The Blood of Olympus
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CCFY ~ Awakening

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CCFY ~ Awakening

Mensagem por Evie Farrier em Qua Mar 08, 2017 8:22 pm



The Awakening (Part One)
Make deals with every devil in sight  



O Segredo de um Fantasma

O Acampamento Júpiter, às vezes, parecia fazer parte de uma realidade alternativa. Ao atravessar um simples túnel, você se deparava com uma sociedade secreta composta por pessoas meio-humanas ou seres etéreos. Havia uma cidade inteira ali dentro, escondida da humanidade e, ao mesmo tempo, tão próxima. Diferente do Acampamento Meio-Sangue, os romanos eram praticamente autossuficientes. Liderados pelos seus, possuía um sistema político e militar próprio. Além de um elefante como mascote. Seres de diferentes tipos residiam por ali, principalmente na época do verão. Animais fantásticos. Feras selvagens. Ninfas e faunos.

E os lares.

Os lares eram espíritos protetores, fantasmas de guerreiros ou pessoas importantes em Roma. Eles vagavam protegendo as Coortes e alguns locais importantes de Nova Roma. O que poucas pessoas sabiam era que existiam ramificações de lares, cada um com sua função e que, nos tempos antigos, eles eram primordialmente cultuados. A importância não era apenas de proteção, mas sim o significado de continuidade da família.

Como eu sabia disso? Há dias um maldito Lar ex-legionário vivia cochichando informações ao pé de meu ouvido. Albert von Hicken achava necessário que eu, como centuriã, tivesse todo o tipo de conhecimento sobre os seres ao meu redor. Isso incluía os mortos.

-... e tem os Lares praestites, os guardiões de coisas públicas; os Lares permarini, eles defendem e protegem os navegantes...

-Albert! – resmunguei o nome dele parando bruscamente.

Estava tentando redigir os relatórios que tinha de mandar para as pretoras. Essa era, definitivamente, a parte mais chata de ser uma líder da coorte. E, como se já não fosse ruim a burocracia, eu tinha um fantasma flutuando de um lado para o outro dando informações irrelevantes para o momento. Joguei a caneta que usava contra a mesa e levantei da cadeira a qual estava durante quase duas horas completas. Virei meu corpo em direção ao ser fantasmagórico, uma ruga de irritação reinava entre minhas sobrancelhas.

-Eu já entendi, mas você não poderia vim em uma hora melhor? – questionei em um tom controlado, ou logo estaria gritando com um fantasma.

-Você sempre está ocupada – ele deu de ombros e pareceu prender o riso fazendo caretas de contenção – E é muito divertido assustar você!

O rosnado saiu do fundo de minha garganta e, se fosse possível, eu teria pegado aquela cadeira e jogado na cabeça daquele infeliz. Tudo havia começado em uma noite quando sai para beber água. Obviamente que eu tomaria um susto ao ver um Lar com metade do corpo na mesa e a outra metade sabe-se lá aonde. Ou quando ele, em um outro momento, flutuou sorrateiramente para atrás de mim e, com aquela voz em tonalidade fantasmagórica, fez um simples “bu”.

-Você tem tantos outros centuriões e senadores, me dê um tempo Al! – exclamei cansada.

-Mas nenhum deles é como você, que é como eu sou... Ou fui no caso – o fantasma fez um semblante confuso antes de dar de ombros – A maioria são uns caretões mesmo, você é mais divertida de atormentar.

-Ao menos admite que está me atormentando! – exclamei frustrada.

Ele riu e mais uma vez deu de ombros. Olhei para a mesa e soltei um suspiro resignado, começando a ajeitar os papéis para levar até o Fórum. Enquanto isso, Albert começou a tagarelar mais uma vez. Tentei ignorar, assumindo que a tática poderia fazer com que o fantasma guardião deixasse de me atormentar por algum tempo. Porém ele me seguiu para fora do alojamento e por quase todo o caminho. Eu já avistava os portões de Nova Roma, vendo Terminus falando energeticamente com um campista novato. Provavelmente dando uma lição de como era proibido armas dentro da cidade romana.

-...e você sabe que cada vez mais os legados estão nascendo mais humanos do que semideuses? Bom, eu era um caso assim até que me aventurei em uma jornada para despertar as minhas habilidades ocultas e...

-Espera – por mais que eu tentasse fazer o semblante de indiferença, não havia como não acabar escutando o que ele falava. Porém, aquele trecho em específico, me fez parar no meio de caminho e observar o garoto mais atentamente – O que você disse sobre uma jornada para despertar habilidades?

-Você não estava me escutando?! – Albert tinha um semblante entre magoado e indignado – Eu estava prestes a contar uma das maiores aventuras de quando ainda estava vivo!

-Conquistou minha atenção, nunca ouvi falar sobre uma jornada dessas...

-Ah minha jovem legionária, há muitas coisas que você não conhece! Eu aprendi isso quando cai no---

-Albert, foco!

-Essa também é uma ótima história!

-Que poderá me contar outro dia, eu não conseguiria me livrar de você mesmo. Poderia então focar na sua jornada?

-Ok, ok – ele ergueu as mãos e começou a resmungar algo sobre mulheres, porém paralisando ao notar meu olhar nada amigável – Você sabe que há semideuses que nem descobrem quem são por não ter suas habilidades despertadas, certo? – ele introduzia de maneira teatral, flutuando ao meu redor – Algumas figuras importantes e famosas, por exemplo, com um encanto extraordinário, mas sem desenvolver aquele algo a mais que nos torna perfeitos alvos dos deuses e dos monstros.

-Sempre achei que Beyoncé é filha de Febo – concordei deixando um pensamento distraído escapar.

-Assim como desconfio da Angelina Jolie ser filha de Vênus, deuses aquela mulher! – Albert suspirou e piscou várias vezes antes de balançar a cabeça como se afastasse pensamentos impuros – Isso vale para os legados, principalmente como nós.

-Como nós? – repeti confusa, afinal apenas sabia que aquele Lar havia sido um legado.

-Filhos de deuses com semideuses, nosso DNA humano é ainda menos ativo e o divino é mais dominante. Só que para a maioria, um lado acaba sendo mais dominante que o outro, adormecendo o poder do parente divino mais distante – Albert repousou a mão no queixo pensativo com sua explicação – Eu levei anos para chegar nessa explicação e ela soa tão pequena e óbvia agora!

-No que isso influenciou em sua jornada?

-Bem minha cara, eu descobri um jeito de despertar as habilidades adormecidas! – a cada exclamação, Albert parecia se vangloriar ainda mais, seu peito estufado e o queixo erguido – Equilibrar minhas forças interiores! Me tornar ainda mais temido e respeitado!

-E como você fez isso? Parece algo realmente grandioso.

-Eu tive muito trabalho e fora deveras difícil encontrar a... a... – o tom animado foi diminuindo, o cenho do fantasma franzindo até os ombros caírem e a cabeça tombar para trás dramaticamente – Eu não lembro!

-O que?!

-Eu morri com várias pancadas na cabeça, sabia?! Isso afeta o cérebro de um morto! – ele se defendeu prontamente – Eu sempre tive medo de esquecer as minhas grandes aventuras, então eu anotava tudo em meu diário. Eu o carregava para todos os lados, até mesmo em minhas missões ou quando precisava ir ao toalete...

-Albert, muita informação! – fiz uma careta de nojo com a imagem implantada em minha mente – Onde está o diário?

-Eu... Eu o tinha o tempo todo comigo! É tudo o que eu estou conseguindo lembrar. Mas sabe o que eu lembro? De uma vez que eu enfrentei um monstro muito esquisito, guardião de uma arma peculiar e---

O som de frustração e irritação que escapou do fundo de minha garganta foi a expressão mais sincera que eu poderia ter naquele momento. Ajeitei os papéis em minhas mãos, indo finalmente para Nova Roma ter uma hora ou duas da mais pura burocracia.

♣♣♣


Meu corpo desabou na cama do alojamento, minha mente tão cansada que eu sentia uma pequena pontada na parte detrás da cabeça. Resmunguei enquanto girava o meu corpo e agarrava o meu travesseiro, o abraçando forte almejando que aquele dia apenas acabasse de uma vez.

Era engraçado o momento em que parávamos nosso corpo para poder descansar ou adormecer. O que se passava na mente minutos antes de Somnia nos levar para os braços de Somnos, deuses do sono e dos sonhos? Alguns provavelmente ponderavam o que tinha dado de errado durante o dia, outros imaginavam e criavam coisas com sua mente criativa. Porém, comigo, eu sempre pensava nas coisas que eu havia vivido, seja no dia ou meses atrás. Naquela noite eu estava fazendo caretas ao ter minha mente lembrando pedaços dos contos mirabolantes de Albert.

“... eu o tinha o tempo todo comigo!”
Acordei de súbito, mal tendo a percepção de quando realmente havia adormecido. Porém, aquela frase reverberou por minha mente, saindo do inconsciente para chutar em meu consciente uma informação importante. Como eu não havia deduzido isso antes?

Saltei para fora da cama, meus passos pesados e apressados em direção do banheiro fizeram os legionários ainda adormecidos resmungarem. Um banho rápido, higiene matinal completa, vesti o mais rápido que meus movimentos desajustados poderiam permitir. O sol mal havia dado seus primeiros sinais de glória, quando eu havia saído do alojamento da Segunda Coorte. Segui diretamente em direção a um dos locais pouco visitados, mas muito respeitados pelos romanos: o cemitério.

Em meio ao caminho, havia capturado uma pá velha, mas que serviria para o meu propósito. Oh deuses, poderosa era minha curiosidade para mover meu corpo naquele horário tão incomum, o enchendo de energia e nublando o discernimento.

-Os deuses ajudam quem cedo madruga!

O susto foi inevitável e, por puro reflexo guerreiro, ataquei com a pá que segurava. Felizmente o metal chapado atravessou a cabeça fantasmagórica. Claro, era Albert atormentando-me desde as primeiras horas da manhã. Porém, pela primeira vez, eu estava realmente contente em encontrar o Lar tagarela.

-Albert, onde você foi enterrado? – questionei sem esconder a afobação.

-Acho que não escutei bem – Albert riu forçadamente, cruzando os braços – Pensei ter escutado você querendo saber onde está o meu corpinho...

-Sim! Pensa bem, você disse que sempre está com seu diário, então... Ele deve estar enterrado com você!

O lar encarou-me como se fosse maluca até que, pouco a pouco, sua expressão foi mudando. Ela tornou-se surpresa, como se finalmente tivesse descoberto algo importante.

-Eu não estou enterrado junto com os outros, meu pai enterrou meu corpo em meu local favorito! Venha comigo, Farrier!

Naquele momento eu descobri o quão rápido um fantasma podia flutuar quando estava com pressa. Eu tive de correr para não perder de vista o vulto fantasmagórico do legado. Ele seguiu em direção a floresta, atravessando árvores, sendo cortado ao meio por galhos. Quanto a mim? Tinha de me virar para desviar, saltar, abaixar e não ser atingida pela mãe natureza. O lar parou apenas quando alcançamos uma lareira em meio a enormes árvores, flutuando bem próximo a um tronco partido ao meio.

-É aqui – ele falou tão baixo que eu quase não podia escutá-lo.

-Tem certeza? – questionei tentando regularizar a minha respiração depois daquela corrida.

-Sim, olhe.

Ele apontou para o tronco partido e, ao me aproximar, pude vislumbrar um “von Hicken” marcado na madeira. Provavelmente feito com uma lâmina pequena, a letra já estava quase intangível. Respirei fundo e olhei para o garoto fantasma, agora ele encarava um ponto perdido no chão. Não precisei questionar, apenas girei a pá em minhas mãos e me pus a cavar no ponto que ele encarava sem nem ao menos piscar.

Graças a minha força herdada de Belona, aquilo levou metade do tempo esperado. Logo eu avistava o primeiro sinal de ossos humanos, largando de lado a pá para poder começar a cavar. Não me importava em sujar as mãos, porém me incomodava aquele silêncio abrupto vindo do lar tagarela. O quão estranho deveria ser para alguém morto ver seu próprio corpo deteriorado? Sem saber o que comentar, também havia escolhido o silêncio, julgando ser melhor do que falar algo desnecessário.

-Aqui! – exclamei impulsivamente quando meus dedos tocaram a couraça de algo e não a dureza de ossos – Achei.

Puxei o item fazendo com que a terra caísse por todos os lados. Estava sujo, mas a capa protetora de couro havia feito muito bem o seu trabalho e preservado da melhor forma possível. Sai de dentro do buraco que havia feito, sentando no chão com o diário. Albert flutuou ao meu lado, seu corpo na altura do meu.

-Deuses! Você estava certa! Eu havia esquecido onde estava meu próprio diário! – Albert dizia, retornando ao seu jeito energético de falar – Olha, aqui o desenho do monstro que eu te falei! Eu disse!

Havia mesmo um desenho muito mal feito de um monstro que parecia meio urso, meio macaco. Acabei olhando para ele de maneira cética, mas com um ar risonho. Aquilo parecia ter sido desenhado por uma criança, afinal. Passei mais algumas páginas com muito cuidado, elas estavam amareladas e sujas, frágeis pelo tempo e pelo local onde haviam estado por anos.

-Aqui! É esse o ritual! – ele apontou e parou por poucos segundos, seus olhos quase dobrando de tamanho – Eu lembro! Em partes, mas lembro! É um ritual de passagem para um local perdido, mas que ajuda a entrar em contato com coisas possíveis e impossíveis. Isso inclui as habilidades naturalmente adormecidas ou subjugadas!

-Um ritual? Eu sempre esqueço que você foi filho de Trivia – franzi o cenho encarando o diário  - Você tinha uma letra horrível, isso é ao menos inglês?

-Oh cale-se, você tem em mãos um grande tesouro! Agora poderia, por favor, me enterrar novamente? É muito estranho ver esses ossos e pensar que aquilo era eu, um lindo e encantador aventureiro!

Revirei os olhos, mas não podia deixar de atender aquele pedido. Coloquei o diário preso a minha calça, na lateral de meu quadril pela parte de dentro. Era pequeno e relativamente fino com cerca de 150 páginas, nada parecido com um exemplar de Game of Thrones, por exemplo. Tendo enterrado Albert mais uma vez, fiz uma breve reverência, afinal – querendo ou não – ele havia sido um legionário de minha coorte e ainda continuava a prestar serviços mesmo depois de morto. Sentei próxima do tronco marcado, encostando na madeira para poder ler o ritual e todos os detalhes sobre ele. O que levou quase uma hora para concluir uma leitura de duas páginas, graças a letra medonha que Albert tivera.

-Já sabe o que fazer? – o fantasma questionou flutuando ao meu redor.

-Claro que sim! Agora vamos!

-Ah, dessa vez minha pequena aprendiz, terá de seguir sozinha! – ele sorriu estranhamente, provavelmente tentando aparentar sedução – Eu tenho um encontro com uma linda donzela que morreu muito jovem.

-Fantasmas namoram?! – a surpresa com a informação foi genuína.

-Nós temos sentimentos, sabia?!

Apenas acenei com a cabeça concordando, mesmo sem entender bem como isso funcionava. Albert fez uma exagerada reverência, abaixando o tronco do corpo e esticando o braço esquerdo para o lado. Revirei os olhos o observando flutuar enquanto assoviava, um pequeno sorriso aparecendo em meus lábios. Ele podia ser insuportável, mas ainda assim, havia me acostumado com isso.

-Bom, agora vamos à caça de itens completamente estranhos. Por onde começo?

Pela macumbeira que eu mais respeito, é claro.


♣♣♣


Todo ritual tinha o seu nível de dificuldade. Desde os mais simples aos mais complicados, não havia como negar que um ritual era quase uma ciência e uma arte. Eram necessários itens específicos, condições, posições das estrelas, fases da lua, desenhar corretamente o círculo mágico, pronunciar corretamente o encantamento... Tudo precisava ser feito minunciosamente, delicadamente e sem pressa.

Porém, eu sabia que a parte mais difícil do ritual não seria ele em si... Mas sim, acordar uma feiticeira que mais parecia um panda dorminhoco e que poderia ficar violenta se despertada de uma maneira errada.

Ainda era surpreendente o fato de que eu tinha um lar, um lar de verdade e não um alojamento, e que dividia a casa com alguém. De início foi uma confusão cômica, agora o sentimento de pertencer já havia domado o meu coração. Assim, sempre que eu abria a porta da mansão eu tinha um sorriso pequeno no canto dos meus lábios. Olhei ao redor, deixando que a sensação de familiaridade envolvesse meu corpo em um abraço caloroso. Mas assim que meus olhos repousaram sobre as escadas, um suspiro pesado escapou.

Não passavam das oito e meia da manhã. Minha roupa ainda continha vestígios de terra, meu espírito a muito tempo desperto. Subi as escadas pensando em estratégias, fazendo rotas de fuga em minha mente, analisando as chances de um feitiço de morte escapar pelos lábios sonolentos de Pandora. Exagerado? Não quando se tratava dela.

Parei defronte à porta de madeira muito bem entalhada, deixando que longos segundos se arrastassem antes de, finalmente, repousar a mão sobre a fechadura e abrir a porta. A grega estava deitada de um jeito completamente confuso. Parte de uma perna para o lado de fora da cama, o cobertor a cobrindo até a cintura, a mão pousada sobre a barriga exposta já que a blusa havia subido bons centímetros. O rosto virado para o lado da entrada me permitia ver a boca entreaberta e escutar o ressoar derivado de um sono pesado. Mordi o lábio inferior com força para segurar a risada, aproximando cautelosamente.

-Pandora... – murmurei abaixando meu corpo ao lado da cama – Panda, acorda – nem um sinal de vida foi emitido pela garota, levando-me a tocar o ombro dela e sacudir de leve – Eu preciso falar com você! Pandora! – ela resmungou, balançou a cabeça para o lado e apenas puxou o travesseiro para abraçar com um sorriso tapado no rosto, murmurando pizza. Revirei os olhos e levantei, decidindo fazer algo mais efetivo. Respirei fundo e então gritei – OH MEUS DEUSES, A LAUREN ESTÁ PELADA!!!

O que aconteceu a seguir estaria gravado carinhosamente em minhas memórias. A feiticeira, uma das mais poderosas de nossa geração, caiu atrapalhadamente no chão ao levar um susto. Seus olhos bem abertos vagando pelo quarto em busca do que foi proclamado. O cabelo tão liso estava uma bagunça, o cobertor havia embolado ainda mais no corpo magro da semideusa.

-Onde? Lauren? Pizza? – ela perguntou de maneira confusa, piscou várias vezes até seus olhos claros repousarem em mim, que tinha uma grande dificuldade em segurar o riso – Evie?... EVIE FARRIER!

Eu já podia escutar as engrenagens do cérebro da grega maquinando alguma maldição por ter sido despertada daquela forma. Então, de maneira desesperada e rápida, corri na direção da garota caída, ajoelhei e tampei a boca com a palma de minha mão. O olhar se tornou ainda mais furioso, me fazendo tomar fôlego e falar de uma vez.

-Preciso de sua ajuda! Eu vou sair em uma missão pessoal, ficarei alguns dias foras. A mansão é toda sua, pode fazer o que quiser, até contrato alguém pra limpar depois. Também te dou uma semana de pizza! – Pandora franziu o cenho parecendo processar tudo o que eu havia falado e, lentamente, foi arqueando as sobrancelhas demonstrando interesse – Onde está o seu espelho dimensional? Eu preciso pegar emprestado para um ritual.

A feiticeira ergueu a mão apenas para retirar a minha de seus lábios, olhando-me evidentemente chateada.

-Serão pizzas extra-grandes, vou logo avisando. Estão lá no closet, boa missão, volte inteira, traga comida estrangeira se for sair do país. Ou simplesmente traga comida.

Revirei os olhos, levantei escutando os resmungos da feiticeira e, a passos largos, caminhei até o closet dela. Pandora era uma feiticeira com um talento incrível para criar itens mágicos e, não tão recentemente, ela inventou os espelhos dimensionais. Ele permitia que uma pessoa transitasse de um lugar para o outro apenas atravessando a plataforma de vidro. O ritual de passagem para o lugar que eu almejava exigia um item dimensional. Pelo diário de Albert, o legado havia usado uma pedra lunar extremamente rara que ligava os poderes da terra aos da lua.

Um pouco antes de sair do quarto, lancei um beijo em direção a Pandora, recebendo um ato carinhoso demonstrado pelo erguer o dedo do meio de sua mão esquerda. Fechei a porta finalmente rindo baixo. Não havia dúvidas de que viver com aquela grega estava tornando os meus dias... peculiares.

Sendo em teoria o espelho o item mais complicado de ser conquistado, os próximos da lista podiam ser encontrados na loja de material mágico. Velas, sal, pelos da crina de um Pégaso e spray de tinta branco para poder desenhar o círculo mágico.

Materiais recolhidos, restava apenas esperar pelo momento certo para realizar um ritual secular. O que seria senão o destino a mostrar meu caminho ao fazer com que encontrasse o diário de Albert no dia em que a lua estaria cheia e alinhada corretamente com os astros?


O Ritual de Passagem


“... eu precisava de um local propicio aos elementos primordiais para realizar o ritual. Onde a natureza fosse pura e distante da contaminação do mundo humano. Qual seria a minha surpresa ao encontrar esse lugar no Acampamento Júpiter?” (Trecho do diário de Albert).

Deduzir onde seria o lugar ideal para o ritual havia levado umas boas horas. Infelizmente Albert não foi muito específico ou deixou mais pistas do que um parágrafo.

Era uma hora da manhã quando alcancei o rio do acampamento. Levando em consideração a condição natural almejada para o ritual, aquele lugar parecia ser o ideal. Eu sabia que as ninfas que cuidavam daquele pedaço do Acampamento eram dóceis, mas ferozes quando se tratava em proteger a sua fonte original. Não haveria lugar com água mais pura do que ali, assim como a vegetação ao redor simbolizando a terra. As velas responderiam pelo fogo e, bem, o ar estava presente em todo o globo terrestre.

Decidir a hora também havia levado um tempo. Calcular quando as posições dos astros anotados por Albert estariam alinhadas à lua exigia paciência e precisão. Teria exatamente trinta e cinco minutos para deixar tudo preparado para o ritual. Deixei todo o material necessário encostado a uma árvore, pegando de dentro de minha mochila o spray de tinta branca. O primeiro passo era desenhar o círculo mágico para o ritual. Anteriormente, havia tido de adaptar todas as medidas, já que o espelho era muito maior do que a pedra lunar que Albert havia usado. Sempre com o diário dele nas mãos, observando cada traço necessário, desenhei o círculo entre duas árvores, a poucos metros de distância da água do rio. O segundo passo era o de posicionar as velas azuis e brancas em quatro pontos diferentes, alternando as cores entre si. Qual a importância disso? Realmente não sabia, mas era sempre bom seguir as regras. Depois, posicionei o espelho deitado com a face para cima, refletindo exatamente a lua e as estrelas reluzentes ao seu redor.

Chequei o relógio em meu pulso, faltavam apenas dois minutos. Meu coração disparou em ansiedade, a expectativa reverberava por todo o meu corpo. Posicionei-me ao sul do círculo desenhado no chão, ficando de costas para o rio. Inspirei fundo tentando acalmar o meu espírito, revestindo a minha mente de uma confiança que todo mago necessitava ao realizar algo tão singular. Um curto som disparou de meu relógio, um apito que indicava que o momento finalmente havia chegado.

Retirei de meu bolso traseiro uma pequena bolsa de couro contendo o pelo da crina de Pégaso, um animal alado e mágico. Joguei o pelo branco na palma de minha mão, deixando que a bolsinha de couro caísse em qualquer recanto. Olhei para o véu noturno, inspirando fundo para que a coragem dominasse minhas cordas vocais.

"Dolores inferni circumdederunt copiis terra, spiritus, aqua et igni. Veniat ad vota et desideria mea virtutem lunae. Et pro itinere a transcendentalibus, ne quis me locus, quae multa indiget nocte potentia erigat ad expand et spiritum meum. Precipio tibi aperire o aditus alium fac mihi viam in de mysteriis "

tradução:
“Invoco as forças da terra, do ar, da água e do fogo. Invoco o poder da lua para revestir meus desejos e anseios. Rogo por uma viagem transcendental, oh poderosa noite, guia-me para um lugar que muitos anseiam elevar o espírito e expandir meu corpo. Ordeno que abra-te, oh portal para outro mundo, mostra-me o caminho para desvendar os mistérios contidos em mim mesma!”

Ao terminar a primeira invocação, assoprei o pelo da crina. Uma corrente de vento passou por mim, espalhando ainda mais o pelo do animal alado. Eu podia sentir a energia começando a fluir, meus sentindo se expandindo. O farfalhar das folhas tornou-se mais agitado, eu podia escutar até mesmo o rio ainda mais presente! Repeti o encantamento e as chamas das velas tornaram-se verdadeiras labaredas, crescendo até quase trinta centímetros. A minha pele formigava, a percepção do sangue circulando em meu corpo causava uma agitação em meu espírito. Era como se eu pudesse sentir até mesmo o fluxo de energia dentro de meu corpo esvair-se e misturar-se aos dos elementos, fortalecendo e realizando o ritual.

Uma terceira e última vez o ritual foi proclamado. Em um timbre forte, um tom que não continha hesitação, mas sim imperatividade. Bastou que a última palavra fosse recitada para que tudo acontecesse de maneira assustadoramente linda.

As chamas se apagaram. O vento não mais assoviava ao meu redor. Do espelho uma luz passou a circular em seu vidro. Azul. Branco. Lilás. As cores iam ganhando intensidade até escaparem da prisão material e atingirem o ambiente. Subindo como linhas sendo desenhadas em pleno ar. Eu havia prendido a respiração, meus olhos vislumbrando com encantamento aquelas linhas tomando forma. No fim, uma porta se prostrava a minha frente. Feita de energia pura, ela parecia absorver tudo ao seu redor e reluzir em pura magia.

-Eu consegui! – o pensamento escapou tomando forma em minha voz.

Falar isso foi como um despertar. Eu só tinha um curto período de tempo para atravessar aquele portal mágico. No entanto, uma pequena parte de mim relembrava todos os avisos anotados em formas de garranchos. Se eu não conseguisse despertar o poder, poderia ficar presa eternamente naquela dimensão. Se eu despertasse o poder e não o controlasse, morreria pela sobrecarga de energia divina em meu corpo.

Mas havia ali um chamado. Era silencioso, mas parecia gritar para o meu coração para que ele o seguisse. Uma ordem, um pedido, um clamor. Eu sentia em cada célula em meu ser que deveria fazer aquilo. Sem lógica, sem motivos que poderiam ser verbalizados. Apenas sentidos profundamente em minha alma. Então, pela milésima vez, respirei fundo tentando acalmar meu espírito inquieto e avancei. Estiquei a palma de minha mão e toquei a porta mágica. Ela abriu-se bem a minha frente, exibindo uma luz branca que não machucava os olhos, mas impedia de vislumbrar o que havia do outro lado.

Recolhendo cada resquício de coragem, eu simplesmente me joguei dentro da luz branca. Não foi um passo cauteloso, não foi uma passagem tranquilo. Meu corpo foi impulsionado com tudo para frente, não deixando dúvidas para a minha mente. A sensação de queda foi eminente, fazendo-me gritar em surpresa e desespero. Entretanto a queda tornou-se sem fim. Tudo girava ao meu redor, causando uma sensação horrível para os meus sentidos que em nada conseguia se fixar. O tempo parecia parado, inerte ao meu corpo que despencava de um mundo para o outro.

Até que tudo parou.

Até que tudo se tornou dor quando meu corpo chocou-se em algo.

Ainda de olhos fechados, girei meu corpo para ficar de bruços, erguendo meu corpo apoiando-me nos cotovelos e joelhos. Tudo o que eu havia comido parecia ter saído de minha boca em forma de vômito. Nunca mais julgaria quem vomitava depois de ir a uma montanha russa. Depois de expulsar tudo de meu estômago, ajoelhei erguendo o meu corpo e esfreguei os olhos tentando afastar aquela sensação de que eles estavam turvos.

Ao conseguir focalizar o ambiente ao meu redor eu tive certeza de que não estava mais nos Estados Unidos. Merda, eu provavelmente nem na Terra estava mais! O cenário a minha frente era surreal, não seguindo muitas leis físicas. Havia uma arquitetura circular ao meu redor que parecia estar em ruínas, era enorme e nos locais quebrados algumas pedras flutuavam, como se tivessem se deslocado e permanecido ligada ao local repartido. O rio ao meu lado possuía uma correnteza forte, era tão límpido que eu podia ver as algas e os peixes mais estranhos. A minha frente havia uma construção difícil de ser explicada. Uma enorme porta a mantinha separada de todo o lugar, lembrava um morro que foi repartido ao meio, coberto por musgo resplandecente. Nesse morro, uma tubulação permitia que a água caísse como uma cachoeira diretamente no rio.

-Deuses – murmurei ainda tentando processar os detalhes ao meu redor.

-Olá.

O susto foi eminente. Saltei com tudo para o lado esquerdo, ao escutar a voz estranha advinda do meu lado direito. Caí no chão e escutei o riso divertido de uma mulher. A reclamação engasgou-se em minha garganta, tornando quase impossível respirar. Como culpar-me quando estava de um ser tão etéreo e belo? A garota aparentava ter a minha idade, mas era tão peculiar quanto aquele lugar. O cabelo era verde e um pouco abaixo do ombro, sua raiz era normal, mas em meio de caminho tornavam-se verdadeiras e belas penas. Seus olhos eram estupidamente verdes, com um brilho magico hipnotizador. Ao redor dos olhos, uma espécie de tatuagem esverdeada que eu mal conseguia processar a sua forma. A pele levemente bronzeada, a estatura igual a minha.

-Quem é você? – indaguei em um fio de voz.

-Já me nomearam de muitas formas, já que sou apenas a guardiã e guia desse lugar. Assumo a forma que mais tranquiliza o visitante e me agrada. Dar-te-ei o poder de nomear-me, já que serei a sua guia. – ela respondeu de maneira calma.

-Um nome... – repeti pensativa, ainda sem acreditar no que acontecia, mas o que poderia fazer além de seguir o fluxo? – Você assumiu uma forma que não me assustaria e tem esse jeito todo zen e fofo... Serena! O que acha?

-Foi um bom nome – a garota respirou de maneira aliviada – Já recebi nomeações mais inusitadas ou vergonhosas. Por favor, me acompanhe! Sua jornada acaba de começar.



Fim da parte 1


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Re: CCFY ~ Awakening

Mensagem por Evie Farrier em Qua Mar 08, 2017 8:35 pm



Part Two
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O Lar das Possibilidades


Serena guiou-me para o outro lado da porta. Tão mágico quanto todo o resto, eu adentrei um lugar triplamente maior do que aparentava por fora. O teto fechado era mágico, mostrando o universo. Sim, o universo! Planetas e astros, estrelas e uma imensidão sem fim de galáxias. Não havia pilastras sustentando o teto, mas a minha esquerda havia fileiras sem fim de livros, em cada extremidade inicial uma estátua com um deus. Morar em Nova Roma fazia-me familiar a estátuas em homenagens aos progenitores e protetores divinas, ainda mais quando dava-se atenção a Terminus, o guardião da cidade romana.

-O que é esse lugar? – perguntei.

-Acho que entenderá melhor se o chamar do Lar das Possibilidades – Serena explicou enquanto caminhava ao meu lado, um sorriso divertido brindando os lábios bem desenhados – Tudo é possível se você for apto a fazer ou ter. Conhecimentos e habilidades são armazenadas aqui.

-Como quase ninguém sabe sobre esse lugar? – questionei ainda encantada.

-Poucos obtêm êxito no desafio final, onde você demonstra ser capaz e merecedor da possibilidade que almejas. Assim como é difícil chegar até aqui. Um jovem rapaz uma vez dizia que o destino oferecia o caminho até o meu Lar.

-Tenho de concordar com ele.

-Resta-me questionar o que almejas, jovem semideusa.

-Eu sou uma semideusa romana, filha de Nox e de Arthur Farrier, um semideus filho de Belona. Eu quero despertar as minhas habilidades adormecidas de Belona – respondi de forma direta.

-É perigoso almejar ainda mais poder – Serena parou no meio de caminho – Devo questionar-te o porquê.

Até aquele momento eu não havia parado para processar aquele impulso que me levou até ali. Certamente havia algo me puxando, induzindo e atraindo. A ideia tornara-se dominante desde o momento em que Albert a proferiu. Porém... Qual era esse verdadeiro desejo que consumia minhas ações e vontades? Foi olhar para a tatuagem romana em meu antebraço que um sorriso escapou. Eu tinha a minha resposta.

-Eu não almejo poder por orgulho ou vaidade – comecei a explicar e mostrei a minha tatuagem a ela – Isso daqui é um símbolo importante para mim. É o símbolo do meu lar. É inquestionável o fato de que os semideuses sempre estarão em perigo. Nunca há verdadeira paz quando somos nós as engrenagens usadas pelos deuses e destino. E eu quero lutar e defender tudo o que eu acredito e amo. Roma foi o lar que eu nunca pensei em ter, é lá que eu me sinto acolhida apesar do sistema ter defeitos. É lá que novas crianças aparecem assustadas e encontram esperanças de que as cosias possam melhorar um pouco. Eu sinto que eu tenho de fazer isso Serena, e mesmo que tenha sido o destino a me jogar aqui, eu vou obter esse poder para defender o que eu acho certo.

-Mesmo que o destino almeje que você faça algo errado?

-O destino são vários caminhos postos a nossa frente, qual vamos trilhar cabe apenas a nós mesmo. Ou o deus Júpiter não teria permitido o livre-arbítrio se tudo já fosse determinado, apenas ditaria ele mesmo o curso da humanidade.

Serena concordou com a cabeça, seu olhar denunciando seu cérebro processando a minha resposta. Meio minuto depois ela dava de ombros e tornou a me guiar pelo lugar. Haviam três áreas importantes ali dentro. Uma biblioteca detentora de uma gama quase infinita de conhecimento. Uma arena ampla e quadricular e uma área mais doméstica, com quartos, cozinha e apenas um enorme banheiro.

Ao que parecia eu permaneceria ali por muito tempo.

Serena permitiu que eu descansasse, pois realizar o ritual havia consumido uma boa parte de minha energia. Ela mostrou-me um quarto simples, com cama e uma mesa. Não notei os detalhes, apenas desabei sobre o colchão de solteiro e apaguei quase no mesmo instante que minha cabeça encontrou o travesseiro.

Ao acordar, estava faminta. Sobre a mesa, havia roupas novas e simples. Calça e blusa de algodão cinzas. Extremamente confortáveis, não reclamei da simplicidade e até mesmo agradecia. Ao sair do quarto, Serena me esperava com um sorriso simpático e me levou até o lado de fora, subindo uma escada que deu acesso ao topo do morro. Já era noite e o céu noturno era uma visão que tirou meu fôlego por alguns segundos.

Olhando para o horizonte podia ver um campo extenso, dando uma sensação de infinito bem a minha frente. Serena nada falou, apenas caminhou para uma pequena mesinha posta no meio da grama verde. Ela ajoelhou e sentou sobre suas pernas, indicando para que eu fizesse o mesmo. A obedecendo, a vi mexendo nas ervas dispostas sobre a mesinha, as colocando dentro de uma tigela com água e amassando.

-O que está fazendo? – perguntei quando não consegui mais aguentar o silêncio ou a curiosidade.

-Uma combinação de ervas para purificar você.

Você veio de uma era poluída. Se me permite ser sincera em minha opinião sobre sua era seu mundo é desprezível, sem nenhum tipo de respeito ao equilíbrio da natureza. A falta de fé e a poluição corromperam a circulação de energia de grande parte dos humanos, mesmo que você seja apenas meio-humana, ainda possui a corrupção dentro de si e isso iria impedir o despertar. Você precisa estar em completa harmonia com os seus sentidos, com a natureza e o seu espírito.

Como eu poderia defender o meu mundo se ela estava certa? Então permaneci em silêncio, permitindo que aquele ser peculiar continuasse a trabalhar. O ar dali era tão puro que me deixava com uma sensação ainda maior de leveza. Demorou cerca de quinze minutos para aquela mistura de ervas ficar pronta. Serena entregou-me a tigela e fez um gesto indicando que eu deveria beber. Sabe aquele gosto que algo estava estragado misturado à tequila e a pimenta? Não? Pois era exatamente esse tipo de sabor que estava descendo por minha garganta ao beber daquela mistura. Tudo parecia arder e queimar por dentro, literalmente! Por alguns longos segundos eu não podia respirar. Levei minhas mãos em direção a minha garganta e levantei cambaleante, ela havia me envenenado?!

-Fique calma! – Serena de repente estava ao meu lado tentando me amparar, mas eu prontamente a empurrei desconfiada enquanto lutava por ar – Se você lutar contra irá sofrer durante todo o processo, tem de deixar a poluição ir embora de você!

Deixar ir embora? Meu estômago embrulhou fortemente e minha mandíbula travou parecendo que eu iria vomitar a qualquer momento. Estava começando a ficar cada vez mais fraca, a tal ponto que eu não estava aguentando o meu próprio peso. Caí sobre meus joelhos com uma mão ainda em minha garganta e a outra sobre o chão gramado impedindo que meu corpo caísse de vez ao chão.

-Deixe fluir – Serena pediu com uma voz doce vindo de algum lugar ao meu lado – Deixe que o líquido limpe primeiro seus pulmões, você ainda está respirando como uma humana da cidade. Tem de deixar tudo fluir, tente se concentrar em sua inspiração, trague o ar calmamente pelo nariz – eu estava entrando em desespero, era quase impossível manter a calma que era necessário para fazer o procedimento, mas se eu não o fizesse temia o pior. Então depois da terceira tentativa eu finalmente aceitei que aquela ardência não iria me deixar. Tentei pensar que ela fazia parte e assim quando puxei o ar pelo nariz o alívio foi quase imediato. Estava conseguindo respirar novamente – Muito bem, agora sente e se concentre em seu estomago, você irá vomitar tudo de ruim assim que deixar que o líquido faça seu trabalho, não lute contra!

Novamente tive de deixar aquele líquido infernal percorrendo por dentro de meu corpo, um minuto depois eu estava virando o meu corpo e vomitando o que parecia ser todas as minhas refeições do último mês. Foi terrivelmente nojento. Afastei-me daquela gosma que estava em meu estômago e meio que cambaleando caí sentada novamente. A garota de cabelo verde se pós a minha frente e me deu um tempo curto para me recuperar, ajudando-me a levantar logo depois. A sensação? Era de que finalmente estava completamente viva! Meu corpo estava leve e as sensações estavam ainda mais presentes. Uma brisa era capaz de causar um arrepio em meu corpo, o cheiro de ervas relaxava meus músculos e minha densidade estava em total equilíbrio com o lugar. Eu poderia flutuar enquanto andava, tinha quase certeza disso.

-Muito melhor, não acha? – Serena sorria convencida – Vocês humanos perderam o contato natural com o ambiente em volta, quase um sacrilégio para o próprio corpo.

-Não posso apresentar defesas para essa acusação – disse aceitando aquela realidade apresentada por ela – Qual o próximo passo?

-Treinar sua conexão com a energia ao seu redor, então iremos meditar.

-Meditar?!

-Sim, todos os seus sentidos precisão estar apurados, sua energia tem de circular sem impedimentos e se conectar com o ambiente. Não é fácil. Vamos alongar seu corpo para que relaxe um pouco mais.

Revirei os olhos sem acreditar que esse era o procedimento para se despertar algo dentro de si. Porém não podia esquecer que Serena era a minha guia naquele lugar místico, ela certamente sabia o que estava fazendo. Muito menos sentia intenções malignas vindas dela.. Pensando assim imitei os movimentos de alongamento que Serena realizava a minha frente. Após isso ela ordenou que eu me sentasse ao chão novamente. Assim que o fiz, ela concertou a minha postura e ensinou-me um exercício respiratório afirmando que eu deveria manter aquele ritmo e apenas aquele durante toda a meditação. Ela sentou atrás de mim e pousou suas mãos em minhas costas, provocando inevitavelmente um arrepio e um estremecer.

-O que está fazendo? – perguntei levemente desconfiada.

-Sua circulação de energia é diferente – ela observou – Porém ainda assim precisa ser ajustada e equilibrada. Seu corpo tem de estar pronto para despertar e manter as novas habilidades. Certos dons exigem muito de seu físico e espírito, você está tentando uma possibilidade que poderá mudar até mesmo sua forma de pensar sobre as coisas.- Serena explicava - Feche os olhos e perceba a natureza ao seu redor, toda a natureza, cada elemento influenciando cada sentido seu.

Apenas confirmei com um movimento de cabeça e fechei os meus olhos. Foi terrivelmente difícil me concentrar. Agora que meu corpo estava “puro” os meus sentidos estavam processando sensações e percepções que não existiam no mundo humano. Fragrâncias e sons desconhecidos passavam pelo meu olfato e audição, até mesmo o leve roçar da brisa sobre minha pele provocava algo a mais que eu não saberia descrever, pois nunca havia sentido antes. E o que mais me incomodava era sentir a invasão de Serena. A presença dela atrás de mim passava completamente despercebida, mas eu podia sentir a influência dela em minha energia, como se estivesse acariciando e direcionando cada fluxo que corria dentro de meu corpo e espírito. Não sei quanto tempo passou até eu perceber que aquela confusão de sensações só seria resolvida quando eu me concentrasse em acalmar um sentido por vez.

Comecei pela audição. Havia sons que eu nunca escutara na vida e me concentrei neles primeiro até me acostumar com essa existência diferenciada do meu repertório normal. Depois, deixei que eles se mesclassem com os outros que eu já conhecia e finalmente formasse uma perfeita harmonia. Talvez por ser noite e meus sentidos ficasse ainda mais apurados eu poderia escutar até mesmo o leve roçar de uma folha de grama da outra e conviver com isso como se fosse algo normal e natural a minha percepção. O mesmo fiz com o meu tato, deixando que cada sensação sobre minha pele fosse percebida, processada e depois combinada. Repeti o mesmo feito com os outros sentidos e o resultado foi inesquecível. Quando abri meus olhos o mundo parecia completamente diferente apesar de ser exatamente o mesmo de quando eu cheguei. Inspirei profundamente e me senti, pela primeira vez em muito, muito tempo, em paz.

-Pronto – a voz de Serena vinha tranquila – Você está pronta para o próximo passo.

Suspirei e deixei um sorriso desleixado desenhar meus lábios. Apesar de tudo eu estava cansada. Serena ajudou-me a levantar e logo eu estava arrumando minha roupa e cabelo mais por pura mania.

-Qual o próximo passo? – questionei enquanto a seguia para a entrada que dava acesso a escadaria.

-Conquistar o conhecimento de suas habilidades adormecidas – ela explicou quase que cantarolando.

-Como isso vai ser feito?

-Você terá de aceitar o seu lado adormecido.

-Aceitar? E se eu não conseguir?

-Bom... Então você morrerá tentando!

A voz serelepe provocou um arrepio em meu corpo. Mesmo que ela estivesse naquele seu eterno estado calmo, eu sabia que aquela frase era verdadeira.


Aceitando a Fúria


Dessa vez Serena me conduziu até a arena. O lugar não estava mais tão vazio, haviam bonecos de treinamento e uma das paredes estava revestida por um espelho.

-Você deverá sair apenas quando conseguir dominar o despertar – Serena explicou da porta – Boa sorte!

Assim que a porta foi fechada, ela simplesmente desapareceu. Foi como se a parede tivesse sobreposto a madeira, estendendo-se até toma-la por completo. Inspirei fundo e caminhei até o centro da arena. Quase um minuto depois eu estava frustrada por nada ter acontecido.

-Ok, não me deram um manual de instruções, eu devo fazer alguma coisa? – falei alto para o nada que reinava no ambiente – Deuses, isso parece que vai ser demora---

Eu não terminei a minha frase. Três esferas de luz apareceram a minha frente, do tamanho de uma manga ou um punho. Elas circularam ao meu redor e meus olhos tentavam acompanhar os movimentos, alguma coisa ia acontecer e não saber estava afligindo o meu lado estrategista. A apreensão desapareceu assim que uma das esferas brilhantes finalmente agiu. Ela voou em uma rasante, chocando contra o meu peito forte o suficiente para empurrar-me para trás. Meu ar faltou e, quando olhei para baixo, meus olhos dobraram de tamanho. A esfera estava penetrando o meu corpo lentamente!

O grito de dor reverberou todo o local, a dor não amenizando quando aquilo adentrou completamente o meu corpo. A segunda bola pareceu se preparar para vim em minha direção, o medo e instinto me fez agir sem pensar quando dei as costas e tentei correr. Mal dei cinco passos e eu senti o impacto na lateral de minha cabeça, tão forte e poderoso que me fez cair no chão em um tombo que machucou meu braço. A luz incomodou meus olhos, meu cérebro parecia estar sendo corrompido, expandido e esmagado. A agonia parecia alcançar meu espírito que gritava querendo sair por minha boca. A terceira e última bola não esperou como a segunda havia feito. Logo eu sentia o impacto em minhas costas, bem no final de minha coluna vertebral. Dessa vez o impacto fez meu corpo ser amassado contra o chão. A sensação era de que veneno havia sido injetado em minha coluna, invadindo a medula cerebral e se espalhando em toda e qualquer via nervosa.

Eu não sei bem quando havia parado, pois muito menos minha mente ou corpo havia suportado tanta dor. Meus sentidos abandonaram a minha consciência, me fazendo desmaiar.

♣♣♣

O despertar foi infernal.

Minha garganta ardia tornando difícil o simples ato de respirar. Meus músculos pareciam rochas, a cada movimento o atrito entre uma célula e outra provocava uma dor aguda. Demorei quase um minuto inteiro para processar que estava deitada de costas, no centro da arena. Meus olhos vagando sobre o teto, vislumbrando um verdadeiro caos no universo. Meteoros passavam em chamas, atingindo outros astros, explodindo e causando poeira estrelar.

O que estava acontecendo? O que fizeram comigo? Minha mente fervia, procurando respostas para perguntas complexas. Estava sentindo meu peito sufocar, como se alguém esmagasse meu coração e pressionasse meus pulmões. O desespero veio primeiro. Nunca havia processado tamanha dor e agonia ao mesmo tempo, arrancando lágrimas silenciosas pois os gritos estavam enclausurados em minha garganta. Porém outro sentimento surgiu, sua gênese sendo silenciosa e sorrateira, mas ganhando uma força exponencial. A raiva por estar sofrendo sem motivo aparente começou a dominar o meu corpo. Eu sentia meu sangue circulando mais rápido, a agitação tomando conta de mim, mesmo que isso provocasse ainda mais a sensação negativa. Ao atingir minha mente, a raiva que nascia de uma dúvida e indignação transformou-se em fúria. Uma fúria sem lógica, mas tão passional quanto os meteoros explodindo tudo ao seu redor.

Girei meu corpo. Um grito finalmente saindo, reverberando por toda a sala. Não era um grito de agonia, mas sim da mais sincera ira irracional. Levantei cambaleante, minha visão tornando-se sutilmente turva por conta do esforço. Minha cabeça tombou para trás, um segundo grito sendo expulso com toda as forças de meus pulmões. Longo e ameaçador. A fúria que havia crescido tão rapidamente parecia tomar conta não só de meu corpo, mas de meu espírito. O sentimento havia coberto a minha razão em um manto vermelho, a mantendo longe de mim. Guiada pelos instintos, caminhei até o primeiro boneco de treino. Rosnando e grunhindo, o segurei e ergui com imensa dificuldade, mas forte o suficiente para jogá-lo contra o espelho. Eu precisava expelir aquele sentimento, extravasar por meus poros aquele fogo algoz. O instinto destrutivo superava qualquer outro, fazendo-me bater nos bonecos até a epiderme de minhas mãos cederem e sangrar.

Eu estava sem controle algum. A fúria era irracional, dominante, esmagadora. Os gritos vinham como os de uma besta feroz, ensandecida pela violência. Belona era uma deusa da guerra, mas havia um adjetivo sempre a ser acrescentado a sua descrição. Ela era a deusa da fúria em guerra. Talvez ter visto Reyna como pretora do Acampamento Júpiter, o seu porte distante e de guerreira, iludiu a minha ideia de como seria uma prole da deusa romana. Ali, eu havia recebido todas as qualidades da deusa, assim como os seus defeitos. Minha mente não sabia lidar com a emoção tão furiosa, meu corpo não processava a força que eu tinha. A vontade de batalhar e combater era condensada e expelida através de golpes incoerentes e dolorosos.

Eu estava enlouquecendo. Nenhum pensamento sóbrio transpassava minha mente. Eu só queria destruir, batalhar, permanecer lutando mesmo que estivesse sangrando, mesmo que minha voz estivesse falhando depois de tantos gritos e rosnados animalescos. Eu havia acertado o boneco até destroça-lo. A arena estava revestida de vidro depois de quebrar quase todo o espelho da parede com golpes ou arremessando meu próprio corpo contra a superfície espelhada.

Quando meu corpo não suportava mais a força da adrenalina, eu estava caída ao chão. Meus joelhos machucados esmagavam os vidros. Minhas mãos estavam espalmadas sobre o chão enquanto sentia o peso de um planeta em minhas costas. A respiração errática era bem audível, o inspirar e expirar sendo brusco e necessitado. Precisava de oxigênio para manter meus músculos e cérebro funcionando. Meus olhos estavam fechados, os rosnados escapavam baixo como os de um predador ferido e raivoso. Quando senti um fio de força, sabia que meu corpo seguiria o impulso de continuar destruindo. Porém, ao abrir meus olhos, um enorme pedaço de vidro estava posicionado entre meus braços, sendo possível ver o reflexo de meu rosto.

Pisquei várias vezes enquanto minha visão processava a imagem refletida. Uma garota de semblante forte, as marcas no rosto formando uma expressão selvagem. Sobre a pele sutilmente bronzeada estava uma máscara de guerra feita por uma tinta escura. Eu já havia visto aquela garota uma vez, em um sonho (referência a missão do trio fantasma). Ela era uma possibilidade. Alguém sozinha que não ligava para nada além de seu objetivo. Alguém que tinha um sentimento predominante em seu coração, o de vingança. Uma mulher que era violenta, mas não ligava para o sentimento alheio. Eu reconhecia a fúria daquela mulher, a raiva que transbordava em seu olhar claro. Porque aquela mulher era um reflexo do que eu poderia ser.

Do que eu tinha raiva?

Talvez o fato de não saber nada sobre meu pai. Do sentimento de abandono que consumiu a minha infância. Sempre trocando de lares. Sempre sendo devolvida. Nunca compreendida. Eu sentia raiva dos humanos por serem tão mesquinhos e impacientes, por nunca terem entendido o meu lado. Ou simplesmente me aceitado como eu era. Eu os odiava por virarem as costas para mim quando estava mais vulnerável.

Eu tinha raiva de mim, por ser fraca e me deixar atingir por sentimentos estúpidos. Eu tinha a fúria em meu coração que me fazia lutar e matar o inimigo sem hesitar. A raiva, a ira, a fúria... Elas faziam parte de mim. Sempre estiveram ali em uma proporção menor e, ao receber o que eu havia pedido, elas potencializaram. Com um mínimo de capacidade cognitiva, comecei a me questionar algo que parecia vital para o momento. Como eu me livrava de um sentimento tão destrutivo e predominante?

-Você não se livra de seus sentimentos, sua estúpida! – uma voz vociferou a minha frente.

Ergui o olhar e não me surpreendi com o que vi. Mesmo que fosse impossível, mesmo que eu não tivesse uma irmã gêmea. Naquele lugar, tudo era possível. A minha frente estava, bem, eu. A roupa de guerra romana revestia o meu corpo pequeno e franzino. A expressão de raiva não era amenizada pelo olhar feroz. Meu outro eu esticou a mão para me ajudar a levantar. Rosnei para a dor que eu senti em meus joelhos e costas. Mas assim que estive ereta, flagrei-me defronte a uma versão minha que tinha toda aquela raiva, mas a controlava. Ao menos assim pensava, já que ela não estava destruindo tudo como eu ainda tinha vontade de fazer.

-Isso faz parte de você, cada sentimento ruim, cada momento triste forma o que você é! – ela prosseguiu com o seu tom raivoso, uma mão se ergueu e deu um tapa em minha cabeça como uma irmã mais velha – e violenta – faria para educar o mais novo – Você a aceita e controla!

-Mas... Como? Eu mal consigo respirar! – reclamei ofegante, repousando a mão sobre meu peito como isso fosse impedir meu coração de explodir.

-Você pensa a fúria como destruição, então ela será. Você tem de direcionar isso e usá-la a seu favor! Não seja burra, não somos assim. Transforme a sua fúria em sua força e poder.

Transformar e direcionar, era isso o que eu estava dizendo? Porém, bastou apenas pensar mais uma vez no que me deixava furiosa para que o gatilho fosse acionado. Uma dor de cabeça explodiu minha mente. Minhas mãos foram a minha cabeça, a segurando no lugar temerosa de que alguma coisa fisicamente acontecesse. A dor mesclava-se com lembranças. Gritei uma, duas, três vezes... Até não perceber mais nenhum som sendo emitido. As minhas memórias mais dolorosas me dominaram. Eram como imagens, cenas, produzidas a minha frente mesmo que meus olhos estivessem dolorosamente fechados. Todas as vezes em que fui negada pelas famílias. Todas as vezes em que sofri bullying em uma escola por ser simplesmente diferente. A época em que passei nas ruas em uma jornada até o Acampamento Júpiter. Os momentos mais difíceis em missão ou treino. Tudo estava ali ao mesmo tempo se sobrepondo, me atacando como a arma mais letal que existia.

-Não! Não! – exclamei repetidamente – Isso me t-tornou quem eu sou e eu n-não sou destrutiva. Me e-ensinou a dar valor as coisas certas e não d-deixar isso acontecer com m-mais ninguém!

Eu soluçava entre minhas falas arrastadas e sofridas. Eu não sabia que chorava até sentir o gosto salgado das lágrimas em minha boca. Direcionar a raiva, deixar que a fúria tornasse a minha força. Inspirei fundo varias vezes até consegui endireitar minha postura. Eu sentia meu corpo inteiro tremer, a dor de cabeça violenta parecendo similar a uma explosão atômica em cada recanto de meu cérebro. Mas eu conseguia pensar. Eu conseguia não correr em direção a uma parede e não soca-la até quebrar meus dedos ou até mesmo ferir meu pulso.

“Às vezes apanhamos antes de aprender a bater”

A minha frase favorita ressoou em minha mente. Ela podia ter uma aparência violenta e vingativa. Mas eu sempre a interpretara de maneira mais filosófica. Às vezes era preciso entender a dor para combate-la, sentir-se cair para poder erguer-se mais forte. A repeti em minha mente como alguém com insônia contava carneirinhos. Aquela fúria existia e poderia se descontrolar, mas enquanto isso eu a usaria. Ela seria a minha principal arma, mas também a minha maior defesa. Nada apagaria o fogo que envolvia meu espírito.

Ao focar no meu eu novamente, ela estava sorrindo quase que soberba. Ela esticou o braço e eu sabia que aquele era um aperto de mão entre guerreiros que se reconheciam. Então minhas mãos se fecharam no antebraço, um pouco abaixo do cotovelo, assim como ela também o havia feito. A imagem tremeu, como um holograma dando defeito, até transformar-se em partículas de luz e transpassar meu corpo. Provavelmente aquilo havia sido um truque do teste, afinal qual outra explicação teria?

Pelo menos eu podia respirar. Mesmo que a dor ainda latejasse em minha cabeça e corpo, eu conseguia finalmente respirar e raciocinar.

-Olá? Ainda está viva?

Serena havia aparecido, exibindo apenas a cabeça no vão entre a porta e a parede. Eu estava viva, mas bem fraca. Cai sobre meus joelhos e a jovem de cabelos verdes aproximou-se rapidamente.

-Sim, está. Por enquanto ao menos. Você precisa descansar! – Serena exclamava enquanto passava meu braço sobre meu ombro – Nossa, você fez uma bagunça aqui!

Apenas resmunguei, minha cabeça tombando para os lados sem que eu conseguisse mantê-la erguida. Não sei bem como cheguei ao quarto, pois minha consciência finalmente estava cedendo. Pela segunda vez, eu havia desmaiado.


O Teste Final


Depois de apagar por dois dias seguidos – segundo Serena – eu estava sentada a frente de um altar. A garota guia estava ao meu lado, preparando outra poção para que eu finalmente entrasse na última fase. Minhas mãos estavam enroladas em um curativo, assim como meus joelhos. O meu corpo ainda estava dolorido, apesar de ainda ser aquecido por aquele sentimento inquietante. Porém, só pelo fato de estar contendo qualquer ímpeto de destruição, eu considerava que havia conseguido o controle.

-A fase final é um teste – Serena começou a explicar – O deus o aceita e o reconhece como portador de sua energia.

-O deus tem de aceitar? – questionei um tanto confusa.

-Os semideuses tem seus poderes graças aos genes divinos, mas isso só acontece graças a energia cedida por eles. Deuses não possuem biologia comum, de fato a explicação mais próxima que podemos chegar é a de que eles são pura energia. Então, ao ter filhos, os meios-sangues também herdam essa energia, permitindo o aflorar das mais diversas habilidades e dons. Por isso, quando um semideus morre, o deus sente a dor da perda – ela terminou a mistura e entregou a tigela em minha direção – Tome e vá de encontro ao teste do seu deus, ele tem de permitir que a energia dele flua por seu corpo.

-O que vai acontecer quando eu tomar isso aqui? – peguei a tigela olhando aquela gosma azulada.

-Sua consciência será mandada para o deus e você estará com ele até o fim.

Respirei fundo apertando a tigela com certa firmeza. Se a preparação foi aquele verdadeiro pesadelo, o que eu poderia esperar do verdadeiro teste? Porém, não havia mais volta, então ergui a tigela e tomei aquele líquido estranho o engolindo junto com a coragem.

-Ok, agora eu tenho de esperar quanto tem...

Eu mal terminei a frase quando tive um blackout. Tudo simplesmente apagou ao meu redor, como se tivessem desligado todas as luzes e dado pausa no tempo.

-...po vai levar?

Ao terminar a frase meu coração errou umas boas batidas. Eu já não estava mais ao lado de Serena e duvidava que eu ainda estivesse no Lar das Possibilidades. Olhei ao redor em puro choque, sentindo um calafrio percorrer a minha espinha ao discernir as coisas que me envolviam.

Guerreiros. Homens e mulheres trajando armaduras romanas completas, portando lanças ou espadas curtas. Elmos gloriosos sobre a cabeça, olhar firme para a frente. Eu estava no meio de uma unidade de guerra, na linha de frente! No horizonte eu podia avistar a descida de uma pequena depressão que formava uma ladeira. Meio quilometro a frente estava o inimigo. Um mar de monstros e guerreiros trajando também armaduras negras simples e armas.  Ao olhar para baixo, almejando observar meu próprio corpo, vi que também usava uma armadura romana de metal dourado. Presa a minha cintura, embainhada, estava a minha espada. Mas o que...

-ROMANOS!

O grito veio seguido de uma imagem que eu nunca iria esquecer na vida. Majestosamente montada sobre um cavalo marrom de crina escura, estava uma mulher. A armadura dela era bem mais elaborada, cheio de detalhes sobre o metal, porém ainda mantendo o estilo romano. A sua capa era vermelha, a falta de elmo permitia o vislumbre de seu cabelo curto e repicado. Os olhos eram de um vermelho selvagem fascinante, brilhante e que anunciava a briga. Presa em suas costas uma enorme espada bastarda. Qualquer um que visse aquela arma pensaria em um homem gigante a portando, porém, ninguém ousaria duvidar que aquela mulher com ar perigosamente fatal não pudesse manejá-la com perfeição.

-O inimigo se prostra a nossa frente ousando pensar que pode nos subjugar! – a mulher vociferava, seu cavalo indo de um lado para o outro em um limite de cinco metros. Meus olhos a acompanhavam com uma fascinação natural – Nós vamos lutar e mostrar a honra e orgulho romano! Vamos esmagar a vontade e o espírito demoníaco com nossas próprias mãos! Sigam meu comando, romanos, deem-me a vitória e eu vus darei a glória!

O grito de guerra que se seguiu arrepiou cada pelo de meu corpo. Era como uma onda de vontade contagiosa, uma energia de guerra que dominava todo o grupo o transformando como um. Eu poderia não saber quem era o inimigo ou o porquê de estarmos ali, mas o desejo de batalhar cresceu e explodiu como um vulcão, incinerando tudo que estava ao seu redor. A mulher sobre o cavalo parou a minha frente, seus olhos vermelhos sangue me fitaram de maneira intensa que fez meus ossos tremerem.

-Lute – ela ordenou em um tom baixo, mas feroz – Lute e me mostre ser merecedora, Farrier!

Então era esse o teste final. Lutar em um combate liderado pela própria deusa da guerra! Não estava surpresa, mas eu sentia o meu sangue fervendo, meu coração batendo em temor e excitação. Mais um grito de guerra e meu espírito estava envolvido por um manto de batalha. Eu apenas concordei com um acenar de cabeça, meu olhar tornando-se tão furioso quanto o dela.

-Preparem-se legionários! – Belona gritou o comando.

Todos sacaram as espadas. A deusa da fúria em guerra posicionou-se sacando também a sua arma bastarda. Ela a segurava como se fosse um florete, uma das espadas mais leves. Meus dedos fecharam-se mais firme quando escutei o som poderoso de uma trombeta sendo tocada pelo lado inimigo. Ele também se preparava para o ataque!

-POR ROMA!

O clamor foi repetido por cada legionário. O cavalo empinou as patas dianteiras formando uma imagem dignada de uma divindade guerreira. Então ela avançou rapidamente, sendo a primeira que iria sofrer o impacto e provocar a destruição da linha de frente do inimigo. Como uma verdadeira deusa destemida, como uma general sanguinária. Meu corpo moveu-se junto com os outros legionários, naquele momento era como se fossemos um só. Sem saber o nome ou reconhecer rosto algum, o que tínhamos em comum era aquele fervor em defender a honra e glória romana!

No meio de caminho uma enorme sombra nos cobriu. Ao olhar de relance para cima eu podia ver que o céu havia sido coberto por uma onda de flechas. Oh deuses, aquilo era mesmo uma guerra! As flechas atingiram os inimigos antes de nós. Uma parte caiu, outra foi machucada, mas uma maior ainda conseguiu defender com escudos de madeira.

Ao atingir a linha de frente, a barreira já havia sido quebrada por Belona. A deusa estava no centro, brandindo sua espada partindo o inimigo ao meio, decapitando membros e sorrindo enquanto seus olhos fervilhavam. O primeiro inimigo surgiu a minha frente, um ser com corpo humano, armadura simples negra... Mas sem um rosto. Aquilo era, simplesmente, sinistro! Porém, não tive tempo de sentir qualquer repulsa ou medo, o inimigo se aproximou rapidamente, a arma erguida pronta para o ataque. O golpe direto veio na horizontal, um corte óbvio que me fez pular para trás e, antes mesmo que ele se posicionasse mais uma vez, avancei com a lâmina erguida em posição de perfuração. Não houve hesitação ou segundos pensamentos, apenas procurei uma maneira rápida de acabar aquilo. O movimento foi reto, firme, permitindo que a arma perfurasse a garganta até transpassar para o outro lado. Segurando a empunhadura com mais força, puxei a espada para o lado, rasgando o pescoço, mutilando a carne até que a minha arma estivesse livre. O homem sem rosto caiu no chão em um baque, mas eu não parei para observar isso, já avançava em direção ao meu próximo inimigo.

Meus passos eram determinados, mesmo que minhas botas afundassem no terreno de terra molhada. Eu havia focalizado um monstro humanoide, de rosto bisonho e animalesco, mas que tinha dois pares de braços e pernas grossas, a pele esverdeada grossa como a de um ogro. O par de mãos de cima portavam uma espécie de porrete de madeira com espinhos, enquanto o par de baixo segurava firmemente espadas curtas. Eu não pensei sobre aquele adversário ser mais forte e não saber exatamente nada, a fúria estava ali sendo bombardeada por toda a minha corrente sanguínea. Cegamente, eu avancei.

O monstro de quatro braços amparou o meu ataque óbvio com sua espada. Ao sentir o choque, meu corpo habilmente recuou dois passos e curvou o tronco para frente em um ângulo quase de noventa graus. Assim, o porrete passou por cima, uma esquiva perfeita... Mas que deu a chance perfeita para que o outro porrete atingisse minhas costas, derrubando meu corpo com força na terra que já havia virado lama escura. O monstro não perdeu tempo e chutou na altura de minha cintura, arremessando meu corpo quase dois metros de distância. O ar havia escapado quase que completamente, não fazendo com que o oxigênio necessário circulasse por meus músculos e cérebro. Cambaleante, eu sabia que deveria reclamar de minha estupidez inicial depois, por hora, não me ofereceria de bandeja permanecendo caída. Ergui meu corpo apoiando um joelho no chão e, ao usar da mão no chão eu senti o que seria a minha salvação.

A besta de quatro braços urrou em minha direção. Um som que causaria pânico em qualquer semideus novato. Era o anúncio de seu ataque, pois logo ele estava correndo, cada passo dado provocando um tremor no chão ao seu redor. Meus dedos se fecharam no chão, agarrando o item com mais força do que o necessário. Seria um movimento extremamente arriscado, se não fosse bem sucedido o golpe daquela besta poderia ser fatal. Meu olhar tornou-se frio, o coração batendo poderosamente contra minhas costelas machucadas. Outro urro de guerra, o erguer de todos os quatro braços, uma abertura de poucos segundos. O meu próprio grito foi liberado, aquela era a minha chance! Usando do pé apoiado no chão, impulsionei meu corpo para frente ao mesmo tempo em quer erguia a lança que algum guerreiro havia deixado cair, ficando parcialmente coberta pela lama. O golpe de estocar foi feito com toda a minha força, jogando meu braço para frente em que lançava a arma de ponta laminada.

A lança transpassou o peito do ogro de quatro braços, mas assim que ele começou a cair para o lado a madeira havia se partido. Arfando e ainda sentindo a adrenalina corroer minhas veias em igual compasso que o sentimento raivoso. Tragando o ar pela boca, cambaleei até a minha espada até acha-la a poucos metros. Isso me permitiu vislumbrar o que realmente acontecia ao meu redor. Romanos eram devorados, partidos ao meio pela força bruta dos monstros. O som ensandecido de lâminas colidindo orquestrava um musical de pura violência. A minha raiva aumentou ao notar que os legionários estavam morrendo. A fúria me impelia a atacar cegamente, a ser vingativa e sanguinária. Mas finalmente eu havia entendido o que meu outro eu havia dito.

“Transforme esse sentimento destrutivo em sua força, controle-o”

Um romano estava sendo acuado por um dos homens sem rosto. Ele defendia com o escudo e a cada impacto seus pés deslizavam pelo chão tamanho era a força do impacto. Girei minha espada e corri em sua direção.

-Trocar! – gritei assim que ele defendeu o golpe.

Aquele era um ataque avançado para duplas, mas que se mostrava extremamente efetivo. Uma das duplas defendia o golpe e fazia uma abertura, o segundo atacava o inimigo que estava de flanco aberto, sem ter tempo de armar uma nova defesa. O romano felizmente havia me escutado e parecia saber essa estratégia, pois mesmo escorregando como efeito do impacto do machado de guerra em seu escudo, ele jogou todo o peso para o lado caindo na lama. Mas forçando que o braço do inimigo sem rosto seguisse sua trajetória. Eu saltei na direção do inimigo, minha mão agarrando o ombro enquanto minha espada era cravada no ponto de conjuntura do ombro com o pescoço, a parte vulnerável de sua armadura. A lâmina entrou quase completamente, o impulso de meu pulo fez com que o corpo do inimigo caísse para trás, obrigando-me a rolar para frente. Rapidamente estava de pé, recuperando a minha espada que, agora, tinha sangue mesclado a lama.

O legionário bateu com o punho no escudo, um sinal de reconhecimento. Um breve sorriso surgiu em meus lábios, pois logo depois estávamos lutando lado a lado. Eu podia batalhar com todo o ímpeto furioso que agora dominava meu espírito, mas o combate não precisava ser necessariamente cego e descontrolado! Era usar aquela força, aquela vontade inabalável, mesmo que meu corpo fosse machucado, mesmo que eu estivesse caindo quase tanto quanto estava batendo.

No entanto, eu não estava sozinha.

Ataques em duplas. Resgates feitos de última hora. Estratégias improvisadas. Esse era o enredo sem fim que compunha aquele cenário de guerra. Eu não era um protagonista, a legião era! Mas houve um momento em que tudo se intensificou.

Estava enfrentando um lestrigão. Ele acabava de esmagar a cabeça de um romano que tentou me defender enquanto eu estava caída no chão. O homem enorme riu, olhando-me como sua próxima vítima. Eu tentei me levantar, mas o meu pé perdeu o atrito e escorregou, fazendo-me cair de costas. Estava para começar a me arrastar, fazer qualquer coisa para poder simplesmente sobreviver... Quando o lestrigão parou e franziu o cenho, como se estivesse confuso com alguma coisa. Assustadoramente, mesmo para um momento de guerra, a cabeça dele rolou para o lado. Quando o corpo inerte caiu para frente eu podia ver uma jovem deusa da guerra com um sorriso enorme, mesmo que seu rosto tivesse respingos de sangue e marcas de lama. Sua enorme espada estava apoiada em seu ombro como se fosse um graveto.

-Você – ela disse em um tom de ordem e animação – Lutará ao meu lado! – Belona mal havia terminado o anúncio quando o chão tremeu completamente. Era um ciclope correndo na direção dela, provavelmente atraído por sua energia divina – Olha só um grande bobalhão! Como está a sua habilidade de aterrissagem?

Belona embainhou a espada em suas costas, seus movimentos precisos pareciam-me lentos para um momento como aquele. Um ciclope logo nos atingiria com toda a sua potência, mesmo que eles não fossem providos de inteligência, eles tinham uma força estupenda. A deusa moveu o braço, seu bracelete dourado no pulso esquerdo desdobrou-se formando um belo escudo circular, de metal dourado que reluzia mesmo o dia estando nublado e coberto pela penumbra da morte.

-Quando eu mandar você pula usando o escudo como apoio – Belona orientou com um sorriso perverso, ela estava de costas para o inimigo, como iria saber o momento certo?! – AGORA!

Eu o fiz sem pensar. Corri com tudo o que tinha e, quando finalmente percebi o que estava fazendo, meus pés já saltavam sobre o metal dourado. O impulso que ela deu para cima foi poderoso, lançando meu corpo no ar como se fosse um tiro de canhão. O grito que escapava de minha boca era um mesclar de temor e pura adrenalina. Tudo ao meu redor acontecia de maneira rápida e incrivelmente lenta. Eu podia ver a batalha do alto, monstros e homens em armaduras negras sendo encurralados por legionários. Podia ver o mar de violência que acontecia em terra e era uma visão deslumbrante e assustadora. Quando estive próxima do ciclope, segurei a minha espada com ambas as mãos a erguendo sobre minha cabeça com a lâmina apontando apara baixo. O grito desesperado tornou-se mais firme, um grito guerreiro que mal poderia ser escutado. Belona havia calculado correto. Pois o ciclope havia me escutado e erguido o rosto em reflexo. Minha espada encontrou o único olho que o monstro possuía, depois meu corpo colidiu contra aquele nariz enorme e amassado. Ele gritou, se debateu, e como qualquer ser com o mínimo de pensamento ao ser picado por um inseto... Ele bateu com a mão no local “picado”.

O impacto fora de tamanha proporção que o ar foi expelido de meus lábios sem permissão. Todas as juntas de meus ossos pareciam rachar e a sensação era de que as costelas que não haviam sido quebradas partiram ao meio. A força esvaiu rapidamente, minhas mãos não sustentaram o meu corpo e soltaram a empunhadura da espada. Eu comecei a cair em queda livre, de maneira desgovernada, sentindo o vento produzir um zumbido irritante em meu ouvido. O ciclope girou em círculos chorando, logo seria derrubado pelos outros legionários. Durante minha queda eu tinha a visão do céu fechado, coberto por nuvens pesadas e que poderia ser um prelúdio de uma tempestade. Ao redor dessa visão, meu cabelo castanho esvoaçava produzindo um efeito. Eu morreria assim? Caindo no chão depois de ter apenas cegado um ciclope?

Eu sentia que colidiria o meu corpo a qualquer momento. Fechei os olhos com força... E senti meu corpo ser amparado sutilmente em comparação ao impacto que estava esperando. Abri um olho desconfiada e encontrei Belona quase rindo de minha cara. Pulei de seu colo no susto, caindo de mal jeito no chão e, de igual maneira estabanada, fiquei de pé a sua frente.

-To bem! To bem! – exclamava mais para mim mesma, ainda me movendo de maneria estranha por sentir que ainda caía.

-Ótimo, já está pronta para o próximo? Ainda temos inimigos de pé! – Belona jogou minha espada em minha direção – Alias, belo salto.

Ao pegar minha espada, eu sentia ainda meus músculos doendo e as costelas reclamando, implorando para que eu parasse. Mas meu espírito fervia e mantinha-se intacto. Belona sorriu daquele jeito maníaco, um sorriso que indicava que a batalha ainda seria intensa. O problema real nisso tudo era que eu estava sorrindo em igual modo antes de segui-la para o próximo inimigo.

♣♣♣

Horas poderiam ter passado depois daquilo. Assim como minutos. Quem sabe foi um dia inteiro apenas batalhando? Combatendo monstros que eu nunca havia visto na vida. Fazendo coisas absurdas e perigosas ao lado de minha, supostamente, avó.

Mas no fim, quando tudo realmente acabou, estávamos nós duas no topo de um pequeno morro. Belona estava fincando a bandeira SPQR no solo, declarando a vitória e a conquista. A bandeira não reluzia no horizonte ou emitia uma aura diferente. Mas a sensação, o símbolo, o momento? Provocava um sentimento inenarrável e incomparável, talvez até mesmo incompreensível.

Belona tornou o corpo em minha direção. Seu olhar sério, a postura cansada e, ainda assim, majestosa. Seu cabelo estava sujo de lama, seu rosto banhado em sangue. Seus olhos ainda brilhavam daquele jeito furioso e intenso. Eu não sabia o que pensar enquanto me sentia refém de sua presença onipotente. Mas a deusa da guerra ofereceu seu braço em cumprimento. Um ato, um simples atoe m comparação a tudo o que fizemos nas últimas horas. Era um reconhecimento e eu, ainda banhada pela emoção de ter a bandeira da conquista ao meu lado, não sabia explicar aquele reboliço em meu estômago e o regozijo do espírito. Breves segundos se passaram até conseguir me mover, minha mão se fechando no antebraço da deusa enquanto as dela, quentes e não tão gentis, envolvia o meu. Meu corpo estremeceu e isso foi doloroso, mas quem ligava? Eu sabia que tinha costelas quebradas, dificuldade para respirar e um corte muito feio no meu rosto que fez meu próprio sangue manchar quase toda a lateral de minha face. Meu tornozelo estava fervendo em agonia, as juntas de meus joelhos quase vacilavam para me manter simplesmente em pé. Eu estava destroçada e, ainda assim, o orgulho me mantinha de pé.

E o motivo disso tudo veio depois. Com um grito de uma multidão. Urros ecoavam em sincronia, uma sequência de “AAAH UUUH” característicos de uma legião envolvidas no mesmo sentimento. Desviei meu olhar para os legionários abaixo do morro, eles erguiam suas armas em uma sincronia fodidamente linda. Suas vozes ecoavam em uma só, o grito de guerra e o cumprimento a vitória. Ao lado deles jaziam os inimigos, um mar de corpos de homens sem face sujos de poeira dourada dos monstros. Infelizmente, alguns romanos repousavam ali, caídos em batalha que eu nunca esqueceria.

-Hora de retornar Farrier – Belona anunciou.

-Como? – indaguei de maneira fraca.

-Você só tem de apagar novamente.

Eu estava para questioná-la mais uma vez, mas a resposta veio de encontro ao meu rosto. Literalmente! A deusa romana desferiu um golpe certeiro, um nocaute que apagou todos os meus sentidos antes mesmo que a dor se tornasse completa.


Epílogo


-Ela me deu um soco, Serena! Depois de tudo!

A revolta não era contida ou escondida em meu tom. Eu havia acordado no susto, repousando ainda ao lado de Serena. Dois dias inteiros haviam se passado desde que havia entrado naquele transe. Minha mente extremamente cansada me fez dormir por mais três dias seguidos, me fazendo despertar com uma fome milenar. Serena ouvia-me sem conter o risinho divertido ao me ver reclamar do comportamento de uma deusa da guerra.

-Você já está pronta para ir – Serena observou depois de guardar o meu prato.

-Estou? – a confusão era sincera – Eu não sinto nada de muito diferente.

-Sentirá quando for necessário e... Ainda há a possibilidade de que não conquistar totalmente a possibilidade. Belona pode apenas ter permitido que retornaste ao teu mundo. Geralmente os deuses da guerra não são tão claros quanto os outros.

Passei a mão em meu rosto em pura descrença, puxando os músculos faciais para baixo em uma careta frustrada. Deuses, eu poderia ficar um tanto quanto chateada, mas, no fundo, havia adorado toda a experiência.

-De qualquer forma, eu duvido que retorne a mesma Evie Ferrier – respirei fundo e passei a mão no cabelo, jogando os fios castanhos para trás – Acho que é verdade quando dizem que a guerra muda as pessoas.

-Certamente que toda experiência pode ofertar um aprendizado – Serena concordou – Mas seu tempo aqui realmente está no fim, semideusa.

Soltei um longo suspiro e levantei da cadeira onde estava. Mais uma vez, Serena me guiava seguindo passos um pouco a frente. Saímos do Lar das Possibilidades apenas para paramos no mesmo ponto em que eu havia chegado. Serena sussurrou algumas palavras estranhas e a porta dimensional se formava com a mesma elegância mágica, em um jogo de luzes espetacular.

-O que acontecerá com você? – perguntei a encarando com certa curiosidade e temor.

-Eu fui criada unicamente para servir ao Lar das Possibilidades, assim que o portal se fecha eu adormeço até chegar o momento de ajudar ao próximo aventureiro.

-Isso não te incomoda?

-Por que incomodaria?

-Ficar sozinha apenas dormindo...

-Não – ela sorriu calmamente – O Lar das Possibilidades também atende aos meus pedidos e, quando não há nenhum aventureiro, posso escolher para onde ir enquanto os astros estão alinhados.

Acenei em um gesto de compreensão e, subitamente, abracei a criatura de características verdes. O contato foi breve, mas o suficiente para fazê-la me encarar entre surpresa e chocada.

-Obrigada por tudo! Você é muito singular sabia?

Pisquei divertida, abri a porta e, como havia feito da primeira vez, simplesmente me joguei através do portal. A sensação não havia melhorado nem um pouco, assim, estava completamente zonza e enjoada quando retornei ao rio do Acampamento Júpiter. Apoiei-me em uma das árvores enquanto o mundo decidia parar de girar feito louco. Ao recobrar a noção das coisas ao meu redor, encarei minhas mãos. Uma parte de mim ainda cogitava que aquilo tudo poderia ser uma simples fantasia. Quem sabe o ritual havia apenas me dopado e feito imaginar aquilo tudo? A criatividade de Albert era contagiante e talvez meu subconsciente havia me levado a lugares que eu não imaginava.

No fim, não conseguiria as respostas naquele momento. Apesar da sensação de satisfação, eu ainda estava cansada e com uma dor de cabeça. Recolhi o espelho de Pandora, coberto pelas folhas que haviam caído nos dias que se passaram. Lembraria de agradecê-la com o dobro de pizzas.

Era hora de voltar para a minha realidade, seja ela como fosse agora.



Fim da Parte 2


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Re: CCFY ~ Awakening

Mensagem por Zeus em Dom Mar 26, 2017 2:26 pm


Avaliação e recompensas
Realidade de postagem + Ações realizadas –  1.000
Escrita: Gramatica, erros, pontuação, coerência, concordância e etc –  1.000
Criatividade/Estratégia em combate + inteligência  –  1.000
TOTAL: 3.000 x 5 = 15.000 +  10.000 Dracmas

Benção
Legado Completo – A jovem foi abençoada por sua avó, Belona, e agora é considerada um legado completo, podendo usufruir de todos os poderes ligados a deusa da guerra. Contudo, tal benção a impede de ligar diretamente a um deus, pois seu laço está relacionado diretamente a Belona, e sua lealdade também passa a ser desta. Outro ponto criterioso seria que seu sangue incompleto a impede de ganhar os poderes extras herdados por seus filhos, ou seja, Evie é incapaz de manipular dons únicos e especiais, diferente dos filhos de Belona, que poderão herda-los.

+ Exórdio [A princípio apresenta-se como um anel negro repleto de runas antigas de aparência simples, e material resistente, até mesmo raro. Ao ser ativado no entanto, transforma-se em um cajado negro com um brilho de poder único, cuja a aura brilha em um tom de azul cintilante no local em que as runas de poder, força, sabedoria, e conhecimento estão entalhadas. Mais ao centro do cajado o nome de seu portador foi gravado. O cajado tem cerca de 1 metro e meio, e em sua ponta uma esfera arredondada dá a ele a aparência de ser uma arma nobre | O cajado possui duas propriedades distintas, sendo a primeira a redução do gasto de MP em 50% em todos os feitiços executados por seu portador. A segunda, no entanto, é que apresenta perigo. O cajado consegue abrir fendas em qualquer espaço tempo da terra, criando passagens e portais que permitem ao seu portador viajar entre os mundos, ou esse mundo. Essas passagens consomem energia de seu conjurador (HP), sendo possível extrair até 50% do HP  total de seu portador a depender do local para onde ele deseja ir, ou seja, quanto mais longe, mais distante, ou mais perigoso, maior a quantidade de energia gasta pelo conjurador do portal | Arambarium, Adamantino, e madeira | Espaço suficiente para uma gema simples | Status 100%, a arma não apresenta nenhum dano | Lendária |Alfa Prime | Nível 10, consome energia física do seu portador (HP), caso seja usado em excesso |  Ganho no Evento: A mente liberta]

Observação: Comentário geral, caso deseje, poderá solicitar via MP.


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Re: CCFY ~ Awakening

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