The Blood of Olympus
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Point Of No Return || CCFY || Samanta Sink

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Point Of No Return || CCFY || Samanta Sink

Mensagem por Samanta Sink em Sab Mar 25, 2017 10:51 am

Point of no return

Ter qualquer tipo de treinamento te dá confiança e te faz acreditar que você é superior a qualquer outra pessoa, ainda mais quando se é um semideus, prole daquele para o qual os guerreiros oravam antes de começar uma guerra, aquele que dava forças aos soldados, que abençoava as armas e que levava exércitos para frente. Gene abençoado com super-força, super-velocidade, fôlego aprimorado e resistência elevada. Esse tipo de habilidade te faz pensar que é invencível, pelo menos até o momento que você é surpreendida, presa em uma cela branca, amarrada em uma camisa de força de mesma cor, e acorrentada ao chão, por algemas às costas.

A única coisa que destacava do silêncio gritante em meus ouvidos era o som da baixa frequência da lâmpada fluorescente acima. Não havia janelas ou qualquer outro objeto em volta que conseguisse usar. Estava de pés descalços, com uma calça branca hospitalar, e não sentia nada por baixo. Tinha medo dos tipos de testes aos quais me submeteram.


— HEEEEEEEEEEEEEEEY! — Gritei, fazendo o som reverberar pelas paredes. — ME TIREM DAQUI!

A corrente que me prendia ao chão era curta, sendo assim, difícil de me pôr de pé, porém, com muito esforço, consegui ficar de cócoras. Os músculos das coxas e das panturrilhas tremiam com o esforço de me empurrar para cima enquanto os elos metálicos das minhas amarras tilintavam. A frustração tomou conta de mim conforme o tempo passava e os resultados não chegavam. Gritei enquanto usava toda a força que dispunha, até que pude ouvir algumas fibras da camisa de força se romperem.

— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! — A amarra cedeu um pouco mais, mas estava pagando um preço alto: Os pulsos doíam com as injúrias.

Permaneci naquele cabo de guerra com o chão até que as pernas venceram a resistência de seja lá o que estivesse me prendendo. Meu corpo foi arremessado para longe como um pulso desajeitado e me choquei contra a parede acolchoada. O som de ossos deslocados se juntou à orquestra triste da baixa frequência da lâmpada e das correntes que caíam ao chão, assim como meu corpo.

— AH! Filha da... — Gemi contra o chão e me sentei, forçando o braço destro para cima e passando-o por cima da cabeça. A fivela da manga esquerda estava, agora, ao alcance dos meus dentes, e assim consegui desafivelar a amarra.

Após alguns minutos de esforço consegui tirar as amarras remanescentes e me ver livre da camisa de força, porém, ainda sentia meu ombro deslocado, o que seria um problema para uma possível fuga. Deixei o braço esquerdo reto, com a mão apoiada no chão, e forcei o peso do corpo sobre ele enquanto conduzia com a mão destra, até que o som interno e oco dos ossos sendo colocados ganhou o ar. A dor forte e momentânea me fez gemer baixinho, mas agora eu podia mexer o braço.

— Vamos brincar... agora. — Disse, e caminhei até o centro da sala, sentando onde antes estava, e permaneci quieta, apenas observando a porta.


O sedan negro de vidros fumê estava parado, estacionado em um dos locais públicos do centro de Nova Iorque, próximo ao Central Park. Dois homens bem enfatiotados aguardavam em seu interior, o rádio sintonizado no canal privado da polícia captava chamados comuns. Assaltos a lojas, furtos, invasão a domicílio, mas nada parecia importar aos homens.

— Ele disse que seria aqui, não é? — Perguntou o loiro de cabelos lambidos para trás.

— Sim... — O outro homem, igualmente truculento, mas de cabelos negros, observou um relógio prateado no pulso. — A qualquer momento... — Umedeceu os lábios e voltou os olhos para frente.

Nos céus algo desceu tão rápido quanto um balão meteorológico que apresenta defeitos, vindo da direita para a esquerda, do ponto de vista dos homens, bateu em um poste, que por sua vez entortou levianamente e desviou o projétil para um beco próximo. O som de destroços pôde ser ouvido, até mesmo, por ambos os homens ali dentro. As pessoas não pareciam ter notado aquele alvoroço, pois continuavam a caminhar tranquilamente.

— O pacote chegou. — Disse, apenas. O outro concordou e observaram por mais alguns minutos o beco.

Lá, dentre os dois prédios comerciais, uma garota saiu caminhando apressado de lá. Mancava de leve da perna direita e ajeitava os cabelos tão vermelhos quanto sangue, se destacando entre as pessoas que caminhavam alheias na calçada por conta da sua altura avantajada. Em sua mão destra uma espada greco-romana era segurada com a lâmina rente ao braço, a fim de disfarçar. Ninguém parecia notar, mas os homens do carro a olhavam fixamente.

— Vamos. — As portas se abriram e ambos saíram do carro. Em suas mãos as pistolas com tranquilizantes, com um sonífero tão potente que poria a dormir um cavalo.


A estadia dentro da sala sem cor era monótona, chata e enlouquecedora. O som contínuo da lâmpada me dava vontade de bater com a cabeça na parede até desmaiar, para não precisar ficar ouvindo aquilo. Eu sabia que não seria capaz de arrebentar aquela porta, que seu revestimento era muito superior do que meras correntes. Eu precisava aguardar o momento certo.

— Eu tô com fome! — Gritei para a porta, na vã esperança de alguém se aproximar e saciar minha necessidade. Não era de todo uma mentira, sentia minha barriga roncar, mas ainda sentia mais necessidade, ainda, de fugir dali.

Precisou apenas alguns minutos para que a porta abrisse e um homem alto e forte entrasse com uma bandeja plástica e talheres de mesmo material. Tinha cara de segurança, queixo forte e barba rala, estilo alemão. Os olhos azuis me fitavam com raiva, talvez eu o tivesse tirado da sua zona de conforto. Se abaixou e colocou minha comida no chão, se pôs de pé, girou nos calcanhares e caminhou lentamente para fora, abrindo a porta para chegar ao corredor.

— Eu não consigo comer... — O observei suspirar, ainda de costas para mim. — Minhas mãos estão presas.

O homem recuou em um andar militar, se ajoelhou em minha frente, pegou o prato e segurou a colher de plástico com os dedos destros. Levou a colher em direção à minha boca e eu, prontamente, comi o que havia ali. Não tirei os olhos dele enquanto mastigava os grãos de arroz com feijão vermelho. Aquele clima tenso perdurou por mais três colheradas – Sim, eu estava com fome – até o momento em que umedeci os lábios e suspirei.

— Que tipo de monstros vocês são? — Ele sorriu de canto, em conjunto com uma risada anasalada, como se o que eu falasse não passasse de sandices.

— Você é a única monstruosidade aqui. — Aquele comentário me fez apertar os dentes, em raiva. Os punhos cerraram forte, desejando socar aquele rosto.

— Pelo menos eu não cheiro como um... — O respondi, entre os dentes, e recebi um tapa no rosto com as costas da mão. A bofetada fez meu rosto virar, os cabelos rubros caindo como cortinas, impedindo-o de ver o sorriso que se desenhara em meus lábios.

— Mas é você quem está acorrentada como um cachorrinho. — Ele segurou meu queixo e trouxe meu rosto para frente, para poder encará-lo. Sua expressão mudou do sorriso sádico para uma expressão mais dura. — Do que está rindo? — Até mesmo o seu tom de voz era ameaçador.

Ali, naquela mesma posição, apenas levantei os braços para que ele pudesse ver o quão livre eu estava. Seu rosto assumiu uma feição assustada enquanto eu mais me divertia com aquilo do que qualquer coisa.

Ele se levantou e eu também. O prato veio em minha direção como um projétil a fim de me fazer vacilar. Eu sabia que seria atacada daquela forma, então apenas esquivei, porém, recebi um soco no rosto, um forte o bastante para me levar pro chão, levemente desnorteada. Os dedos do meu captor prenderam com força meu pescoço, não com uma mão, mas as duas, e fui conduzida até a parede do fundo. Não fora um problema para ele me erguer do chão. Era um peso pena comparado ao do alemão.

Sem grandes opções, ergui ambos os braços por cima dos seus e os desci com força nas suas juntas, o que fez seus membros dobrarem. O passo seguinte foi segurar a sua nuca com a mão destra, ainda mantendo a pressão para que seus braços não ficassem rijos de novo, e puxá-lo contra mim. Atingi seu nariz com minha testa e ele caiu sangrando no chão. Montei sobre seu corpo e o soquei uma única vez. Seu corpo estatizou inerte no chão.

— Monstruosidade... é esse seu bafo. — Soei ofegante, me mantendo ajoelhada e ereta, observando a porta aberta.


Homens vestidos com roupas de alta patente da milícia americana entravam um a um na grande sala de reuniões, iluminada por três lâmpadas alinhadas acima da mesa comprida, centralizada. As cadeiras bem arrumadas nos devidos lugares foram, aos poucos, servindo de acento para os figurões que se reuniam naquele chamado estranho, feito às pressas, àquela hora da madrugada. Por mais que fossem militares treinados, muitos ainda mantinham os olhares fundos de pouco tempo de sono.

— Senhores, obrigado por terem comparecido. — O homem prostrado à ponta da mesa, General Groce, observava um a um. — Estão reunidos aqui, membros da inteligência, altas patentes do exército, cientistas, físicos... — Groce fez uma pausa, aguardando pacientemente que todos se sentassem em seus lugares.

O burburinho cessou, aos poucos, e todos se voltaram ao homem que os havia convocado. Suas mãos saíram do tampo da mesa e foram às costas para que ele pudesse caminhar ereto em volta da mesa, onde cada um observava alguns papéis, fotocopiados para cada integrante da reunião, com informações a respeito de um ocorrido recente, de um incêndio flagrado por um grupo de soldados que fazia treinamento de sobrevivência nas redondezas de Montauk.

— Como devem estar vendo neste relatório, uma grande área florestal de Montauk foi incendiada após uma explosão suspeita. Meus homens foram até o local averiguar e encontraram essa cena peculiar... — Falou com misticismo ensaiado, o que trouxe a atenção de todos os ouvintes ao líder da reunião.

O general Groce pegou o controle do retroprojetor e acionou o equipamento. O momento que antecedeu a imagem pareceu aumentar o suspense e, quando as válvulas finalmente aqueceram, a imagem teve foco e apresentou um fundo de árvores em baixa qualidade de uma câmera Go Pro fixada no capacete de um dos fuzileiros. Bem no centro havia um botão com um símbolo de “play”.

— Senhores, peço, gentilmente, que façam perguntas apenas ao final do vídeo. — Nenhuma voz pôde ser ouvida, então Groce apertou um botão no controle e o vídeo reproduziu.

Nas imagens uma garota de cabelos rubros como sangue se colocava de pé em meio a pequenos focos de chamas. Demonstrava ferimentos na perna e no braço enquanto caminhava na direção de um aglomerado de pedras, ou pelo menos era o que parecia até a câmera focar e mostrar uma criatura gigante, do tamanho de uma picape, talvez maior. Se mexia com dificuldade, executando apenas movimentos de respiração.

— Aquilo é um dragão? — Um dos homens da mesa se pronunciou e ouviu um “shhhhh” de Groce.

“Você ainda... está vivo?”

A ruiva caminhou até o dragão, após cuspir uma nódoa de sangue. Pegou uma faca presa no chão, no meio do caminho, e a câmera focou em um dos soldados. Ele mirava para a cena que desenrolava, até o momento em que a mão do guerrilheiro portador da câmera o fez abaixar o fuzil M4A1. A garota ferida voltou a ser filmada e, agora, trocava palavras como a criatura, mas nenhum som era captado, além da voz da ruiva.

“É você?

...

Eu não sabia que você falava! Que tinha consciência!

...

Lembre-se de não montar um ninho próximo do Acampamento Meio-Sangue quando reencarnar.

...

Vai se foder.”

O vídeo terminou com a garota de cabelos rubros enfiando a lâmina no dragão e a criatura irrompendo em luz, muito forte. Provavelmente fora responsável por queimar o visor da câmera. General Groce se virou para os demais, com um sorriso no rosto.

— Aquilo é um dragão? — Voltou a fazer a pergunta o mesmo de antes.

— O que é aquela garota? — Um dos cientistas indagou mais a si mesmo do que outra pessoa.

— Ela matou a criatura sozinha? — Um dos figurões de alta patente questionou, com os olhos arregalados.

— Já temos uma ficha corrida da garota: O nome é Samanta Sink, nasceu em Phoenix, no Arizona. A sua mãe... Sujeito #14 — Houve um silêncio brutal na sala de reuniões e, de repente, uma explosão de vozes, todas fazendo perguntas ao mesmo tempo, até que Groce levantou a mão e todos fizeram silêncio. — Estamos providenciando para que a senhorita Sink seja nossa hóspede de honra.


O piso daquela instalação se apresentava gelado nas solas dos meus pés enquanto, a passos cuidadosos, avançava a esmo pelos corredores, sem sequer saber o caminho certo a tomar. Passei por algumas portas semelhantes à que servia de barragem do meu quarto e, então, virei na próxima bifurcação à direita

Mais alguns passos rápidos e encontrei dois homens segurando pranchetas. Seus olhos se voltaram contra mim e eu gelei. O da esquerda correu para trás, em minha direção oposta, e o segundo moveu o jaleco, puxando alguma coisa da cintura, que logo se revelou um revolver M911.

Meu coração disparou tão rápido quanto a arma. Por sorte ele errou, somado a um movimento meramente instintivo de esquiva por minha parte, e corri para cima do cientista. Ele disparou mais duas vezes, mas desta vez eu estava preparada para cada um dos disparos e nenhum me atingiu. Segurei a sua mão armada, colocando o dedo atrás do gatilho. Girei o pulso ao mesmo tempo que chutava o joelho do inimigo. Logo ele estava submisso e imobilizado.

— Um movimento e eu parto os seus tendões! — Ameacei, forçando seu braço.

— T-tá bem... — O cientista tremeu e tentou buscar uma posição mais confortável, porém, gemeu um pouco mais ao descobrir que aquela era a mais confortável que ele conseguiria ter.

Peguei a arma de sua mão, ainda mantendo-o preso. Tirei o carregador da pistola e puxei o slide para trás, removendo a última munição da arma. Girei-a na mão e a arremessei no corredor.

O objeto girou no ar 5 vezes antes de acertar a nuca do cientista, que desmaiou no ato, ou pelo menos foi o que pensei até vê-lo se contorcer no chão, atordoado. Não demorou para o alarme soar, me fazendo revirar os olhos e voltar a atenção para o cientista que estava imobilizando.

— Você tinha que atirar, não é?! — Disse, entre os dentes, os olhos revelando minha raiva.

— Desculpa... ugh... você me assustou... Ah! — O sangue subiu à cabeça e me sentia entrar em frenesi.

— E VOCÊ TÁ ME PRENDENDO NESSA MERDA! — Parti os tendões do pulso daquele cientista, mas ele não teve tempo de gritar, principalmente por tê-lo nocauteado com um soco.

O som de botas contra o piso do laboratório soou acima do alarme, reverberando pelas paredes de ambas direções. À minha frente homens armados com bastões eletrificados me encaravam com espanto e até medo. Uma rápida olhada por cima do ombro e pude ver mais deles, todos vestindo a mesma farda militar branca, com protetores de ombro e peito, Joelheiras e protetores de cotovelos. Estavam todos receosos de avançar e, graças àquilo eu sabia que eles tinham conhecimento das minhas capacidades.

Uma música baixinha começou a tocar em minha mente.

Let the bodies hit the floor...

Let the bodies hit the floor...

Let the bodies hit the floor...

Os dedos relaxaram da gola da vestimenta do cientista, o qual havia acabado de ferrar o braço, e quando o seu corpo se chocou contra o chão, os homens correram para cima de mim. O espaço era estreito e o desafio me fez sorrir, o coração batendo apressado em meu peito, reverberando em meus ouvidos e me enchendo de adrenalina.

O primeiro golpe veio de frente, de cima para baixo. Ergui os antebraços em “x” e prendi o seu entre os meus. As mãos agarraram o braço do segurança e o girou em sentido horário. Me apoderei do seu bastão enquanto chutava as suas costas e o empurrava para cima do grupo que o seguia.

Virei o corpo o mais rápido que podia e defendi a primeira investida de bastão eletrificado. Os metais se chocaram e as descargas elétricas estalaram faíscas no ar. Rapidamente segurei o pulso de meu agressor e o puxei, usando-o como escudo temporário, bloqueando um terceiro agente. A descarga fez os dedos de meu escudo humano espasmarem e relaxarem, permitindo que me apoderasse de outro bastonete eletrificado. Enquanto o corpo caía no chão, girei no calcanhar direito e pulei, usando o mesmo pé para atingir a bochecha deste terceiro elemento, que por sua vez tombou ao chão igual um saco de batatas.

Aqueles movimentos frenéticos renderam um momento de pausa, em que todos recuaram e pararam para se analisar. Os homens tremiam como varas verdes enquanto sentia meu peito subir e descer, ofegante. Contava-os um a um.

— Um... — Apontei o bastonete esquerdo para o mais da frente. — Dois... — O que estava ao seu lado, recebeu a mesma mira. — Três e quatro... — Ergui o bastão direito, agora para o outro lado, seguindo a mesma lógica. — Cinco, seis e sete... — Apontei para os demais do lado direito, fechando a conta. — Como vão explicar para o seu chefe que 12 Homens não puderam segurar 1 Segredo? — Não consegui conter o sorriso no rosto, assim como alguns dos seguranças, que eu não sabia se riam do que eu havia falado ou se riam de nervoso.

Aproveitei o momento de distração, em que alguns riam do trocadilho, e avancei para minha esquerda, golpeando o 1 bem na maçã do rosto esquerda. O impacto fora poderoso e o fez gritar, por conta do choque, enquanto o seu corpo girava até o chão.

Golpe lateral; Bloqueio; Golpe do lado oposto; Bloqueio; Passos vindos da retaguarda;

Observei por cima do ombro, rapidamente, e notei os homens avançando, deixando mais atrás o que perdera o seu bastonete. O primeiro golpe veio impiedoso, mas pude dar a devida atenção a ele, já que à minha frente só havia mais um soldado. Levei a arma direita às costas, enrijecendo os músculos dos braços ao extremo, sabendo que o coice daquela investida poderia ser absurdo... e eu não queria que o condutor me tocasse.

Como esperado, faíscas ganharam o ar, mas meu braço não se moveu. Em resposta, chutei, como um coice, com toda a minha força – e quando digo toda a força é toda MESMO – o peito do soldado, fazendo o som de ossos quebrados ecoarem. O seu corpo foi arremessado para trás, por cima dos demais, e aproveitei que meu braço estava recuado para descer o bastonete no meu agressor frontal. Ele conseguiu se defender, levantando sua arma na horizontal, para cima, mas eu possuía outro bastonete... e este pus em seu pescoço, o empurrando para a parede.

Seus olhos giraram nas órbitas e, quando o soltei, caiu inerte no chão, me dando liberdade para virar para os cinco remanescentes, os quais brindei com alguns giros dos bastões nos pulsos e entre os dedos. Choquei uma arma com a outra, produzindo mais fagulhas de eletricidade. Não consegui conter o sorriso sádico.

— Meninos... quem vai ser o primeiro a me tirar pra dançar?

Meus olhos passavam de um agressor ao outro enquanto sentia meu coração disparar, ainda me concedendo adrenalina o suficiente para me manter lutando. Meus dedos formigavam com a excitação e o sorriso era largo em meu rosto, como se eu estivesse quase perdendo para o lado primitivo da violência. Eu teria corrido para cima do pequeno contingente de soldados, caso um som de arma com silenciador não tivesse me disparado os sentidos, o único problema é que senti uma dor aguda no ombro, nas costas, logo em seguida.

[center”Fui baleada.”[/center]

Olhei por cima do ombro, sentindo algo adormecer meu braço esquerdo, do mesmo lado que havia sentido a dor, e notei mais homens armados com armas e bastonetes. Um deles apontava um rifle de precisão para mim e, da ponta do seu cano, ainda se levantava um fino fio de fumaça, da dissipação de calor... ou gás.

— O que é...?

Me senti extremamente cansada e dormente, meus olhos pesando enquanto minhas pernas rendiam aos poucos, mas ainda tinha forças e usei o último suspiro para me abaixar de um ataque surpresa, se aproveitando de minha aparente desconcentração, girei em sentido horário e passei por baixo do braço esquerdo do agressor canhoto, golpeando sua barriga com ambos os bastonetes eletrificados. Ele caiu ao chão, exatamente como eu.


Samanta caminhava apressada pelas ruas da Nova Iorque e a única coisa que passava pela sua cabeça era a de que precisava, urgentemente, voltar para o Acampamento Meio-Sangue. Estava abatida e ferida, os músculos exaustos por conta do confronto contra aquela maldita Quimera. Arrancar a cabeça de bode e a cauda de serpente foi fácil, o problema foi a cabeça de leão e a draconiana, assim como as asas. Aquele era o maior problema para a filha de Ares: Lutas no ar.

Mas gora que caminhava entre os habitantes da Cidade da Liberdade a ideia de um perigo iminente era algo distante, pois o cansaço berrava em sua mente, isolando todo e qualquer bom senso que não fosse o de manter sua espada, Dímios, transformada em um pequeno gládio com o auxílio do Anel Arsenal, escondida dos olhares curiosos dos cidadãos. Samanta sabia que a Névoa ocultava coisas que não fossem normais aos olhos dos mortais, mas percebera, com o passar dos metros, que os humanos passavam a observá-la com certa curiosidade.

— Rota alternativa... — Virou em um beco, subitamente, para evitar olhares civis.

Mas aquilo não fora o suficiente para despistar os dois homens que à seguiam.

Quando os passos da ruiva a levaram por aquele penumbroso caminho entre os prédios, fétido, úmido e de vento encanado, lançou um rápido olhar por cima do ombro, apenas para verificar se não estava sendo seguida. O que viu fez seu coração disparar, com medo de que mais monstros à estivessem emboscando.

— Merda! — Girou nos calcanhares e continuou a caminhar de costas, encarando os homens de preto. Levantou ambos os braços para o lado, como se perguntasse o que eles desejavam. — O que foi?! Não posso pegar um atalho sem parecer suspeita?! — Parou. A mão da espada segurando com força o cabo da arma, rente à linha do braço, ainda escondida. — Não sou traficante!

Os captores se olharam e pegaram um caminho à esquerda, passando por um portão gradeado que estava aberto, o que fez a filha de Ares voltar a caminhar normalmente, suspirando em seguida, num alívio momentâneo. Os seus passos diminuíram a velocidade gradativamente, até que ela alcançasse uma velocidade de passeio. Precisava se recuperar, descansar os músculos e retomar o ar, até que em sua frente os mesmos homens apareceram, vindos de outra curva á esquerda, munidos com as pistolas de tranquilizantes.

Empunharam suas armas; A filha de Ares correu para cima dos agressores a fim de se defender; Ambos os disparos ecoaram pelo beco; A ruiva caiu ao chão apagando por completo.

— Groce, pegamos o presente. — Um dos agentes levou o dedo ao ouvido pouco antes de se pronunciar, pressionando o botão de liberação de fala no canal altamente restrito.

“Ótimo, deem prosseguimento ao procedimento de extração.”

A voz soou imperativa e neutra, por mais que tivesse um fundo de excitação e entusiasmo. Os dois caçadores de recompensas se entreolharam, por baixo dos óculos escuros, e com um aceno de cabeça em concordância, um deles foi até a filha de Ares, adormecida ao chão e o outro correu pelo beco para buscar o sedan preto.


A consciência veio com um suspiro pesado, porém, só lembrei onde estava quando fui mover os braços para me espreguiçar. Estava deitada na cama da minha antiga cela, os pulsos amarrados na cama com grossas tiras de couro, assim como os tornozelos, bem presos. Não conseguia fazer muita força graças aos membros estarem esticados.

— Eu não sei o que meu irmão viu em você... — A voz soou ao meu lado, me assustando de uma forma que eu não esperava. Era potente e grave, e quando observei quem estava ali, acabei me surpreendendo.

Havia um homem sentado no canto da sela estofada. Suas costas escoravam na parede e a mão esquerda pendia no ar, pelo cotovelo escorado no joelho dobrado da perna. Me encarava com certa desaprovação, mas havia algo de familiar em sua presença. Muito familiar. Já havia sentido aquela sensação parecida, semelhante à quando se entra em um cemitério à noite, ou uma construção abandonada... ou a ansiedade por uma luta iminente.

— Não vou perguntar como entrou aqui... porque minha experiência me diz que você é um deus... só não sei qual. — O homem sorriu assim que o reconheci como um deus.

— Não reconhece o seu próprio irmão, Samanta? — Meus olhos, vidrados no teto, voltaram aos olhos escuros do deus, assim como os lábios entreabriam em surpresa.

— Você é Phobos? — Acabei por sorrir em animação. A minha chance de escapar estava naquele homem. — Eu viajei ao lado de Deimos! Pilotei a sua moto! Pode me tirar daqui? — Pensei que aquilo fosse fazer Phobos se animar, mas eu estava enganada. Ele apenas fez uma expressão de desgosto.

— Eu sei muito bem o que fez com Deimos... e sei do interesse particular dele em você. — Ele soltou uma risada do fundo da garganta, como se aquilo fosse a piada mais engraçada do mundo. Diziam que risadas eram contagiosas, mas aquela...

Me fez sentir medo.

— O que é tão engraçado? — O lado Ares falou mais alto do que meu medo. A afronta fez o semblante do divino mudar.

— Ele acha que pode me atingir com você... acha que pode virar o favorito do papai. — Revirei os olhos para o seu comentário, suspirando pesadamente.

— Por favor, me deixem fora dessa briguinha de família. — Umedeci os lábios e ouvi Phobos se erguer. Não o encarei, imaginando sua possível reação.

As mãos de meu irmão seguraram a gola da minha blusa, manga curta e branca, e me puxaram para cima. Senti meu corpo ficar gelado e leve, muito leve. As amarras não me seguraram e, quando olhei para mim mesma, estava com uma nuance distorcida, fumacenta e negra, até que voltei a me tornar pesada e quente. Fui jogada contra a parede e o antebraço de Phobos colocado contra minha garganta, forçando minhas mãos a segurá-lo e puxá-lo para trás. Ambos tremíamos, mas a sua pegada ainda era avassaladora.

— Nossa... você é forte... — Ele umedeceu o lábio inferior, trincando os dentes em seguida. — Porque eu... pretendia... quebrar o seu pescoço...

— Vai se ferrar... Phobos... — Forcei mais ainda o seu braço, empurrando-o para trás, com o pé em seu peito, mas ele simplesmente se desfez em sombras. A pegada continuou, porém, agora eu não podia segurá-lo. — AGH!

— Eu poderia quebrar o seu pescoço e te fazer sentir a dor de ter as suas vértebras fraturadas a mesma quantidade de dias que você viveu! — A sua voz se tornara mais grave ainda, e duplicada, com a cópia uma oitava a baixo. Ela me dava medo, seus olhos vermelhos me davam medo, sua forma etérea sombria me dava medo.

Não consegui responder por causa de minhas cordas vocais, que eram brutalmente pressionadas pelo meu irmão. A passagem de ar era escassa e eu mal conseguia conter a língua dentro da boca. As pernas se debatiam e, por mais que eu soubesse que aquilo me fazia sentir mais dor no pescoço, não conseguia comandar. Era inconsciente. Uma resposta do corpo que tentava se proteger da melhor forma possível.

— Ou cortar a sua língua, enfiar no seu rabo e te fazer continuar sentindo o gosto! — Meus olhos saltariam para fora da cara, se Phobos não tivesse me soltado.

Cai de bunda no chão, tombando para o lado e batendo a cabeça no estofado. Os pulmões ardiam com o ar gelado que entrava. Lágrimas escorriam pelo rosto enquanto tossia compulsivamente, sentindo uma dor inexplicável no pescoço. A traqueia havia sido brutalmente agredida e eu não conseguia xingar ou reclamar, por estar perdida entre tossir e respirar.

— Tenho um serviço pra você. — O ouvi falar, mas não o respondi. Apenas continuei a me recuperar. Sua voz soava por cima de minhas tosses desesperadas. — Um dos meus filhos se bandeou pro lado dos malvadinhos... e eu não o quero mais. Ele está nesta instalação... e eu quero que você entregue um recado meu para ele. — Ele se abaixou, quando eu apenas ofegava, e tirou os cabelos da frente do meu ouvido, colocando-os atrás da orelha, como se fosse me contar um segredo. — “Você quis andar com suas próprias pernas sem o meu consentimento? Que bonitinho...” — Ele estralou a língua em um som semelhante ao de ossos quebrando... extremamente semelhante. — Essa é a hora que você vai quebrar a coluna dele. — A  mão do deus deslizou por minhas costas, seguindo a linha da coluna até um ponto baixo, na lombar. — Bem... aqui. Você vai adorar fazer isto.

Me levantei e suspirei pesadamente, observando o rosto do deus se tornando impassível enquanto aguardava pela minha resposta. Limpei as lágrimas das bochechas e dos olhos com as costas das mãos e umedeci os lábios. Precisava das minhas coisas para matar outro semideus, para não estar em desvantagem, ainda mais um filho de Phobos que teria poderes relacionados ao psicológico.

— Meus equipa... — O deus tremulou em uma nuvem de fumaça negra como piche e retornou logo depois, jogando aos meus pés uma mochila grossa, com todos os meus pertences, os quais estava usando em minha missão anterior.

— Aceita? — Maneei a cabeça em positivo, observando os equipamentos ali colocados. O filho de Ares, por sua vez, sorriu largo. — Não o mate... eu quero vê-lo perecer.

— Tá... vou partir a coluna do garoto... — Ele riu e desapareceu, deixando sua voz macabra ecoando pelo aposento.

— Cuidado para ele não partir a sua...

Caí de joelhos no chão em frente à pesada bolsa, abrindo o zíper com calma e dando de cara com todos os meus equipamentos... o que me fez suspirar aliviada. Saquei a espada de dentro, o metal tilintando contra o ferro do zíper, e soltei a arma no estofado. Busquei a câmera de segurança no canto do quarto, a qual notara a alguns dias... ou horas, não sabia quanto tempo havia ficado desacordada, e, para a minha surpresa, ela estava envolta em uma névoa densa e negra.

— Heh... Você cuidou de tudo. — Voltei a atenção totalmente ao meu equipamento, e quando me vi totalmente vestida com minhas antigas roupas, equipamentos e armas em posse, observei a porta ainda trancada. — Você só não pensou em como vou me achar aqui dentro... Ah...

Senti uma dor aguda rasgando meu antebraço direito e não consegui conter a dor, sequer meu sangue de Ares foi capaz de me fazer ignorá-la. Caí uma vez mais de joelhos, após cambalear, e enterrei meus dedos canhotos em volta do foco da dor, os olhos, assustados, fitando a pele branca da parte interna do braço que, pouco a pouco, era cortada cirurgicamente por uma força invisível, mas sangue algum escapava pelo corte.

A incisão seguiu reto em direção ao meu pulso, a partir da dobra oposta ao cotovelo, e virou à esquerda, depois à direita e à direita de novo, para quase dar a volta no braço. Virou a esquerda, me fazendo ranger os dentes e fechar os dedos destros no punho, com força. Cada músculo tremia com aquela que eu reconhecia ser a dor mais forte que sentira em toda a minha vida. O corte seguiu em caminhos de ângulos retos até próximo do pulso, e quanto a dor parou, uma pequena gota de sangue saiu do começo do caminho. Suspirei pesadamente, sentindo o alívio momentâneo, e me pus de pé, caminhando até a porta do quarto. Conforme caminhava mais sangue brotava do ferimento, alguns fios escorrendo pelo braço, mas só até o ponto que caminhara.

— O desgraçado fez um mapa no meu braço... — Fechei o punho, saquei a espada e enfiei a lâmina na porta, onde fica a trava. — Como manteiga.

A porta abriu e corri pelos corredores, sem me preocupar de ser vista. Com meus equipamentos eu sabia que seria muito mais mortal do que quando não tinha nada. Me sentia imparável, além do mais, sentia que Phobos me guiava pela instalação e bloqueava a visão da segurança sobre mim.

Usava a superforça em minhas pernas para acelerar a corrida ao extremo, correndo à mesma velocidade que os maiores velocistas olímpicos, até fazer a última curva e dar de cara com uma porta simples, um laboratório e, verificando alguns tubos de ensaio no fundo, um homem de aparentes 25 anos, trajando um jaleco comprido. Pude ver uma aura negra, como se fosse uma fumaça emanando de seus ombros, e tive certeza de seu parentesco com meu irmão.

— Maldito código de honra que não me permite te atacar pelas costas. — Ele olhou assustado, por cima do ombro, e caminhei por trás de uma mesa, sempre mantendo-o sob meu olhar. — Vai logo, sobrinho... pega a sua arma.

— Ah... você escapou. — Sua voz soou cansada, e arrastada, além de um pouco chiada, como se ele tentasse sussurrar e soltar a voz ao mesmo tempo. Não parecia ser forte. — Eu sabia que deveria ter te prendido melhor.

— Me prendendo ou não... o seu pai me ajudou. — Sua expressão mudou drasticamente, em algo semelhante a raiva.

— Maldito deus... — Ele pegou um frasco com um líquido transparente, engatilhou em uma pistola vacina e injetou no próprio braço, mostrando um sorriso maníaco em seguida. — Você é um espécime muito problemático... mas por mais que eu não tenha as mesmas capacidades musculares que você, eu já extraí o que queria... — Ele tirou o jaleco enquanto o observava impassível. Também tirou a camisa social e pude ver os seus músculos entrando em colapso, fazendo, em segundos, o que uma academia faria em anos. — É... eu tenho a sua essência, agora, filha de Ares. — Sorriu sádico, apertando os punhos e fazendo os ossos estralarem. — Ou devo chamá-la de titia?

— Phobos tinha razão... eu vou adorar quebrar a sua espinha.

As coisas tomaram um rumo muito diferente do que eu esperava e, em um piscar de olhos, o filho de Phobos saltou por cima da bancada de centro, derrubando vidros com líquidos coloridos e fétidos, tubos de ensaio e pequenos aparelhos que estavam os conteúdos dos frascos, caiu em minha frente, a uma distância de close-combat, e sacou uma adaga das suas costas, já descrevendo um arco no ar.

O primeiro ímpeto que tive foi levar o corpo para trás, evitando a lâmina inimiga por centímetros, porém, o semideus voltou o ataque e acabei me abaixando em puro reflexo. Seu joelho subiu com velocidade, visando um golpe de Muay Thai, o qual defendi levando ambos os braços à frente do rosto.

Aquelas investidas me fizeram recuar 3 passos e bater com a lombar em uma outra bancada. Estava encurralada e meu sobrinho notara isso em meu olhar, podia até mesmo notar o medo em minha mente, e por isso investiu despreparadamente, em um golpe martelo com o braço descomunalmente grande. Eu pensei que fosse um movimento instintivo e equivocado, mas quando joguei o corpo para o lado, fui segurada no pescoço e erguida no ar. As pernas se debateram inutilmente enquanto sentia o ar ser barrado na garganta.

— Qual o seu maior medo, Samanta? — Seus olhos adquiriram uma coloração amarela doentia e, então, foi como se eu acordasse de um devaneio.

Estava tudo escuro e a ação da gravidade me fazia crer que estava deitada, em algo que deveria se parecer macio, quando na verdade podia sentir estar com as costas em uma tábua dura, sólida. Ergui os braços e toquei em algo acima de mim, uma tampa. Foi então que as coisas começaram a fazer sentido e soube imediatamente onde estava: num caixão. Aquilo não era exatamente algo que despertava o medo em mim, mas acima de mim pude ouvir a voz abafada e baixa de alguém me velando

— Eu não morri! — Empurrei a tampa daquela caixa com o máximo de força que podia, mas sabia que deveria ter algumas centenas de quilos de terra ali por cima. — Me deixa sair!

De repente a voz do padre foi sobrepujada pelo som de tilintar de espadas, gritos de luta e dor, assim como fúria e desespero. Meus amigos estavam em uma batalha e eu não podia fazer nada para ajudar. Sentia o coração falhar algumas batidas conforme usava além de minha força para tentar sair daquela prisão, mas me frustrava cada vez mais.

— Por favor! Eu preciso ajudar! — Deixei mais alguns fracos socos na tampa do caixão por causa da falta de espaço. — Eles não podem morrer!

Me sentia começar a hiperventilar e me desesperar, porém, pude ouvir a voz de Phobos soar dentro da minha cabeça.

— Vergonhoso, irmãzinha, você estar se deixando adquirir claustrofobia. — Uma lágrima escorreu de meu olho, até o ouvido.

— Eu não posso ficar parada enquanto meus amigos morrem! — A foto em meu armário, no Acampamento, que ilustrava uma belíssima soldado ao lado de uma criança de cabelos vermelhos veio com força em minha mente. — Não de novo!

— Então se concentra! — Sua voz soou como um trovão em minha cabeça e eu fiquei quieta, prestando atenção nos sons, até que respirei fundo.

— Que... cheiro de hospital... — Disse, sem entender muito bem, e então uma rachadura se estendeu na tampa do caixão, jogando uma luz branca em meu rosto.

Aquela realidade estava se rachando e a partir daquela rachadura principal mais uma dezena de pequenos sulcos corriam para as laterais, até que tudo explodiu e senti meu corpo cair pesado no chão. Estava ofegante e meu sobrinho recuara dois passos, levando a mão à testa, como se sua cabeça doesse mais do que tudo no mundo. Me pus de pé e endureci o punho, a pele ganhando textura de ferro, assim como os ossos sob ela, sentia-os resistentes como aço.

O rosto do filho de Phobos também sentiu a resistência daquele soco.

Seu corpo levantou do chão e caiu por cima da bancada de mármore, ainda com alguns poucos resquícios de vidros partidos e líquidos multicoloridos que não haviam escorrido para o chão.

Aproveitando-se da inércia daquele impacto, o semideus jogou as pernas para trás e rolou, caindo do outro lado da bancada e escorando no outro extremo, massageando o queixo. Cuspiu uma nódoa de sangue e, na palma de sua mão, com os dedos fechados como se segurasse algo, luzes vermelhas começaram a surgir, tal qual pequenos vagalumes, ou faíscas que se uniam até formar uma espada grega em tamanho grande.

— Já que você não aprende pelo psicológico... vou ter que ensinar você pela dor física. — Soou arrogante, e eu engoli em seco.

O semideus avançou a passos largos, sacando a espada da bainha – o metal zuniu metálico no ar – e golpeando de cima para baixo, em uma investida que seria capaz de dividir minha cabeça em duas caso não levantasse o machado em um bloqueio horizontal. Faíscas voaram do impacto das lâminas, mas nenhum de meus braços se moveu com aquela investida. Foi como atingir uma parede sólida.

O garoto recuou sua arma e golpeou meu rosto com a canhota, me forçando a jogar o corpo para o lado e rolar pelo chão, porém, ao ficar de joelhos, mal tive tempo de executar mais uma defesa, duas defesas. Me coloquei de pé apenas para receber um chute no pé de apoio, que me derrubou novamente de costas para o piso gelado. O terceiro golpe me empalaria pela barriga, porém, o evitei, rolando para o lado.

Pus as mãos no chão, já de bruços e pós rolamento, levantei em uma espécie de flexão e rolei para frente, já ficando de pé novamente e de frente para o filho de meu irmão, que parou por alguns segundos, ofegante, assim como eu.

— Então... já cansou? — Disse, debochada, com um sorriso no rosto, e aquilo pareceu enfurecer o semideus de tal forma, que ele avançou de forma despreocupada.

O ataque veio como todos os outros, de cima para baixo. Era mais do que óbvio que ele havia adquirido minha força e alguma noção de como empunhar armas, mas ainda assim não possuía minha experiência. Sabendo disto, avencei um passo em sua direção e me abaixei, esquivando por baixo do seu braço atacante.

Em um golpe certeiro e potente, o golpeei na altura das costelas destras, sentindo a lâmina da arma entrar fundo, dilacerando pele e quebrando ossos. Ele gritou de dor, um grito alto e retumbante que ecoou pelas paredes. Quando puxei o machado de volta, o sangue espirrou em meu rosto e parei alguns passos para trás do filho de Phobos, que por sua vez, caiu de joelhos.

— Levanta! Eu não tenho o dia todo! — Umedeci os lábios e suspirei, girando o machado no punho, fazendo gotas de sangue dançarem ao ar, virando de frente para o garoto, que ainda se mantinha de quatro no chão.

— Vai desejar... que eu ficasse no chão.

Aquelas palavras saíram ameaçadoras até demais enquanto o homem se erguia com um gemido rouco e alto de esforço. Se virou para mim e aquele foi o sinal de que eu poderia avançar novamente e terminar a luta de uma vez, mas antes que eu chegasse perto o suficiente para acertá-lo com o machado, fui golpeada tão forte que não tive outra ação senão voar e bater contra a parede. Caí com força no chão e diversas lajotas me atingiram, me obrigando a proteger a cabeça.

Após alguns segundos olhei para o semideus que sofria uma transmutação difícil de acompanhar. Seu corpo estava envolto em uma fumaça negra, como se olho estivesse queimando abaixo de seus pés. Pele morta caía ao chão, saída do meio oculto em que o filho de Phobos era envolvido, e eu senti medo do que enfrentaria, até a fumaça se dissipar e uma criatura humanoide com características lupinas ficar visível.

A pelagem cor de chumbo estava coberta de sangue, que pingava farta, manchando tudo de vermelho. Me pus de pé, segurando firme o machado, tão firme que os nós dos dedos esbranquiçavam devido à força que empregava ao seu cabo. A criatura se prostrou de quatro e sacudiu os pelos, fazendo sangue respingar em mim. Naquele momento eu sorri e soube que aquela luta seria memorável.

— Pode vir, filhotinho! — O lobisomem mostrou os dentes para mim e avançou em minha direção.

Suas unhas se chocaram duas vezes no piso e, então, chegou até mim. O ataque veio poderosíssimo, suas unhas rasgaram a pele de meu braço esquerdo, simplesmente por tê-lo colocado na frente do rosto, se não poderia ter perdido a visão.

Ao passo que a dor vinha aguda, dilacerante, sentia minha pele regenerando rapidamente por conta de habilidades herdadas de Ares, mas logo um golpe fulminante veio da outra direção, rasgando o tecido de minha blusa, na barriga. Não produzi som algum de dor e, ainda, em resposta, desferi uma machadada em seu pescoço. O lobisomem recuou um passo e me acertou um soco no nariz, me lançando contra uma porta.

Ambas fomos para o chão, porta e eu, mas não tive muito tempo para me recompor, pois já sentia suas garras perfurando a pele de minha panturrilha, forçando um grito vindo do fundo da minha garganta.

— Aaaaaaaah! — Fui brutalmente puxada para trás, mas não dei chance para que continuasse aquilo. Golpeei o chão com o machado e me ancorei ali. Meu corpo ficou suspenso no ar, tendo como ponto de força meu punho no machado e minha panturrilha nas garras do lobisomem.

Golpeei seu focinho com a perna livre três vezes antes do monstro me soltar, porém, suas garras se fincaram em minhas costas e desceram em um caminho ininterrupto, me fazendo gritar uma vez mais com a dor lacerante.

— SAI DAQUI! — Toda a pele de meu corpo adquiriu uma tonalidade de bronze, reluzente. Pude sentir meu peso aumentar cerca de 3 vezes no processo, mas agora eu era uma arma ambulante.

Me pus de pé e golpeei o seu focinho uma quantidade de vezes que não pude contar – na verdade eu perdi a conta no terceiro murro – até conseguir segurar sua mandíbula com ambas as mãos, a destra na parte superior e a canhota na parte inferior. Não conseguia abri-la por conta da sua força contra a minha, mas minha raiva era tanta que, com um grito de fúria, mudando a posição em seguida, usei meu próprio peso para me auxiliar. A sua boca abriu até um ponto que pus o pé e, quando isso aconteceu, não demorou para que eu conseguisse deslocar sua mandíbula.

Desorientado o animal sequer reagiu quando o soquei com tanta força que o seu corpo girou, ficando de costas para mim. Momento este o qual usei para acertar uma cotovelada na sua lombar, onde Phobos havia me instruído para fazer. O som de ossos se partindo ganhou o ar uma vez mais e o animal foi ao chão, ganindo fino. Uma nuvem negra circundou o seu corpo e trouxe a forma de semideus ao homem, de volta, mas ele se arrastada. Uma expressão de verdadeiro sofrimento em seu rosto.

— Ah... me... ma-a... — Ele mal podia falar.

Caminhava devagar em sua direção, porém, senti uma mão em meu ombro. Só neste momento percebi que minha pele já estava normal, de novo, e que sangue escorria dos ferimentos. Me virei pronta para atacar o segundo agressor daquela sala, mas dei de cara com Phobos em pessoa... ou divindade. Me encarava com seus olhos amarelos doentios, os mesmos que vira no seu filho, minutos atrás.

— Missão cumprida, irmãzinha. — Me cumprimentou, sorridente, e olhou com desprezo para o seu filho. — A mensagem que você deve guardar é a de que você não pode fazer tudo o que der na telha... sem mim você não tem pernas.

— O alarme está soando. — Só naquele instante percebera. — Não vou conseguir sair daqui viva. — Suspirei, cansada, dolorida.

— Você vai viver hoje pra lutar amanhã... por mim.

Seus dedos tocaram em minha testa e mais uma vez senti meu corpo ser envolto em trevas e frio. Meus ouvidos eram assolados por um vento barulhento e sombrio, que assobiava agouros ininteligíveis. Minha pele se arrepiava com tudo aquilo e, alguns segundos depois, desabei na frente da enfermaria do Acampamento. Ali, me perguntava o significado das últimas palavras de Phobos: O que ele queria dizer com lutar por ele? Por hora precisaria me focar em recuperar meu corpo e minha mente.

Depois resolveria as inquietações e a pontinha desconfortável que pinicava meu cérebro. Não sabia o porquê, mas talvez Phobos tivesse me deixado algo a mais.

Recompensa proposta

Bênção de Phobos - nível 1:

A bênção de Phobos consiste em disponibilizar alguns dos poderes deste deus à filha de Ares, Samanta, por ter feito um trabalho proposto pelo deus do medo. A bênção, também, vem com uma maldição, que é a de impossibilitar Samanta de se tornar membro de qualquer outro grupo secundário, com exceção dos Lycans, que são regidos pelo próprio Phobos. Por ser compatível com o sangue do seu irmão, isto é, ter ambos os genes de Ares e Afrodite, assim como o deus, Samanta estaria apta a receber esta bênção, e é, também, uma forma de prepará-la para o que está por vir em sua trama pessoal.

Passivos:
Nível 1
Nome do poder: Taste the Fear (E seus respectivos níveis)
Descrição: Os filhos de Phobos conseguem saber quando um inimigo está com medo. No entanto, tal habilidade só parece funcionar – em tal nível – em inimigos de nível inferior.
Gasto de Mp: Nenhum.
Gasto de Hp: Nenhum.
Bônus: Nenhum.
Dano: Nenhum.

Nível 2
Nome do poder: Imunidade parcial (E seus respectivos níveis)
Descrição: A prole de tal Deus possui uma facilidade em lidar com o próprio medo, entretanto isso não significa que o mesmo é imune ou nunca será atingido pelo mesmo. Apenas sabe como manter tal sentimento controlado.
Gasto de Mp: Nenhum.
Gasto de Hp: Nenhum.
Bônus: Nenhum.
Dano: Nenhum.

Nível 3
Nome do poder: Defesa mental (E seus respectivos níveis)
Descrição: Phobos é conhecido por seus terríveis truques mentais. De maneira que, a prole de tal Deus será mais resistente aos efeitos de ilusões. Entretanto, vale ressaltar que ilusões criadas por inimigos de mesmo nível ou superior irão atingi-lo.
Gasto de Mp: Nenhum.
Gasto de Hp: Nenhum.
Bônus: 20% de resistência a ilusões e truques mentais.
Dano: Nenhum.

Nível 20
Nome do poder: Cura (E seus respectivos níveis)
Descrição: Caso um semideus/monstro inimigo seja intimidado e/ou esteja sofrendo de grande medo, a prole de Phobos poderá se curar, como se estivesse sendo alimentado por tal poder, no entanto também irá sentir parte do medo do inimigo, podendo paralisar com tal medo. Só poderá ser utilizado uma vez a cada três turnos.
Gasto de Mp: Nenhum.
Gasto de Hp: Nenhum.
Bônus: + 10 de HP;
Dano: Nenhum.

Ativos:
Nível 1
Nome do poder: Transformação em Sombras (E seus respectivos níveis)
Descrição: As sombras de certa forma podem ser assustadoras, elas causam temores, e vem acompanhada daquela sensação estranha de estar sendo observado. Os filhos de Phobos/Timmor, conseguem transformar partes do corpo em sombras, ficando com a aparência desfocada, semelhante a fumaça negra flutuante. Nesse nível, no entanto, só conseguem transformar um membro do corpo por vez, braços ou pernas. Qualquer coisa que tocar as sombras, passara através, sem atingir o semideus. Estando dessa maneira, com a parte do corpo envolta em chamas, também não poderá causar danos físicos aos seus oponentes, ou segurar armamentos.
Gasto de Mp: 10 MP por turno ativo.
Gasto de Hp: Nenhum
Bônus: Nenhum
Dano: Nenhum
Extra: Nenhum

Nível 7
Nome do poder: Teletransporte (E seus respectivos níveis)
Descrição: Assim como seu pai consegue desaparecer em uma cortina de fumaça amarela, o filho do deus do medo também pode. Nesse nível, suas habilidades ainda são falhas, e só consegue desaparecer e aparecer novamente a poucos centímetros de distância, não podendo viajar através do teletrasporte para muito longe. Por estar sem controle desse poder, as chances de aparecem no lugar desejado são pequenas, e falhas, portanto, você pode escolher se teletransportar para cima de uma arvore, mas acabar parando sobre seus pés, ou antes de chegar a ela. (Máximo 50 metros de distância).
Gasto de Mp: 25 MP por turno ativo
Gasto de Hp: Nenhum
Bônus: Nenhum
Dano: Nenhum
Extra: O local de destino do semideus, pode ser manipulado pelo narrador, devido à falta de controle do mesmo sobre esse dom.



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Samanta Sink
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Re: Point Of No Return || CCFY || Samanta Sink

Mensagem por Zeus em Dom Mar 26, 2017 4:18 pm


Liderança do chalé de Ares conquistada.
Avaliação
Realidade de postagem + Ações realizadas – 900  xp
Escrita: Gramatica, erros, pontuação, coerência, concordância e etc –  1,000 xp
Criatividade/Estratégia em combate + inteligência  – 1,000  xp
TOTAL: 2.900 x 5 = 14,500XP

+
Nome da Benção: Receptáculo de Phobos
Descrição: Consiste basicamente em disponibilizar uma partícula de poder dos filhos de Phobos, ou do próprio deus para a filha de Ares. Sendo Samanta irmã do deus do medo, e seu recepta-lo preparatório, a jovem fica apta a receber tais poderes, mas também restringida. Sua lealdade agora é apenas com Phobos, portanto a jovem não poderá tornar-se seguidora de nenhum deus, nem mesmo uma Lycan.
Gasto de MP: O mesmo dos poderes que forem utilizados.
Gasto de MP: Nenhum
Bônus: Os mesmos dos poderes passivos utilizados.
Extras: (os poderes da lista são limitados a esses (passivos e ativos): Imunidade parcial, Taste the Fear , Defesa Mental, Cura, Transformação em sombras, e teletransporte, todos com seus respectivos níveis de poder. Tais poderes serão liberados de acordo com os níveis presentes na lista.


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Zeus
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