The Blood of Olympus
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Promoção de Aniversário {CCFY de Reclamação}

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Promoção de Aniversário {CCFY de Reclamação}

Mensagem por Angie Herrera em Dom Jun 04, 2017 11:20 pm

T
ornando-se uma semideusa


No te preocupes, todo puede ser peor



La cubana

As primeiras lembranças que eu tenho são regadas ao som do mambo e do cha-cha-chá. Lembro de sempre encontrar uma maneira mirabolante de aparecer nas aulas de dança de minha tia Joana. Segundo os contos imprecisos e duvidosos de minha avó Esperança, eu corria desengonçada em direção a música sempre que a escutava. Era usado como estratégia até para me atrair até ao banheiro e fazer com que um pequeno bolinho moreno tomasse banho. Como eu disse, um tanto duvidoso.

Nós não éramos uma família rica, o carro que ficava na garagem costumava dar bastante prejuízo de tão velho que era. Mas, mesmo sem muitas regalias, nós erámos uma família que cuidava dos seus. A matriarca da família era a minha avó, Dona Esperança parecia nunca envelhecer, sempre tendo aquele sorriso caloroso e uma mão pesada para os castigos. Ela tinha duas filhas, uma de sangue e outra adotada. Queria eu ter o sangue legítimo dos Herrera, no entanto, minha descendência vinha da bastarda.

Não se surpreenda ao ler referências pejorativas aplicadas a minha genitora. De fato, eu não gostava de Emily tão pouco ela me conhecia como sua filha. Vó Esperança sempre dizia que ela veio do mar, sendo encontrada por uma versão mais jovem dela poucos meses depois dela ter tia Joana. Mesmo com a situação financeira delicada na época, o coração da latina era tolo e amoroso, não conseguiu deixar de lado a criança galega e de cabelos de ouro. Emily cresceu naquela mesma simplicidade que eu, mas segundo toda a vizinhança, ela sempre foi diferente. Não que eu ligasse muito para a fofoca alheia, mas até mesmo tia Joana soltava um comentário ou outro. Considerada um gênio pelos professores, sem muitas amizades, sempre metida com a política e de língua afiada. A minha suposta mãe era sempre descrita como uma mulher inteligente e esperta, mas um tanto solitária. Talvez não tivesse sido esperta o suficiente ao não se proteger ao dormir com um turista. Porém, agradeço todos os dias pelo descuido, pois foi assim que eu vim parar nesse mundo de loucos e música. Emily estava no meio de sua faculdade de arquitetura quando engravidou, mas isso não pareceu intimidá-la. Nem mesmo o fato de ter uma criança pareceu diminuir sua ambição. Assim que se formou, partiu para viver o sonho americano, deixando-me aos cuidados de minha avó.

Às vezes, eu me flagrava agradecendo a ela em pensamento por essa escolha. Por muito tempo eu não sabia nem ao menos como era a sua voz. Éramos tão divergentes fisicamente que muitos questionavam nossa ligação sanguínea. Apenas para receber um tapa seco e ardido de vó Esperança logo após, é claro.

Minha infância não possuiu nenhuma sombra sobre sua felicidade. Pelo contrário, a cada lembrança que eu tinha, ela era rodeada por um calor saudoso. Tia Joana cuidou de mim junto com seu filho José, que era como um irmão para mim. Ela possuía uma academia de danças e fazia programas especiais para turistas. Cresci rodeada de dançarinos calorosos, sempre cheios de sorrisos. Por todos os lados eu escutava o som das trombetas e da percussão, desviava de galinhas que se soltavam das gaiolas e corriam desesperadas pelas ruas. A escola era chata, números dançavam a minha frente, letras se embaralhavam. Porém eu era boa em artes, em teatro, em música.

Santiago de la Cuba poderia não ser a capital cubana, mas era a segunda maior cidade do país e a que mais possuía cultura em suas entranhas. Religião cristã e do Haiti se mesclavam. Pessoas vestidas dos jeitos mais engraçados e coloridos desfilavam pelas ruas. A cada esquina a salsa, o mambo, o merengue e outros ritmos latinos repercutiam e marcavam os passos de cada um de maneira inconsciente.

As minhas melhores lembranças são de lá. Pois depois que eu fui obrigada a partir, pouco podia contar como eventos bons quanto aquele.

Tudo começou com um e-mail a tia Joana. Depois longas ligações com vó Esperança. Eu sabia que algo estava acontecendo e que era sério. As duas mulheres de minha família discutiam, falavam mais rápido e pesado, passavam dias sem conversar. Podia ter só dez anos de idade, mas a minha compreensão de mundo me permitia dizer com convicção assustadora: algo estava muito errado. O pior? Era que estava.

Depois de alcançar um sucesso considerável e ter uma própria empresa de arquitetura, Emily entrou em contato com a família. Depois de uma década de silêncio, ela exigia ter sua filha de volta. Óbvio que eu corri... Mas para o mais longe possível dessa possibilidade. Todos os problemas começaram a surgir com a ideia maluca de minha genitora em levar-me para os Estados Unidos. Consegui fugir de casa e passar três dias sem ser encontrada. Assim como me escondi várias vezes em vários locais diferentes da casa para não ter de conversar sobre a ida para a grande potência americana.

No entanto, em meus pequenos dez anos, eu não tinha muita escolha. Ao menos, Emily entendeu que seria muito doloroso separar-me de minha – real – família. Resultado inevitável, todos nós fomos para os Estados Unidos da América, até mesmo o gato preto assustador de José.



Una inmigrante de corazón partido



“Esse é o seu novo lar, Angie!”
“Você terá inúmeras oportunidades aqui!”
“Terá muitos amigos diferentes e legais!”


Mentira. Mentira e definitivamente mentira.

Todos repetiram isso incontáveis vezes para mim, talvez para também se convencerem de que aquela decisão foi a melhor. Claro, o novo lar era uma pequena mansão com uma piscina nos fundos e dois carros novos na garagem. Emily morava em um condomínio em Chicago, a cidade do blues e do jazz. Uma cidade fria e cheia de prédios, longe de praias lindas e ambientes naturais. Eu e José fomos matriculados em uma escola conceituada, e isso na cabeça dos adultos era uma ótima coisa.

Nos primeiros dias havia sido um inferno. Não sabíamos falar direito o espanhol, e o uniforme pomposo incomodava. As garotas eram cruéis, mesmo com seus onze anos de idade. Os garotos esnobes e violentos com suas palavras. Em sua maioria, brancos de olhos claros. Por muitos intervalos passávamos escondidos em algum recanto sujo, longe daquela gente. Nunca apanhamos, de fato. Mas eles zombavam de nossa música, de meus desenhos, de nosso sotaque. Demorou um tempo até perceberem a violência que passávamos, nos mudaram de escola. Porém eu e José já havíamos aprendido a dura lição e aprendemos a jogar o jogo da sociedade nobre americana.

Minha relação com a dita cuja, minha mãe, não melhorou nem um pouco. Eu a desafiava a todo o momento. Brigávamos, passávamos semanas sem olhar uma para a outra. O que era relativamente fácil, pois ela vivia para o trabalho. Em minha mente nada parecia justificar a escolha daquela mulher. Se não era para ser uma mãe, porque nos arrastar para um país tão diferente?

Não vou ser hipócrita e dizer que o EUA não tinha suas vantagens. Tinha! A liberdade de expressão, o consumismo – isso tinha suas vantagens sim, afinal você poderia ter um smartphone caríssimo sem se sentir culpado ou quebrando alguma regra comunista – a diversidade cultural... Isso tudo lançava um pouco de cor e formas mais suaves para os meus dias na américa do norte. Felizmente, tia Joana conseguiu uma vaga em uma escola de dança e me matriculou. Segundas, quartas e sextas-feiras passaram a ser meus dias da semana favoritos. Foi nas aulas de dança que fiz as minhas primeiras amizades, que aprendi mais sobre a cultura popular, distante do mundo hostil e esnobe dos meus coleguinhas de classe.

Tudo de ruim que acontecia, entretanto, eu podia culpar minha querida mamãe. Sim, leia isso no tom mais irônico que puder. Até mesmo a sensação de perigo e de que estava sendo observada, ou coisas estranhas e barulhos esquisitos que escutava. Tudo recaia sobre os ombros de Emily. Engraçado era o fato de que nos momentos em que eu reclamava disso eram os que ela mais prestava atenção em mim.

Qualquer um poderia julgar-me uma ingrata ou até mesmo teimosa em não aceitar logo a boa vida que aquela mulher estava oferecendo. Porém nada acalmava meu espírito desde que havia mudado para esse país em que seus sonhos se tornam possibilidades reais. Mais uma mentira contada.

Eu havia sobrevivido a essa vida por longos seis anos. Até tudo mudar novamente.



Algunos años después


Eu tinha um namoradinho.

Sim, no diminutivo e isento do carinho. Ele me era útil e beijava bem, no momento servia bem ao seu papel. Um tanto frio? Oh, não mesmo, era bastante quente nossos beijos e momentos. Poderia não haver o tão supervalorizado amor, mas nós sabíamos o que tínhamos e estávamos bem com isso. José o achava um babaca. Mas era um que não exigia ou perguntava demais.

Aos meus plenos dezesseis anos, meu corpo estava começando a se desenvolver e os traços latinos estavam se acentuando. Na escola, nessa época em específica, era estranhamente cobrado e esperado que você entre em um relacionamento com alguém. De alguma forma bizarra, isso define o seu status social dentro do ambiente escolar. Ter fisgado o capitão do time de futebol americano fez com que algumas garotas mais populares me olhassem torto, mas havia um escudo invisível que me protegia do bullying. José também compreendia isso, ou não estaria agora mesmo aos amassos com uma líder de torcida na festa ilegal em que estávamos.

Ilegal não por ter coisas ilícitas, apesar de saber que provavelmente tinha. Apenas era uma nightclub em que supostamente deveria entrar apenas adultos. Acontece que Ian, meu namorado, possuía um amigo que era amigo do dono. Isso nos dava passes livres para as baladas. Eu não poderia mentir e negar que odiava fazer isso, desobedecer minha mãe e avó, fugir pulando a janela e entrando em locais teoricamente proibidos. Nada disso importava. De fato, a música reverberando em meus ouvidos, vibrando em meus ossos... Fazia tudo valer a pena. Felizmente Ian era um bom dançarino, fazíamos um bom par quando íamos para a pista de dança.

-Hey – ele chamou no meu ouvido – Eu tenho passe livre hoje?

Revirei os olhos. Passe livre era o que chamávamos de momentos em que tínhamos liberdade para flertar com outras pessoas. Era até saudável ter esse tipo de acordo quando não havia sentimentos envolvidos, evitava confusão e ciúmes desnecessários. Então apenas parei de dançar, dei de ombros e obtive um sorriso safado do meu namorado. O garoto loiro deu-me um beijo antes de partir para a caça, enquanto eu segui para o bar.

Cogitei chamar José, mas ele estava mesmo simulando a dança do acasalamento com a garota ruiva. Não ousaria atrapalha-lo, sabendo que provavelmente ele passaria dias sem olhar em minha cara.

-Uma dose de tequila ouro, por favor! – exclamei para o barman assim que ele voltou os olhos para mim.

-Você parece ser muito jovem para entender a diferença entre os destilados ouro e prata.

O comentário veio de um homem ao meu lado. Arqueei uma sobrancelha em evidente tédio e indiferença. Ele riu de maneira rouca, atraindo inevitavelmente a minha atenção. Meu coração errou uma batida ao ter a visão completa do homem ao meu lado. Ele deveria ter entre 25 a 30 anos, possuía a barba por fazer e uma pele tão morena quanto a minha. Olhos escuros iguais aos fios sedosos. Ele era o exemplar masculino mais bonito que eu já havia encontrado.

-O mundo hoje em dia está cada vez mais precoce – dei de ombros, voltando a olhar para frente, agora com o cenho franzido pela reação que eu tive – E no fim, isso não é da sua conta senhor.

-De fato, não é – ele concordou e bebericou de sua bebida – Assim como não é da minha conta seu namorado está disposto a sugar a alma daquela jovem pela boca.

Ele apontava para um ponto qualquer ao leste. Por pura curiosidade, guiei minha visão até encontrar Ian realmente dando um beijo feio em uma garota. Sim, existiam beijos feios, daqueles que você fazia careta só de observar, pois tinha a sensação de que alguém estava metendo a língua na garganta de outra pessoa.

-Ela pelo menos é bonita – respondi em descaso, sorrindo ao ver a tequila.

-Então essa é uma relação aberta?

-Só é uma relação por conveniência. Porém, novamente, não é da sua conta!

Abençoada fosse a juventude em que nos permitia dizer o que pensar e por a culpa na rebeldia adolescente. Ignorei completamente o homem, em verdade, estava mais preocupada em não derrubar o sal que colocava nas costas de minha mão. Assim que fiz o ritual para virar a dose de tequila, o homem havia desaparecido do meu lado. Dei de ombros e acabei pedindo mais uma dose...

... 7 doses de tequila depois e o mundo girava a minha frente. Girava constantemente e brilhava loucamente. A música já não era distinguida por meus ouvidos e nem ao menos conseguia saber se estava parada ou se estava andando. José me encontrou e dançamos desengonçados, afinal ele estava tão bêbado quanto eu. Em um determinado momento, era natural a necessidade urgente e desesperadora de usar o banheiro.

Depois de quase cochilar ao usar o sanitário, consegui sair sem cambalear, apesar de ter a visão turva. Estava lavando as mãos e jogando água em meu rosto, sem ligar para a maquiagem. Tudo o que eu almejava era ter um pensamento completo coerente. Ao erguer o rosto eu pude vislumbrar meu reflexo no espelho. Minha pele morena se destacava, os olhos castanhos escuros, o cabelo de igual cor. Os lábios cheios e de um traço bem definido, o rosto de ângulo fino e o nariz levemente grande. Talvez a única coisa que havia herdado de minha mãe fosse aquele nariz, consequentemente a única coisa que eu não gostava em mim. Ela era loira, dos olhos azuis, pele clarinha ao ponto de parecer coadjuvante do filme Crepúsculo. Resmunguei ao flagrar-me pensando naquela mulher, fechando com certa raiva a torneira que jorrava água.

Porém, ao erguer meu rosto, eu não estava sozinha. Meus olhos dobraram de tamanho e meu corpo congelou no lugar. Paralisado, obedecendo a uma reação natural ao puro medo. Não mover um músculo até que o perigo passasse. O motivo? Eu estava vendo um monstro atrás de mim. Eu nem ao menos conseguia piscar para testar a minha sanidade. Eu o sentia! Cada célula de meu ser gritava, vibrava em perigo. Mas meu corpo não obedecia. Era um monstro horrendo, que lembrava uma mulher meio pássaro. Os olhos encaravam-me com uma raiva assustadora, o seu piado monstruoso veio seguido de meu grito de terror.

Ela avançou em minha direção e me empurrou, fazendo com que minha cabeça batesse com força contra o espelho. Tudo girou e começou a escurecer, gritei de medo e de dor, choramingando ao sentir algo atingir a minha lombar. Eram cortes que rasgavam a minha carne como a mais afiada das facas. Continuei a gritar até o mundo inteiro apagar ao meu redor. Se havia alguma certeza naquele momento antes de perder a consciência era a de que eu iria morrer.

Bem, obviamente eu estava errada.

No dia seguinte acordei no hospital. A minha cabeça doía ao ponto de me fazer assimilar a uma explosão nuclear acontecendo em cada neurônio meu que tentava trabalhar. Resmunguei, pisquei os olhos varias vezes até obter o foco da visão. Olhando ao redor reconheci o quarto particular de um hospital, assim como o soro que estava pendurado ao meu lado, conectado ao meu braço. Foi dessa forma que também detectei uma presença mais do que inusitada. Eu esperava que qualquer um estivesse ali, menos ela.

-Você acordou – Emily tentava acordar e levantar ao mesmo tempo – Graças aos deuses, você acordou.

-O que... O que aconteceu? – questionei sentindo minha garganta seca.

-José trouxe você até aqui – Emily sentou novamente, parecendo está cansada, respirou fundo e coçou os olhos – Você estava... Estava.... – ela suspirou alto e finalmente encarou-me – O importante é que você está bem agora.

-Quanto... tempo? – indaguei.

-Você bateu a cabeça durante o... o... evento – Emily inclinou o corpo para frente – Passou uma semana acordando e apagando novamente. Você assustou todo mundo, Angeline!

-Eu fui... Atacada?

-... Sim – ela demorou de responder e franziu o cenho – Você lembra de alguma coisa?

-Tequilas – comecei e a vi fazendo careta. Com minha mente embaralhada, eu falava sem filtro, sem pensar que ela me acharia louca – Depois banheiro. Então um monstro. Mulher com asas. Espelho e dor.

-Uma harpia?! Deuses, eu temia tanto que esse dia acontecesse.

A encarei confusa, sem conseguir processar direito as palavras que ela proferia. Meu coração sem proteções apenas contente de que ela estivesse ali. Naquele momento, minha mente indefesa apenas entendia que minha mãe estava do meu lado depois de um momento de perigo. Infelizmente aquele foi o único momento em que minha guarda abaixou.



La verdad


Duas semanas depois eu estava com os braços cruzados e um bico emburrado nos lábios. Eu não entendia e Emily muito menos parecia a fim de me contar o que acontecia. Ela apenas dirigia o seu carro esportivo caro, prestando atenção na estrada e ignorando todos os meus resmungos.

-Ok, chega! – exclamei no auge de minha irritação, desligando o som que estava ligado – Eu não entendo! Porque está me forçando a ir para esse Acampamento de verão? Eu já pedi desculpas!

-É necessário – ela repetiu a mesma resposta de todas as outras vezes.

-Necessário para quem?! Para você?! Para se livrar logo de mim? – eu rosnava cada indagação, o meu peito segurando um coração ferido pela ideia de que ela estava me abandonando de novo – Era só ter me deixado em Cuba, não precisava ter gastado parte de sua vida me tendo ao seu lado e...

O carro foi jogado no encostamento bruscamente, fazendo-me segurar no banco com força. Quando ela parou o veículo, nós duas estávamos ofegante. Eu a encarava como se questionasse “você é louca ou o que?”.

-Eu errei muito nessa vida e acredite, não é fácil admitir isso. Errei em não ter contado desde o início as coisas para você. Errei ao pensar que me manter na defensiva pensando que iria te proteger – Emily falava mais sério do que eu nunca a vi falar, os olhos azuis me encarando levemente marejados – Eu sei que provavelmente não irá me perdoar por esconder tantas coisas de você, mas eu espero conseguir te proteger da forma certa agora – Emily passou as costas das mãos sobre os olhos enxugando o pouco que havia molhado ao redor dos olhos – Você entenderá muitas coisas e terá muitas novas questões. Porém não duvide meu pequeno anjo... Ter você por perto nunca foi um erro.

Aquele era o discurso mais longo e emocional que ela já havia me dado. A comunicação entre nós duas era uma merda. Nós duas éramos teimosas e orgulhosas, tão parecidas nesse aspecto que isso parecia impor uma distância ainda maior. Sem ter como argumentar, apenas engoli em seco e permaneci em silêncio.

Nós levamos horas em viagem. Emily tentou buscar assunto e até mesmo contou um pouco de como foi a época dela em Santiago de la Cuba. Foi a primeira vez em que ficamos no mesmo recinto sem provocar a terceira guerra mundial. Porém eu comecei a questionar a sanidade mental da mulher ao meu lado quando ela parou no meio do nada no ápice da noite. Olhei para os lados confusa e a escutei suspirar.

-Desce, nós chegamos.

-Olha eu sei que nós brigamos muito, mas por favor não me joga na estrada no meio da noite!

-Deixe de tolice, você não ficará sozinha...

-Então você está mesmo me deixando?

Aquela frase saiu tão sofrida quanto eu sentia. A mulher mordeu o lábio inferior e apenas saiu do carro. Eu permaneci estática no banco do passageiro, minha respiração se tornando irregular na medida em que minha própria frase ia fazendo sentindo para mim. Então a dor deu lugar a raiva. Abri a porta com tudo e também a fechei com força, fazendo corpo de Emily saltar de susto.

-Quem você pensa que é para apenas me entregar no meio da noite para alguém?! Eu não sou uma mercadoria! Você não precisa nem olhar na minha cara na sua mansão. Vó Esperança e tia Joana cuidam bem de mim, nós podemos sair da sua vida se for preciso!

Eu esbravejava como uma boa latina faria. O meu sangue fervendo e a raiva impulsionando cada palavra que escapava de minha língua. Eu sabia que gesticulava e andava de um lado para o outro. A mulher apenas permanecia com a cabeça baixa até respirar fundo e me encarar.

-Você foi atacada por um monstro, Angie.

-Aquilo foi uma alucinação! Eu bebi demais Emily!

-Não, aquilo foi um monstro que atacou você quando ficou indefesa. Eu estava vendo todos os sinais e os ignorei pensando que você poderia ter uma vida estável como eu tive. Mas claro que não teria, não com seu pai sendo ele.

Se eu tinha problemas com uma mãe distante, imagine com um pai que eu nem sabia nome ou aparência? O meu genitor, criador, doador de esperma, era um completo mistério até mesmo para vó Esperança. Ninguém nunca falava ou comentava, pois Emily nunca havia soltado uma palavra sequer sobre ele.

-Meu pai? Ele existe?! – pergunta idiota, mas válida para a situação.

-Sim – Emily passou a mão no cabelo loiro ficando agitada – Se ele fosse alguém normal, você não nasceria dessa forma! Você poderia ser como eu e...

-Oh, la mierda que eu seria igual a usted mujer! – a raiva era tanta que eu já misturava espanhol em meio a minhas palavras.

-Seu pai é um deus, Angeline! – ela gritou parecendo perder a paciência – Assim como minha mãe também era. Eu só vim descobrir essas coisas quando cheguei aqui, nos Estados Unidos e tentei proteger você o máximo que pude! Mas você foi atacada!

Aquelas frases entraram em meu ouvido e me calaram. Apenas porque eu estava buscando uma melhor forma de dizer...

-Você enlouqueceu? Digo, de verdade. Você está falando que é filha de uma deusa. Eu sabia que você tinha problemas de grandiosidade, mas isso já é demais.

-Não querida, deuses existem. Gregos e romanos – ela disse mais calma e até riu sem humor – E você é mais romana, eu sou mais grega. Por isso estamos aqui em São Francisco.

-Você me tirou do Estado?! Usted es loca!

Eu estava pronta para gritar o máximo de xingamentos em espanhol que conhecia quando um rosnado cortou o ar. Eu saltei em puro terror, escutando algo se aproximando... Já estava para chamar minha mãe, quando meu corpo abaixou por puro reflexo. Algo saltava sobre o carro e passava bem a minha frente. Era enorme e felpudo.

-Você está atrasada – Emily resmungou.

Eu já estava colada contra o carro. Meus olhos pareciam estar os mais abertos possíveis, minhas mãos tateavam o metal em busca da trava que faria a porta abrir. Aquilo era um lobo. Um lobo gigante. Provavelmente os produtores de Game of Thrones adorariam ter um exemplar daquele em suas filmagens, pois era tão assustador quanto um Lobo Gigante das Terras do Norte deveria ser.

-Encontrei problemas no caminho.

O lobo respondeu. Ou melhor, a loba, pois ela possuía uma voz feminina. A boca não mexia ou formava um conjunto de movimentos musculares que denunciasse a fala. Mas a voz era presente. Era real. Díos, eu estava tão louca quanto minha mãe.

-Ela é bem mais magra do que você descreveu – a loba tornou sua enorme cabeça em minha direção, fazendo-me encolher ainda mais no lugar.

-Por favor, não me coma! – implorei em um choramingo.

-Você é uma descendente de Athena, aja como tal! – a loba rosnou para mim, fazendo-me tremer mais ainda.

-Ela não sabe nada de nosso mundo, Lupa. E esse foi meu maior erro, eu percebo agora – Emily comentou e parecia querer me defender da acusação – A permita treinar e passar em seu teste, ela possui o fervor necessário para servir a legião.

-Não, eu não vou a lugar nenhum. Emily, me leve para casa!

A loba começou a se aproximar. Instintivamente, joguei meu corpo por sobre o capô do carro e quase cai do outro lado. Cambaleante, me pus de pé. A loba rosnou, o que provocou outro instinto natural de sobrevivência... Correr. Escutei o grito de Emily me chamando, mas não era ela que tinha um lobo gigante atrás de si! Naquele momento, eu não compreendia o que ela estava fazendo. Em minha mente, a minha suposta mãe estava me dando de alimento para um lobo mal.

-Você até que é rápida para uma pessoa magra... Mas nem tanto!

A loba saltou a minha frente, latindo tão forte que me fez tremer, tropeçar e cair no chão. Ralei meu joelho exposto, já que estava usando um short. Ao sentar, o rosto da loba estava tão próximo que eu conseguia distinguir os traços das irises dos olhos, mesmo sendo noite. Engoli em seco, arfei e pensei que iria desmaiar.

-Ela já foi, pequena semideusa. Você terá de ir comigo.

Olhei para trás sentindo aquela dor invisível sufocar meu peito. O carro esportivo não estava lá, muito menos Emily. Os olhos lacrimejaram, a vontade de chorar era enorme. Mas engoli o pranto, inspirei fundo pelo nariz e me ergui. As pernas tremiam, o medo ainda era palpável, mas se iria morrer ali, a minha teimosia me faria morrer com dignidade.

-Ótimo. Não é tão covarde quanto eu pensei. Siga-me.

A ordem era clara. E entre vagar em uma estrada desconhecida tarde da noite e seguir uma loba gigante depois de ter sida abandonada por minha mãe... Eu fui pela opção mais absurda. A loba saia da rodovia, indo em direção ao que parecia ser uma floresta. Foi aquela direção que eu também segui.



El entrenamiento con la loba


Demorei dias para acreditar que aquilo não era realmente um sonho e que estava sendo treinada por uma loba gigante. Descobri que seu nome era Lupa e ela tinha o papel fundamental de instruir os novos semideuses romanos. O que, por ventura e acaso do destino, eu era uma. De início, eu a xinguei por tentar me chamar de italiana, fazendo um longo discurso com orgulho de ser cubana. Depois, ela tentou explicar que meu pai era um deus romano, cujo parentesco iria descobrir futuramente.

Eu não estava sozinha. Bom, se você considerar mais três lobos – de tamanhos normais ao menos – como companhia, então não estava completamente abandonada com um lobo gigante. Nem ao menos sai correndo quando me vi cercada por mais lobos, mas não posso dizer o mesmo sobre gritar de susto.

O treinamento consistia em torna-me mais... Bem, não havia lógica. Apenas estava em uma floresta tentando sobreviver junto com lobos. Eu não entendia aquilo na época. Apenas encarava a situação como “eu não posso fazer nada agora, sozinha eu vou morrer”. Assim como havia uma parte em mim, uma bem pequena e esquisita, que sussurrava em meu ouvido de que aquilo era necessário e importante. Que aquela mulher no banheiro da boate não havia sido uma alucinação.

O primeiro dia foi o pior de todos. Fazia frio e os mosquitos pareciam atraídos pelo meu perfume. O tênis que eu usava havia molhado ao ser obrigada a ultrapassar um pequeno riacho. A estratégia havia sido de retira-los e esperar secar. Mas um dos lobos achou o material atrativo demais para seus dentes. Meu ímpeto latino me fez estufar o peito para brigar, mas assim que observei melhor os dentes daquele animal, o instinto esvaio como uma bexiga que era solta. Depois veio a fome e a busca por alimento. Frutas e até mesmo fui obrigada a criar uma pequena armadilha para caçar algum animal pequeno. Uma lebre havia sido capturada, mas eu não tinha conseguido matar o pequeno ser felpudo, fingindo que ele havia escapado por muito pouco.

Eu não entendia na época que esse treinamento era um ritual simbólico. Vivendo ali na floresta por alguns dias, eu estava deixando de lado a latina amargurada pelo abandono da mãe. Estava me desprendendo das coisas urbanas e abrindo mais minha mente para as possibilidades mais absurdas. Afinal, eu estava dormindo com lobos ao meu redor e escutando conselhos de uma loba gigante. Eu não saberia dizer quando foi que a ideia de ter um pai divino passou a fazer sentido, até flagrar-me pensando em qual deles seria. Tinha em mente o conhecimento básico de história. Até porque o estudo do império romano era obrigatório até mesmo nas escolas cubanas. Seria Febo, Baco ou até mesmo um dos poderosos como Júpiter ou Netuno? Oh, seria engraçado ter um pai com nome de planeta. Ou seria o planeta que tinha o nome de meu pai?

Eu estava começando a me adaptar a situação em uma velocidade que me assustava. Era como se aprender a fazer armadilhas fosse mais fácil do que estudar matemática. Ou correr ao lado dos lobos me oferecesse a mesma liberdade que eu tinha ao dançar. Não era algo fácil de explicar com palavras, ser posto em sentenças lógicas. Porém era sentido em uma intensidade que me fazia estremecer quando a percebia.

Foram necessárias duas semanas.

Duas semanas para que algo real e perigoso acontecesse. Eu estava voltando com a pequena armadilha que havia feito para pegar peixes pequenos. Eu não conseguia caçar coisas fofas como lebres e outros animais. Porém peixes eram sem graça e não eram tão difíceis assim que se pegava um bom fluxo de correnteza. Com todo o perdão Nemo e Dory, vocês são lindinhos, mas são desenhos animados. Há menos de um quilômetro estaria o local onde montei acampamento. Uma caverna que ficava até mesmo aconchegante quando se construía uma fogueira e permanecia perto das chamas. Oh sim, José ficaria impressionado com minhas novas habilidades de escoteira.

Começou com um som estranho. Depois de 14 dias convivendo 24 horas com lobos em uma floresta, meus sentidos estavam mais aguçados e meus instintos mais apurados. Havíamos sofrido ameaças de outros predadores da região. Eu tinha observado no terceiro dia dois lobos afugentarem raposas que tentaram roubar nossa comida. Desde então Lupa havia me ensinado a prestar atenção nos sinais, assim como havia me dado uma faca alegando que todo legionário possuía uma igual. Vivendo naquele lugar me sentindo uma sobrevivente de Lost, não neguei algo afiado que poderia usar como defesa ou ataque.

Depois do barulho, veio o som de gravetos se quebrando, o farfalhar de arbustos e galhos balançando. Algo estava me rondando e era perigoso, afinal, eu sentia aquele frio terrível na barriga que denunciava: eu estava ferrada. Engoli em seco e em movimentos lentos fui levando minha mão a parte de trás do meu short. Havia prendido a faca ali, entre o meu cinto e o tecido jeans. Primeiro, meus dedos tocaram o cabo, roçavam suavemente... Mas nunca chegaram a enroscarem completamente na empunhadura. O que quer que fosse aquele monstro, apareceu na minha lateral, meio urrando meio sibilando.

Joguei a armadilha no chão, fazendo os peixes caírem por tudo quanto era lado. Assim como também foi meu corpo, sem medo de me machucar ou sujar. Era meio que uma cambalhota malfeita, mas que me fez desviar de um ataque direto e que, provavelmente, seria mortal pela tentativa de ser um golpe de surpresa. Assim que ergui meu corpo, lá estava o que eu mais temia confirmar: monstros existem. E eles eram inexplicavelmente assustadores. Aquele era diferente da garota do banheiro. Ao invés de traços de ave, aquela mulher possuía o corpo de uma cobra, ou duas se for contar cada perna. Ela era verde, possuía o rosto com traços reptilianos, ao invés de pernas ela possuía o corpo de uma cobra. Em suas mãos estava uma espada curta, uma arma que eu não duvidava ser capaz de me matar facilmente.

-Não fuja de sssseu desssstino meio-sssangue – ela falou com aquela língua de cobra saindo por entre os lábios ressacados – Você sssserá minha vítima!

Engoli em seco contendo todo o meu instinto suicida de fazer uma piada sobre ela ter sido feita de inspiração para as falas de cobra do filme de Harry Potter. Levantei meu corpo e já estava pronta para correr em direção a caverna, quando em um passo em falso pisei sobre um peixe e  meu corpo foi para trás. O ar escapou de meus pulmões assim que minhas costas colidiram contra o chão terroso da floresta. Tossia forte enquanto um ser esverdeado entrava em meu campo de visão. Meus olhos dobraram de tamanho, eu nem ao menos pensei quando girei meu corpo para o lado, escutando a lâmina da espada sendo fincada exatamente onde eu havia estado um segundo atrás. Arrastei-me para longe, levantando mais uma vez, o coração tão disparado que eu podia senti-lo bater em minha garganta.

-Não vai essscapar!

-Eu sou muito nova para morrer, señora cobra bizarra!

Dessa vez minha mão foi diretamente para a faca em minhas costas, a capturando sem nenhuma interrupção. A mulher cobra sibilou raivosa, pegou novamente a sua espada e avançou em minha direção. Eu não era nenhuma perita em batalha, assim eu não sabia o momento exato de contra-atacar. Entretanto, meu corpo era magro e leve, o longo tempo dedicado a dança me fazia esquivar da maioria dos golpes. Girando para o lado, dando passos para trás, saltando desengonçadamente. Porém, eu ainda não era rápida o suficiente e acabava com um pequeno corte de raspão. Um no braço esquerdo, um corte raso na altura da barriga e outro no ombro direito. Eu sabia que em algum momento meu azar falaria mais alto e aquela mulher cobra teria o que tanto almejava: minha deliciosa carne assada.

Afastei dela depois de desviar um golpe horizontal, pulando para trás e recuando alguns passos largos. Minhas costas encostaram contra o tronco de uma árvore. Era o meu fim, eu tinha quase certeza disso! Minhas pernas tremiam, meus sentidos estavam embaralhados. Minha respiração era miserável e meus pulmões ardiam em busca de oxigênio, mas sem parecer realmente obtê-los. A mulher cobra avançou com um sorriso estranho, ergueu a espada e estava prestes a atacar. Eu não havia pensado. O desespero havia ligado todos os meus instintos, fazendo-me, por um golpe do destino, agir da maneira certa. Antes que a lâmina encostasse em meu corpo bronzeado, eu girei para o lado, escapando de seu corte fatal. A espada fincou com força na madeira, ficando presa ali. O monstro resmungou e tentou puxá-la teimosamente, dando-me a brecha que eu precisava. Segurei mais firme na faca e saltei em cima dela, em suas costas.

Queria dizer que meus golpes foram limpos ou certeiros. Mas eu estava com medo e com a mente nublada por pensamentos de sobrevivência. Minhas pernas circundaram a cintura escamosa, enquanto a mão que segurava a faca fincava a arma por onde era possível, em golpes de perfuração. As facadas eram feitas de maneira cega, eu mal percebia o que estava atingindo. Peito, ombro, pescoço. O que estava em jogo ali era apenas uma coisa: sobrevivência. A mulher cobra tentava se debater, rosnava, gritava, suas mãos arranhavam minhas coxas e cintura, onde podiam segurar. Até que ela perdeu o equilíbrio e a força para sustentar-se, caindo ao chão. As facadas prosseguiram em suas costas, até ela se transformar em pó dourado.

Ela simplesmente se desintegrou ali, a minha frente. Por minha culpa? Isso teria sido alguma habilidade minha? Tudo o que eu tocasse agora iria se desintegrar? Oh meus deuses! Recuei assustada, o medo do que havia feito sobrepondo pouco a pouco a adrenalina que orquestrou meus atos. O choro veio fácil. Eu havia sobrevivido. Mas havia matado algo e quase morrido! Lupa chegou muito tempo depois, ordenando seus lobos de averiguarem o perímetro. Eu não sei como, mas ela levou-me até o riacho ali perto e ordenou que eu me banhasse. Eu fiz tudo em movimentos mecânicos. Até começar a limpar rudemente meus braços, como se quisesse me livrar de qualquer partícula imaginária daquele pó dourado.

Precisou de muito para minha mente voltar a funcionar corretamente. Quando dei por mim, já estava dentro da caverna, enrolada em um manto de pele de animal. Lupa explicou-me calmamente o que havia acontecido. Monstros não morriam. Se desintegravam e retornavam para o tártaro. Eles me perseguiam pois estava em sua natureza caçar semideuses, alguns mesmo se alimentavam de nossa carne por conter energia divina. Quanto mais poderoso era o semideus, mais apetitoso ele era.

-Você está pronta para ir ao acampamento – Lupa comentou enquanto eu observava as chamas da fogueira.

-Não, eu não quero sair daqui – disse um tanto mimada, abraçando minhas pernas como faria uma criança assustada.

-Irá partir pela manhã, você foi reclamada – a loba sentou um pouco a minha frente.

-Mas eu não estou reclamando mais!

-Não, jovem semideusa, olhe para cima – ela ordenou e eu vi ali um símbolo flutuando sobre minha cabeça. Era como um emblema que girava em tons de rosa e roxo, algo lindo que me fez deixar cair o queixo. Ali continha o desenho de um coração alado e um arco logo atrás – Seu pai é o Cupido, Angeline Herrera.

-O Cupido? – repeti ainda hipnotizada, olhando para o emblema até ele desaparecer. Então franzi o cenho – Aquele que é uma criança alada e fica atirando flechas em todo mundo.

-Essa é apenas a representação popular para representar as travessuras do deus alado do amor – Lupa explicou – Você também é um legado.

-Um legado? – sentia-me estúpida repetindo as coisas que ela dizia.

-Um legado sãos os filhos dos semideuses, Herrera.

-Minha mãe é mesma filha de um deus!

-Uma deusa, a deusa Athena. Agora descanse, partirá ao amanhecer.

Eu ainda tinha muitas perguntas para serem feitas, muitas questões absurdas rondavam a minha mente. Mas o dia havia sido tão agitado e tenso que assim que minhas pálpebras fecharam, o sono abraçou-me apertado e sussurrou em meu ouvido uma canção de ninar. No dia seguinte iria para o tal Acampamento. No dia seguinte, entraria em uma assustadora e nova etapa de minha vida.


El Campamento Romano


Eu me sentia adentrando uma sociedade secreta, cheia de rituais e guerreiros místicos. O que, de fato, não era tão mentira assim. Ao chegar ao acampamento, tudo o que eu queria era uma cama de verdade e comida. Algo que eu só obtive muito depois. Eu vi pessoas treinando como se estivessem indo para guerra. Eu observava como os jovens se zoavam e ajudavam. Eles possuíam até mesmo uma cidade próximo ao acampamento!

Se um guarda-roupa podia levar a um reino místico como Narnia, porque não um túnel dar acesso a todo um sistema romano com uma mini-cidade dentro? Tudo parecia ser possível naquela realidade. Mágico e assustador, se me permitia dizer. Lupa guiou-me até a pretoria, onde me foi questionado poucas coisas. Se eu possuía carta de recomendação... Não. Se eu possuía algum parente romano... Não, diziam que minha mãe era grega e filha de Athena. Abro um parêntese aqui para registrar as caretas mal disfarçadas ao mencionar o nome Athena. Descobri posteriormente que eles não concordavam com atitudes promíscuas da contraparte grega de Minerva. Questionaram-me se eu queria passar por um período de testes para adentrar devidamente em uma coorte. Naquela época, eu não sabia nem o que era uma coorte. Tudo o que eu queria era descansar, vestir roupas de verdade, tomar um banho quente e comer. Ao saber que eu poderia ir direto para a quinta coorte se não quisesse provar o meu valor. Tudo o que eu queria provar era um enorme prato de comida, então tudo o que eu fiz foi dar de ombros e dizer que tudo bem, essa coorte seria formidável se tivesse doces de banana de sobremesa.

Agora, com dezoito anos, eu entendia as consequências de minhas escolhas. Arrependia-me de estar na V Coorte? Não, nem um pouco. Gostava da liberdade de não ter muitas pessoas olhando e exigindo a perfeição de você. Gostava do fato de poder zoar e brincar sem ser muito regulado como devia acontecer na I e II Coorte. Demorei a acostumar-me com a ideia de ser uma legionária. José surtou com a tatuagem em meu braço, quando retornei para casa no final daquele verão.

Se minha relação com minha mãe melhorou? Uma pequena fração apenas, pois agora eu compreendia alguma de suas atitudes. Apesar de não concordar com elas. Meu lado rebelde e amargurado cedeu um pouco, deixando que a criança divertida aflorasse novamente.

Esse era o meu mundo e minha história. Era e ainda é um enredo cheio de música latina, danças calientes, bananas – minha fruta favorita – e, é claro, monstros e deuses greco-romanos.


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Angie Herrera
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Re: Promoção de Aniversário {CCFY de Reclamação}

Mensagem por Nyx em Seg Jun 05, 2017 11:29 am

Aceita, seja muito bem vinda
Recompensas: 4.500 xp + 5.000 Dracmas
Comentário:

Não encontrei nenhum erro para o desconto do xp, e na realidade te avaliei com um máximo, eu achei que sua missão foi muito bem elaborada, e acho que a recompensa é condizente com o seu nível. Achei muito criativa, não encontrei erros de português gritantes, com exceção de algumas poucas palavras repetitivas ou trocadas. Parabéns e bem vinda.







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Nyx
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