The Blood of Olympus
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CCFY - Para Tudo Existe um Começo

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CCFY - Para Tudo Existe um Começo

Mensagem por Bradley T. Jackson em Sab Jan 06, 2018 8:02 pm

As Tribulações de Brad







"Adolescer" é difícil para todo o menino. Muito pior, para o meio-sangue.






Toronto, Quinze anos atrás.

Para começar a contar sobre a adolescência de Bradley, primeiro temos que voltar alguns anos no túnel do tempo. Longos, longos anos, até a data em que o jovem garotinho tinha apenas 3 anos de idade e morava com os pais, Demian Jackson e Sara Thimotle, em um belo apartamento na metrópole canadense de Toronto. Um local aconchegante no décimo terceiro andar  de um residencial há apenas quinze minutos do centro da cidade, onde a mãe trabalhava num dos grandes prédios comerciais. Uma importante executiva ela era, de alguma companhia que hoje não faz mais diferença.

Olhando agora de volta àqueles dias, Demian jamais poderia imaginar que as coisas chegariam onde chegaram. Até então, nada além de uma vida normal o acompanhava. Uma esposa devota, um filho que se desenvolvia forte e saudável, estabilidade financeira e harmonia do lar. A vida ia muito bem para aquele jovem casal de canadenses.

Mas é claro, não teríamos uma história se não houvessem reviravoltas. E talvez a mais profunda de todas tenha acontecido justo aqui, quando Brad mal havia completado três verões neste mundo. Tudo começou numa quente tarde de verão. O distinto Professor Jackson acabava de sair da sala, sobraçando um grosso envelope pardo cheio das muitas páginas de prova que seus alunos acabavam de responder a respeito da Segunda Guerra Mundial - uma disciplina realmente fascinante que o pai de Brad lecionava há mais de cinco anos na Universidade de Toronto - quando deparou-se com uma mulher alta e esbelta, dona de olhos inteligentes de um tom profundo de cinza. O envelope caiu no chão com um baque surdo, deixando algumas folhas de almaço rabiscadas em caligrafias apressadas escorrerem pelo chão do corredor.

- Você... O que faz aqui... Depois de todo esse... - A boca do professor abria e fechava em uma expressão embasbacada, subitamente achar as palavras, que sempre lhe foram tão caras, era subitamente impossível.

- Recomponha-se, Demian! Tu não és mais um efebo para ter essas reações diante de uma mulher - a indignação e a pressa de Palas Atena haviam lhe trazido de volta aos antigos hábitos e ao vocabulário arcaico. Aquilo, pelo menos, pareceu ser um tapa no rosto do pai de Brad, forte o bastante para lhe tirar do torpor que aquela surpresa lhe trouxera.

- E como esperava que eu a recebesse, Thânia?... Quero dizer, Atena, ou que nome tenha! - a voz do professor voltava a ser clara, mais do que isso, lançava desafio a deusa da sabedoria e da guerra- Você simplesmente sumiu por meses! E ainda ao voltar, pediu que eu criasse uma criança que dizia ser minha! Aquilo quase destruiu meu casamento, sabia? O que vocês traz dessa vez? Outro "filho das nossas mentes"? - um tom leve de púrpura se apoderou das faces de Demian enquanto falava. Jamais engolira a história de que Bradley era filho seu com aquela mulher. Não teria se quer aceitado-o, se tivesse tido a chance. Mas ele simplesmente fora largado, registrado no nome do professor em frente a sua porta por aquela biruta.

- Guarda os teus vitupérios pra depois, mortal - a voz deusa soava como uma lâmina, fria e cortante, enquanto se dirigia ao ex-amante. Uma veia pulsava e tremia perigosamente em sua têmpora. Ela nunca tivera conseguido fazer aquele professor de fato compreender que ela se tratava da clássica deusa grega, e que do pensamento síncrono dos dois nascera Bradley, tal como ela nascera da têmpora de Zeus. Invés disso, ela tivera que manipular a névoa para se livrar de policiais que tentaram levá-la ao sanatório quando do dia em que presenteara Jackson com o garoto
- A criança corre perigo. Seu cheiro já começou a se espalhar pela vizinhança. A cidade não é mais segura para nosso filho. Os monstros virão.

Se o cético Demian já tivera ficado absolutamente contrariado com a imposição de uma criança que ele julgava ser fruto de frivolidades de uma esquizofrênica, ser chamado de mortal - a guisa de ofensa - por esta mesma pessoa e alertado de que a cidade não era segura para a criança que ele, mesmo sem quaisquer obrigações e a contragosto concordará em criar já era um disparate sem tamanho. Aquela mulher realmente acreditava ser uma deusa do Olimpo? Mas que disparate! Some por três anos e quando reaparece é para dizer o que ele tem de fazer com a própria vida? Mas era só o que faltava...


- Atena, é como prefere que lhe chamem, certo? - tentou falar com voz controlada, falhando miseravelmente na tentativa
- Eu não sei por onde esteve nestes últimos anos e nem porque decidiu voltar de lá. Mas minha mulher concordou em aceitar esta criança e estamos felizes com ela, aqui. Moramos num dos melhores bairros da cidade em um prédio com portaria vinte e quatro horas. Agora, se me dá licença - falava enquanto juntava o envelope caído e se dirigia para sua sala
- é melhor eu ir andando. Tenho outra turma em vinte minutos. Por favor, não me force a ligar para aqueles sujeitos uma vez mais - neste último trecho, é claro, se referia ao sanatório que chamara da última vez.

Por alguns curtos instantes, a filha de Zeus cogitou transformar aquele mortal em uma pilha de cinzas. Mas sabia o que o pai diria sobre isso. E da confusão que seria criar uma justificativa plausível para seu desaparecimento. E, bem ou mal, o filho precisava de um pai. Saiu pisando forte da cena com um modorrento suspiro de desdém por aquela criatura pela qual ela não sabia mais como tinha sido capaz de se encantar.

Mais tarde, naquele mesmo dia, Demian contou a esposa sobre o reaparecimento da "louca dos deuses", e sobre os infortúnios que ela predizia chegarem a família. Não foi uma noite muito alegre na casa dos Jacksons. Sara sempre desconfiara que a mulher fora um caso fora do casamento do marido e, se não tivesse visto com os próprios olhos a loucura dela, jamais teria concordado em seguir com o casamento. Mas a centelha da dúvida fora revivida com seu retorno.

Demian não poderia saber naquele momento. Tampouco, Sara. Mas fora naquele dia que o divórcio de ambos começara. Naquela discussão, e em todas que viriam seguindo os acontecimentos vindouros terminaria por obliterar a família tradicional e feliz que o professor sempre sonhara em ter...

Agora, nos vemos obrigados a viajar mais alguns momentos no tempo, mais precisamente, três meses após o aviso de Atena sobre os perigos que começavam a cercar o jovem Bradley. A estação desta vez era o Outono, muito cedo no semestre para Demian já estar aplicando provas. Uma época de clima modorrento no Canadá, em que as praças e ruas se enchiam de folhas mortas de plátanos e as temperaturas gostavam de dançar próximas ao zero.

Modorrento também era o clima na casa dos Jackson. O fim do verão havia vindo acompanhado de um grande acidente químico no interior do país, que havia causado um duro golpe na companhia onde Sara trabalhava. A empresa vivia uma fase de recessão desde então, sufocada por multas ambientais, indenizações e toda a sorte de processos judiciais. Ao passo que Demian estava em casa, se recuperando de uma perna partida num acidente de carro enquanto ia de casa para a universidade.

Não bastasse toda está pré existente tensão, o casal não vinha conseguindo dormir, pois Brad passava as noites tendo pesadelos e cólicas que não deixavam os pais descansarem. Todos os tipos de acidentes domésticos aconteciam todos os dias.

Ao menos, claro, era isso que a névoa permitia que os olhos mortais notassem. Foi também a névoa, que fez parecer que fora a explosão do botijão da cozinha, e não um novo ataque de monstros que causara um incêndio no apartamento durante aquele outono...

Há cinco anos, na flórida...
Daí em diante, as coisas só pioraram. Os acidentes domésticos, cada vez mais graves, que culminaram com o incêndio, forçaram o casal a se mudar com seu filho para uma casa térrea, mais retirada para o subúrbio, onde todo o tipo de desgraça parecia acontecer. Encanamentos estourados, quedas de telhas, acidentes de carro em ruas circunvizinhas. Como já adiantado, aquilo foi demais para o casamento. Foi demais para a relação. Antes que Bradley pudesse completar seu quarto ano, seus pais estavam separados...

Bem, novamente, a história nos convida a um salto no tempo. Dos dez anos que se seguiram ao trágico incêndio e a separação dos pais do garoto pouco tiveram de importante. Quando pequeno, Brad ficava muito tempo com sua mãe, e boa parte de seu cheiro de semideus foi embora junto com ela. Logo em seguida, também, o garoto foi matriculado nas pré-escolas e então no primário, onde o cheiro do sangue divino se misturou com o de tantas outras crianças normais. Não há aqui, incidências que sejam dignas de nota. Não, não. A infância do nosso jovem herói foi consideravelmente tranquila e até mesmo, normal.

Mas "adolescer" é difícil para todo o menino. Muito pior, para o Meio-sangue. É nessa fase que seu cheiro começa a se tornar mais evidente. E que os hormônios são mais difíceis de lidar. Ahh a puberdade, já é ela um monstro por si só, sem as aberrações da mitologia grega para torná-la mais desafiadora.

Pelos crescendo pelo corpo, suor se tornando profuso, espinhas e um estranho apetite pelo sexo oposto que nunca estivera ali antes. Isso tudo só piorava, é claro, a forte dislexia de Bradley e seu desespero platônico pela sensação da sala, Olívia Bagstout. Chefe das líderes de torcida, é claro. Foi por causa dela que ele convencera o pai a comprar aquela passagem para a Flórida. Pombas, ele nem gostava de futebol americano para querer acompanhar o time da escola no desafio que fora convidado contra o time de um colégio em Orlando.

Mas era o papo geral na turma de como os que fossem iam ficar sozinhos num hotel, poder ir aos parques do Disney World e só deus sabe que outras libertinagens. Alguns garotos do ano acima do de Brad falavam em levar camisinhas e bebidas escondidas. E nas festas clandestinas que rolariam a noite. Que bela oportunidade para agarrar a mulher dos seus sonhos! Era só nisso que a escola pensava. E era nisso que Finny, colega de Hokey de Brad no time da escola vivia insistindo com ele. Que oportunidade melhor pra mostrar para aquelas líderes de torcida que eles podiam ser tão impressionantes quanto os musculosos garotos do Futebol?  Não era como se eles fossem os patinhos feios da turma para não terem uma chance, certo?

Anos depois ele preferiria jamais ter embarcado naquele avião com o amigo.

Eles chegaram a Flórida na primavera, o famoso Spring Break no qual a competição amistosa entre o time canadense e a equipe americana iria ocorrer. Mas para os alunos de Toronto, aquilo mais parecia o pico do verão. Numa zona tropical como a Flórida, o calor era sempre intenso, mesmo em meias estações e os dias chegavam facilmente a vinte e oito, vinte e nove graus. Temperaturas que o verão em Toronto raramente alcançava.

Foram dias gloriosos, aqueles primeiros dias. Durante as manhãs, acompanhar os jogos dos times de Orlando contra as delegações de Toronto - principalmente os movimentos sensuais das líderes de torcida - durante a tarde, aproveitar indiscriminadamente a piscina do hotel. Jogando vôlei dentro d'água, polo aquático, ou simplesmente conversando entre os amigos, rindo. Passando vergonha na frente das garotas enquanto tentavam suas aproximações desajeitadas. Tudo aquilo era mágico, fantástico e novo para Brad.

Com seu porte atlético que desenvolvera desde muito jovem - que embora não fosse musculoso, era com certeza bem definido - chamava certa atenção das garotas, ainda mais com a ausência dos grandes e fortes jogadores de futebol, que descansavam e se concentravam para a próxima partida. E as exibições de polo aquático e "vôlei de piscina" só contribuíam, visto que o garoto sempre fora muito ágil e com ótima predisposição a esportes. Ele tinha ali, o tipo de atenção que nunca tivera na vida.

Enquanto na escola ele era apenas o garoto do Hokey que pagava mico nas aulas de inglês - ler textos para a turma nunca fora o seu forte - agora ele dividia o foco das atenções com os jogadores de basquete e os membros do atletismo da escola, que sempre foram populares na turma. Até mesmo a mesma atenção de seus colegas de Hokey, que por mais que o tratassem bem, sempre eram mais bem recebidos na turma por não sofrerem de TDAH. Aliás, até isso parecia melhor, com tantas coisas acontecendo o tempo todo, todas as pessoas estavam tão distraídas e eufóricas, que nem mesmo ligavam ou percebiam que Bradley era diferente. De repente, era como se ele fosse como todos os outros.

Mas infelizmente, não foi por isso que está viagem foi marcante, é claro. Afinal, ele desejaria nunca ter embarcado naquele voo.

Eles haviam chegado a Orlando num domingo a noite; e até sexta feira, tudo parecia um incrível sonho. Mas em todos os sonhos, chega a derradeira hora do despertar, e ele chegou para Bradley na sexta feira a noite. Sexta a noite, quando a primeira daquelas tão antecipadas festas clandestinas iria acontecer. O rapaz não poderia estar mais animado.

Tudo fora preparado pelos jogadores do time do segundo ano; eles haviam conseguido subornar alguns dos funcionários do hotel, para esvaziar um dos depósitos no porão. O dinheiro, claro, vinha do preço que todos pagariam pra entrar na festa. Foram colocadas caixas de som trazidas pelos estudantes de Orlando, e notebooks serviriam com as plataformas de DJ. Vários engradados de cerveja foram contrabandeados por ambos os lados e algumas sacas de roupas sujas, deixadas intencionalmente no depósito, fariam as vezes de sofás.

Finny e Brad chegaram pouco mais de meia hora após a festa começar. Era um verdadeiro bacanal juvenil. Latas e garrafas de cerveja atiradas para os lados, as principais músicas da estação tocando a todo o volume e, claro, a tradicional troca de fluídos entre alguns dos adolescentes. Fosse em pé, ou acomodados nos pufes improvisados, vários casais já se enroscavam em pesados amassos, enquanto muitos outros conversavam pondo em prática o milenar jogo da sedução.

- Caaara, você tá vendo isso? - Foi a primeira reação de Finny. O garoto era um bom palmo mais alto que Brad, de pele escura e ombros largos. Como a maior parte do time de Hokey, gozava de boa reputação na turma e na escola; naturalmente, já tinha alguma experiência naquela selva de hormônios para a qual nosso pequeno herói se encaminhava pela primeira vez - Eu não disse que ia ser animal? Espera só pra ver, daqui a pouco vai estar lotado! Só as garotas mais lindas da atlética da escola! Sem falar nas líderes de torcida! E essas americanas... Não de se jogar fora, né? Hahahaha

- Hahaha... Claro... - O nervosismo tomava conta do garoto enquanto respondia ao amigo. E também algo naquilo tudo não lhe soava certo... Tratar as meninas por aqueles termos? Ou a forma quase agressiva com o a qual alguns se amassavam aqui e ali... Mas, em contra partida, ele sentia uma enorme vontade de também experimentar aquilo...

- Vamos lá pegar umas cervejas! Vai ser bom para descontrair, cara!

- Tem certeza que é uma boa, Finny? Menores não deveriam consumir...

- Ah, você de novo com essa! Está bem, fique aí, seu caretão! Hahahaha. A gente se esbarra, eu vou tomar alguma coisa!

E com essas palavras, Finny se despediu de Brad mergulhando no meio da multidão. E foi aí que os problemas começaram.

Não paravam de chegar pessoas a festa. A cada cinco minutos, um grupo com quatro ou cinco outros estudantes chegava, a maioria com cervejas ou vinho, ou algum outro tipo de bebida clandestinamente trazida. Dançavam em pequenos grupos, entornando garrafas, gritando e rindo. Uma grande cacofonia começou a embaralhar a cabeça de Brad, o som da música cada vez mais alto, para poder acompanhar o aumento da multidão, a gritaria das pessoas tentando conversar em todos os pontos em torno de si, tudo se misturando com uma coleção de movimentos de adolescentes dançando desengonçados, luzes estroboscópicas - que algum engraçadinho trouxera de baixo do braço - e as cenas de quase luxúria entre casais com hormônios a flor da pele.

Tudo acontecendo ao mesmo tempo, aliado ao aroma de dezenas de perfumes diferentes, suor e hálito de cerveja. Aquilo era simplesmente demais para alguém com transtorno do déficit de atenção e hiperatividade. Era como se seu cérebro não soubesse onde se concentrar primeiro. Isso sem falar na enorme culpa que ele começava a sentir por estar ali, e a impotência por não conseguir aproveitar.

Meio zonzo e enjoado, ele deixou o porão pouco antes de ter passado uma hora lá dentro.

- Você parece bem acabado, meu chapa. Passou do conta, foi? - A voz de um desconhecido soou. Brad levantou a cabeça para encará-lo. Parado, ali na sua frente, um garoto que não poderia ser mais velho que ele, apoiado em duas muletas e com um boné de um time local de baseball o encarava. Próximo dele, outros três ou quatro adolescentes conversavam em voz baixa enquanto fumavam cigarros (ou alguma outra coisa).

- Minha cara está tão ruim assim? - foi tudo que pensou em dizer enquanto esfregava uma das têmporas tentando aliviar a dor de cabeça que o som alto causara - Eu nunca tinha ido a uma... O som era muito alto...

- Claro, é claro, o som! Hahaha. Sente-se aqui, cara, vamos conversar um pouco. Parece que você não tem nada melhor pra fazer. Eu, certamente, não tenho. - disse o estranho rapaz apontando um banco que mal podiam ver além da curva do corredor que levava ao depósito.

- É... Certo. Bradley, a propósito. E você... é? - antes de terminar a pergunta, o garoto finalmente se deu conta: o que diabos um adolescente aleijado fazia num hotel onde apenas comissões atléticas estavam alojadas... - E, desculpe, mas você não estava indo pra festa? Tudo bem em conversar comigo? - ele tentou soar o menos desconfiado possível. É claro, porém, que falhou miseravelmente. Ainda era um garoto muito ingênuo para saber dessas coisas.

- Antony. Mas pode me chamar de Tony. E hora, vamos Brad, posso lhe chamar de Brad? - continuou Tony, vivaz - você realmente não acredita que um cara como eu, estaria nos convidados desta festa... Acredita?

- Bem... Não... - disse ele meio sem jeito.

- Claro que não! Hahaha. Eu trabalho aqui no hotel. Estágio de férias, sabe? Eu que ajudei aqueles brutamontes a descolarem o porão... Mas é claro, o supervisor de quem molhei a mão pra conseguir o lugar disse que eu deveria limpar, então não tenho escolha a não ser esperar até o final da festa, não é? Hahahha. - ele tinha uma voz estranhamente vivaz e infantil. Meio tremida em alguns momentos. E um estranho tique nervoso de mastigar o canto do lábio. Mas parecia boa pessoa.  [color=#ffcc33- E você, acredito, também vai ter que esperar aquele seu amigo voltar da festa pra irem pro quarto, né? Ah, sim, vi vocês chegando. Estou aqui a um tempo, sabe?[/color]

- Ei! Digo... Sim, sim. Mas como assim nos viu chegando? Estava me seguindo por acaso? - uma pontada de indignação varou o peito de Brad. Como assim um menino aleijado estava seguindo ele sem que ele notasse?

- É claro que não! Eu estava descendo as escadas do patamar de cima, tinha ido largar a chave do porão no almoxarifado para não perder. Mas com essas pernas... Bem, você pode imaginar que subir e descer é um trabalho um tanto quanto árduo, subi quando abri "o salão" para os primeiros grandalhões entraram. Eu estava no meio da escada quando vi você chegando junto com seu amigo. Foi só coincidência, cara!

Alguma coisa naquela voz, por uma estranha razão, parecia passar confiança. E bem, olhando para aquelas pernas, não era difícil de se acreditar que seria uma jornada e tanto subir uma escada - quem dirá, descer, sem que as muletas rolassem degraus abaixo. O pensamento fez uma risada involuntária escapar de Brad, que ele prontamente sufocou, envergonhado.

- É uma cena estranha de se imaginar mesmo, Brad, não se preocupe, Bahahaha! Mas é ainda mais estranha de ver, sabia? - a risada de Tony pareceu estranhamente com um balido a um primeiro momento. Mas deve ter sido, claro, apenas impressão da cabeça ainda meio zonza pelo som alto. O que certamente não foi impressão, no entanto, foi o outro rapaz se içar nas muletas e se por a subir, atabalhoadamente a escada mais próxima. Gingando e bamboleando de uma forma que ficava no limiar do trágico para o cômico - Oooh... .

- Calma, te peguei! - Por um instante, numa das muitas vaciladas, uma das muletas de Tony escorregou, e o rapaz de pernas tortas começara a oscilar perigosamente sobre sua base instável. Teria caído de costas, quatro longos degraus abaixo, se não tivesse sido rapidamente socorrido por Brad, que não conseguia esconder um sorriso no rosto - Você é maluco, cara? Podia ter se machucado...  

- Hahahaha! Eu disse! É bem mais engraçado ver, não é? - e com um movimento ágil e aparentemente impossível, ele saltou dois degraus para cima usando as as muletas como apoio em degrausa diferentes, para depois se deixar cair nos braços de Brad novamente - Opa, hehe, descer não consigo tão rápido, se importa?

- Hehehe, não, não, eu acho... Mas o que foi isso? Se consegue subir tão bem, porque...

- Eu disse que era engraçado! E também, queria ver se você era uma pessoa boa. Se vamos conversar o resto da noite, acho que é uma coisa que precisamos saber um sobre o outro, né? Hahaha

O estranho humor daquele garoto aleijado ajudou a melhorar um pouco a noite de Bradley. Passaram horas conversando. De alguma forma, chegaram no fato de que Brad sofria com o TDAH, e que por isso a festa tinha sido tão desconfortável. Sem falar na sua inconformidade com a desonestidade. De início, ele achara que não teria problemas em enganar os estatutos da escola para se divertir. Mas na hora de fazê-lo... O peso na consciência simplesmente não o deixava em paz.

Foram longas horas de conversa com Anthony. Aliás, conhecê-lo, talvez tenha sido a única coisa realmente boa que aquela viagem a Flórida trouxera.

- Bom, boa noite, Tony! Foi um prazer te conhecer! - embora o termo correto, provavelmente fosse bom dia, já eram mais de três da manhã quando Finny deixou o baile clandestino, meio zonzo e rescindindo a cerveja para acompanhá-lo de volta ao quarto.

- Noite, Brad! O prazer foi meu!

- Sabe, amanhã a tarde acho que vamos ao Magic Kingdom! Venha conosco, vai ser legal. Montanhas russas e tal. Com certeza consegue uma folguinha sábado, né?

O rosto de Tony ficou branco por um momento. Como se Brad o tivesse convidado para fazer seu dever de casa por ele, ou espancar filhotes de panda. Aquilo confundiu o garoto. Mas a cor lentamente voltou ao rosto do estagiário.

- C-claro! Vou tentar ir... Durma bem... - falou em voz titubeante.

É claro que o sátiro estava preocupado. Será que ninguém contara aquele garoto que multinacionais como McDonald's e KFC são Hidras que se espalham rapidamente pelo mundo? Ou como promessa de diversão é sempre o ótimo disfarce para o covil de um monstro? O Sr. Anthony Lilly estava em sérios apuros. Como raios ia garantir a segurança de um Meio-Sangue no coração do Walt Disney world? A O sr. D ia matá-lo por isso. Ia sim...

O sábado amanheceu da mesma forma que vinha sendo aquela semana em Orlando: ensolarado, quente e com poucas nuvens no céu. Uma suave brisa com o aroma de folhas sobrava de sudoeste enquanto os garotos e garotas da escola de Toronto deixavam o salão do café da manhã - todos com caras de sono muito amassada devido ao noite anterior ter sido muito "efusiva". Eles haviam contratado um serviço de transfer para levá-los até os parques. Não que fossem muito distantes do hotel, Orlando não era uma cidade grande.

Partiram cedo, logo após o café da manhã, em torno das nove e meia. Os parques eram enormes e ficariam ali apenas até domingo, se quisessem aproveitar ao máximo, era melhor chegar o mais próximo do horário de abertura possível. Brad mal podia conter a empolgação. Sempre achara interessante aqueles brinquedos radicais que via nas propagandas de televisão; as montanhas russas, elevadores, e todas aquelas outras engenhocas feitas para despertar adrenalina e sonho ao mesmo tempo! Era fascinante o que a engenhosidade do homem podia fazer. Ele estava louco para experimentar a emoção de andar numa montanha russa, quase tanto quanto estava curioso para tentar entender como aquelas coisas funcionavam. Por algum motivo, sempre fora fascinado por alguns tipos de tecnologias - carros, aviões, máquinas - tanto quanto pela arquitetura. A inventividade humana era algo que seu pai havia lhe ensinado a adorar. Se perguntassem a ele qual era o seu herói, a resposta sempre vinha fácil e sem qualquer hesitação: Leonardo Da Vinci. Também pudera, o homem havia sido um talentoso pintor, escultor, engenheiro, arquiteto e inventor. Que maior símbolo da engenhosidade dos homens?

Bem, suficientes digressões. Temos uma história para contar. O transporte que os levava até o parque era um ônibus de uma linha especial, que passava por alguns hotéis da região, um serviço que não havia sido inteiramente comprado pelos estudantes de excursão. Então, é claro, não foi surpresa nenhuma para Bradley, quando o garoto das pernas tortas da noite anterior apareceu junto de alguns outros turistas para pegar carona junto com eles em direção aos parques.

- Bom dia, Tony! Conseguiu descansar um pouco noite passada? - disse Brad, com um pequeno bocejo entre uma frase e outra. A voz estava um pouco cansada, mas, fora isso, estava perfeitamente bem. Bem, isso e as olheiras.

- B-bom d-dia-a - as palavras vieram recortadas de um monstruoso bocejo que o fez gaguejar. - Ainda tive que ficar uma hora e meia depois que você saiu para poder fechar o porão. Foi uma noite longa... Oi, eu sou Anthony, mas pode me chamar de Tony - essas últimas palavras foram pra Finny, que o olhava com indisfarçado choque.

- Hey, Finn Benson, mas costumam me chamar de Finny... Esse não é o garoto com quem você ficou conversando durante a festa...? Achei que tivesse sonhado com aquilo... - dos três, a voz de Finny era a mais arrastada e carregada de um cansaço que parecia esmagador. O rosto tinha olheiras profundas e uma feição de profundo desconforto, como se tivesse acabado de engolir uma bola de tênis ou algo assim. Muito daquilo se devia a ressaca, claro. Mas ele evidentemente não ficara feliz do garoto aleijado se juntando ao grupo.

Não por preconceito. Pobre Finn. Ele era um rapaz razoável. Mas como a maioria dos adolescentes na idade dele, era desesperado por atenção, principalmente das garotas. Já fora um enorme trabalho tornar o careta do Brad um rapaz apresentável. Aquela maldita dislexia e mania de sabe tudo sempre foram um adversário e tanto. Mas Brad, ao menos, era um bom jogador de Hokey. Sempre é mais fácil enturmar atletas. Por mais esquisitos que fossem. Mas um garoto aleijado...

- Hey, Finny, por que você não vai lá pros fundos falar com a Emily? Ouvi algumas histórias sobre vocês de ontem hoje no café da manhã. Ou quem sabe não procura aquela menina de Orlando, qual era o nome dela mesmo? Vai ser mais fácil achar elas aqui no ônibus do que nas multidões lá no parque. Eu e Tony nos viramos - parecendo imediatamente entender o que ia na cabeça do amigo, Brad ofereceu-lhe a saída. Não tanto porque quisesse de fato ajudar o colega que o abandonara na noite passada, mas mais porque não achava que houvesse um jeito de ele conviver de forma minimamente civilizada com Anthony; ainda mais naquele estado. Ele havia colocado expectativas muito altas nessa viagem no que tocava o assunto popularidade. E o pobre rapaz de muletas, embora um pouco esquisito e com tiques estranhos, havia se mostrado uma pessoa legal. O mínimo que merecia era um pouco de dignidade.

Dito isso, o trio rapidamente se separou. Finny, foi sentar-se nos últimos bancos próximo de um grupo de três garotas e quatro garotos de uma das escolas de Orlando. Aparentemente, haviam se dado bem na festa pois, como todos os outros ocupantes jovens do ônibus, riam e falavam em tom alto. Tony e Brad, sentaram-se, por motivos óbvios, perto de uma das portas de decida. O jovem de Toronto passou a maior parte da viagem pedindo desculpas a respeito dos péssimos modos do colega de quarto e explicando que em situações mais propícias, ele não era tão ruim assim. Ao que o sátiro, muito educadamente, fez pouco caso. Sabia que não era culpa do garoto o comportamento digno de símio de seu amigo.

Durante o trajeto em direção a central viária do Walt Disney World, o ônibus ainda passara em outros dois hotéis, recolhendo famílias latinas em viagem de férias, intercambistas universitários e todo o tipo de gente que se pode imaginar, até chegarem a um imenso estacionamento a céu aberto, onde o ônibus deixaria seus passageiros. Após breves informações de como retornar e em que boxe encontrar o transporte de volta - pontualmente às 19:30, houve uma rápida explicação de como chegar aos parques.

Era realmente um World. Não havia transporte diretamente para os parques, mas sim para aquilo que parecia um enorme terminal de transportes da própria Disney. Havia duas estações de Monorails e um terminal hidroviário para transporte até os parques. Para o Epcot Center, o primeiro Monorail. Para o Magic Kingdom, o segundo e o navio temático. Entre eles e o parque, um imenso lago artificial. O demais parques do complexo só podiam ser acessados a partir de um segundo terminal, este apenas de ônibus internos da própria Disney, localizado na entrada do Magic Kingdom. Como o ser humano podia construir tudo aquilo? Que tipo de loucura era essa?

Brad desceu do ônibus absolutamente fascinado, amparando Tony para que pudesse sair logo da porta e evitar a torrente de turistas.

-Que loucura, não é? É quase como se fosse um país particular...

- Certamente recebe um número de visitantes maior do que a população de muitos - concordou Tony, enquanto os dois caminhavam na direção dos terminais.

- O que acha de tomarmos o barco? Pelo que estavam comentando no ônibus, é o jeito mais rápido... E eu... Nunca andei num barco... - a voz de Brad tomava um tom sonhador e ao mesmo tempo de súplica.

- Ah... É, seria legal... Mas sabe, no barco vai ser quase impossível de sentarmos, ele é tipo uma Balsa, sabe? Todo mundo acaba indo em pé... Claro, se você quiser... - O sátiro pôs-se rápido a procurar uma desculpa. Navegar num lago, cercado por mortais e no meio do que, sem dúvidas, era um ninho de toda a sorte de monstros aquáticos? Não, muito obrigado. Teriam sorte se chegassem do outro lado antes de serem comidos por sereias. O trem pelo menos era uma forma mais urbana e fechado ao ambiente externo. Se ia ter que manter aquele Meio-sangue inescrupuloso vivo até o final do dia, preferia não começar navegando indefeso em meio a crocodilos e coisa pior.

- Não, não. Credo, Tony, desculpe! Bem vamos, os Monorails são... É... - Brad começou a tentar ler as placas para se orientar em direção aos transportes, mas é claro, com elas escritas em tantos idiomas diferentes, sua dislexia definitivamente não ajudava.

- Por aqui. Você é míope, cara? - Disse em tom de brincadeira Tony, rindo enquanto apontava o caminho. Embora, claro, soubesse perfeitamente que o rapaz deveria ter Dislexia.

- Disléxico... Nossa, como eu ODEIO essa doença

- Melhor do que mal conseguir andar, certo? - foi a resposta de Tony, com uma piscadela, agora com certeza absoluta de que não se enganara quanto ao cheiro de Brad. Aquele ali definitivamente precisava ir para o Acampamento. Já era um milagre ter sobrevivido até tão longe sozinho. Pelo jeito o Canadá não era tão infestado de monstros quanto os Estados Unidos.

De toda a forma, por mais que o sátiro tivesse excelentes razões para se preocupar, o início da manhã foi bastante tranquilo. Ao menos, claro, em termos de ameaças mortais. Após longas filas tumultuadas no Monoreail e bilheterias, os dois curtiram um excelente dia de montanhas russas e simuladores. Cinemas 4D e brinquedos aquáticos. Mesmo Tony chegou a se esquecer de sua missão de guardião por um tempo. Fazia anos que ele não se divertia daquela forma. Bradley, então, não parava de exclamar maravilhado com as coisas incríveis que tinham sido construídas no parque. Suas grandes engenhocas orientadas a conceder aos visitantes o máximo da adrenalina e diversão.

E finalmente o merecido momento do almoço chegou. Os dois garotos caminhavam, suando e rindo em direção a uma grande lanchonete do Burguer King, perto do castelo da Cinderela - o enorme castelo cenográfico, feito pra imitar o de conto de fadas, que marcava o centro do parque. Já estavam debatendo sobre o que iriam comer quando Anthony repentinamente estaqueou.

- Pelos cascos de Pam! Brad, cui...

Ele nunca terminou a frase. Antes que ele pudesse, uma enorme cabeça reptiliana mergulhou sobre o semideus com a bocarra aberta. Sem saber se por sorte, por reflexo, susto, ou graças ao aviso atabalhoado do sátiro, a cria de olimpiano se atirou para frente num rolamento digno de judoca, escapando por um triz de ter a cabeça toda abocanhada por aquela coisa que surgira do nada. Sentado no chão, agora admirando o que acontecera, ele podia ver o longo e grosso pescoço daquela criatura, de um tom cinzento esverdeado, coberto de escamas e terminado numa cabeça imensa e losangular. Olhos do tamanho de bolas de tênis o observavam, famintos, com uma grandes pupilas negras em forma de fenda.

- Não fique aí parado admirando! Corra! - Tony estava desesperado. Sem pensar, jogou as muletas longe, atirando os tênis desconfortáveis pra fora também, revelando seus reluzentes cascos enquanto galopava enlouquecido na direção do Meio-Sangue, puxando-o pelo punho momentos antes da segunda cabeça bater com o nariz no chão a centímetros de onde ele estivera parado.

Levaria alguns bons momentos para Bradley perceber que aquela enorme lanchonete se transformara em algum tipo de réptil gigante e sanguinolento, com cinco imensas cabeças famintas. Tony se sentia um imbecil. Como pudera esquecer que as multinacionais, em sua maioria, eram Hidras disfarçadas pela névoa? Como eles dois iam sair ilesos dessa?

- O que diabos é aquela coisa... E COMO RAIOS VOCÊ ESTÁ CORRENDO, TONY?

- Isso é realmente importante agora...? ABAIXA! - uma cabeça cuspiu um líquido esverdeado pegajoso, que passou voando rente a cabeça dos dois amigos, colidindo com um "ploft" com um poste de iluminação, onde instantaneamente começou a fumegar... - Rápido, nossa melhor chance é nos misturarmos ao resto dos mortais, CORRA!.

O garoto não discutiu. Era verdade, fosse o que fosse, que o que era aquela coisa, ou como ela conseguia cuspir veneno, ou como de repente seu amigo aleijado corria... Como as outras pessoas não viam aquela coisa de quase dez metros de altura e CINCO malditas cabeças? Bem, isso tudo podia esperar. Manter a cabeça no pescoço parecia uma boa prioridade.

Os dois correram da melhor forma que puderam, esquivando e esguichos de veneno aqui e ali enquanto a imensa Hidra os caçava. Por duas vezes uma das enormes cabeças afundou num chafariz, próximo aos garotos, ao errar por centímetros a cabeça de algum deles. O jorro de água salpicara várias pessoas que passavam por perto.

Mas, estranhamente, alguma coisa impediu a Hidra de segui-los por muito mais tempo quando mergulharam mais fundo em meio a multidão que ocupava o parque.

- Parece... Que aquela coisa... Parou de nos seguir... - dizia Brad entre grandes ofegadas, tentando recuperar o fôlego da repentina correria.

- Nenhum monstro ataca mortais... Bom, não inadvertidamente, ao menos. Acho que não gostam do sabor. E de qualquer forma, aquela Hidra não pode ir pra muito longe do seu ninho.. - ao longe, as cabeças iam se juntando num estranho emaranhado até que, como que por um passe de mágica, aquela criatura colossal simplesmente parecia um Burger King. - Eu sabia que era loucura deixar você vir pra cá, mas o que eu podia fazer? Ora raios!

- Tony, o que ERA aquilo. E por que você consegue correr... E meu deus, onde estão seus tênis... Isso são...

- Cascos. Sim, são cascos. Eu sou um sátiro, Brad. E aquela lanchonete que quase arrancou nossas cabeças agora a pouco era uma Hidra. Essas porcarias se multiplicam que nem fogo na palha... Melhor nos mantermos junto dos mortais, por enquanto. Menos provável que outros apareçam enquanto estivermos na multidão. E são TANTOS!

- Mas do que é que você está falando...? Quero dizer, porque chama a todo mundo de mortais... E... Sátiro? -a cabeça do garoto de treze anos começou a se digladiar ferozmente tentando encontrar uma explicação plausível pra tudo aquilo. Já ouvira aqueles nomes antes. Sátiros, Hidras... Em desenhos animados sobre Hércules, aulas de mitologia na escola... Mas nunca foram noções muito profundas... O que era isso agora? E porque, de alguma forma, aquilo parecia fazer sentido dentro dele, quando toda a racionalidade apontava o contrário? O rapaz apertou as duas têmporas com as mãos, tentando por os pensamentos em ordem. Muita informação ao mesmo tempo.

- Uff - Antony soltou um longo suspiro relaxando a tensão que dominava seu corpo. Seria certamente uma longa história. Mas com o movimento das pessoas em torno, por que não? Era melhor explicar ao garoto de uma vez, ninguém prestava a atenção aos dois mesmo, seguindo seus rumos pelo parque a fora. - Escute, Brad. Você não é um garoto normal, ok?  Nunca percebeu como atividades físicas sempre foram mais fáceis pra você? Aposto que deve ser um dos melhores do time de Hokey da escola. Esse TDAH absurdo que você tem? São simplesmente seus reflexos e atenção extremamente aguçados. São eles que vão mantê-lo vivo em combate. Na verdade, foi isso que impediu aquela hidra de comer você inteiro em uma dentada! Você é um Semideus, Bradley, entende o que eu quero dizer?

- Não! Não entendo... Eu... Não tenho nada de especial... - Apesar de se orgulhar de geralmente entender tudo que os professores falavam - apesar da dislexia atrapalhar a compreensão do que escreviam, Brad se via realmente confuso. Semideus? O que aquele garoto de pernas tortas queria dizer? Certamente não que ele era alguém como... Aquiles ou outro daquelas histórias da mitologia grega. Não era possível que isso existisse... Era?

- Você é disléxico, não é?

- Isso não é algo especial... E não vejo como isso...

- Isto é porque seu cérebro está programado para o grego antigo. Não o inglês. Seu pai ou sua mãe certamente são algum ser de poder. E pelo cheiro forte que você tem... Arrisco dizer que um olimpiano. - interrompeu-o novamente Tony.

- Ei, espere, CHEIRO? Eu estou fedendo ou algo assim? - Por um instante a confusão da mente de Brad clareou para que a indignação pelo ultraje. Como assim, cheiro?

- Não, não! Cheio de semideus. O sangue divino que corre em suas veis faz com que você exale um odor mágico. É imperceptível, só monstros e nós, sátiros, conseguimos sentir. Quanto mais forte o sangue do semideus, mais pungente o odor que ele espalha. Foi isso que fez aquela lanchonete nos atacar. A hidra sentiu o seu cheiro e achou que seria uma ótima refeição. Di imortales! E nós estamos no meio de uma verdadeira festa de monstros! Esse parque está cheio deles!.

- Vocês sátiros conseguem sentir o cheiro dos monstros também, pra ter tanta certeza... ?

- Você aprende rápido, garoto. De qualquer forma, agora que o primeiro nos notou, os outros devem ter percebido a agitação. Vai ser difícil sairmos daqui... De qualquer forma, tantos mortais devem ajudar a mascarar o seu cheiro... O melhor que podemos fazer é nos misturar a eles...

- Por mortais você quer dizer aqueles não são sátiros, monstros ou semideuses como eu, certo? - embora muito contrariado em ter que aceitar tudo aquilo de uma vez só, Bradley não via muito mais alternativas. Afinal, ao menos que ele estivesse absurdamente delirante, aquele Burger King TINHA atacado os dois. E a menos que os milagres charlatões de televisões religiosas fosse verdade, Tony correra com uma velocidade impressionante com suas pernas aleijadas. Até onde o garoto podia dizer, as chances de ainda estar em risco eram altas. Melhor acreditar no amigo, afinal, ele salvara a sua vida.

- Exatamente.

- Bom, nossa melhor opção, então, creio, seria ir pra fila de um dos brinquedos mais movimentados. Não acha?

- É, acho que sim...

- Mas antes, tínhamos que achar suas muletas e tênis. Você jogou eles longe quando correu. As pessoas ainda não perceberam... Mas acho que não podemos correr o risco.

Os dois começaram a voltar calmamente em direção a lanchonete. Para ajudar a disfarçar, Tony se apoiou nos ombros de Brad, enquanto lentamente os dois se aproximavam da fachada onde o jovem sátiro descalçara os tênis. Não foi muito difícil de encontrar o par abandonado sob um banco, pra onde havia rolado tão logo ele os descalçara. As muletas, no entanto, ele havia atirado ao longe depois de ter começado a corrida na direção da hidra-Burger-King para puxar o Meio Sangue para fora do perigo. Aquela seria uma reaquisição um pouco mais difícil de se obter.

Por hora, os dois se contentaram em sentar no banco. Brad ajudou o amigo de a calçar de volta os tênis que disfarçariam os cascos e estavam prestes a levantar, quando uma voz um tanto quanto familiar chamou.

- Hey, vocês estão bem? - era uma das garotas do grupo de líderes de torcida de uma das escolas de Orlando. Ela viera no mesmo ônibus que eles para o parque e Brad lembrava de tê-la visto em alguns dos jogos da semana. - Isso aqui não do seu amigo? Vi ele usando no ônibus... Ele também veio de Toronto?

A garota era alta e esguia. De uma beleza marcante. Segurava numa das mãos o par de muletas de Tony. Ótimo, pensou Brad, assim não precisavam se aproximar de novo daquela hidra pra pegá-las de volta.

- Hey! Ah, claro. Acho que o Tony deixou cair. Teve uma... É, uma confusão agora a pouco. Obrigado.

- Sim, é, obrigado moça, hehehe - o jovem sátiro também parecia estar bastante atraído pela garota. Ou, ao menos, o suficiente para ignorar seu senso de guardião, esquecendo momentaneamente que ele próprio dissera que o parque estava inundado de monstros. - Mas, é, bem, não sou da escola... Eu estava trabalhando no hotel, sabe... Estágios de férias...  

A garota rio da forma encabulada com a qual os dois amigos a encaravam enquanto devolvia a Tony seu par de muletas. Os dois viriam a perceber só depois que, estranhamente, ela não estava com nenhuma das outras colegas líderes de torcida naquele momento. E que, mesmo fora do ginásio, ainda estava usando sua regata com o brasão do colégio de Orlando. Que vergonha para o currículo de Antony Lilly, o guardião. Sátiros no trabalho de reconhecer e recrutar semi deuses deveriam se dar conta dessas coisas.

- Olha, eu me perdi das minhas colegas, acho que estão na fila da Space Montain. Mas eu estava com fome... Sabem, tem um restaurante bem melhor que essa lanchonete ali perto da entrada do parque. Querem vir junto? - a garota falava com uma inocência e simpatia na voz que, de alguma forma, convenceu a ambos os rapazes. Afinal de contas, eles realmente estavam com fome. Foi por causa dela que foram atacados pela hidra, para começar.

Sendo assim, nenhum dos dois se opôs a brilhante ideia de se afastar do maior fluxo de mortais e caminhar na direção da saída do parque, pensando apenas em seus estômagos roncando e na vontade de conhecer melhor aquela garota bonita e simpática. Talvez ela tivesse gostado do porte atlético de Brad, certo? Afinal, ele era um jogador de hokey do time da escola que viera visitar Orlando. Estivera presente em todos os jogos daquela semana... Nas arquibancadas, claro. Quem sabe ela não o tinha notado, falando com os outros colegas de time no intervalo de algum dos jogos? Tudo era possível, não é...?

Ao mesmo tempo, passava pela sua cabeça novamente os planos que de fato eram o motivo de ele e Finny terem convencido os pais a deixarem que viessem pra essa viagem: a promessa de muita diversão e chances com garotas bonitas. Ele estragara tudo na festa, claro... Mas quem sabe isso não era o universo, lhe dando mais uma chance de cumprir os objetivos?

Eles seguiram cada vez mais para longe da movimentação do parque. Porém, ao invés de estarem indo em direção a entrada, estavam na verdade caminhando em direção a saída de funcionários. Dobraram por esquinas de lojinhas de soouvinir e passaram por um cavalete que dizia expressamente: não entrem. Mas os garotos se quer perceberam isso. Vidrados que estavam nos cabelos ruivos e esvoaçantes da líder de torcida.

- Eu estive esperando por esse momento a semana toda! Finalmente a sós! - soou a voz dela novamente. Dessa vez, uma oitava mais grave e visivelmente mais eufórica. - Notei você desde o primeiro dia dos jogos, mas sempre tão disperso entre os outros colegas, achei que nunca ia conseguir trazer sua atenção a mim!

- Eh-e? Você realmente estava interessada em mim? - foi a resposta de Brad, subitamente ignorando o amigo que, desolado, deixou-se cair recostado a uma parede próximo de onde se lia em uma porta "apenas pessoal autorizado" com um pesado suspiro.... Mas espere aí, como assim, a sós?

Por um breve momento a mente do sátiro clareou e seus instintos se aguçaram um pouco. Assim como os sentidos. Repentinamente, ele percebeu que não havia mais ninguém naquele pequeno beco a noroeste do restante do parque. Ao menos, não num raio de uns bons cinquenta metros. E o cheiro no ar... Forte...

- É claro! Sabe a quanto tempo não encontro alguém como você? E eu estava com tanta fome, sabe...

A garota começou a se aproximar com um olhar carente e belo do rosto de Brad.

- Eu... Eu também não costumo encontrar garotas assim como você - ia dizendo o garoto com um ar sonhador enquanto também aproximava o rosto do dela. Seria o primeiro beijo, certo? Mas espere aí... Alguma coisa não soava certa... Fome...?

BANG!

Uma enorme dor explodiu dentro da cabeça de Brad quando um pé emborrachado de muleta atingiu-lhe o ouvido, jogando o garoto contra outra parede do beco, cambaleante, pouco antes de grandes presas se fecharem no ar onde há instantes estivera o seu pescoço. Várias cores coloridas piscaram diante de seus olhos e uma leve tontura misturada ao espanto e torpor de ter sido atingido tão repentinamente... Por quem?

Um som terminou de despertá-lo do susto, um abafado barulho de metal colidindo contra carne seguido de um guincho que mais parecia um balido. O semideus conseguiu focar novamente a visão a tempo de enxergar uma das cenas mais estranhas que até hoje vira. Um rapaz meio apoiado em uma única muleta sendo coiceado no peito por um casco de bronze que advinha de baixo de um saiote de líder de torcida. Espera aí... O que?

De repente a mente de Bradley já não estava mais tão anuviada. A dor na cabeça lhe livrara um pouco do torpor estranho em que sua mente havia entrado enquanto seguia aquela menina bonita... Que não mais parecia uma menina. Sua imagem parecia tremeluzir estranhamente. Ora parecendo uma bela garota ruiva e alta, ora parecendo uma imponente criatura de pele perolada e madeixas de fogo. A compreensão se espalhou na cabeça do rapaz como incêndio em mato seco: ele e Tony haviam sido, de alguma forma, hipnotizados... Não, seduzidos por aquela criatura... Provavelmente algo semelhante ao poder do canto das sereias que ele sempre ouvira falar nos contos de fadas. Se não fosse pela pancada que o sátiro lhe dera na cabeça, o pescoço dele agora teria um enorme rombo e ele teria virado refeição de algum monstro horrendo. E a dor que havia embaralhado seus sentidos ajudou-o a sair brevemente daquele maldito transe.

Mas o que fazer agora? Ele não sabia como se livrar daquela coisa. A mente ainda estava confusa entre uma paixão ilusória, medo e um débil instinto de sobrevivência. Os pensamentos voavam como pássaros aparvalhados assustados por algum cão vagal. Só que em altíssima velocidade, sem que ele conseguisse se prender firmemente em um. Todas as conclusões acontecendo em sua cabeça em átimos de segundo após o choque daquela muleta.

E agora, aquele que fora seu salvador caía estatelado no chão sobre uma pata de bronze que tremeluzia se transformando de volta na perna de uma bela adolescente bronzeada. O que ele ia fazer? Tinha instantes para tomar uma decisão, ou talvez a única pessoa que parecia saber o que ele era e porque aquelas coisas surreais estavam acontecendo naquele sábado podia nunca mais falar na vida.

Mais por instinto do que por decisão sã, Bradley tornou-se subitamente consciente que ele mesmo estava escorregando contra a parede do beco onde ele fora jogado, caindo na direção da perna de bronze da Empousa. E também, da muleta que Antony usara pra acertar a sua cabeça. Ela havia caído da mão não tão firme do sátiro quando ele fora chutado no peito. Ainda estava repicando no chão quando a mão esquerda de Brad fechou-se em torno dela, muito próxima ao pé emborrachado. O semideus firmou as pernas, que estavam flexionadas e meio bambas pelo choque, e lançou a si mesmo a frente com um impulso que costumeira usava no hokey, usando a muleta a guisa de taco, dando uma forte pancada com a alça dela contra a parte de trás do joelho da perna do monstro que prendia seu amigo no chão.

O golpe fora dado de forma tão dura e tão repentina, que a líder de torcida chegara a se desequilibrar e cair sentada no chão. Em sua surpresa, a hipnose que exercia pareceu ceder um pouco, dando aos dois garotos mais tempo para ver a forma real daquela mulher. A outra perna era uma longa pata de burro. Torta e instável demais para mantê-la em pé quando a outra fora jogada para o ar. Tudo isso era registrado pelos olhos de Bradley, mas seu corpo parecia não tomar conhecimento.

Aproveitando o movimento da tacada que teria lhe rendido um lindo gol em alguma das competições escolares, ele parou a muleta oferecendo-a como apoio para que Tony pudesse se levantar, voltando ele mesmo a sair da postura agachada para uma com as costas eretas e pernas totalmente estendidas, ajudando o parceiro a se levantar puxando a muleta para cima.

- Valeu cara... Ugh. - foi tudo que ele conseguiu responder, o rosto seriamente contorcido numa expressão de dor. Provavelmente aquele casco iria deixar uma impressão em seu peito.

Mas não havia tempo para comemorar. Os dois seguiam encurralados naquele beco nos limites do parque, e o monstro já se punha de pé. Desistira de tentar esconder sua identidade com ilusões, revelando toda sua aparência hedionda. Era como uma dessas estátuas da Grécia clássica esculpidas em mármore, vestida com um uniforme de animador de torcida. Fora o fato, é claro, de que os cabelos eram chamas, as mãos apresentavam letais garras de bronze em cada dedo e as horrendas pernas díspares - uma de burro, outra em feitio equino esculpida em bronze. A criatura sibilou.

- Eu pretendia poupá-lo, sátiro. Nunca gostei muito de carne de bode. - A voz da Empousa era fria e, de alguma forma, estridente. Brad pensou que se algum dia imaginasse uma estátua falante, com cabelos flamejantes e garras em bronze, seria bem assim que a voz dela soaria. - Mas acho que agora serei obrigada a tê-lo para a sobremesa. Agora, venha aqui, meu doce Meio Sangue. Fomos tão rudemente interrompidos justamente quando a coisa começava a ficar boa... -a voz do monstro mudava novamente para o tom sedutor e afável de antes. Sua imagem voltava a tremeluzir em frente aos olhos de Brad, parecendo uma vez mais a garota atraente, lhe dando um daqueles lindos sorrisos de dentes brancos e ar sedutor.

Como que mecanicamente, a perna esquerda do garoto deu um passo a frente. Sua mente mais uma vez começava a mergulhar num torpor estranho, convencida de que a única coisa que desejava era estar a sós com aquela garota - sejamos justos, estar na puberdade com hormônios a flor da pele REALMENTE NÃO AJUDAVA. A mão direita ainda apertava a muleta segura do avesso.

Outro passo. A Empousa também se aproximava dele, muito devagar, como que não querendo quebrar o feitiço. A mão subindo num movimento em câmera lenda para aninhar o rosto do semideus indefeso. Do lado de fora da cena, Antony também lutava com todas as forças contra o feitiço do charme daquela criatura. Como um sátiro, os poderes dela não o afetavam tanto quanto aos Meio-Sangue do sexo masculino, mas ele ainda era um "homem" - famoso por correr atrás das ninfas do acampamento em seus períodos de folga - e vencer os próprios instintos parecia uma tarefa digna dos doze trabalhos.

Os dois jamais teriam saído vivos daquele beco. Um sátiro inexperiente e um Meio-sangue que nem mesmo sabia ser um, encurralados por um monstro com éons de idade. Era desleal. Mas ao longe, o estouro de fogos quebrou, por um mínimo instante, a concentração da predadora. Também serviu pra sobressaltar a audição aguçada de Tony. A junção dos dois fatos, mesmo que por um instante, trouxe o sátiro de volta a si. Usando a muleta que ainda lhe sobrava como um gancho - utilizando o apoio para a mão como alavanca e segurando-a pelo pé - ele deu um firme puxão na perna esquerda de Brad quando este daria o último passo para terminar a aproximação.

- Bradley, CORRE! -o nítido desespero de Tony fez com que sua voz soasse mais como um balido do que nunca e aquilo, junto dos fogos que continuavam estourando em algum lugar no parque para anunciar uma, das muitas paradas que o parque desfilava durante a tarde, içou novamente o semideus para fora da hipnose.

Dessa vez, porém, a Empousa também estava ciente do despertar de suas presas, lançando uma pancada forte com as garras afiadíssimas contra o rosto do semideus.

Mas dessa vez, o semideus também estava mais atento. Utilizando dos reflexos aprimorados nos muitos treinos de hokey, ele estocou a muleta contra o peito da Empousa, dando um grande passo atrás ao mesmo tempo em que empurrava o monstro para longe de si, escapando com apenas um arranhão no rosto - e uma bela dor.

Imediatamente virou-se de costas e desembestou a correr. Com Tony logo a seu lado. O único problema é que eles corriam diretamente para dentro da zona de manutenção do parque, reservada aos funcionários, invés de para dentro dele. Mas aquilo não importava no momento, o que eles tinham que fazer é por a maior distância possível entre eles e a Empousa. Agora que não faziam contato visual com a besta, era mais fácil resistir a sua magia.

Viraram a direita num outro beco e atravessaram uma porta que dava para um grande armazém de cavaletes, produtos de limpeza e fantasias extras para os artistas dos desfiles. Ao fundo dele, um zelador varria o chão. Ele ia abrir a boca pra dizer que os garotos não deveriam estar ali, mas antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, os dois já embarafustavam por outra porta que levava ainda mais para dentro do prédio.

- Você acha que despistamos aquilo? - foi a primeira coisa que Brad conseguiu dizer.

- Acho que sim, as Empousas não conseguem ser muito ágeis, aquela perna de bronze dificulta muito a locomoção. Como está o seu rosto?

- Eu já estive melhor. Isso vai arder horrivelmente quando encostar na água - toda a bochecha direita de Brad estava rasgada, desde a têmpora até o queixo, em um longo corte onde três dos dedos da monstrenga o retalhara. O corte não era fundo, talvez desse a sorte de sair daquilo sem marcas, mas sangrava profusamente. Era uma visão bem mais feia do que o ferimento em si. - De qualquer forma, onde estamos? Já deve estar perto da hora de voltarmos pro ônibus!

- Não acho que vamos ter essa chance, colega. Há mais deles aí em volta, posso sentir o cheiro de muitos.... Acho que estamos por nossa conta. Entre naquela porta!

Os dois viraram em mais um corredor, saindo por uma pequena porta corta-fogo para o depósito de lixo do parque. Ali, uma cerca os separava de uma ampla mata nativa que se estendia até onde os olhos podiam ver.

- Bem, é por isso que gosto da Flórida. É um dos poucos lugares onde vegetação nativa ainda existe neste país. Vamos lá, eu posso nos guiar bem na natureza - disse o sátiro enquanto tirava do bolso um canivete. Brad rio. Por mais absurda que parecesse a ideia de fugir por dentro de um dos pântanos de Orlando, famosos por sua grande população de jacarés, parecia ainda mais ridícula a ideia que um canivetezinho daqueles fosse conseguir cortar o grosso gradeamento da cerca. - Foi mesmo uma sorte eu ter insistido com Quíron pra trazer essa belezinha comigo, vai vir bem a calhar - o sátiro abriu a lâmina do canivete. Mas ele não era mais um canivete. Ao acionar o mecanismo que ocultava a lâmina, o pequeno utensílio se transformou. O canivete em si engordou um pouco, se tornando uma empunhadura de onde uma guarda circular se formou, enquanto que a curta navalha prateada se esticou e alargou até formar uma longa lâmina em formato de folha de um tom quase dourado e reluzente. Estava ali, diante dele, uma espada de quase 80cm de comprimento.

Tony a brandiu atabalhoadamente contra a grade, que se abriu como manteiga atingida por uma faca quente. Em um instante, um rasgo no metal permitia que eles saíssem dali.

- Mas o que diabos...

- Bronze celestial, amigo. Poucas coisas neste mundo são capazes de ser tão afiadas. E certamente nenhuma delas é tão bela. - ele apertou em algum lugar do punho da espada e forçou a lâmina para trás, no que ela prontamente voltou a se recolher para dentro do canivete que ele guardou no bolso. - Vamos, antes que mais deles notem nossa presença. Na mata posso protegê-lo melhor.

Os dois passaram pelo buraco e mergulharam no pântano.

E foi assim que Bradley T. Jackson tornou-se um andarilho fugitivo.

Finalmente... Em casa...?

Como de praxe, é chega a hora de um novo pulo no tempo. É claro que desde aquela tarde de sábado no Magic Kingdom Bradley e Tony não voltaram ao hotel. Não apenas porque foram forçados a fugir do parque as pressas, como porque a orientação do sátiro nos pântanos de Orlando acabou se provando pior do que ele próprio imaginara. Isso, é claro, sem falar da fauna local: Orlando é uma das regiões da Flórida que mais sofre com a infestação de jacarés.

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Re: CCFY - Para Tudo Existe um Começo

Mensagem por Bradley T. Jackson em Dom Jan 07, 2018 10:36 pm

As Tribulações de Brad







"Adolescer" é difícil para todo o menino. Muito pior, para o meio-sangue.







Finalmente... Em casa...?

(...)

Então, entre uma fuga e outra dos ataques dos répteis e o grande problema de orientação, os dois amigos acabaram presos numa cadeia de pântanos que os levou para muitos quilômetros ao sul e ao leste, de modo que ao finalmente conseguirem escapar dos emaranhados de vegetação, as placas já indicavam o caminho para Miami nas proximidades. Foram mais de três dias perdidos em meio as zonas pantanosas da Flórida.

Ao menos, as habilidades de Antony em sobrevivência vieram a calhar. Mesmo que não completamente alimentados, nenhum dos dois passou fome durante o período assustador perdidos entre os jacarés. Bem como não passaram sede. Se pântanos tem alguma vantagem, é a facilidade com a qual atraem em chuva.

Foi também durante este tempo de isolamento completo da civilização, que o sátiro aproveitou para explicar melhor a Brad o que diabos estava acontecendo. Lhe contou tudo que sabia sobre os deuses gregos, de como seu centro de poder migrara conforme o núcleo da civilização ocidental. De como eles ainda tinham o costume de se deitar com mortais e gerar filhos que lhes serviam como instrumento de ação direta no mundo dos mortais. Também lhe contou os mitos mais famosos, todas histórias reais, segundo ele. E também falou sobre o acampamento Meio Sangue. Segundo ele, o único local do mundo onde pessoas como Brad estavam a salvo. E também o único lugar onde ele poderia não apenas conhecer gente como ele, mas também aprender a entender e usar as próprias habilidades. Tornar-se capaz de se proteger sozinho.

As boas notícias, no entanto, acabam por aí. Os únicos bens de que dispunham eram as muletas de Tony, roupas do corpo e alguns poucos dólares que restara a ambos do trágico dia no parque. Para piorar, era de se imaginar que a delegação da escola já tivesse retornado a Toronto, o voo estava marcado para o dia anterior àquele que os dois emergiram novamente das entranhas dos pântanos.

Daí em diante, a vida dos dois se transformou na vida de peregrinos. Tony estava decidido a levar Brad ao acampamento, e, sem celular ou outros meios de se comunicar, o garoto tinha poucas esperanças de conseguir voltar até sua casa. Não tinha um bom relacionamento com o pai, de qualquer forma. E não via a mãe desde os seus cinco anos, duvidava que ela se importasse. Tinha pouca escolha se não acreditar naquele garoto aleijado que já lhe salvara a vida três vezes.

Eles migravam de cidade em cidade, caminhando, pedindo caronas. Fazendo bicos aqui e ali para levantar dinheiro pra comer, ou então se refugiando em abrigos para sem teto. Sempre que possível, armavam esconderijos em matagais ou construções abandonadas para fugir dos monstros que, inevitavelmente, calhavam de aparecer em seu caminho. Era uma vida sofrida, de sobrevivência a cada dia.

Por vezes, conseguiam percorrer centenas de quilômetros num mesmo dia, passando por quatro ou cinco cidades na boleia de caminhões ou de carona com jovens Hippies. Por outras, ficavam meses alojados num mesmo esconderijo, forçados a caçar pequenos animais silvestres, trabalhar como panfleteiros ou coisa pior para poder arrecadar algum dinheiro para comprar comida e passagens para as próximas cidades. Sempre tentando rumar para o norte, para Nova York.

Neste estilo de vida, passaram mais de um ano incógnitos. Desconhecidos. Para a família de Brad, o garoto tinha sido dado como morto após os primeiros seis meses de desaparecimento, até mesmo um funeral simbólico fora realizado e placas em sua homenagem, colocadas por um certo tempo nos portões da escola onde estudara. Os ataques de monstros, cada vez mais frequentes, passaram a ser parte da rotina. Ignorar uma Dracnae aqui, enganar um ciclope ali. Algumas fugas audaciosas de Empousas traiçoeiras. A dupla havia se tornado verdadeiramente hábil em safar-se de enrascadas.

Com o tempo, Tony permitiu mesmo que Brad treinasse com a espada-canivete que havia trazido do acampamento. O sátiro certamente não era o melhor dos instrutores, posto que jamais manejara uma espada na vida, a trouxera mais como uma precaução, do que realmente uma arma que pretendia usar. Mas com o passar do tempo, veio a tornar-se bem útil. O sangue divino de Bradley o ajudou a compreender rápido a ideia geral de como usar aquela arma. E seus reflexos inatos de combate ajudaram muito nos momentos de maior aperto.

De qualquer forma, não era uma vida tão ruim. Passado o primeiro ano, muitas coisas haviam se tornado naturais para a dupla de amigos. As fugas, os esconderijos. A procura de comida e os ocasionais enfrentamentos com monstros, cada vez mais recorrentes conforme andavam em direção ao norte e a Nova York tornaram-se uma parte integrante da rotina. Durante todo o segundo ano, o canivete passou a ser de posse de Brad, não mais de Tony, e este vinha deixando aquele orgulhoso pelo uso surpreendentemente efetivo da arma.

Eram como Filoctetis e Hércules da antiga animação Disney, um par de trapalhões que, de alguma forma, sempre conseguia se safar. Bons amigos acabaram se tornando. O garoto ficava mais forte a cada mês, em rápido crescimento e as constantes situações de perigo acabavam colaborando com o seu desenvolvimento atlético. Da parte de Tony, ele usava boa parte do tempo para praticar suas magias da natureza. Estava se tornando realmente bom naquilo. Os dois não mais se perdiam em bosques ou florestas; os animais silvestres sempre lhes eram de boa índole e indicavam os melhores caminhos; até mesmo em combate, eventuais videiras ou canções do sono atrapalhavam os adversários dando a eles tempo de fugir - ou, ainda mais fantasticamente, liquidarem os monstros.

Sim, liquidar. Após dois anos de andanças pelo interior dos estados unidos, Bradley finalmente conseguira: matara um lestrigão em combate usando a espada de bronze. É claro, o sátiro ajudara. Deixara o canibal confuso com suas magias naturais e preso em um estranho lodo que limitou muito seus movimentos para que tomasse o derradeiro golpe.

Na verdade, a vida vinha sendo tão empolgante e livre para ambos, que até a pressa para chegar a salvação do acampamento diminuíra. As vezes, aproveitavam longos meses em um mesmo local; trabalhando em empregos de meio turno, treinando nas horas vagas, rindo e frequentando cinemas. Até que o cheiro do garoto atraísse monstros o bastante para que a permanência não fosse mais segura. Era uma vida boa para um adolescente cheio de energia. Ou, ao menos, tão boa quanto pode ser para quem não tem mais para onde ir.

É claro, também, que havia mais do que apenas monstros incomodando. Com o passar do tempo, Bradley começava a se perguntar: Se ele de fato era filho de um deus, um ser de enorme poder e influência, porque ele ou ela nunca havia se dado ao trabalho de procurá-lo? De ajudá-lo de alguma forma? Será que acreditava que o rapaz seria capaz de se virar para sempre da forma como vinha se virando? Ou melhor, que ele não sentiria falta de um pai ou uma mãe? Ou que, ao menos, não quereria conhecê-lo (ou a ela)? Certo, é claro que, segundo Tony, todos estes deuses tinham muitos filhos na terra. Mas certamente deveria ter havido algum momento, no meio dos anos que já se passavam, em que algum sinal poderia ter sido dado.

Além disso, foi dito uma vez, e será repetido: se tudo fosse tão bom, não teríamos uma história. Decorridos quase cinco anos desde o fatídico dia, algo tremendo parecia ter acontecido. No norte, milhares de monstros foram liberados. Bem como no oeste. E, é claro, a superpopulação fez com que começassem a migrar para todos os locais. Repentinamente, os ataques que costumavam ser de algumas poucas vezes na semana, se tornaram diários. As criaturas não mais apareciam sozinhas, mas em bandos cada vez maiores e mais cruéis. Alguns até mesmo organizados.

A princípio, Antony atribuiu aquele aumento drástico de monstros, a proximidade que ambos estavam de Nova York - haviam finalmente entrado no estado que dava nome a cidade - mas mesmo assim ainda pareciam ser muitos. Não importa pra onde fugissem, sempre havia uma nova matilha pronta para caçá-los.

Para melhorar, algo que jamais acontecera na história estava começando a acontecer. Certo dia, praticamente cinco anos após a fuga do parque, quando os dois descansavam em um bar de beira de estrada após terem escapado por um triz de um bando Dracnaes mal intencionadas e de um casal de ciclopes em lua de mel, foram atingidos por uma notícia avassaladora. Ela não veio de uma vez só. Mas foi se mostrando de uma forma lenta em cruel, como em uma vil armadilha...

- Vão querer alguma coisa? - foi a pergunta do garçom que, como em todos os velhos filmes de faroeste, limpava um copo com um pano inegavelmente mais sujo que ele. Também olhava para a mesma televisão pendurada na parede que os dois amigos. - Se não vão pedir nada, deveriam sair daqui, sabe? Não gosto de pessoas no meu bar que não sejam fregueses. - continuou ele de mau humor.

- Claro, claro, me desculpe senhor - falou Brad com exagerada educação, fingindo ter estado distraído com a televisão, que pendia num suporte antigo numa parede ao lado do balcão - eu acho que duas garrafas de água sem gás vão ser o suficiente por enquanto.

Tão logo ele terminou de dizer aquilo, duas garrafas de dizer aquilo, duas garrafas de 500ml foram pousadas sobre a bancada.

- Cinco e cinquenta.

Dessa vez Tony quem agiu, sacando uma carteira de dentro das roupas já muito puídas para pagar ao dono do estabelecimento. Era um lugarzinho pequeno, um edifício térreo de pouco mais de noventa metros quadrados. Contava com um balcão, a televisão na parede e meia dúzia de mesas. Dali, até o centro urbano mais próximo, eram pelo menos uns vinte quilômetros em qualquer direção.O resto eram fazendas, ermos e estrada; com algumas pequenas vilas em torno de igrejas. Típico interior.

Além deles no bar, haviam apenas mais três pessoas. Uma velha que cochilava num banco escorada a uma parede e dois outros homens, na faixa dos quarenta anos. Bebendo canecos de cerveja e comentando sobre qualquer coisa que estava sendo dito no noticiário.

- Não me lembro de já tê-los visto por estes entornos... De onde vocês são? - Tornou a interpelar o dono do estabelecimento por de trás do bar. Era um homem corpulento e careca. Pele bronzeada e dono de um frondoso bigode. Parecia nitidamente desconfortável com a presença dos dois rapazes ali. As duas mãos do tamanho de presuntos agora descansavam sobre o balcão, uma ainda apertando o trapo imundo.

- Ah... Claro, bem... Nós somos... -começou Tony, a voz fraca e sem ter certeza de como responder aquele tom acusador. Raramente paravam em lugarejos tão pequenos, preferindo ou ermos, ou cidades mais movimentadas. Fora uma emergência que os trouxera ali. Abriu sua garrafa e sorveu um gole para ganhar tempo.

- Somos da Pensilvânia - intrometeu-se Brad, sua voz em um tom sonhador. O tom que sempre assumia quando estava prestes a criar algum embuste - Estamos em peregrinação, sabe? O reverendo disse que, se conseguíssemos chegar a paróquia do irmão Charles, em Boston, fazendo nosso caminho a pé, Deus reconheceria a força de nossa fé e curaria as pernas do meu primo, Tony - disse apontando para as muletas velhas que faziam parte do disfarce mortal do sátiro. A Pensilvânia era famosa pelos protestantes fervorosos e um estado fundado por peregrinos. Embora fosse uma bela desculpa esfarrapada, talvez o dono caísse nela.

-  E não lidamos bem com cidades grandes, entende? Achamos os campos daqui bastante... Belos. Mas o dia foi de uma caminhada muito cansativa e meus braços doem - completou Antony em tom bem mais seguro, comprando imediatamente a história do amigo.  

- Tsc, peregrinos... Certo. Só não se demorem muito aqui. Não gostamos muito de forasteiros. Geralmente acabam fazendo bagunça. - tornou a responder o grandalhão com uma voz modorrenta.

Nenhum dos dois rapazes respondeu, ambos se limitando a acenar com a cabeça e tomar água. Uma pesada atmosfera hostil instalara-se no ar. Era quase como se estivessem de novo enrascados no covil de algum monstro, por mais que Tony não pudesse farejar nenhum nas proximidades.

Os dois ficaram ali, amuados no bar por mais longos minutos, descansando os corpos da última fuga e reidratando. Pensando em pra onde seguir caminho e onde descansar. Não demoraria muito para o dia terminar e eles precisavam de algum lugar para passar a noite antes de reiniciar as caminhadas do dia seguinte. E, preferencialmente, um lugar que não fosse tão vulnerável a enxurrada de monstros que parecia cada vez mais densa conforme se aproximavam mais e mais de Nova York.

- O senhor não saberia de alguma igreja ou paróquia onde poderíamos nos alojar esta noite, saberia? Aí já iríamos andando... Para não lhes trazer mais problemas como... Forasteiros. - tentou recomeçar o papo Brad.

- Igreja, hã? Tsc, acha que quero vocês causando problemas pros fieis da minha clientela? Se não vão comprar mais nado...

- Ora, Horácio, não seja tão duro com os moleques! São só crianças, não são? O das muletas ali não deve ter nem quinze anos! Que tipo de confusão dois adolescentes em procissão poderiam trazer? - um dos homens que antes discutia à mesa no bar se levantara interrompendo o barista. Aparentemente, seu companheiro de conversa havia ido embora. Por mais que fosse um interiorano, parecia muito bem vestido. A camisa xadrez era de boa marca, calçados de couro legítimo e um Apple Watch no pulso esquerdo. - Vamos, vamos. Podem dormir lá em casa. Tenho uma pequena fazenda a noroeste daqui. Pela manhã devo ir a cidade comprar ração para as galinhas. Posso dar-lhes uma carona, o que acham?

Brad olhou inquisitivamente para Tony. Aquilo era exatamente como todas as armadilhas de monstros pareciam. Ele franziu o nariz pro amigo, numa pergunta muda sobre o cheiro do ofertante. Tony apenas encolheu os ombros, com cara de quem também não tinha entendido.

- É... Claro, senhor! Seria muito... É, útil. Mas dispensamos a carona de manhã. Realmente precisamos continuar com nossa romaria. O Reverendo ficaria decepcionado se falhássemos em nossa promessa - é verdade que a carona era muito tentadora, mas não era seguro abrir mão do disfarce ainda agora. Aquilo seguia soando suspeito.

- Como preferirem! Bom, até mais então, Horácio! Vou levar seu problema para longe - disse o gentil homem fazendo um sinal de cabeça para que o seguíssemos, falando em voz divertida com o dono do bar.

- Vê se toma cuidado com esses pestinhas, Donavam! Sabe como gente estranha costuma arrumar problemas - foi a resposta ainda mau humorada do dono, que tornou a esfregar o trapo imundo em um copo sujo, como que um cacoete que não pudesse evitar.

Levemente confusos e decididamente sem opções, os rapazes desceram dos bancos, seguindo o altivo homem que lhes resolvera o problema de onde pernoitar enquanto o dia diminuía lá fora.

- São vinte minutos de caminhada até a minha casa.. - começou Donavam enquanto se afastavam do bar, olhando para os garotos que o seguim - Bem, talvez quarenta, deve ser difícil de andar com essas coisas, certo? - Acrescentou com indulgência ao olhar de novo Antony fingindo esforço para andar com as muletas. - Quando chegarmos, um bom banho e camas quentes os aguardarão, então, se esforcem! Hahaha.

Os rapazes apenas concordaram com a cabeça. Algo definitivamente não estava certo ali. Bem, claro que não estava, já avisei antes que este era o dia em que eles teriam uma das mais terríveis surpresas. E talvez pressentindo isso, foi que Tony instruíra uma lebre pela qual passaram pelo caminho a ficar de olho neles, usando sua poderosa empatia com a natureza que tanto treinara naqueles anos de exílio junto a Brad.

O trajeto foi de fato tranquilo, em pouco mais de meia hora, os dois garotos estavam aconchegados em uma gostosa casa de madeira. Grande e senhorial, ela tinha dois andares, um celeiro anexo e iluminada ao estilo retro, com várias lâmpadas que, embora elétricas, foram feitas para parecerem lampiões a gás. Estranhamente, Donavan parecia morar ali sozinho. Segundo ele, a esposa levar os filhos para estudar num colégio interno em Nova York três anos atrás e nunca mais voltara. Suspeitava de que o tivesse traído com algum burguês da capital.

Após uma breve janta com seu benfeitor, os rapazes tomaram um bom banho quente e caíram no sono sobre camas macias. Algo que há vários anos não faziam...

Antony acordou no outro dia com fortes dores musculares. Tinha as mãos e os cascos amarrados. Estava nu da cintura para baixo, deixando as pernas de bode evidentes. Em torno de si, apenas uma grande horta. A cabeça doía incrivelmente. E o mais assustador: Não era capaz de sentir o cheiro de nenhum Meio Sangue. Sua cabeça estava uma enorme bagunça tentando recordar o que havia acontecido enquanto o corpo lentamente retomava consciência de estar novamente desperto.

Uma sensação de formigamento corria por todos os músculos e os olhos ainda vinham se adaptando ao sol. Que aliás, estava bem forte. Já deveria ser quase meio dia - ou poucas horas após ele, o sátiro estava muito desorientado para ter certeza. Ele tentou gritar, apenas para descobrir-se subitamente consciente de que havia alguma coisa de pano enfiada em sua boca.

Teria sido o fim de Antony Lilly, o guardião, não fosse sua amiga lebre. A roedora silvestre apareceu mais ou menos uma hora depois do sátiro ter despertado do sono antinatural. Com os protuberantes dentes, ela roeu as cordas que prendiam as patas e os braços de Tony, que desajeitadamente recuperou a coordenação o bastante para arrancar o trapo da boca.

- Cof, cof... obrigado, amiguinha - foi a primeira coisa que disse, os olhos enchendo de lágrimas e a garganta, seca - Acho que eu estaria perdido sem você.

A lebre simplesmente inclinou a cabeça para um lado, olhando-o de forma gentil. Através de sua própria forma de comunicação, ela contou como viu, na alvorada, o homem que os havia hospedado carregando Brad, igualmente inconsciente para dentro de uma caminhonete e, então, trazendo ele em seguida, já completamente amarrado e atirando sobre a boleia. Ela seguiu o carro o melhor que pode até ver o sátiro ser despachado no meio da horta. Então tentou seguir a caminhonete, mas assim que ela tomou a rodovia tornou-se impossível de seguir.

O guardião a agradeceu, lançando sobre o fiel animal algumas de suas bênçãos naturais, e rogando a Ártemis que protegesse aquele belo animal de caçadores e colecionadores de peles. Depois, iniciou seus próprios afazeres. Primeiro, precisava retornar aquela casa para recuperar seu disfarce; seria complicado demais andar por aí em sua forma natural. Depois... Bem, por sorte deixara um ramo de oliveira escondido nas roupas de Brad. Foi uma medida de segurança que os dois criaram no ano anterior. Caso se perdessem, Antony sempre poderia achá-lo, usando a energia natural daquele pequeno ramo encantado como um marcador em um GPS.

Não apenas por sua honra como um guardião, mas principalmente como um favor a um amigo querido, Antony tinha que salva-lo!

Algumas horas antes, há vários quilômetros dali, Bradley também recobrava a consciência. Estava sentado, no banco de trás de um carro. As mãos, presas por algemas. O veículo se deslocava em alta velocidade pela interestadual e, ao longe, ele podia ver os arranha-céus de Manhatam - inclusive, o próprio Empire State Building, onde, segundo Tony, era o novo Olimpo. Aliás... Onde estava Tony?

- Essa sua laia é de fato durona, não? - soou a voz de Donavan do banco do motorista, à frente. Nada do tom brando original fora mantido. Era fria e cortante. - Aquele tranquilizante teria sido o suficiente para deixar um elefante inconsciente por umas quatro horas. Considerando o seu peso, estar acordado após apenas treze é de fato incrível! E eu achando que acabaria matando com uma dose daquelas.

- O... O que...? - a mente do semideus ainda estava bastante entorpecida. Os pensamentos se atropelavam. Tudo que ele conseguia ter consciência no momento, é de que estava no banco de trás de um carro em movimento chegando a Manhatam. -  Minha... Laia? Quem... Quem é você? Onde... Cadê o Tony! - a voz ia ficando mais forte conforme suas emoções vinham vindo à tona. Antony fora o único amigo de verdade que já tivera e agora ele sumira!

- Ah, está falando daquela aberração peluda? Deve estar cozinhando no sol da fazenda. Aberrações. Isso que todos vocês são. Não sei o que o Dr. pode querer com isso. Deveríamos simplesmente por um fim a todos que achássemos. - a voz daquele motorista estava carregada de rancor e desprezo. Mais do que Brad alguma vez ouvira na voz de qualquer pessoa - ou mesmo monstro.

-  Quem É você? - uma raiva estranha começava a se formar no peito do garoto. Tony tinha certeza de que ele não era um monstro. E se fosse, não estaria transportando o garoto sequestrado em um carro, tampouco. O que estava acontecendo. Onde estava o seu amigo?.

- Ora, fique quieto! A verdadeira pergunta é O QUE É VOCÊ? - foi a resposta, em um tom feroz - graças a aberrações como vocês, eu perdi minha casa e meu restaurante. Perdi a minha vida! Desde então tenho procurado por vocês. Não imaginava que fosse encontrar um tão rápido. Juro que se o salário não fosse tão bom, já teria o enviado para sete palmos abaixo do chão!

A fúria de Donavan se destilava a cada palavra no mais completo ódio e desprezo. Bradley não fazia ideia de sobre o que ele dizia, mas o fato é, que poucos meses atrás, Tártaro, a personificação da parte mais sombria e perigosa do submundo, vomitara na terra a prole de monstros que nele havia sido banida, uma massiva invasão a Nova York e São Francisco. A infestação fora tão grande, que não só a Névoa falhara, como os duelos entre monstros e semideuses causaram danos permanentes a ambas as cidades. Vários deles foram gravados em vídeos perpetrando atos de "vandalismo". Agora o governo queira estudá-los, entender o que era aquele poder. Definir o quão perigosos eram. Achar uma forma de erradicá-los. E Brad, sem ter ideia disso, tinha o privilégio de ser a cobaia Nº1.

Ele desistiu do papo obviamente infrutífero, e começou a tatear os bolsos. É claro, o canivete mágico que se transformava em espada não estava mais lá. Nem nenhum de seus bens. Apenas o ramo encantado de oliveira parecia ainda estar firmemente costurado a parte interna de suas calças. As algemas também não pareciam ser fáceis de se romper. Aço, claro. E bem apertadas em torno dos pulsos. Deixavam pouco menos de vinte centímetros entre uma mão e outra.

Ótimo, pensou o garoto. Completamente indefeso até que começassem a estudá-lo, ao que parecia. Não havia a menor chance de ele conseguir fugir enquanto permanecesse algemado. Aliás, percebia agora, um par de algemas também unia os dois tornozelos. Se os grilhões fossem de ferro fundido, podia muito bem dizer que a escravatura estava de volta à América.

A caminhonete seguiu por mais uma hora, sempre mais próxima dos prédios de Manhatam. Atravessou para dentro da ilha de Hudson, e então para o lado oposto, diretamente para o enorme distrito conhecido como Queens. Lá, próximo a zona industrial, entraram em uma grande construção de tijolos de alvenaria, que no passado deveria ter sido uma destas grandes fábricas têxteis, mas que agora evidentemente servia a outros propósitos. O carro estacionou em uma ampla garagem, repleta de SUVs pretas, dessas que aparecem em filmes como os veículos de forças especiais ou de guarda costas de gente importante.

Donavan abriu a porta e forçou o garoto a descer. Puxou-o com força do banco de trás atirando-o ao chão. Era um homem grande, este Donavan, tão alto quanto  o próprio Brad - e isto é dizer algo, porque o garoto, às vésperas de completar dezoito anos, já tinha um metro e oitenta - mas o algoz era bem mais corpulento. Forte como um peso-pesado do UFC. Conduziu o semideus pelo complexo, sempre puxando o pelo braço esquerdo. A mão apertada ali como um torniquete.

Eles passaram por instalações que pareciam muito com laboratórios de química. Todos com paredes brancas e portas com tranca eletrônica. Várias pessoas trabalhando com máscaras, toucas e muitos tubos de ensaio, centrífugas e todo esse aparato caro com cara de "científico". Não se demoraram muito ali. Virando em alguns corredores a direita e a esquerda, chegaram a um antigo elevador de carga, que levava para o subsolo.

- O Doutor está louco pra conhecer você, sabe? A sua leitura é especialmente forte, comparado aos resquícios que vínhamos perseguindo no último mês. - disse seu captor, triunfante. Enquanto isso, olhos de Brad tentavam captar tudo que pudessem ver. O torpor da droga que haviam vaporizado durante seu banho finalmente parecia ter se esvaído por completo e ele agora podia apreciar com mais atenção o que estava acontecendo. Já sabia que estava próximo do Acampamento; sabia também que, pelo tempo que aquele elevador estava demorando, deveriam estar descendo, pelo menos, uns três andares para dentro do chão.

Leitura forte... O que aquele brutamontes quis dizer com isso? Com um relance, o garoto olhou na direção do pulso esquerdo de Donavan: de novo, estava ali o tal Apple Watch... Só que, não tinha o símbolo da Apple. Embora parecesse exatamente com um. Sem dúvida alguma aquela coisa tinha a ver com sua captura. Provavelmente algo que fosse capaz de detectar o cheiro de semideuses, como os monstros faziam? Afinal, Tony sempre dissera que o de Brad era bastante forte...

Enquanto sua mente tentava juntar as peças do quebra-cabeça, o elevador parou de descer, abrindo as portas para um corredor escuro, mal iluminado por antigas lâmpadas incandescentes a cada vinte metros nas paredes. Era de alvenaria bem velha e já descascada. Donavan forçou-o a frente. Caminharam por o que pareceu uns cento e cinquenta metros até chegarem a uma porta dupla, feita em aço. O grandalhão aproximou o relógio esquisito da tranca e a porta automaticamente se abriu para dentro, revelando um amplo e arrepiante átrio.

Parecia que Bradley havia, de repente, caído num daqueles filmes conspiratórios sobre a segunda guerra mundial, onde os nazistas mantinham instalações ultra-secretas de pesquisa. Utilizando tecnologias impensáveis para seu tempo. O lugar era um enorme complexo secreto usado justamente nesse tempo. Com altas paredes de tijolos, dois lados do átrio eram repletos de antigas celas para prisioneiros de guerra. No centro, várias escrivaninhas antigas e, é claro, alguns cubículos em fibra de vidro, peças novas na velha decoração, servindo de instalação provisória para toda a sorte de laboratórios esquisitos. Homens trajados em uniformes brancos com luvas de couro andavam para lá e para cá. Ao fundo, na parede imediatamente oposta a das portas que acabaram de abrir, um estrado havia sido montado, com uma maca futurista no centro, com todos os tipos de equipamentos caros que alguém poderia imaginar.

-  Ora, ora, ora! Então este é o espécime que você falou a respeito, Donavam? Esplêndido, esplêndido! Traga-o para a mesa de exames, sim? Vamos, vamos! - uma voz alegre rompeu o fluxo de pensamentos de Brad, que tentava absorver tudo o que via. Vindo do meio do labirinto de cubículos, um homem de aparência doentia se dirigia a eles. Tinha um óculos de armação antiga equilibrado na ponta do nariz, cabelos grisalhos à lá Einstein e uma expressão absolutamente tresloucada em suas feições. Vestia um grosso avental branco que mais parecia pertencer a um açougueiro do que a um técnico de laboratório. Calças pretas e luvas de borracha da mesma cor que iam quase até os cotovelos.

- Espero que possa fazer bom uso deste, Dr. Sujeitinho bastante enjoado. Gostaria de já lhe ter dado um fim. - foi a resposta do homem, enquanto puxava Brad na direção da maca futurista no fim do amplo aposento. Ele via agora, que em algumas das celas haviam sátiros presos também. Aqui e ali. Embora nenhum semideus. Fosse o que fosse, aquela organização não parecia gostar de gente como ele e Tony. Algo se contorceu no seu estômago. As coisas realmente não iam bem.

- Ora, não seja tolo, homem! É o primeiro que conseguimos capturar vivo! Talvez nos ensine alguma coisa, hã? - respondeu o doutor, empolgado. Mas como que notando a aversão do funcionário, mudou o tom de voz para um ar de quem desiste de discutir com uma criança teimosa - bom, de qualquer forma, depois que terminarmos com ele, certamente não terá mais utilidade. Não vejo porque não poderia devolvê-lo a você, se isso o fizer feliz.

-  Eu lhe seria muito grato, senhor!

O enjoo piorou.Ladeando a maca de ambos os lados, dois homens do mesmo tamanho de Donnavan esperavam. Apenas que estes não estavam vestidos como ciadãos comuns. Tinham um uniforme completamente preto e sem insígnias. Com coturnos altos, bonés e pontos de retorno nos ouvidos. Sobre o peito, coletes a prova de balas cheio de bolsos, segurando fuzis pendurados aos ombros por bandoleiras. Nos cintos, pentes de munição reserva e pistolas sobre coldres sem travas. Ótimo, as chances do rapaz fugir estavam cada vez melhores.

Ele fechou os olhos. Sentiu seu corpo sendo jogado contra a estranha maca, que estava agora na posição vertical para que pudessem prendê-lo nela. Suas algemas foram soltas apenas para serem substituídas pelos grilhões da própria maca. Ele sabia que estava perdido, e decidiu fazer a única coisa que parecia possível: orar.

É claro que, não para Deus. Ao menos, como dizia Tony, não o imaterial. Não. Dirigiu suas preces o melhor que pôde ao Olimpo. Se um de seus pais era de fato um deus poderoso, essa seria uma hora maravilhosa para enviarem algum tipo de ajuda. Qualquer tipo de ajuda. Concentrou-se o máximo que conseguia. A sua volta, pessoas começavam a conversar sobre os procedimentos que precisavam ser feitos. A maca mecânica emitiu um ruído e começou a se inclinar para trás, voltando lentamente a sua posição original na horizontal.

Ele sentiu uma agulha perfurar a sua pele na articulação que liga o braço ao antebraço. Eletrodos ou alguma coisa parecida com isso foram afixados a sua cabeça. Provavelmente estavam recolhendo seu sangue para análise e depois iriam injetar alguma droga para monitorar seu cérebro com os eletrodos. Ou qualquer coisa assim. Nesse momento, Brad tentava não pensar nisso. Apenas dirigia suas orações a quem quer que pudesse ouvir. Me tirem daqui! Mentalizava com força. Se nós semideus somos como vocês intercedem no mundo, me usem agora, por favor! Do que servirei a vocês preso ou morto? intensificava o pensamento. Um medo sem nome começou a crescer dentro do peito do jovem Meio Sangue. Assim como rancor e incompreensão. Porque ninguém respondia? Porque não o ajudavam?

Uma escuridão horrível e opressora tomou conta de sua alma quando ele finalmente perdeu novamente a consciência.

Ele se viu num lugar escuro. Uma escuridão tão densa e penetrante que parecia roubar o próprio ar. Não haviam paredes, não havia chão, não havia teto. Apenas escuridão. Completo, fria e negra. Ele se sentiu diminuído ainda mais. Um insignificante no meio do vasto nada. Um medo maior do que qualquer coisa que ele pudesse descrever tomou conta de seus sentidos. Ele estava perdido. Jamais poderia sair dali. Jamais veria seu amigo sátiro de novo. Nunca descobriria quem era seu ascendente divino. Nunca saberia o que era o amor de uma mulher. Era o fim. Tudo terminava ali. Em escuridão.

E então uma voz suave, mas incrivelmente forte ecoou. Não naquele vazio negro, mas dentro da própria cabeça de Brad.

Eu pude ouvi-lo, Bradley

Era um som inumano. De um timbre ao mesmo tempo doce e severo. Régio e ainda assim compreensivo. Não era algo que sua percepção conseguisse acompanhar. Era simplesmente uma voz que emanava poder e irradiava medo e respeito dentro dele.

- Que... Quem é... - sua voz saía abafada. Como se estivesse falando diretamente contra uma estopa de pano. Como se o próprio som estivesse sido roubado pela escuridão completa.

Eu sou a salvação, Bradley. Aquela pela qual você tanto pediu. Aquela que, mais uma vez, os lacaios de Zeus ignoraram. Você me teme, Bradley?

Um frio ainda mais agourento subiu pela espinha do rapaz àquela pergunta. Temer? Ele estava apavorado. Nunca havia se encontrado com um ser divino antes, mas podia ter certeza que esta espera acabara. Ali, naquela completa escuridão, algo realmente poderoso existia. Algo que ele sabia que poderia tomar o mundo se liberado. Algo com uma vontade imensa e objetiva.

- Eu.. Deveria? - foi tudo que sua voz afogada pelas trevas foi capaz de emitir. Que escolha ele tinha?

O medo é uma das coisas que nos mantém vivos, garoto tolo

Ria suavemente a deusa da noite. Uma risada leve que alguém daria entre velhos amigos. Mas incutida do poder avassalador do tom de sua voz, foi pouco consolo para o semideus.

Você sempre deve temer aquilo que desconhece. A curiosidade já custou a vida de muitos heróis, Bradley. O que você deveria estar perguntando é se deveria confiar em mim, cria do Olimpo

Aquelas últimas três palavras vieram com uma nota de ligeiro desdém, nota esta que pareceu afogar ainda mais a alma do semideus.


- Eu tenho alguma escolha? - mesmo apavorado com a situação, de alguma forma, uma parte de si ainda permanecia um pouco racional. Não fazia sentido discutir se não houvesse o que pudesse ganhar. Aquele ser certamente poderia acabar com ele com a mesma facilidade com a qual ele poderia acabar com uma formiga.

Hahaha! Acho que já tenho alguma ideia de quem lhe colocou neste mundo, garoto esperto. Sempre temos uma opção, Bradley. Você poderia, simplesmente, escolher acordar. E viver a vida de cativeiro que lhe aguarda até que alguém do Olimpo decida ouvir suas orações.

Prosseguiu ela. O tom de voz tornando-se cada vez mais amigável e cada vez menos despido da imponência e poder. Aos poucos, a escuridão completa foi suavizando, e um solo negro, mas não tão negro quanto o restante do cenário começou a poder ser divisado. A pressão que parecia roubar o ar do local também diminuiu.

Diga-me, Brad. Quantas vezes o Olimpo o ajudou nos últimos cinco anos, enquanto você esteve perdido com nada além de um sátiro como companhia?

O coração do garoto disparou. Por quanto tempo aquele ser de força inacreditável vinha acompanhando seus passos? Ou talvez fosse apenas a natureza de um deus saber de tudo que ocorria? Fosse como fosse, o espanto logo começou a ser suplantado pela velha amargura. De fato, por que? Por que jamais tentaram um contato? Como que sentindo as emoções e os pensamentos do rapaz, a voz de Nyx continuou.

O sátiro nunca lhe falou sobre sacrifícios? Sim... Os poderosos do topo da montanha exigem presentes para reconhecer aqueles que deixaram aqui embaixo tem ideia de quantos filhos eles tem? Você não significa nada, Brad...

Uma dor e um pesar começaram a se apoderar do Meio sangue. E se ela tivesse razão?

- Mas então... Por que Tony estava me ajudando? Se não por ordens de Dionísio? Por... - tentava falar ele, em voz de confuso desafio, mas a voz da deusa interrompeu uma vez mais, ecoando em sua cabeça.

Porque você poderia significar, Brad. Poderia, se chegasse ao acampamento. Já faz alguns anos que eles sempre reclamam os filhos que chegam até a colina Meio Sangue. Se chegam... É porque podem ser úteis. Mas me diga, Bradley, que utilidade você tem sem um treinamento adequado? Quantos monstros já caíram sob sua espada?

A deusa da noite já tinha a conversa sob seu controle. Era verdade. Ele não era hábil como um verdadeiro herói deveria ser. Conseguia manter-se vivo, é claro. Mas muito devido a fugas espertas e ao nariz treinado de Tony para tirar-lhe de encrencas. Mas fora isso, ele era o que? Apenas uma presa para monstros. Uma cobaia no laboratório de pessoas maníacas.

O mundo não é mais como deveria ser. Está tomado pelo caos. Pela violência, pela libertinagem. Esse é o mundo que os Olimpianos governam. Esse é o mundo no qual você tem que sofrer tanto.

Conforme as palavras iam sendo ditas, imagens da fome, das guerras, estupros e todos outros atos hediondos da humanidade começavam a desfilar em frente aos olhos do garoto. Ele se viu de repente não mais cercado de escuridão, mas de cenas da mais brutal crueldade e da mais profunda tristeza. Crianças esqueléticas definhando em sarjetas sujas. Mulheres sendo obrigadas a prostituir seus corpos sem as mínimas condições de higiene em becos escuros. Assaltos e espancamentos. E o mais assustador de tudo aquilo, percebeu Brad, é que nenhuma das imagens fortes lhe causou real choque. Haviam se tornado lugar comum. Nos jornais, noticiários e revistas, aquele tipo de notícia era quase tão normal e recorrente quanto os boletins de previsão do tempo.

De fato, se os Olimpianos eram seres tão poderosos, senhores deste mundo, como puderam permitir que chegasse a esse estado? Nem ao menos poderiam dizer que zelar pelos filhos atravancara a tarefa, posto que, como no sonho, Brad fora sempre deixado no escuro.

Sim, Bradley, sim, eu me faço a mesma pergunta há séculos.

Respondeu a voz a seus pensamentos.

Mas as coisas não precisam continuar assim. Posso oferecer um caminho.

- Para me tirar daqui?

Para consertar o que há de errado neste mundo. Mas como os Olimpianos, não posso interferir diretamente. Não agora. Eu preciso de seguidores. Junte-se a mim, Bradley, e eu o guiarei ao Acampamento. Libertarei você deste lugar nojento onde os Mortais o prendem. Permitirei que tenha o treinamento apropriado

- Ao... Acampamento? Mas você não acabou de dizer que os Olimpianos... -ela o interrompeu novamente.

Há outros como você lá, criança. Outros que perceberam a podridão deste mundo. E como eles, você se tornará forte. Com eles, comigo, você ajudará a devolver as coisas para onde elas pertencem.

A tentação ia forte no peito de Bradley. De fato, tudo que ela dissera tinha sentido. E se seu pai ou mãe divino de fato o reclamasse quando chegasse ao acampamento, talvez ele realmente poderia se tornar o que Tony parecia acreditar ele estava predestinado a ser. Alguém de fato forte. Quem sabe com o poder que ganharia lá, ele de fato não poderia mudar a podridão do mundo? Mas... Tony! Quase esquecera do amigo. Ele lhe salvara a vida vezes demais para ser ignorado... Sem falar que ele de fato era uma pessoa importante na vida de Brad...

Não se preocupe com seu amigo sátiro. Você irá revê-lo. Neste momento ele está entrando em Nova York, escondido num caminhão do Zoo atrás de você. Não faremos mal a ele. Ele pode até mesmo vir contigo

- Antony...? Mas ele... Bem, não é do tipo que gosta de uma briga...

Não me confunda por uma Olimpiana, garoto. Eu sou Nyx, a deusa primordial da Noite. Poder não é a única coisa que importa. Não é a única que procuro. O sátiro será bem vindo, se esta é a sua dúvida.

- Então me guie para longe daqui e para perto de meu amigo. Me liberte desta Jaula, e a ajudarei a libertar o mundo - disse ele com convicção.

Um riso suave de regozijo soou em sua mente. E então ele acordou com um solavanco. Como se de repente tivesse caído sobre o colchão.

A primeira coisa que viu ao abrir os olhos foram as barras da sua cela. Depois, os vários cubículos de fibra de vidro que vira ao chegar naquele átrio. Do lado oposto onde estava, um sátiro tremia em convulsões preso a sua cama por cintas de couro. O garoto se levantou.

Invés de algum catre simples e sujo, sua cela era equipada com uma maca hospitalar, onde ele dormia. Estava inteiramente vestido da forma como chegara, com um esparadrapo no local onde a agulha o havia furado. Uma pia, um vaso sanitário e uma pequena cabine com chuveiro também faziam parte da sua habitação. Aparentemente, por mais que o odiassem, não tinham a menor intenção de ver sua saúde se deteriorar enquanto o estudavam.

Enquanto se levantava da cama e caminhava até as grades, pôde ver que haviam mais guardas armados no local. A cada duas ou três celas, um estava escorado nas grades com um fuzil atravessado no peito. O garoto se sentou. Não havia sequer janelas, já que estavam de baixo da terra e ele não fazia a menor ideia de como sairia dali.

O metrô passou. Sua trepidação no teto fez com que pó chovesse no grande aposento secreto. Aparentemente, estavam ainda mais fundo do que Brad inicialmente calculara.Uma pequena pedra negra desprendera-se do teto e caíra com um estalo no chão a sua frente. O garoto baixou os olhos por instinto.

Em torno da pedra, o pó caíra formando estranhos ideogramas. Parecia... Uma mensagem. Que maldita hora para ser disléxico, levaria horas para ele conseguir ler, os guardas iriam suspeitar... Mas espere. De alguma forma, as estranhas letras flutuavam na mente do Meio Sangue. E instantaneamente ele conseguiu ler o que o pó formava em mensagem: "Pegue. Isto o tirará daí. E corra."

Seu cérebro está programado para o grego antigo soou a voz de Antony na sua cabeça. Aquilo deveria ser Nyx cumprindo sua promessa. O garoto agarrou a pedra. Ela parecera, inicialmente, um carvão comum. Mas ao senti-la na mão notou que era muito mais pesada, dura e fria do que deveria. O negro meio acinzentado magicamente se transformou em um anel escuro, parecido com aqueles de madeira ou plástico que os hippies costumavam usar nos dedos. Ele o vestiu no indicador da mão direita.

Nada aconteceu.

Por enquanto, ninguém parecia ter reparado que ele acordara. A vida seguia um ritmo frenético de estudos do lado de fora da sua cela. Ele pôs-se a pensar. Como uma bijuteria mágica o tiraria dali? Retirou-o do dedo, apertando firme na palma da mão, com raiva. Girou-o ali uma, duas vezes. E então sentiu algo acontecer. O anel esfriou e engrossou. Se distendendo em um longo cabo terminado por uma muito aguçada ponta negra. De um instante par o outro, ele segurava uma lança de cabo de freixo um pouco mais alta que ele. Sua ponta, um afiado losango de aço negro tinha quase vinte centímetros de comprimento. Ele testou a lateral da lâmina: afiadíssima. Um filete de sangue escorreu do dedo.

Sem pensar muito, ele olhou para a tranca da cela e estocou com força. A lança passou direto. O aço que formava sua cabeça deveria ser mágico como o bronze celestial, pois destroçou os ferrolhos sem a menor dificuldade. O barulho chamou a atenção dos guardas. Mas ele já não se importava mais. Tomado pelo instinto que sempre salvara sua vida, ele desejou que a lança voltasse a ser um anel, ao o que a arma prontamente tendeu seu pedido, enrolando-se magicamente de volta a seu indicador direito.

Ele mergulhou para fora da cela num rolamento, escutando balas assoviarem por cima de sua cabeça, e saiu correndo por entre os cubículos de fibra de vidro.

Cessar fogo! Ouviu-se uma voz gritar. Cientistas, auxiliares e soldados corriam para todos os lados. Papeladas voavam para o chão aqui e ali enquanto o garoto corria desembestado em um zigue-zague frenético, esbarrando em muitos sujeitos de jaleco e driblando aqueles de colete.

Por algum milagre - ou talvez, nova intervenção da deusa, a porta mecânica estava aberta, alguém empurrava um pesado carrinho de lixo por ela e, sem se preocupar com quem ela, Bradley passou as pressas por ali, derrubando o sujeito na passada. Mais balas assoviaram acertando algumas das lâmpadas do corredor, mas ele não parou. Correu com toda a velocidade que seu atlético corpo de semideus permitia, e a péssima iluminação do corredor contribuiu para cegar a mira dos perseguidores. Dentro de instantes, ele subia sozinho no elevador de carga de volta ao andar principal. O coração palpitava forte no peito.

Ele podia sentir a pulsação  no pescoço e nas têmporas. Sem pensar muito, retirou novamente o anel que voltou a se transformar em lança quando sentiu que estava perto do térreo.

A porta se abriu e ele, guiado pelo frenesi da fuga, atingiu com a ponta cega da lança a barriga do homem que o esperava do lado de fora. Ele sabia que armas mágicas não iriam ferir mortais, Tony lhe contara aquilo quando lhe emprestara o canivete-espada. Mas não havia porque uma ponta seca de madeira não ser capaz de empurrar alguém para longe, certo?

Tirando a pessoa de seu caminho ele correu pelos corredores mal vigiados dos laboratórios do térreo, usando a lâmina para arrebentar a porta da garagem e, então, o portão. Guardou-a de volta na forma de anel.

O dai recém começara a raiar no Queens, não havia praticamente movimento algum quando ele saiu correndo virando em cada beco que podia encontrar. Sabia que seus perseguidores não tardariam a vir e que ele precisava ir para Long Island. O único problema era: Ele não sabia como chegar lá e nem se mexer por aquele distrito de Nova York.

Passou assim, a maior parte da manhã correndo por becos e ruelas, em busca de algum lugar que parecesse perigoso o suficiente para não atrair atenção e ser de difícil acesso a seus perseguidores.

Encontrou seu destino de escolha meia hora depois de sua fuga, num complexo de condomínios imundos próximo de uma pequena vila de papeleiros. Se escondeu no que ele reconheceu como uma boca de fumo e esperou. O lugar estava vazio, claro, muito cedo pela manhã para marginais quererem acender um.

Recostou-se a parede rescindindo a urina e tocou a coxa direita da calça. Meio em frangalhos e quebrado, o ramo de oliveira continuava ali, pôde sentir. Agora era torcer para Nyx ter tido razão. Torcer para que Tony o encontrasse.

Foram necessárias quase quatro horas, mas finalmente alguém que não um mendigo entrou pelo beco. Um rapaz de pernas tortas, touca, e uma expressão que mesclava o nojo e o alívio no rosto.

- Finalmente achei você! Cara, o que diabos aconteceu? - a voz de Antony soava exausta, mas aliviada. Ele tivera que recorrer a todos os seus recursos para encontrar Brad. Conversar com animais, magias de localização da natureza. Não parara um segundo desde que a lebre o livrara das amarras. Seu rosto estava extremamente pálido. Provavelmente desmaiaria a qualquer momento. Doía a Brad ter que falar o que iria dizer, mas não havia jeito.

- É muito bom vê-lo, Tony! Mas precisamos sair logo daqui, não estamos seguros! Acha que consegue nos levar ao acampamento?

- É claro que não estamos seguros! Se você conseguisse sentir o cheiro! Há tantos deles por aqui, me admira que nenhum tenha achado você antes de mim.

- O fedor de urina e lixo deve estar me escondendo - deu de ombros Brad enquanto punha-se de pé - Agora, se não se importa... Vamos?

- Claro, tenho táxi esperando ali na esquina, não sabia em que condições ia encontrar você...

Bradley se sentiu, repentinamente, culpado de sua decisão sobre se juntar a Nyx ao ver a lealdade do amigo. Mas, de qualquer modo, isso poderia esperar. Ele certamente ia entender. O próprio Pan iria querer apoiar a deusa, para devolver os locais selvagens a terra. Os dois seguiram, exaustos, para o táxi que esperava do lado de fora do beco.

Seguiram então por ruas intrincadas e entraram para a estrada que os levaria para Long Island. Por um instante, Brad chegou a pensar que finalmente seus problemas iriam lhe dar uma folga. Já haviam cruzado a ponte sem qualquer sinal de perseguição. Talvez ele pudesse chegar são e salvo ao acampamento.

Mas é claro, não foi assim que aconteceu. É, eu sei, estou me tornando repetitivo, mas a vida de um semideus é assim mesmo. Bastante repetitiva em suas desventuras. Mais ou menos a duzentos metros numa curva da estrada, um bloqueio policial estava montado. Forçando o táxi a parar. Mas, atrás dos carros da polícia, Brad os reconheceu. Dois homens armados com fuzis e uniformes pretos sem insígnias. Um deles conferia ao pulso algo que, a essa altura, Brad já sabia ser algum tipo de rastreador de Meio-Sangues. O taxista parou o carro e pediu para que ambos esperassem ali dentro enquanto ele ia falar com os oficiais.

- Tire os tênis, Tony - começou Brad - são os mesmos caras que nos drogaram na fazenda. Quando eu der o sinal, corra para a mata como se sua vida dependesse disso, vou fazer o mesmo. - Ele se referia ao bosque que margeava a estrada. onde o bloqueio fora feito. Com sorte, as árvores ajudariam a ocultá-los das balas.

O sátiro concordou. Com um conselho mudo, indicou a direção que deveriam correr. Brad entendeu. Certamente estavam próximos da colina meio sangue. Seria tudo ou nada. O sátiro deixara os tênis no assoalho do carro e já jogava as muletas por sobre o banco para o porta-malas. O taxista tinha começado a falar com um policial rodoviário, quando Brad viu que os dois homens de preto começavam a avançar para além da barreira de bloqueio em direção ao carro.

- Agora! - ele bateu no ombro de Tony que prontamente escancarou a porta do seu lado do carro e correu para o bosque. Ele então seguiu o sátiro, deslizando pelo bosque e saindo correndo também. Os policiais gritaram. O garoto não olhou para trás. Em alguns passos já tinha alcançado o amigo e ambos corriam por entre as árvores. Tiros soaram no ar. Cascas de pinheiros aqui e ali estalavam serragem e seiva em torno dos dois rapazes conforme os projéteis as atingiam.

Eles não olharam para trás, seguiram correndo, sempre na direção que Antony apontava, sem parar. O pulmão dando fortes pontadas de protesto. Após o que pareceu uma eternidade a bradley, ele viu. Um Grande e belo pinheiro com um velocino dourado pendurado. O sátiro havia lhe contado, aquela árvore mágica marcava a entrada do acampamento. Estava tão perto...

O sátiro também sentiu alegria, tanto que se precipitou a frente com mais fulgor... Levou alguns instantes para perceber que Bradley não o seguia. Quando olhou para trás, viu o garoto cambaleando para se levantar do chão. Sangue escorria profusamente do ombro esquerdo. Ele caiu de novo. O som de tiros continuava. Montinhos de terra se levantavam em torno do garoto.

A dor era incrível. A bala passara direto por sua escápula esquerda saindo pelo lado da frente do ombro. O impacto do tiro o atirara de boca no chão. O garoto tentara se levantar, mas a dor que percorria seu corpo era simplesmente grande demais. Irônico, iria morrer na praia, vendo os portões da salvação a poucos metros de si. Sentiu o vento de outros projéteis passando por si e levantando tufos de grama. Era o fim. Viu o terror nos olhos de Tony ao vê-lo cambaleando de volta ao chão após a fútil tentativa de se erguer. Quis gritar para o amigo seguir em diante, se salvar. Mas não havia força nenhuma em seu corpo para isso. Só pôde assistir, indefeso, o amigo descer correndo a colina.

Não havia mais o que ele pudesse fazer, pensou o sátiro. Mas seu orgulho de guardião e a amizade que tinha por Brad não o deixariam ficar parado. Ele correu e passou por cima do garoto, parando em sua frente como um escudo humano. Armas mortais não podem me ferir pensou hesitante. Mas não se moveria. Uns trinta metros bosque adentro, os dois homens de fardamento negro avançavam. Miraram diretamente no peito de Antony e abriram fogo. As balas passaram direto, como que disparadas contra o vento. Eles dispararam de novo; mais uma vez nenhum efeito. Então ambos estaquearam, amedrontados.

Deveria ser aterrorizante mesmo, atirar em algo que simplesmente é imune a tiros. A cautela tomou os rostos de ambos os perseguidores, que pareceram reconsiderar se continuar avançando era seguro.

Sem esperar pela decisão dos adversários, Tony sacou sua flauta de bambu e começou a tocar. Logo, os espíritos do bosque também começaram a se unir a ele. Ninfas dos pinheiros mais próximos saíram de dentro das suas cascas. Animais abandonaram suas tocas. E logo o bosque inteiro parecia ter sido tomado por magia.

Também atraídos pela música de Antony, um grupo de Meio Sangue se aglomerou no topo da colina de mesmo nome. Seguidos a eles, muitos outros sátiros, ninfas e até mesmo Quíron e senhor D.

O deus foi quem decidiu agir. Videiras imensas amarraram os dois soldados que logo começaram a ser invadidos pela mais pura loucura. Dias depois, eles acreditariam ter sonhado tudo aquilo durante uma ressaca especialmente forte.

O cheiro de morangos invadiu as narinas de Bradley quando ele acordou. Estava deitado numa cama. O ferimento em seu ombro parecia ter desaparecido magicamente. Ao lado da cama, um grande copo de vidro contendo um liquido dourado o esperava.

- Isto é néctar. Beba mais um gole ou dois, vai ajudar a recuperar sua força. Bem vindo ao lar, Bradley - em pé, na sua frente, um homem grisalho, meta humano, metade corcel branco o cumprimentava. A missão estava cumprida, finalmente Bradley T. Jackson, chegara ao acampamento meio sangue.

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Re: CCFY - Para Tudo Existe um Começo

Mensagem por Nox em Seg Jan 08, 2018 4:05 pm


Bradley T. Jackson

Método de Avaliação:

Valores máximos que podem ser obtidos

Máximo de XP da missão: 3.000

Realidade de postagem + Ações realizadas – 50%
Escrita: Gramática, erros, pontuação, coerência, concordância, etc – 20%
Criatividade/Estratégia em combate + inteligência – 30%

Realidade de postagem + Ações realizadas: 50%
Escrita: Gramática, erros, pontuação, coerência, concordância, etc: 20%
Criatividade/Estratégia em combate + inteligência: 30%

RECOMPENSAS: 4.500 XP + 4.500 Dracmas → Bônus de envolvimento da Seita.

Comentários:
Efebo, eu fiquei impressionada que em todo o texto, tudo que vi foi um espaço faltando. Fico muito feliz de ter lido, mais ainda de saber que é um aliado da noite. Sua história ficou criativa e bem contada, a princípio senti que você estava bem apegado a alguns elementos da trama original, não indo muito além da obra do Riordan, mas isso logo foi superado e a sua desenvoltura me impressionou.

Foi um prazer de leitura. Seu item foi modificado e recebeu dois efeitos além do desejado, um mimo da deusa pelo desempenho.

Seu item ajustado: Lança Estígia [uma lança de cerca de um metro e noventa de comprimento. Seu cabo é feito em freixo e a ponta, uma lâmina losangular de ferro estígio. | Efeito 1: A lança pode se transformar em um anel preto ao desejo do usuário. | Efeito 2: A essência de uma runa de sombras paira sobre a lâmina, adicionando 20 pontos de dano oriundos do elemento trevas. | Efeito 3: Próximo a um aliado de Nyx/Nox o anel emite um fraco brilho, possibilitando ao usuário reconhecer seus aliados.|Ferro estígio| Sem espaço para gemas | Beta | Status: 100% sem danos | Mágico | CCFY: AS TRIBULAÇÕES DE BRAD]

Atualizado.







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Re: CCFY - Para Tudo Existe um Começo

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