavam brigando por causa de alguma disputa e um algumas moedas. Pareceu ridículo e já estava prestes a zombar daquilo quando o dono da reclamação puxou algo da cintura. Queria ter sido rápida suficiente. Queria ter conseguido ler os movimentos do brutamontes. Não foi, não conseguiu, e por isso a adaga assobiou em uma dança glamourosa no ar antes de se afundar na carótida do amigo. Foi um movimento ligeiro e sem muita dificuldade e pela segunda vez a Wolves viu a inebriante sensação de encarar a morte.

O sangue fluindo próximo à orelha do rapaz, o grito perdido em sua garganta, o olhar acusador do atacante voltando para si. — Você não fez nada. Não o salvou. — A voz era gélida como seu chalé e profunda feito o tártaro. Mas outra vez seu corpo parou de obedecer e apenas deixou que as lágrimas fluíssem. Não se lembrava de ver alguém morrer sem ser em seus sonhos mais medonhos. Era tanto vermelho que sentiu que talvez pudesse deitar e se afogar nele... E então acordou.

Acordou ensopada de suor como acordaria mais quarenta vezes. Quinze pontos vitais, afogamento, morte por fogo e explosão. Teve também envenenamento, engasgo, sufocamento, atropelamento, desabamento, luta corporal e decapitação. Às vezes os mesmos pontos com tipos diferentes de lâmina, desastres orquestrados, uso de monstros ou mesmo de mascotes alheios. Peste, doença com químicos controlados e até poções. Havia sonhos que se pareciam com dias normais e sonhos que eram apenas flashes e situação previamente programada. Tinha quando nem escolhia o que bebia e tinha também, depois de algum tempo, quando começava a expressar por si mesma e gritar ou realmente tentar impedir a morte. Assistia em alguns casos, mas também tinha casos onde matava ativamente, mesmo sem querer. A única constante é que só os momentos finais eram recobrados ao acordar em um sonho dentro de outro. Se lembrava sempre do sangue, da sensação de ver a morte de perto, das reações das vítimas, do encapuzado e dos pontos acertados ou métodos usados. Um terror atrás do outro, sempre se recordando de cada rosto e cada corpo desde o primeiro ruivo... Até finalmente não levantar no chalé. Na verdade, nem mesmo precisou acordar.

Em um momento encarava uma de suas irmãs com os olhos vidrados na mesa do café, morta por um enxame de abelhas que desencadeou uma alergia extrema, e no outro era simplesmente o vazio de uma claridade excepcional. Era uma sensação engraçada. Era como estar dentro da própria mente em um instante de meditação profunda. Piscou varias vezes apenas para ter certeza do que via, apesar de os olhos não precisarem de mais do que alguns milésimos para magicamente se ajustarem à diferença de espaço e iluminação. Coçou a cabeça, confusa, e franziu o cenho por alguns momentos. Suspirou, olhando ao redor em busca de alguma saída... Entretanto a única coisa que encontrou foi o ceifador do lado oposto daquela imensa área.

Era impossível não se recordar dele em cada um de seus pesadelos secretos. Arregalou os olhos, tensionando os músculos como uma presa prestes a fugir... E, mesmo assim, por algum motivo manteve-se imóvel por vontade própria, esperando o momento em que ele diria o que era tudo aquilo. — Você foi bem... — Ele murmurou depois de um pouco de silêncio, parecendo conseguir ler a mente da semideusa. Ainda parecia lânguido e alto, mas agora o manto era mais próximo de um cinza delicado e muito menos agressivo. Agora que via seu rosto, tinha traços firmes e muito sérios. Finos e bonitos, como cada uma das pessoas que viu morrer. Teve a impressão de que cada uma era uma caricatura daquele homem.

— Você mudou a cor. — Foi a primeira coisa que conseguiu pensar e colocar em palavras ordenadas, o que pareceu deixar os dois um pouco confusos. Levou a destra para a têmpora, massageando-a enquanto tentava arranjar algo um pouco melhor e mais legítimo. — Bem em que? — Perguntou por fim, deixando que o próprio olhar passeasse tranquilamente pela face do maior. Desconfiava que, caso quisesse, ele já a teria matado. Além disso, algo em seu interior pedia que ficasse calma. Avisava educadamente que não tinha o que temer. — Em matar? — A ficha caiu finalmente enquanto apertava as sobrancelhas de modo a criar uma ruga entre os olhos. — Você que me fez fazer aquelas coisas? — A risada que ele soltou foi suficiente para deixa-la um pouco constrangida.

— Ainda que eu consiga intervir em seus sonhos enquanto uma possível candidata, preciso me ater à realidade que você conhece. Aparentemente, você me imaginava com o preto dos funerais. — Resumiu em uma frase simples e categórica, alisando o manto antes de começar a se aproximar em passos que mal pareciam tocar o chão. — E você não é boa em matar. Não ainda. — Concluiu com um sorriso raro e rápido, logo voltando para a seriedade com que chegar ali. — Mas pode acabar sendo, se aceitar minha proposta. — Enquanto ele se aproximava, aos poucos Pandora começava a formar fragmentos reais. Todos os quarenta e dois sonhos iam se firmando na mente por completo, não mais apenas como alguns segundos.

— Já deve saber quem eu sou. E já deve saber o que quero. — Não sabia de verdade, mas suspeitava, claro. Tantas mortes. Tantas mortes de forma extremamente treinadas e específicas. — Não precisa me chamar de senhor ou excelência... Não costumo ter o ego grandioso dos outros deuses. Me apresento para cada ser, individualmente, de uma forma única. Para você apenas Thanatos deve bastar, como velhos conhecidos. — Sentia o corpo todo arrepiado, pensando que talvez tudo aquilo fosse apenas uma preparação para o fim. Talvez todo aquele sangue fosse apenas uma prévia para ver o seu próprio. — E você se saiu bem. — Já era a segunda vez que ele dizia aquilo e ainda não tinha ideia do que tivesse feito direito.

— Me saí bem com o que? — Tinha um tom ligeiramente impaciente, quase irritadiço. Não tinha ideia de como alguém, mesmo um deus, pudesse ter invadido sua mente. Oras, ele não estava um pouco distante do próprio elemento? Parecia absurdo que tivesse algum tipo de jurisdição para fazê-la quase enlouquecer. Já estavam próximos o bastante para que ele a tocasse caso se esticasse com vontade mesmo, então cruzou os braços na frente do peito em forma de autoproteção. Não era exatamente seguro... Mas era o que conseguia.

— Cada um dos semideuses que escolho são por motivos diferentes e passam por testes diferentes. Você sonhou quarenta e duas vezes com a morte e, mesmo se lembrando de cada uma delas, em nenhum momento se habituou a isso. Entende o que isso significa? — A explicação era pausada e paciente de um modo que a deixava confortável e quase curiosa. Maneou a cabeça em sinal negativo, deixando-se vulnerável ao expressar toda sua confusão. — Significa que não perdeu a humanidade. Mesmo quando já conhecia mais de trinta jeitos de matar alguém, não teve vontade de fazê-lo até nos sonhos em que se deparava com situações que a deixavam frustrada, irritada ou triste.

— Então eu me saí bem em....? — Bom, sabia que talvez isso a classificasse para uma boa vestal ou curandeira... Contudo não conseguia um modo de ver a característica como positiva para ser uma escolhida por Thanatos, independente do que "escolhida" poderia querer dizer. A não ser que agora ele estivesse largando o ramo de almas para se declarar um novo propagador da paz mundial, não parecia que qualquer coisa faria sentido ali.

— Em não sucumbir ao poder. Em não deixar que o fato de saber matar influenciar sua visão. Você podia matar como autodefesa, como ataque, como modo de apartar brigas... Mas em todos os momentos eu é que tive de fazer seu corpo tomar a iniciativa. Precisei fazer com que já estivesse em luta para fazê-la prosseguir. Entenda, a tarefa dos ceifeiros é carregar as almas errantes e coleta-las para que os vivos não se misturem com os mortos... E, mesmo assim, muitos enxergam isso apenas como uma desculpa banal para acabar com vidas ao bel prazer. Não somos assassinos. Não somos vingadores ou justiceiros. Somos aqueles que fazem o trabalho que outros não conseguem fazer.

Ainda que fosse uma justificativa longa e demorada, arrastada na voz tranquila do deus, sentiu como se não pudesse nem mesmo piscar para não perder nada. Queria entender aquilo, queria mesmo... Ainda que o fato de Thanatos coloca-la como se fosse igual a ele a incomodasse por demais, deixando tudo ainda mais confuso. Ou talvez apenas preferisse ficar confusa, não aceitando o que de fato aquilo significava em sua completude. Ele tinha vindo em sonhos, testado seu potencial e a incluíra em seu discurso sobre os ceifadores. Era óbvio demais.

— Se quiser mesmo fazer isso, criança, basta encontrar a alma que já não devia estar aqui. — Murmurou, estendendo-lhe a mesma foice que encontrara sobre a cama do primeiro sonho. Dessa vez, porém, não precisou que ninguém a forçasse. Não precisou que ele dissesse que era mais do que encontrar. Suspirou, finalmente aceitando o que já sabia, tomando para si a arma enegrecida. Foi apenas tê-la em mãos que tudo mudou outra vez. Um cenário novo e bastante lotado. — Pode levar o tempo que quiser.

Diferente dos sonhos, não estava no acampamento. Não sabia exatamente em qual parte da cidade, mas tinha certeza de que era em algum lugar de Nova York. Thanatos havia sumido com outro sorriso raro e ao redor tudo se resumia em um horário de pico e um mar de gente. Todos caminhavam apressados para algum lugar ou objetivo, trombando várias vezes em Pandora como se não a vissem ali parada na calçada. Estava perto de uma grande empresa de vários andares e paredes de vidro, então decidiu que talvez fosse melhor se afastar um pouco do centro das atenções.

Andou por duas ruas, evitando quantos encontrões quanto possível, às vezes até se espremendo em muros para dar espaço para alguns apressadinhos. Não era fácil achar uma alma perdida por ali... E tinha a impressão de que aquela última provação não seria exatamente achar um fantasma translúcido e gritar para que o possível futuro patrono viesse buscá-lo. "Droga". Não raro eram os momentos em que sentia que sempre se metia em enrascadas... Mas aquele era, definitivamente, o segundo em que tomou isso como um fato, não como uma hipótese.

Velhos, adultos, homens e mulheres... Observava cada um deles que passava por si, tentando parecer natural com o objeto possivelmente nocivo que carregava com a tranquilidade de quem passeava com um buquê. Chegou a se perguntar o que as pessoas viam quando a olhavam ou esbarravam em si. Parecia uma perda de tempo imaginar aquele tipo de coisa quando sabia que o mundo em que estava não era mesmo real... Até perceber uma figura pequena logo a sua frente. Era apenas uma criança. "Uma criança num mundo de mentira". Justificou para si mesma esperando que fosse amenizar o aperto no coração. Obviamente não foi o que aconteceu.

O menino de cabelos pretos escorridos era literalmente guiado pela mãe, não parecendo ter qualquer vontade de se mover por conta própria. Simplesmente retomava a posição sempre que alguém esbarrava em si tinha um jeito estranho de manter a cabeça fixa para frente. Trajava um short quadriculado, um tênis sem cadarço e uma blusa azul com o símbolo da Marvel nas costas. A mãe tinha os mesmos cabelos, ainda que numa versão alongada, e um corpo esguio escondido pelo vestido floral. Às vezes fazíamos coisas impensáveis para protegermos quem amamos. Apressou o passo, esperando que aquilo fosse tão simples quanto esperava. No fundo torcia para que não fosse. Parecia cruel e abominável que considerasse fácil matar um garoto que não devia ter muito mais do que seis anos.

Passou-os ambos, mãe e filho, e depois de abrir vários metros de distância, colocou-se despreocupadamente de lado de modo natural, como se fitasse a loja logo a sua frente. Os olhos, porém, iam para a face da criança. Eram a última prova. A última esperança de que não fosse seu alvo. Por alguns momentos desejou não ter olhado. Preferia ter ignorado o menino e procurado até que as pernas se cansassem ao invés de simplesmente constatar suas suspeitas. Hesitou. Porém não tardou a impedir a se colocar diante de seu pequeno e indefeso oponente e a jovem mãe. Fitou os olhos completamente brancos da criança, pálidos e sem vida. Ainda assim o menininho piscou várias vezes, parecendo conseguir ver o que a ruiva carregava.

A mulher levou ambas as mãos à boca, parecendo e choque, e os olhos marejaram em uma velocidade impressionante. Ela sabia também. Sabia, inclusive, mais do que a própria cria. Talvez aquilo tivesse sido um pedido. Talvez um feitiço para manter seu eterno bebê por mais algum tempo consigo. Não sabia como funcionava. Sabia, porém, o que significava o grito estridente da criança, o berro da mãe que o mandou correr. Ela era despreparada e estava de salto, foi fácil evita-la quando investiu para si, tentando agarrar Pandora pelos cabelos mas recebendo um bom soco no queijo. O impacto tinha força suficiente para fazer a mulher desmaiar, ao menos naquele ambiente controlado.

Enquanto disparava em busca do menino, as pessoas iam aos poucos desaparecendo ao redor. As lojas e as construções iam sumindo, bem como os carros, a calçada e o céu. Só restava um último ponto ainda sustentado por onde o jovem passava, até que se enfiou atrás de uma lata de lixos enorme. Ele chorava de soluçar, o que foi o suficiente para partir o coração da jovem aspirante a ceifadora. Tentou colocar na cabeça que ele era apenas uma alma perdida e que precisava voltar para a própria realidade... Mas aquilo não pareceu amenizar absolutamente nada. Tentou manter-se séria apesar das lágrimas que ameaçavam brotar pelo canto dos olhos. Escondeu a foice atrás das costas e abaixou-se ao lado da lata com muita serenidade e uma calma absurda.

— Ei, ei! Desculpa assustar você! Eu sou uma amiga da sua família, só isso. — Começou mostrando a mão livre com a palma virada para cima. O menor ainda soluçava e maneava a cabeça veementemente em negativa. Um nó se formou na garganta da filha de Quione, de modo que precisou pigarrear para poder prosseguir. — Eu sou sim, juro! Sou... Uma grande amiga da sua tataravó! — Concluiu, achando prudente não usar nenhum parente muito próximo. — Sou amiga de todos aqueles que já viraram estrelinha. — Estava claro o misto de pavor e confusão que tomava o pequeno.

Queria abraçá-lo e soltar a foice, queria se afundar naqueles olhos vazios e esbranquiçados. Queria reconfortá-lo e desistir de tudo. Mas por algum motivo não o fez. Apenas sorriu cúmplice e com um carinho que não soube de onde tinha surgido, afagando os cabelos lisos e finos e deixando-se apreender cada detalhe dos traços orientais que ele levava. Faria questão de não se esquecer daquilo. — Você precisa fechar os olhos, está bem? Você precisa se acalmar para acordar em um lugar feliz. É só... Ter calma. — A última instrução foi mais para si mesma... E mesmo relutante o menino seguiu o que foi pedido. Apertou os olhos com força, fazendo rolar as últimas lágrimas ainda presas nos cílios. Tinha certeza de que ele fazia por puro pavor.

Respirou fundo, voltando a trazer a foice para frente do corpo e aproximou-se mais do menino para dar-lhe um beijinho de despedida no topo da cabeça. Era a aproximação necessária também para que deixasse a lâmina da arma rente ao peito pequeno e magro. Tomou o corpo imóvel com a mão livre e deixou que os dois movimentos se espelhassem: de olhos fechados puxou a criança para si enquanto empurrava a foice em seu peito, transpassando o coração para uma morte rápida. Espatifou-se em mil pedaços quando o sangue ainda quente encharcou suas mãos. Não parecia só um sonho para si. Não parecia um mundo de mentira. Fechou os olhos com força e quando abriu tudo era apenas escuridão. Não existia mais nada além das imagens do ato terrível que cometera.

— Isso é para que se lembre da coisa mais difícil que já fez. Assim todo o resto parecerá fácil. — A voz era apenas um rastro de som no abismo em que se afundava. — Mas espero que se lembre de que as almas perdidas não são assim. Só encontrei a diferença nos olhos uma ou duas vezes durante minha existência. Apenas... Sabia que se não houvesse uma confirmação óbvia, não o faria. Logo vai aprender a identificá-los de verdade. — As palavras pareciam cada vez mais baixas e distantes, como se a Wolves estivesse mergulhando cada vez mais fundo em um mar desconhecido.

— Por que quarenta e dois? — Perguntou sentindo ser sua última chance. Temia não lembrar da pergunta se a deixasse escapar. — E como conseguiu controlar os meus sonhos?

— Em chines o número significa "quero morrer". E invertendo, o vinte e quatro significa "morte em dobro. — Cada vez mais distante e distante e distante.— E não foi um sonho. Eu tenho domínio apenas das almas que transporto... Então apenas precisei que um dos meus seguidores tomasse as providencias para que você ficasse alcançável. — Ainda não entendia o que aquilo queria dizer exatamente... Mas estava pronta para terminar tudo aquilo. — Ah, quase me esqueci... Como vai querer ser conhecida? — Estava prestes a dizer que não tinha entendido quando ele adiantou a explicação. — Quando acordar vai ter nascido como ceifeira. Alguns continuam os mesmos... Outros acabam abandonando tudo e criando uma nova identidade. — Não teve tempo de responder, infelizmente.

Acabou abrindo os olhos cedo demais, piscando várias vezes na luz que finalmente pareceu causar alguma estranheza. Ao redor tudo era silencioso, fora alguns cochichos emocionados e às vezes algumas instruções rápidas. Não era o melhor lugar do mundo e sua cabeça doía de um jeito horrível, além de ter quase certeza de que não era capaz de mover a perna esticada para o alto. Levou a destra a face, esfregando suavemente os dedos pelo rosto inchado quase para verificar se realmente estava ali. O ato pareceu ter chamado a atenção de uma jovem de cabelos cor de mel com traços bondosos.

—Olha só....! Estava preocupada que nunca mais acordasse! — Comentou com uma voz terna e amável. Aos poucos a Wolves sentia os estragos no corpo, ainda que tentasse se concentrar nas palavras de Thanatos. — Você nos deu um baita susto! O Sr. D e Quíron ficaram furiosos quando seu amigo te trouxe pra cá toda cheia de hematomas e com vários ossos quebrados. Mas você é bem forte mesmo, neh? — O riso melodioso pareceu a calmar a cria de Quione, que não pode sequer assentir.

— Você pode descansar mais um pouco... Vou dizer que ainda não acordou e assim não precisa passar por todas as perguntas que provavelmente vão fazer. — A curandeira tinha claramente a língua solta, disparando várias palavras por vez. Parecia um pouco nervosa, talvez uma novata na ala de recuperação. Ainda assim Pandora se sentiu feliz por estar acordada. Era bom estar de volta. — Seu amigo deixou sua arma algumas horas atrás... Ele é uma boa pessoa, não é...

— Nakine. Nakine Monoke. — Era libertador poder escolher quem seria e não precisou olhar para onde a menina indicava para saber que a foice já esperava por si. A julgar pelo modo como cada célula latejava alguém tinha mesmo dado um jeito para que conversasse com o grande ceifador. Nem viva, nem morta. Fora apenas uma alma pelos últimos dias, vagando enquanto o corpo se recuperava. Pelo visto o patrono tinha mesmo seguidores muito bons em seguir ordens.

"Todo dia rezo. Elevo minha voz no vazio, na esperança de alcançar, para além do horizonte, algo mais profundo que as profundezas da minha alma. Peço orientação. E coragem. E suplico — ah, como suplico! — para nunca me tornar insensível à morte que executo a ponto de parecer uma coisa corriqueira, banal. O que mais desejo para a humanidade não é a paz, o consolo ou a alegria. É que ainda morramos um pouco por dentro toda vez que testemunhemos a morte de outra pessoa. Pois só a dor da empatia nos manterá humanos. Nenhum deus vai poder nos salvar se algum dia perdermos isso."

— Neal Shusterman, "Do diário de coleta do ceifador Faraday."

Presente de Reclamação do Grupo:
• Julgadora [Uma bonita e grandiosa foice toda feita de material negro enquanto sua lâmina, prateada, dizem ser feita de adamantino. É uma arma pesada nas mãos de qualquer outro semideus que ouse empunhar a arma mas tende a se tornar leve nas mãos dos ceifadores afinal, a foice sempre foi uma das marcas registradas de seu mestre. | Efeitos mecânicos: Se torna um bracelete quando não está sendo utilizada. Para ativar a arma, gire o pulso duas vezes em sentido horário para que o cabo comece a se desprender de seu pulso e cresça até se tornar a arma que é. | Cortes realizados por esta arma recuperam o HP de seu portador em 10% do dano causado.| Resistência Beta | Espaço para uma gema | Status: 100%, sem danos | Nível 3. | Lendária |Presente de reclamação dos Ceifadores de Thânatos].


Sometimes even
to breathe
is an act
of courage
Nakine Monoke
Nakine Monoke
Filhos de Quione
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Mensagem por Macária em Seg Fev 04, 2019 3:11 pm

Pandora

Valores máximos que podem ser obtidos
Enredo e coerência de batalha – 50%
Gramática e ortografia – 20%
Criatividade – 30%
Total de XP e dracmas que pode ser obtido: 5.000 xp e dracmas

Resultado obtido:
Enredo e coerência de batalha – 50%
Gramática e ortografia – 30%
Criatividade – 20%

Total:  5.000 xp + 5.000 dracmas

Comentários:

Eu gostei muitíssimo de sua história e sua narrativa e achei muito criativo como explorou a situação e a forma como Tânatos a testou. Só tenho uma pequena observação para fazer: "neh" é uma linguagem de internet, querida. Para falas use "né" (versão reduzida) e se for escrever no meio do texto, eu sugiro que não use a versão reduzida. No mais, não tive problemas de fluidez ao ler seu texto e o achei excelente!

OBS: Querida, você deve pedir a atualização de seus itens e habilidades pois eles estão no modelo antigo.



this a good death
money and diamonds can't save your soul

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