The Blood of Olympus
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Lírio Negro

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Lírio Negro

Mensagem por Lucca Hjelm-Østergaard em Sex Dez 08, 2017 7:22 pm

A trama pessoal gira por volta da máscara espelho, um objeto que possibilita ao usuário enxergar o tempo de morte dos vivos composta por um mecanismo infravermelho e uma arma ofensiva localizada no centro da boca. Nela, é possível coexistir um enxame de 10 abelhas de ouro. O filho de Thanatos procurará descobrir o segredo do artefato e a resposta do sumiço das pessoas de sua vida percebendo mais a frente, que todas elas morreram e continuam morrendo novamente repetindo o ciclo arredondado das suas mortes. Desta vez, tudo será causado pela presença do mentalista. 

Capítulo | - Passos que não retornam ao início.
Capítulo || - Coisas que já estiveram mortas.
Capítulo ||| - Lírio negro.




What’s the use of forcing myself to be bright?
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Lucca Hjelm-Østergaard
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Re: Lírio Negro

Mensagem por Lucca Hjelm-Østergaard em Sex Dez 08, 2017 7:56 pm

Though, I suppose,
there’s no use praying 
to a dead boy

Não fazia muito tempo desde que o sol havia se posto no horizonte.

Os semideuses estavam acompanhando outras hordas para o toque de recolher, seguindo os líderes para a longa semana de aulas que estava por vir. Lucca ao contrário, bem naquele momento havia sido chamado para os mentalistas antes mesmo de escutar dos dois irmãos mais velhos, o pedido de saída do Acampamento. Um pedido que sequer tinha sido avaliado por Quíron. Apenas entrado em curso com a autonomia da dupla mais a hesitação do mais novo : 

— Para onde iremos? - Perguntou o louro, passando a margem do lago abrigando os traços faciais afeminados e a foice pesada em seu lado esquerdo da capa escura presenteada durante a reclamação. O mais alto e moreno, soltou um riso fresco contra o frio noturno exibindo mesmo que ainda relutante, seu sotaque francês :

— Viajar. - Contestou limitando o olhar a Lucca, designando-se ao mais velho do trio. — Mas será fora desse lugar. Impossível se divertir por aqui nesse horário.

— Iremos à Nova Iorque. - Disse o cético, com seu sotaque alemão. — A igreja. Lembra-se do que fizemos em Londres, Lucca? Será algo semelhante ao que faremos essa noite. - Explicou repousando a mão média acima do ombro do caçula o puxando para acompanhá-los com mais pressa. Andando tropegamente, Lucca entortou os lábios demonstrando certo desagrado. Aquela noite na capital inglesa foi unicamente para ceifar. Diversas almas na noite roxa do Halloween dedicadas ao ofício paternal. Parando no meio do trecho pensativo, o mesmo apurou o olhar avistando um corpo estirado bem abaixo de um sabugueiro :

— Lembro. - Firmou o pé a frente do monte pequeno de folhas, levantando a lâmina brilhante para próximo do irmão do meio. Parando, o garoto estimulou uma abertura labial impressionada não emitindo nenhuma expressão que comprovasse seu choque. — Corpos. - Ligou o ponto quando viu o mais velho se ajoelhar ao lado do falecido, levando a mão consigo para tocar a face pálida e fria pelo tempo exposto no ar livre. Observando além, convergiam outros dois corpos estirados, contemplando o céu enevoado de olhos fechados. O mentalista se ajoelhou diante do terceiro que tinha sobrancelhas grossas encarando a dupla a sua frente. — Devemos ceifar pessoas? Monstros? - Questionou curioso. 

Os dois estrangeiros zombaram em uníssono. 

— Será uma caçada ao tesouro. - Conferenciou o ruivo limpando os olhos retirando de dentro da própria capa uma tigela grande de cor marrom. — Esses três foram semideuses que saíram do Acampamento há quatro meses e nunca mais voltaram. Era uma missão aqui nos EUA, mas claro, foram mortos.- O outro homem o acompanhava na íngreme missão de coletar água na beira do lago transportando com quatro mãos, a vasilha para o centro dos mortos. Lucca levantou-se num único salto ficando vendo que os dois também reposicionaram os cadáveres de maneira a formar um único círculo. Ao se sentarem a volta do líquido escuro, os três deram as mãos : 

— Mas magia? Não iremos pessoalmente? - Perguntou outra vez o loiro. Hjelm sentia-se perdido. Não sabia como aquilo começaria e com qual fim terminariam. Quando o moreno moveu os cinco dedos acima da bacia, a água moveu-se para a direção norte criando um redemoinho calmo e defensivo. Uma imagem se programava e parecia ambientalizar NY sob os espectros ameaçadores da madrugada. Era inverno, o chão estava encoberto por um tapete branco de neve. As poucas pessoas que transitavam a rua estavam bem agasalhadas de cachecóis e toucas grandiosamente pontiagudas protegendo-se dos flocos glaciais.  Lucca esfregou as duas mãos pelas laterais das bochechas fitando o segundo mais velho emergir os próprios dedos contra a sua nuca, empurrando a face na direção da divinação : 

— Lucca, você irá pra lá e nós iremos garantir que seu tempo seja limpo de monstros. Vá atrás desses três semideuses e os alertem que irão morrer, tudo bem?! - Instruiu o que integrava os necromantes de Erébus. — Em momento nenhum, diga o seu nome. Acho que se isso der certo, Quíron irá acabar descobrindo que fomos nós que os salvaram. Você sabe. Esse tipo de favor não ganha muito prestígio entre os outros semideuses.- O rosto do dinamarquês coloria a água; Uma reação de medo e desconfiança brotavam do fundo de seus olhos. O moreno e responsável pelos demais, colocou a mão no ombro livre do irmão :

— O Lucca ainda é muito fraco para isso. - Olhava o necromante com certa raiva. — Ele mesmo pode morrer. - Completou. O mais jovem desfez a expressão de medo passando a arcar com o perigo real que o aguardava. Com um movimento ligeiro contra os ossos dos ombros, se desfazendo dos contatos, ele pesou os cílios contra as órbitas oculares e por vontade própria afundou-se contra o balde. A energia negra abraçou o queixo e o restante da face atraindo-o para as profundezas. A projeção do inverno nova iorquino daquele ano, levava para o epicentro urbano transtornado pela frieira meridional. Na densidade espacial, o corpo do ceifador flutuava até ser deitado numa superfície de madeira rígida onde retomou a realidade. 

Quando vagarosamente abriu os olhos, percebeu que já tratava-se de diversas horas da noite. Sorvendo a textura apaziguada do ar para enxergar a cúpula colorida da igreja, ele concluiu que a primeira parte da missão havia sido concluída com êxito. Moveu as pernas contra o banco encontrando o chão no meio da penumbra para ganhar equilíbrio e ficar de pé. 

Vistoriou primeiro todo o ambiente encontrar em um último momento Maria, de mãos unidas abaixo do queixo sendo iluminada pelo reflexo fraco das velas. O próprio se virou por um segundo levantando a lâmina dando início a uma ronda acautelada pelos corredores silenciosos do lugar. Testemunhando sua presença, o som oriundo dos pés que faziam ao jazir momentaneamente próximo do altar, se calaram. As mãos involuntariamente mergulharam na água benta elevando-se até os lábios secos voltando à atenção a hóstia dourada: 

— A missão deles tinha início na igreja? No térreo? - Inquiriu baixo não impossibilitando que o eco da sua voz se expandisse gradualmente pelo restante da basílica. Esperava que os irmãos entrassem em contato com ele, mas parecia ter sido apenas uma impressão. O garoto ficou próximo do órgão, pressionando levemente os dígitos contra as teclas mortificadas pelo sossego eterno. A nota alta e branda que não foi limitada a soar, deixou as chamas fracas que iluminavam as imagens serem intimidades inventando sombras trêmulas nas paredes. 

Lucca supunha não estar sozinho. Desta forma efetuava movimentos bruscos antes que os números de sua desconfiança fossem eliminados e desintegrados da questão. Tão entretido com o instrumento, que o semideus repousou ambas as nádegas contra a o assento de carmuça passando a apreciar as teclas com mais atenção.  A atmosfera claustrofóbica induzia uma companhia imaginária. Após uma música tocada pelo filho do deus da morte, fez-se convencer que só estava li perdurando uma demora que não seria perdoada pelos irmãos mais velhos. 

Por isso, desceu o compartimento do órgão se levantando sorrateiramente para afastar a cadeira. Virando-se em direção da entrada, notou uma garota imóvel no final do corredor apontar-lhe um arco. No orifício central, um brilho incandescente se abria influenciando a ponta afiada de uma flecha. O corpo da arqueira estava compenetrado; de barriga para dentro, nariz arrebitado e braços estirados, ela não parecia ter temor algum ao que pensava fazer. Lucca levantou as mãos na altura de seu rosto, como um ladrão rendendo-se a polícia. Olhou para os lados e assistindo mais duas pessoas surgirem nos fundos. Um homem de barba rasa e outro de olhos esverdeados :

— O que está fazendo aqui? - Demandou a jovem moça, puxando o cordão dourado retesando todos os músculos dos braços.  O homem mais alto posicionou-se nas suas costas inspecionando as paredes e os candelabros de bronze. O de olhos esmeralda levitou um castiçal próximo da figura entristecida de Jesus Cristo virando as ceras correspondentes de cada vela para baixo. Os pingos faziam-se presentes numa grossa cortina de fumaça. Na terceira, o loiro deslizou a sola do sapato para trás resguardando a foice entre os braços encobrindo o restante pertencente ao tórax. Num sorriso irônico, o mentalista aguardou a fumaça desaparecer para notificá-los do que precisava dizer. Adoraria terminar aquilo o quanto antes fosse :

— Vocês irão morrer aqui se não forem embora logo para o Acampamento. - Por mais que se esforçasse para que aquilo não soasse estranho, parecia impossível. O trio o fitava de maneira desconfiada e ele mesmo motivava a expressão de medo com muita facilidade. Impaciente, a mulher soltou a força do arco e fez com que o recuo emitisse um rangido agudo. A flecha que foi disparada cruzava o oxigênio com muita facilidade girando o penacho vermelho que adornava o seu final. Lucca em um pensamento rápido, atirou-se contra o chão mirando o metal na direção do calcanhar forçando as mãos para lançar a foice na rasteira alheia conseguindo arranhá-lo de raspão. O incômodo despertado na semideusa forçou-a largar o arco no mesmo minuto. Levantando-se, observa que mais dois vultos resolvem se agrupar na assembléia. 

Ele conhecia aquelas duas capas.

Igualmente a sua presença, os outros dois não mostraram características de reconhecimento, mas o mentalista sabia de quem se tratavam. Os irmãos resolveram de última hora, surgirem naquele plano? Ele confiava que sim. Os passos lentos tentaram tomar proximidade do quinteto, porém parou quando assistiu os dois mais velhos mirarem as armas na direção dos semideuses. Mais alguns movimentos se assomaram sendo rápidos e precisos. Mesmo presenciando a cena, não sabia reconhecer ou discernir o que acontecia com clareza. Após minutos instaurados, o primeiro corpo cai ensanguentado com um único corte horizontal tido em obra por um armamento extremamente afiado. Um ferimento que permitiu o sangue desenvolver um pequeno riacho, criando um contraste sinistro ao fitar os olhos do rapaz de olhos mais vistosos :

— Duncan?  O que aconteceu? - Perguntou. 

— Sua missão está cumprida, Lucca. Já pode forçar para acordar. - Responde Declan, apoiando o braço contra o peito feminino da jovem mobilizada. Foi só mais um movimento defensivo que ela acaba decapitada. Os dedos do último semideus tremeram ansiando o perigo. — Vá. Saia daí. Aproveite que tanto eu como Declan estamos ocupados para matá-lo também.

— Não íamos matar. - Rebusca a prole mais afetiva. Com a olhada da dupla, ele não espera o terceiro executado para que tomasse a arma e corresse buscando a saída. Alcançando a maçaneta, viu que a porta estava resistindo a ficar lacrada enfrentando a grossa neve invasora.  Restou à alternativa de fechar o punho e deferir um soco que doeu até o último fio da alma, abrindo uma fresta que desse diante da rua. Estava temendo que aquele assassinato fosse restar como subterfúgio dos outros livrarem dele. Mas mesmo que esse não tenha sido o pensamento e causa principal, como que conseguiu julgar de maneira tão convicta esse primeiro motivo? Os sapatos afundavam a superfície fria deixando com que a pele dos calcanhares sentisse a queda brusca de temperatura. Dando início alguns calafrios, parou a frente de uma fonte congelada. O anjo o encarava com culpa, vomitando uma longa rajada de cristal :  

— Me matar. - Espiou por cima dos ombros, ofegando com dificuldades. A inspiração formava uma longa nuvem branca dissipada através de outra inspiração igualmente curta. O que estava dominado por medo, passou a ser contaminado por cólera e assim, a certeza. Nessa mesma sequência, Lucca passou a mão pelos lábios extraindo algo invisível que o incomodou e apertou o cabo da foice disparando rudemente contra a rua vazia para encontrar um lugar para dormir. Seria algo fácil para que no dia seguinte, reportasse o caso a Quíron. Nenhum semideus tem o direito de tirar a vida de outrem sem que seu momento ou por clemência, houvesse chegado.  Poderiam dizer qualquer coisa sobre aquele dinamarquês menos que fosse injusto. Ele tinha uma séria aversão a essa palavra.  

Atrás de um prédio, um homem velho de rosto enrugado observava a confiança do novato expondo um sorriso pequeno nos lábios. Thanatos era um bom pai quando queria. 

Há muitos anos quando pensou na ideia de se tornar pai novamente, ele inspirou uma nova criação para disseminar a presença indesejada dos mortais na terra. O seu objetivo principal era atrair cada uma das vítimas para o reino da morte e augúrio eterno. Era algo tão grande em sua mente, que precisava confessar à tamanha e redundante decepção que teve ao redescobrir os dotes do filho. A mãe que foi impossibilitada de criá-lo parecia ter sido o principal fator da incursão. Mas agora ali, fitando a prole tão nervosa e movida ao ódio, admitia que poderia ser novamente objeto de seu desejo. Mesmo que por volta de todos os problemas geridos desde seu nascimento, tenha vendido-o a deusa Psiquê. A divindade estaria até mesmo disposta a abrir uma nova linha de confronto. Acompanhando o próprio fruto, sabia que desta vez não se desapontaria com os resultados. Afinal, estava em comum controle da situação.  

Porém Lucca sentia a cada minuto passado, o seu corpo expurgar uma reação reagente sobre o frio; A esperada tremedeira fraca a um enfraquecimento múltiplo. A sensação de adormecer na neve, fechar os olhos e entregar o corpo a qualquer coisa também clamavam. Ele caminhou apenas dez minutos, quando sentiu suas articulações endurecerem abruptamente forçando seu corpo a se ajoelhar e posteriormente, deitar. Como um ato sem obstinação, ele fechou os olhos sentindo as células do corpo aos poucos reduzirem a atividade. O braço havia caído ao lado do tronco, quando enxergou prestes a um desmaio, uma silhueta feminina dobrar a esquina. Salto negro, perna torneada e encoberta por meia calça fina de mesmo tom.  

* * *

A senhorita Hjelm chegou à América logo após ser abandonada há dezenove anos nas encostas do mar Egeu. Havia chegado a aquele lugar através de um feito impossível de se provir de um ser humano. O homem com qual acompanhou-a fez um ato que jamais deve-se fazer contra uma mãe. Ela adormecia depois de uma longa conversa ébria levada ao amante. Em partes, Angelique possuía a parte mais participativa do diálogo restante a figura masculina, célebres movimentos de cabeça e um olhar distante do corpo nu da mais nova. A atração ardente que havia sentido sobre a frieza incomum dele, trouxe em sua memória o tamanho erro feito em sua vida após a utopia nostálgica. Solteira e imigrante, não sabia qual foi à finalidade levada à criança que pariu em sete meses. Muito menos, o que sobrou do antigo amor. 

Com a chegada a metrópole estadunidense na temporada do inverno, ela teve de arcar com os primeiros desafios do alto consumismo e do clima. Os braços estavam à volta do tórax observando os arredores com uma atenção treinada. Numa das mãos, um saco engordurado de salgados balançava sonolento exibindo um cardápio desaprovador para um jantar. Seus trajes não se tratavam da última moda lançada no interior da cidade, mas restos humildemente presenteados de pessoas já cansadas do ultrapassado. Tão sem graças e desprovidas de cor. 
 
Junto das pessoas que a acolhera em um abrigo, ela estava perdendo a sua beleza e com um inglês tão precário não sabia se comunicar para chamar atenção o suficiente para ganhar um emprego de meio período. Ela aprendeu aos poucos, a viver dessa forma empurrando sua carcaça pelos trilhos. Não era complicado idealizar que tudo dera início a partir do instante em que gerou aquela criança. Colocá-la ao mundo trouxe uma mudança significativa no fluxo da sua vida. Uma mudança que segundo as estatísticas estatais, estava contribuindo com a luta de classes. O pobre abaixo e os ricos no topo descendendo o céu.

Foi tanto lamento, que ela estava esperançosa de comer sozinha. Odiava ter de contribuir para obter outras coisas. 

Os sapatos que não auxiliavam a locomoção pelas ruas, pararam de frente de uma padaria antiga tragada pela escuridão. Abaixo da logomarca e ao lado de um boneco sorridente, a loira encostou um dos ombros na parede de tijolos retirando de dentro da embalagem algo que era frito e extremamente calórico. Se houvesse sido há cerca de nove anos, com certeza negaria aquilo. Tascou a primeira mordida mastigando com voracidade e fome. A cada força projetada na mandíbula dobrada, era uma respiração glorificada como se agradecesse as entidades religiosas por fornecê-la tamanha salvação. Uma mulher faminta, salva de um naufrágio por um anúncio de promoção; Por dois dólares, leve quatro salgados! O legítimo padrão norte-americano

Ainda que não possuísse relógio de pulso, sabia que seria melhor ir. Girando o corpo de maneira culpada e pesada pela massa ingerida, a dinamarquesa amassou o pacote e escondeu dentro do lixo. No meio desse processo, até empurrou algumas coisas descartadas tentando despertar seu interesse todavia, foi em vão. Friccionando as mãos oleosas pelo tecido pesado do casaco, voltou a caminhar entrando por um acesso pouco conhecido.  Os prédios comerciais causavam uma impressão estranha. Uma sensação de sufocamento obrigando-a querer gastar efusivamente durante o dia. Angelique fitava aquilo com a sabedoria de que jamais entraria pela porta da frente. 

Alçando o meio da rua, observa que algo estava imóvel bem próximo do parquímetro. Um corpo estirado e econômico de muitos movimentos. Dali, não parecia ser possível enxergar a respiração e muito menos o elevar preguiçoso do peito. Com curiosidade, a estrangeira cedeu a andejar com mais lentidão a fim de informações. Com as pernas vizinhas do poste, dobrou a coluna aspergindo uma observada clínica. O rapaz sem identidade moveu o queixo trazendo para baixo das narinas, uma grande quantidade de gelo. 

Mesmo assim não acordou trazendo os dedos longos e esguios para cima do rosto. O contorno da boca estava vermelha e pressionada como se sofresse de um pesadelo. Aquela imagem fez com que a moradora de rua se ajoelhasse e engatinhasse segurando o bico escuro do sapato do rapaz o puxando para trás. Involuntariamente, o mesmo puxou protegendo-se. Quando ela então resolve sentar-se a seu lado, flocos de neve caem intrusamente entre os dois corpos. A mão suja repousa contra a testa do adormecido acariciando aquela derme fria com a intenção de afastar os cachos dourados que interrompiam a visão do rosto. Distinguindo o olhar cansado e as densas bolsas rochas instaladas abaixo de cada um dos olhos, ela entende que o ideal seria ajudá-lo. 

Os braços dela eram longos e não negava que o corpo alheio era extremamente pesado.  Ela puxou pelas ruas sem ao menos denunciar uma nota de desagrado ou força. O gemido de latência nos músculos braçais permaneceu transfixado na garganta. Uma hora e meia, estava diante de um prédio envelhecido de tonalidade desbotada e sustentação duvidosa.

O pavimento sombrio ocultava pequenos focos da natureza insistente; Flores lilases enfeitavam um calçadão de pedras e restos de obras. A mais velha deixou o corpo do rapaz estacionado contra a frente do prédio, puxando com dificuldades uma grande chapa de ferro para permitir a passagem da dupla. Do outro lado, encontrou um movimento pequeno. Algumas pessoas estavam deitadas cuidando das próprias vidas e de seus pedaços de papelões esquecidos bem como também, as crianças adormeciam no colo de seus pais. As órfãs não faziam parcimônia em encontrarem seus sonhos sozinhos :

— Mas o que é isso? - Indagou uma jovem morena. Igualmente moradora de rua, seus dotes físicos como a beleza estavam escondidos pela sujeira e o fedor de lixo. A loira soltou o corpo do mais novo deixando-o parado contra dois sacos pretos de tecidos retornando o corpo magrelo para a outra presença : 

— Ele estava caído no centro. Perto da área comercial. Se amanhecesse, tenho certeza que chamariam a polícia. - Explicou. Isso não garantiu nenhuma aceitação por parte da veterana. Apenas um balbuciar baixo. Um palavrão omitido pelo som das madeiras derramadas para alimentar a chama precária da fogueira :

— Amanhã ele precisará achar outro lugar para ficar. Tenho medo de receber outras pessoas e descobrir que é uma daquelas aberrações que estão atacando a cidade e matar todos nós. - Conferenciou um homem negro, escondido por um sobretudo surrupiado de cor oliva. Os lábios grossos dele moviam-se de forma invisível por causa da presença constante da noite. Seus olhos em contrapartida eram brancos de tom ósseo. As mãos estavam próximas da matéria, aquecendo-se. — Ele está com fome? - Perguntou buscando alguma coisa pelo cenário. — Fizeram sopa e ferveram vinho.

— Não conversei com ele. Parece desacordado. - Respondeu Angelique repousando dois dedos a frente do nariz do adolescente. — Vou deitá-lo perto de você. - Pôs-se a arrastar o corpo novamente na mesma trajetória feita por Bill.

* * *

Em um súbito ímpeto de medo, Lucca acordou. Seus cílios piscaram duas vezes revelando uma presença predominante de vermelho e amarelo, transformando-se em um laranja nervoso e sedento. Saltou com o assombro percebendo imediatamente que aquele fogo estava protegido pela superfície congelante do piso. A mão foi até a costa do crânio, remexendo os cabelos como se procurasse a raiz de um problema. Pensou e pensou não conseguindo compreender como afinal havia parado ali. Moveu os dedos dos pés, sentindo-os dormentes demorando a se levantar. Finalmente de pé, olhou as redondezas fitando os rostos escondidos encontrando uma figura frágil no final do acesso abraçada a uma colcha. Quando pensou em encontrar uma saída, percebeu que seus olhos na verdade haviam se encontrado :

— Você está com fome? - Ela pergunta sem demonstrar esforço na voz.  

— Não. - Responde também sem denotar exasperação. A mulher se ergue e o acompanha até o espaço da paisagem adornada pela madrugada. O frio alcançou a temperatura negativa, mas os dois pareciam confortáveis com suas roupas. Os olhos do mentalista voltaram-se para o céu estrelado e protegido pelas nuvens. — Que lugar é esse? - Indagou.

— Hum. - Uma nota pensativa faz-se presente. O dedo patenteado no beiço pequeno expunha a micose da unha. — É um abrigo para pessoas sem teto. - Respondeu. 

Agora presente a personalidade, enxerga-se a dúvida incompatível. 

— Preciso ir embora. - O garoto se afasta com o deslizar da bota, evitando pisar o mesmo chão da outra. Esta o segura pelo cotovelo, forçando a voltar à posição anterior para fitá-la. Contra o brilho vacilante da lua, ela desceu um dos dedos pelo contorno do queixo parando na marca de nascença no lado direito. Não era uma verruga, contudo poderia ser facilmente confundida com uma.  Aquele contorno a lembrou de uma que possui numa das mãos. Pequena e escura, de formato gracioso longe de ser interpretado como descuido higiênico. Tamanha viagem foi feita, que a imigrante separou a boca com o queixo evidentemente surpreso :

— Sua marca é bonita. - A mão repousa contra a bochecha varoa, explorando a maciez da juventude. — Onde estão seus pais? - Acrescenta emotiva. Enquanto isso, o outro suspirava baixo olhando-a na profundeza dos olhos. Reconhecer alguém que jamais havia visto parecia estranho porém, aquela impressão de conhecimento perturbava sua mente. O relar indicador contra a bochecha denuncia um choque transitório a percorrer a espinha fazendo com que forçasse a separação com um tapa. O espanto não os tomou conta. Ele passou a caminhar a passos pesados para perto da parede de metal, forçando os braços para que puxasse tudo e acordasse os demais. As famílias mais pequenas reprimiam-se contra o azulejo gasto, enquanto as mais numerosas impunham presença ao fecharem o cerco :

— O que esse cara está fazendo aqui? Nova Iorque está sendo vítima de um ataque e trazem mais estranhos para cá? - O rapaz emitia com fúria, mostrando a movimentação contínua da tatuagem em algo extremamente chamativo. Outros colocavam em jogo, suas armas; restos de garrafas, barras enferrujadas e pistolas de pequeno porte. O vozerio anunciava a existência do grupo para o restante da vizinhança pacata e embora houvessem membros pacíficos, estavam todos atemorizados com a presença do semideus. Hjelm não conseguia sentir medo apesar da repressão :

— Meu filho. - Anuncia Angelique gingando os corpos que impediam a passagem. A mão que tocou a pele quente do novato, estava a frente do ângulo de seus seios enormes e pesados. Os passos tinham erros e até tropeços foram cometidos. Lucca soltou um gemido de espanto, indeciso de dizer alguma coisa. Estava observando quem lhe salvou com mais atenção e parecia verídico; ela era loira, branca e tinha o mesmo balançar desengonçado de seu corpo. O sorriso era a única coisa que os divergiam, sendo mais alegre conforme a pele se esticava mostrando a arcada branca dos dentes :

— Mãe? - Experimentou o sabor da palavra. Os raios solares pertencentes a parente, igualaram-se aos dele quando um abraço foi firmado. Ele não correspondeu. Estava sob o efeito de choque. 

— Você cresceu e está muito alto. - Os olhos azuis novamente se chocavam uns contra os outros. — Como está aqui? Pensei que havia o perdido para sempre. - A face aninhava o peito. Com um gesto envergonhado, o semidivino acariciou os cachos duros e amarelados. No cérebro uma oficina foi criada maquinando engrenagens que correspondessem a coincidência :

— É uma longa história... Mãe. - Como soava falso.

Em detrimento do reencontro, o tempo parou. Ou melhor, as coisas a volta de Lucca estavam mais frescas. Nada pesava em seus braços e muito menos obrigava-o a permanecer parado. Seu coração batia com tanta pressa, que ofegava nos intervalos usados para contemplá-la. Um assobio vem de suas costas, pertencendo ao exterior. Os braços soltam o corpo mais velho e vão de encontro com o buraco mediano provocado por um golpe único. Um olho se encaixou, enxergando um corpo trajado de preto percorrer as calçadas. Perto do poste, abaixo da lâmpada de mercúrio amarela, a figura alongou o pescoço para fora do capuz rindo com alegria :

— Declan. - Murmurou o ceifador.  Com o sibilar de um longo suspiro inconformado, o dinamarquês e voltou à conterrânea, segurando as mãos desajeitadamente contra as dele. Sentindo a pele áspera da mulher, estava convencido que era a hora definitiva de ir embora. — Fique aqui, por favor. - Quando os lábios se cerraram, ele não estava mais ali :

— Mas qual é o seu nome, filho? - Demandou aumentando o nuance da voz aguda.

— Lucca. - Respondeu distante. Foi no único salto que conseguiu voltar à rua, sentindo o cheiro pútrido de sangue salgar o ar. Naquele horário, desconfiou que os gritos das futuras pessoas ceifadas não acordassem os nativos. A nuvem do céu nutria um tom cinza carvão, querendo anunciar uma tempestade após a nevasca doce. 
Distanciou-se do abrigo observando os arredores se deparando com um prédio vermelho pertencente ao corpo de bombeiros. A escada lateral de cor branca o atraiu para subir e resistir à temperatura baixa e observar a cidade. 

Com o horizonte urbano, encontrou as antenas de rádios e algumas de televisão a cabo. Num único lançar, enxergou os dois alvos correrem a espessa imagem do porto. Estados Unidos possuía natureza? Maravilhou-se em descobrir que sim. Foi dando passos folgosos para tomar impulso, que ele saltou de prédio para prédio rebatendo a dor latente que consumia seu calcanhar. Se o visse e escutasse, temeria as conseqüências. Declan e Duncan tinham isso em comum; Compulsivos por morte.
* * *

Novecentos quilômetros dali, os meio-irmãos fumavam um cigarro. A entrada do barco estava toda destruída; restos de bandeirolas, de cabeças de peixe e caixas velhas. Era um acordo marítimo para pesca e exportação. Com os pés do ruivo, os ossos da espécie quebraram-se soando um gemido frêmito e enquanto o vento soprava, o zunido causava medo. As folhas chocalhavam na corrente de ar arremessando pequenas folhas de publicidade. Compre um caixa e ganhe um salmão :

— Se o Lucca sair vivo dessa estaremos fodidos. - Comenta o mesmo sentando-se próximo da porta. 

— Não estaremos. - Corresponde o moreno repousando a atenção no painel de comando. Ajudando a poeira, ele bate com as cinzas levemente acima de um botão verde. O vidro que encobria os números de velocidade estava quebrado. Uma pichação indicava o nome de uma gangue famosa na cidade. — Nós o mataremos antes mesmo que pense em abrir o bico. Nosso pai mesmo disse que ele não era um dos mais importantes mesmo. - A fumaça que abandona sua boca, transforma-se em um gás venenoso. 

O plano simples já havia sido cumprido; Matar os três semideuses responsáveis por trazerem a máscara, um objeto até então sem informações de sua peculiaridade. Os dois observavam os traços agressivos e o sorriso branco e afiado que era desenhado bem abaixo do nariz. O cigarro pendia molemente nas bocas, aguardando outras ordens. Com o som borrachudo da tábua do porto, eles se levantam e escondem o objeto dentre o cenário cinza :

— Ele não será um problema. - A voz elástica e velha soa como uma gaita de fole, bloqueando a entrada. — Não se devolverem o que pedi. - Thanatos tinha uma aparência rejuvenescida; Um queixo visivelmente mais largo, o cabelo baixo e a boca empinada. A roupa era uma composição esquisita de colete de couro e camisa xadrez de botões brancos e lisos. Fantasiado de pescador. Avançando com o pé direito, a divindade estende a mão exibindo dedos judiados por alguma corda imaginária. Pela impertinência, insistiu no gesto :

— Ele é novo nesse ramo, pai. - Responde o mais velho evitando olhá-lo nos olhos. A glória divina precisava ser desacreditada assim que conquistada.  Os três compartilhavam de nome e metas, mas não metodologia. Aquilo soava perigoso e incomum. — Nos fale de novo. Sobre o que ganharemos.

— A imortalidade. - Responde o francês. — Nós nos tornaremos heróis imortais. - Dizer aquilo trazia orgulho próprio.

Na revanche da neve pesada e das gotículas pequenas de água, Lucca transpirava por todos os lados, contudo não ousava tirar o casaco. Os pés moviam-se ligeiramente contribuindo para encontrar o lugar. Quando enxergou mais um homem desconhecido se reunir, viu que poderia ser a oportunidade perfeita. Pisou com cuidado escutando o som oceânico ensurdecê-lo e vibrava uma música tão calma e ao mesmo tempo perturbadora, o fazendo se lembrar que não sabia nadar. Tomando conta do umbral, ele testemunhou que a chegada havia sido daquelas; A estrutura de madeira balançou com a sua presença :

— Declan. Duncan. - Manou fechando os punhos. Embora quisesse anunciar o terceiro, ele parou para encará-lo de costas. Ombros largos e caídos com ondas ferventes da cor carnal. Aquele não disse nada, acelerando o passo para empurrar os dois semideuses com quem conversava. Os derrubaram, contornando o caminho para tomar por conta própria, a máscara.  Não perderia mais um segundo ali. As proles o impediu sendo automaticamente pisoteados. O deus volveu o eixo do calçado tentando achar a saída, mas foi nesse drástico erro que sentiu o objeto escapar dentre seus dedos. Pela janelinha, um observatório, estendeu um dos braços e desintegrou num grupo de corvos que consumindo seu corpo, fizeram-o desaparecer na direção do céu. Declan uivou de raiva. 

Restava é claro, matar o irmão caçula. 

Primeiro veio o giro de punhos, depois o acerto. Lucca conseguiu ser nocauteado sem chances de defesa, caindo contra a madeira e colar o queixo na extrema profundeza pela sola suja da bota de Duncan evitando que o mesmo se movesse. Declan trouxe consigo próximo a luz do painel, um movimento alto do motor. Conforme os mecanismos esquentavam, tornando a distância maior a fazer o barco ganhar mais velocidade. Com a ausência de um capitão, as caixas tremeluziam prestes a estourar a porta e afogarem-se ao mar. Lucca sentiu seu corpo se mover com autonomia própria para próximo da parede. Ao parar, viu que desta vez os dois vinham para atacá-lo. Com o estender dos calcanhares, retornou a posição inicial, levantando os punhos para se defender. 

Neste minuto o moreno avançou um pé e o loiro esquivou inclinando o ombro para o lado formando a linha diagonal dos ossos. Declan parecia ter percebido, então uniu-se ao outro meio-irmão para ajudá-lo mirando os dedos em direção do abdômen do mais novo. O mentalista insuflou os pulmões e desta vez, iniciou primeiro atirando a mão cerrada num grosso soco na direção de seu torso. O estrondo ribombou como um tambor ferindo o equilíbrio do homem. Lucca não perdeu a chance como esperado; Girou o corpo com uma das mãos apoiadas no joelho acertando o pé no calcanhar alheio lhe aplicando uma rasteira. Declan foi ao chão chocando a parte traseira da cabeça contra as caixas e desmaiou. Foi um impacto pequeno, experimentalmente no nervo pulsante da garganta. Para Duncan, apenas tomou espaço. Ele era um exímio lutador. 

Tão bom a ponto de ser imprescindível saber a sua tática de luta. Lucca estivera na arquibancada no dia em que os filhos de Thanatos se reuniram na acrópole para lutarem. Por ter sido feito uma semana da sua reclamação, havia sido poupado. Mas os demais provaram o excelente golpe do necromante. Eficiência e força. Ambas unidas. Depois daquele dia, de diversos corpos feridos terem sido jogados ao chão, o comentário de um legado de Ares esteve em força dentro do chalé. Ele, negou tudo deixando a informação fincada no esquecimento :

— Aprendeu rápido, irmão. - Sussurrou cuspindo no chão. Aqueles ombros ao se agitarem, pareciam muralhas. 

Causavam medo. Lucca sentia suas artérias se fecharem a ponto de ofegar apenas por um olhar. Os braços tremeram se levantando exibindo a pele arrepiada. O mais velho riu, agilizando uma das pernas e o braço direito para pressioná-lo contra a parede na direção de seu pescoço. O dinamarquês teve o pomo apertado e elevado deixando os pés inerentes ao ar.  O sufocamento causava uma falta de liberdade que o rapaz não viveu e prová-la assim, de repente, parecia ser o meio menos benéfico. 

Segurou com o toda a força que conseguia ao entorno dos braços alheios torcendo a pele todavia não causando nenhum dano. Quando levantou o joelho, viu que conseguia alçar o baixo ventre do irmão com facilidade. Compenetrado em enforcá-lo, o seguidor do deus das sombras parecia pouco se importar com aquilo. Foi desta forma aplicando força máxima sob a extensão, que acertou sua virilha e fez soltá-lo. Na queda, resistiu os tornozelos a não desabar, deslizando metade do corpo na direção do brilho branco do barco.

A frente da alavanca viu que o controle de tudo estava unicamente ali. Puxou com a mão esquerda sendo demorada a finalização pela falta de habilidade, soltando a respiração ao conseguir finalmente parar aquele barco. Declan pressionava o membro com as duas mãos, protegendo-o. Lucca nessa reivindicação conseguiu se direcionar ao que interessava. Primeiro procurou, pensou e então pegou. Por mais que Declan tivesse conseguido se recuperar do chute nos testículos e no pênis, seus passos haviam sido reduzidos para confrontar o garoto novamente. Por isso, acatou-se a barra de ferro que ligava a tenda do barco largada e procurou recuperar o que lhe pertencia. Aquele objeto roubado na sua concepção, não pertenceria ao bastardo :

— Quem é aquele homem? - Retrocedendo, ele parou ao tocar os quadris na polpa da embarcação. No limite, poderia cair dentro do mar. Os cabelos amarelados atrapalhavam as vistas logo que a ventania resolvesse iniciar novamente. Declan estava para alcançá-lo, quando levantou a arma para cima. Os dedos do campista abraçaram a máscara para perto do peito com tanta pressão que os dentes esculpidos sentiam o palpitar incessante de seu coração. O alemão apostou a cartada mais óbvia. Ao saber que o outro tinha medo da água, há muito tempo tramava um susto a ser dado. Naquela ocasião, não parecia surgir ideia melhor. Ao girar a estrutura maciça, sorriu com escárnio :

— Alguém muito importante. - Olhou a enormidade utilizada para proteger a máscara, alargando ainda mais a arcada dentário exibindo um canino vigoroso e saudável. — Ele quer essa máscara, sabia? Duncan e eu também a queremos. - Sem mais delongas, ele volveu a barra até a testa do rapaz empurrando o corpo de maneira que fez Lucca ficar inclinado com trinta por cento do corpo prestes a colidir com a água segurando a gola da camiseta preta para ameaçá-lo. — E como vai ser? Irá devolver ou irei derrubá-lo na água? Pelo que me lembre você não sabe nadar. - Notando a persistência na posse do instrumento, ele ameaçou soltá-lo. O corpo inteiro do seguidor de Psiquê estremeceu regojizando o medo para dentro de seus pulmões. Mesmo assim, não pareceu mudar de ideia :

— Derrube. - Esfarelou a palavra apertando as pálpebras e comprimindo o físico ao máximo para dentro. Noutro momento passado, Declan decidiu atrofiar o indicador e menor para puxar na direção oposta, resgatando. Os cotovelos dobraram firmes e tensionados de forma segura recomendáveis para uma luta. Não sendo um célebre combate, não foi efetivo. Graças a essa comparação de forças, o europeu mais fraco desapareceu da imagem.  

As ondas sinuosas recepcionaram o corpo inteiro do guardião junto dos peixes. Hjelm atravessou o cardume aprofundando-se rapidamente no reino de Poseidon. As algas emaranhavam os seus pulsos finos até o instante que encarou a estampa da máscara. Desde que a pegou, não conseguiu ver as pinturas. As bochechas acumulavam oxigênio e o nariz esforçava-se para não soltar a vontade de respirar. Sua franja lisa e brilhante voava uma estratosfera acima do couro cabeludo. 

Cada olho fitava os lumes alheios pintados por círculos brancos e uma presa dentária horrivelmente afiada e aguda. 

Em persistir a observação, Lucca começou a sentir medo e conseqüentemente, deparou-se com a realidade de se afogar.  O corpo criava uma espécie de pressão gravitacional obrigando a permanecer no perigo marinho. Tal foi essa energia sobrepujando a permanecer naquele ambiente úmido, que Lucca certamente acreditava ser pela máscara; Não largaria até o instante de descobrir seu real segredo quando a aproximou lentamente para próximo dos olhos onde foram revestidos por uma lente vermelha. O azul da maré desaparecia dando vida a essa coloração púrpura e por mais que fosse esquisito de se acreditar ele gostava da paisagem. 

Um grupo de kinguios nadava para perto de seu ombro, assistindo as nadadeiras de cetim baterem lentamente direcionando o seu destino. Apreensivo, o filho da morte desviou os glóbulos oculares as pequenas espécies enxergando números fluorescentes enfeitarem suas cabeças; Cada numeração possuía uma queda pequena de tempo. Cada segundo vinha decaindo, como se esse suposto momento estivesse caindo cada vez mais. Ele demorou para pensar em algo com lógica, precisando o mais rápido possível mover-se a superfície. Com os dedos entrelaçados no material rígido, acabou por vestindo o objeto que grudou com facilidade adornando o queixo rechonchudo e a testa lisa. Lucca sentiu a pontada de ferrões gritando na imersão das águas, acabando com as últimas partículas de oxigênio.  

A velocidade que encontrou a terra foi à mesma obtida através das tempestades que resultam raios furiosos.

O cabelo até o pescoço foi jogado para trás, numa volta pouco discreta. As laterais faciais do adolescente estavam nitidamente vermelhas, sangrando com furos que contornavam toda a sua face. Os pingos de sangue alimentaram a baía e as demais criaturas que adormeciam jardas abaixo. Ele ergueu os dedos tentando retirar a arma, mas não conseguiu. Quando foi sobrepor os olhos na cidade que encontrava-se longe no poente, viu que os corpos minúsculos das pessoas também estavam numeradas. Umas tinham números elevados à casa dos milhões e outras, mil e frações menores. Nadando ao esforço braçal das mãos, avançou para a volta. Até porque, precisava resgatar a foice e dirigir-se por uma última vez de forma segura a sua mãe.

A tal desconhecida mulher que o colocou nessa enfermidade diária.

Foram cercas de horas, quando o sol estava novamente erguendo-se nos degraus dos céus que ele pisou em terra firme novamente. Os transeuntes eram maiores, coisa que o fez reprimir-se com a imagem agora tida; Molhado e com um desenho assustador estampado no rosto. Viu mais números se desenharem em diversos topos de cabeças, calculando os segundos rápidos enxergando pouco depois uma pessoa apressada correr por trás dos civis.
 
Este levava consigo um revólver preto com o grampo aparentemente ativado. Ao abeirar o corpo da vítima, o sujeito disparou deixando a rajada sônica de distorção aguda gritar no meio da multidão. A pessoa que caí contra o chão teve toda a numeração zerada e Lucca finalmente compreendeu a finalidade daquilo; A contagem daquelas pessoas na verdade contava o número de segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses e anos de vida que ainda tivera. A pessoa baleada havia sido meramente retirada de jogo. O estrangeiro arfou deixando o peito claramente alarmado. 

Aproveitando a alegoria, este seguiu ao encalço do ladrão calculando o número cor sangue que condecorava sua existência. Mesmo que inútil, o semideus sabia que não poderia alcançá-lo. Os comerciantes locais naquela altura o fitavam com estranheza, dada a camada que encobria a sua identidade e ao escutar um entrar em contato com a polícia, decidiu mudar a rota. Direção coincidente ao ladrão parando próximo dos prédios gêmeos alvos do ataque terrorista registrado anos atrás. Na placa negra que contornava a homenagem, os nomes dos mortos brilhavam com os raios amarelados e tímidos do astro rei. 

Com uma bolsa surrupiada e cheira de poeira, o adolescente virou todos os pertences contra a calçada. Nenhum policial fazia rota, nenhum universitário corria atrasado para não perder a aula e os demais trabalhadores pareciam ter evitado justamente naquele dia, a oportunidade de cortarem caminho. Østergaard alojou as mãos nos joelhos, fitando o homem a suas costas quando tentou declamar de uma única vez. Seu timbre ecoou, mas mais uma coisa chamou a sua atenção. 

Abelhas douradas. Inúmeras delas, saindo de dentro da sua garganta.

O enxame não saiu de dentro dele porém, abriu vôo quando o mecanismo da máscara na região da sua boca abriu passagem. O zumbido parecia real bem como o tamanho e formato delas. Os zangões possuíam traseiros afiados e brilhantes, que se viraram na direção do inimigo ferroando diversas partes de seu corpo. 

O contra-ataque fez os números daquele ladrão decaírem até superarem a metade e abandonarem o corpo convulsionado contra o asfalto. Lucca começou a tremer e recuou os passos ao assistir que os animais voltaram-se a sua direção, querendo adentrar novamente para dentro do seu corpo. Parou somente quando atingiu o primeiro prédio a capela lotada de turistas pelo horário. A foice estava desembainhada e esquecida uma rua seguinte. A volta de cada inseto pequeno de veneno poderoso, não o afetou e isso comprovou a enorme capacidade obtida. 

Não tratava-se sob hipótese alguma, de um equipamento ou um acessório. Era uma arma e ela poderia ser poderosa se bem usada. Pensando nisso, o garoto riu consigo mesmo sentindo ela cair contra o chão. Pegou rapidamente guardando por baixo da camiseta colada e estreitou o corpo com a parede cinza dos prédios camuflando-se. Quando recuperou a arma, ouviu as sirenes anunciarem chegada. Seria para salvar a pessoa que havia levado o tiro anteriormente? Não quis saber. Dando as costas para Nova Iorque, ele queria voltar para o aconchegante - bom, melhor que aquele lugar - chalé :

— Ela era uma moradora de rua. - Notificou um policial no rádio do carro. A menção dessa palavra fez o rapaz parar no canto da rua olhando por cima do ombro a quem estava sendo velado na maca. Os fios ondulados em pesados cachos castanhos confirmavam a nova falecida e aqueles dedos trouxeram a lembrança da conhecida :

— Mãe. - As articulações congelaram e os órgãos internos travaram sem funcionamento. Os joelhos grudaram o chão pondo-se a chorar. Um choro que de longe era silencioso todavia, muito sentido. Ele engoliu os soluços e cambaleou tentando apoiar-se no poste para continuar o caminho. A veracidade com qual atraia o perigo era eminente. Lucca condenava todos que amava. De longe Thanatos lamentou a perda da arma, mas colocou-se a sorrir pela morte da dinamarquesa. Nos seus braços, a alma pálida e jovem dela estava deitada encarando-o com medo sem pronunciar um suspiro vago. Ele jurou que condenaria todos a volta do filho a fim de conseguir o que quisesse. 

Unguibus
Et
Rostro
item desejado:

Nome : Enxamitre
Descrição : Uma máscara esculpida de madeira com alfinetes de aço adornados nas laterais que fincam-se a pele no primeiro contato evitando que caia com facilidade. A pintura adorna os globos oculares com uma coloração branca desbotada e onde localiza-se a boca, um sorriso vermelho é puxado com desenhos detalhados de dentes caninos extremamente afiados. No centro há uma linha horizontal que ao ser aberta, libera um enxame de 10 abelhas de ouro imperial. Em seus ferrões contém um numero mediano de uma substância venenosa que a primeira vista causa dormência no músculo ao ser picado, mas que em ferroadas elevadas, causa um envenenamento múltiplo podendo levar a vítima ao coma e em casos extremos, a morte. Outra funcionalidade da máscara são suas lentes vermelhas que mostram a numerologia da vida da vítima. Quando esta é ferida, a prole de Thanatos é capaz de enxergar o tamanho do desconto. Cada abelha possui um zumbido especial sendo; cinco sons agudos e outras cinco brandas. Ao se unirem, podem causar um som que desconcentra o inimigo temporariamente. | Madeira & Ouro Imperial (abelhas) | Sem espaço para gemas | Beta | Status: 100% sem danos | Mágico   
M A M A




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Re: Lírio Negro

Mensagem por Baco em Seg Dez 11, 2017 3:48 pm


Lucca Hjelm-Østergaard


Método de Avaliação:

Valores máximos que podem ser obtidos

Total de XP de acordo com o nível do semideus: 2.000 XP - Reduzido pela metade devido ao item pedido.

Realidade de postagem + Ações realizadas – 50%
Escrita: Gramática, erros, pontuação, coerência, concordância, etc – 20%
Criatividade/Estratégia em combate + inteligência – 30%

Enredo e coerência de batalha: 50%
Gramática e ortografia: 20%
Criatividade: 30%

RECOMPENSAS: 1.000 XP + 1.000 Dracmas

Comentários:
Lucca,

Por onde começar? Bem, aviso de antemão que seu item foi aprovado. Confesso que sua nota não seria máxima, se não fosse seu nível. Algumas partes do texto ficaram confusas, como o exato parágrafo em que Lucca deparou com os irmãos e Thanatos. Acho que a questão maior nem é a escolha de palavras, mas sim o ritmo em que dita os acontecimentos. Não há muito o que sugerir quanto a isto, pois é algo seu e não estamos aqui para lhe dizer como se deve escrever ou não. Entretanto, espero que entenda também que nem sempre nossas ideias ficam claras para o leitor. Falo isso porque muitas vezes já estive na sua situação também.

Saindo da parte chata, lhe parabenizo pelo roteiro incrível. Você sabe mesmo como por carga emocional em sua escrita. E faz isso com exímia maestria, se me permite comentar. Desde o início achei interessante a maneira como descreveu seu personagem e as reações dele às situações em que era imposto. Também gostei bastante da inserção do Evento da Cidade dos monstros, ligando-o ao seu presente. Fechando com chave de ouro na introdução da personagem que vem a ser sua mãe (fiquei tocado pela história dela, não minto).

Fica então de crítica a questão da arrumação de ideias (e alguns erros de concordância, que passaram batidos pela qualidade da narrativa). Pois de resto, você se saiu muito bem, rapaz, não é por menos que lhe dei pontuação máxima e o item. Aguardo então para ler mais sobre o desenrolar da trama.

Ps: também puxo sua orelha com relação às atitudes de Thanatos. Ele me pareceu 'assassino' demais se comparado ao deus da série. Não encuquei muito com isso, pois percebi que mais sobre suas intenções será explicado ao longo dos próximos capítulos.


Atualizado.


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Re: Lírio Negro

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